Canções da alma – 50ª Mensagem

Oração

“Deus Eterno e Santo, em todos os tesouros da sabedoria estão ocultos e nos são revelados pelo Teu Filho Jesus na iluminação do Espírito Santo. Nosso coração precisa da Tua luz. Nossa alma necessita do fulgor da Tua graça mediante Tua Palavra. Desvenda nossos olhos, abra os nossos ouvidos e nos faça diligentes em obedecê-Lo. Para a glória do Teu santo Nome, assim oramos em Nome de Jesus Cristo, amém!”.

Canções da Alma
Uma Exposição do Livro dos Salmos
Os Perigos das Riquezas Materiais
SI 49

 

Introdução

Diariamente, em todo mundo, pessoas gastam muito dinheiro com jogos de azar na expectativa de ficarem ricas. Vendendo a ilusão da riqueza fácil, outros fizeram fortuna. Até mesmo religiões e igrejas construíram impérios à custa da ilusão das pessoas vendendo-lhes a Graça que é de graça. Todos nós conhecemos pessoas que saíram do interior e buscaram uma oportunidade na cidade grande para “ganharem a vida”. Muitos não conseguiram; alguns poucos alcançaram riquezas. Por desejarem o conforto que o dinheiro pode oferecer, crianças são deixadas em creches para que seus pais possam trabalhar e ter mais do que o necessário, e assim, o supérfluo dita o ritmo de vida de muitos. O brilho do ouro mexe com a cobiça das pessoas, pois, com ele o poder, o status, a notoriedade vêm junto.

Contextualização

Este salmo, diferentemente, de outros, é um sermão e não uma oração[1]. Ele é o que se chama de “literatura sapiencial”, o seu autor fala de uma “parábola” e de um “enigma” (v.4), ou seja, um discurso sapiencial no qual ele fazendo comparações nos chama a atenção para questões importantes sobre as riquezas materiais tão desejadas pelas pessoas, inclusive por muitos crentes. De fato, “E bom ter as coisas que o dinheiro pode comprar, desde que não se percam as coisas que o dinheiro não compra, Como é triste quando as pessoas começam a confundir preços com valores”[2].

A Escritura nos adverte: “se as vossas riquezas prosperam, não ponhais nelas o coração”(Sl 62.10), e ainda em 1Tm 6.9-10 lemos: “9 Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. 10 Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores”. O amor ao dinheiro afeta não só quem é rico; afeta também quem é pobre!

Há perigos reais para um coração que se deixa levar pelo brilho do vil metal. Proponho para nossa exposição bíblica nesta ocasião o seguinte tema: Os Perigos deis Riquezas Materiais.

1 Povos todos, escutai isto; dai ouvidos, moradores todos da terra,

2 tanto plebeus como os de fina estirpe, todos juntamente, ricos e pobres.

3 Os meus lábios falarão sabedoria, e o meu coração terá pensamentos judiciosos.

4 Inclinarei os ouvidos a uma parábola, decifrarei o meu enigma ao som da harpa.

Os quatro versos iniciais são uma convocação aos “Povos todos (…) aos moradores todos da

terra” (v.1). Além de ser uma mensagem universal que diz respeito a todos os seres humanos, também é um chamado à submissão à Soberania de Deus diante de quem todos os seres humanos têm de comparecer,
não importando a classe social e econômica de cada um (v.2).

Transmitindo o conhecimento que recebera do próprio SENHOR Deus, o salmista abre sinceramente o seu coração e fala do que a sua alma tem meditado (v.3). Ao dizer “Inclinarei os ouvidos” (v.4) ele está afirmando que colocaria toda a sua atenção nessas questões relacionadas à vida e às riquezas materiais.

Aplicação v.1-4 Ninguém escapará de estar na presença de Deus prestando contas. Devemos nos preparar para a qualquer momento estarmos diante de Deus a qualquer momento. Por isso mesmo devemos inclinar nosso coração às coisas eternas.

Ele apresenta o “enigma”:

5 Por que hei de eu temer nos dias da tribulação, quando me salteia a iniquidade dos que me perseguem,

6 dos que confiam nos seus bens e na sua muita riqueza se gloriam?

Ser rico não é pecado. Mas, a riqueza só é justificável se for uma serva e não uma senhora, ou seja, se ela for empregada a socorrer os necessitados e como meio de honra a Deus (cf. lTm 6.17-19).

Aplicação v.5-6 Qual deve ser nossa atitude como crentes em Cristo Jesus num mundo em que os ricos ficam cada vez mais ricos? Devemos temê-los porque eles têm recursos com os quais eles poderão tirar o pouco que temos? Devemos nos impressionar com as riquezas deles e imitá-los em sua atitude de confiança nas suas riquezas? De modo algum. “Qualquer vanglorioso poder que porventura possuam é passageiro e evanescente”3. Imitá-los ou mesmo teme-los seria loucura!

Diante dessas questões, o salmista apresenta três perigos reais que as riquezas materiais trazem consigo:

1) Elas não livram as pessoas da morte, v.7-10

7 Ao irmão, verdadeiramente, ninguém o pode remir, nem pagar por ele a Deus o seu resgate

8 (Pois a redenção da alma deles é caríssima, e cessará a tentativa para sempre.),

9 para que continue a viver perpetuamente e não veja a cova;

10 porquanto vê-se morrerem os sábios e perecerem tanto o estulto como o inepto, os quais deixam a outros as suas riquezas.

Nestes versos, o salmista toca em duas verdades importantes: (1) o valor de uma vida e, (2) a inutilidade do dinheiro quando enfrentarmos o último inimigo, a morte.

Se um israelita fosse pobre e estivesse endividado, um parente dele poderia resgatá-lo pagando sua dívida (cf. Lv 25.23ss). Mas, quando Deus vem acertar contas com o pecador por meio da morte, ninguém há que possa resgatá-lo, a não ser o próprio Deus (cf. 15).

A vida humana está totalmente à mercê de Deus, e ninguém, por mais recursos que tenha pode acrescentar sequer um minuto de vida à sua existência, conforme nos diz o próprio Senhor Jesus: “Qual de vós, por mais ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso de sua vida?” (Mt 6.27). Somente Aquele que nos ama de verdade a ponto de entregar o Seu Filho por nós (cf. Rm 5.8), sabe qual o valor da nossa alma. O resgate de uma vida é muitíssimo caro e impossível de ser pago nem que para isso todo o dinheiro do mundo seja empregado (cf. Mt 16.26). E justamente isso que o v.8 está nos dizendo, e o v.9 complementa mostrando que nem todo o dinheiro desse mundo pode fazer alguém escapar da morte.

A morte vem para todos. Ela não pede licença para entrar na casa dos sábios e filósofos, da
mesma forma que ela invade a casa dos estúpidos e ignorantes; os ricos que passaram a sua vida cultuando suas riquezas não Levarão consigo uma só moeda, e pior ainda, quando a morte chegar nem todo o seu dinheiro será capaz de lhe comprar um pouco mais de tempo; tal como o pobre, morrerá o rico (cf. v. 10).

Aplicação ; De tempos em tempos vemos a Ciência vendendo a ilusão da vida eterna. São as técnicas
mais estapafúrdias prometendo vida às pessoas. As indústrias dos cosméticos e da farmacêutica lucram
fortunas com a promessa de rejuvenescimento ou de atrasar o envelhecimento. Os que têm riquezas gastam-
nas nessas ilusões. Aos filhos de Deus, a promessa da Vida Eterna, além de ser real é também de graça!
Outro perigo que as riquezas materiais trazem consigo, é:

2) Elas despertam a soberba das pessoas, v. 11-15

11 O seu pensamento íntimo é que as suas casas serão perpétuas e, as suas moradas, para todas as gerações; chegam a dar seu próprio nome às suas terras.

12 Todavia, o homem não permanece em sua ostentação; é, antes, como os animais, que perecem.

13 Tal proceder é estultícia deles; assim mesmo os seus seguidores aplaudem o que eles dizem.

14 Como ovelhas são postos na sepultura; a morte é o seu pastor; eles descem diretamente para a cova, onde a sua formosura se consome; a sepultura é o lugar em que habitam.

15 Mas Deus remirá a minha alma do poder da morte, pois ele me tomará para si.

Justamente por terem seus corações iludidos pelas riquezas com uma falsa esperança de vida eterna, aqueles que depositam sua confiança nas riquezas acalentam em seus corações pensamentos de perpetuarem-se neste mundo, chegando ao ridículo de colocarem seus nomes em suas propriedades para que assim sejam lembrados quando partirem (cf. v. 11). Seus nomes entalhados em pedras ou em placas de metal durarão mais que eles próprios (cf. v. 12).

Tal procedimento é estultícia, burrice, loucura (v. 13), pois, quando novos proprietários adquirirem suas propriedades simplesmente mudarão os nomes das mesmas, e esses ensoberbecidos por suas riquezas, como animais serão esquecidos em suas sepulturas abraçados pela morte (v. 14).

Devemos lembrar as palavras do Senhor Jesus sobre a dificuldade que é para os ricos (e a todos os que amam as riquezas, e estes podem ser até mesmo os pobres) entrarem no Reino dos céus (Mt 19.23-30).

Mas, o pior efeito da soberba no coração das pessoas é não verem a misericordiosa graça de Deus em remir do poder da morte a alma daqueles que Nele confiam (cf.v.15). Este versículo vem nos falar da ressurreição final. Warren Wiersbe afirma[4]:

“Não podemos resgatar algo que está prestes a morrer (v.7,8), mas o Senhor já nos resgatou do pecado e do poder da morte (v. 15; ICo 15.20ss). Quando morrermos, Deus nos receberá junto a si de braços abertos (SI 73.24; 2Co 5.1-8), e quando Jesus voltar, ressuscitará os corpos de suas sepulturas”.

Aplicação -14; As riquezas materiais ensoberbecem nosso coração que já é soberbo por natureza. Os ímpios se iludem tentando perpetuar seus nomes nessa terra, mas, os servos de Deus consolam-se com a esperança da vida eterna. Mais valioso do que qualquer riqueza neste mundo é a Glória Eterna para a qual serão ressuscitados os crentes que passarem pela morte e os que forem glorificados estando vivos no Dia do Senhor Jesus (cf. lPe 5.4). Não seremos como ovelhas sem pastor, mas, sim, seremos recolhidos no aprisco celestial pelo Supremo Pastor das nossas almas (cf. lPe 2.25).

Por fim, outro perigo das riquezas materiais é que

3) Elas nos fazem perder tempo, v. 16-20

16 Não temas, quando alguém se enriquecer, quando avultar a glória de sua casa;

17 pois, em morrendo, nada levará consigo, a sua glória não o acompanhará.

18 Ainda que durante a vida ele se tenha lisonjeado, e ainda que o louvem quando faz o bem a
si mesmo,

19 irá ter com a geração de seus pais, os quais já não verão a luz.

20 O homem, revestido de honrarias, mas sem entendimento, é, antes, como os animais, que
perecem.

Você gosta de perder tempo? Você se sente bem ao olhar para trás e ver que poderia ter feito muito mais e melhor, mas, não o fez porque não soube usar bem seu tempo? Estes versos descrevem justamente isso.

Todos quantos vivem em busca de riquezas adotam como lema o provérbio popular “tempo é dinheiro”. Por essa razão essas pessoas odeiam perder seu tempo com coisas que elas consideram banais, porque poderiam estar ganhando mais dinheiro enquanto isso. Mas, quando essas pessoas se deparam com a morte constatam a dura realidade de que passaram suas vidas correndo atrás do vento.

O v. 16 transmite a ideia de alguém que vê um rico poderoso comprando tudo ao seu redor para construir seu império, e, neste seu intento megalomaníaco ameaça a todos ao seu redor. Ainda que tal pessoa seja uma ameaça, não deve ser temida, pois, ela morrerá como qualquer outra pessoa, e assim, não levará absolutamente nada consigo (v. 17). Os faraós do Egito construíram imensas pirâmides que nada mais eram do que grandes túmulos. Lá seus corpos foram colocados com todas as suas riquezas as quais foram levadas pelos saqueadores de tumbas, ou para museus. E todos quantos levaram suas riquezas também não levaram nada consigo mesmos quando morreram.

O v.18 fala de outra coisa que os homens buscam: a fama e o reconhecimento. Alguém pode durante a vida receber aplausos, ser reconhecido pelos seus feitos porque os buscou com todas as suas forças e conseguiu. Mas, de que adiantará a fama na hora da morte? Poderá ela livrar alguém da morte? Não. Antes, “irá ter com a geração de seus pais, os quais já não verão a luz” (v. 19). E por mais que tenha se “revestido de honrarias, mas, sem entendimento” (v.20), ou seja, sem compreender todas essas verdades, seu fim será como o de um animal, ou seja, lançado numa cova.

Aplicação v.16-20 Não espere a vida passar para que você entenda que perdeu seu tempo. Viva buscando as
riquezas da Glória Eterna e não as riquezas deste mundo que podem ser destruídas, roubadas e desvalorizadas. Não busque os louvores dos bomens, pois, estes no mesmo tempo em que honrarem você poderão desprezá-lo também. Tão efêmero quanto as riquezas é o louvor dos homens. Nada levaremos conosco, porque nada é nosso. Somos mordomos de Deus, e, como tais, haveremos de prestar contas a Ele de tudo o que fizemos com a nossa vida. “Não dá para levarmos riquezas conosco, mas dá para enviá-las antes de nós. A isso a Bíblia chama de galardão”.

Conclusão

Este salmo foi escrito para que tivéssemos entendimento com relação às riquezas. Não é pecado ser rico, desde que as riquezas sejam conquistadas e administradas honesta, sábia e fielmente.

Oração

“Ó Pai, faze-nos ver que a nossa riqueza é o Senhor mesmo, e que tudo nesta vida não passa de pó se comparado ao que o Senhor tem nos preparado. Desarraigue o nosso coração das coisas desse mundo e o
arraigue nas coisas da Tua glória. Assim oramos, em Nome de Jesus, amém”.

[1] Cf. HENRY, 2010, vol.3, p.378.

[2] WIERSBE, 2010, voL3, p.180.

[3] CALVINO, 1999, vol.2, p.377.

[4] Wiersbe, 2010, vol.3, p.181.

 

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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