Canções da Alma – 51ª Mensagem

Oração

“De todas as coisas que existem, a Tua Palavra, ó Deus, sobrepuja em perfeição e pureza. Ela nos purifica a alma, transforma as nossas vontades na Tua vontade, nos dá a direção que devemos seguir. Tua Palavra, Ó Deus, é a fonte de vida para o nosso coração, e agora, necessitamos ser saciados nela e dela. Rogamos Teu ensino, em nome de Jesus Cristo, a Palavra encarnada, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Princípios do Culto Divino

Adorando a Deus do Jeito que Ele Quer Ser Adorado

Sl 50

 

Introdução                                                                  

                  De todas as atividades que o ser humano tem, a mais importante é cultuar a Deus. Fomos criados para adorá-Lo e nossa vida só encontra sentido adorando a Deus e rendendo-nos a Ele. De tempos em tempos vemos as pessoas inovando e trazendo para dentro do culto a Deus coisas que Ele nunca mandou trazer. Em busca de um culto contemporâneo, ou como a nova onda do momento com uma abordagem “sensível ao que busca” (do inglês seeker sensitive) que parte do pressuposto que o ser humano está em busca de Deus, mas, não sabe disso, e por isso está buscando algo até que um dia ele se encontrará com Deus e verá que tudo o que ele procurava está em Deus. Embora seja verdade que o vazio que o homem tem em seu coração é resultado de uma vida “sem Deus no mundo” (cf. Ef 2.12), é importante que entendamos que o não convertido não quer Deus, não quer nada de Deus em sua vida, ele é declaradamente um inimigo de Deus (cf. Rm 5.10); mesmo tendo “conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; ante se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato” (Rm 1.21). Além disso, não é o homem que busca a Deus, mas, sim, Deus é quem busca o pecador. Toda a premissa dessa abordagem “sensível ao que busca” é antropocêntrica.

                  Se quisermos cultuar a Deus da forma que O agrade temos que entender o que é que Ele determina para o Seu culto. E não nos iludamos, pois, qualquer forma de culto, quer seja, tradicional ou contemporânea, carregada de tradicionalismo ou de invencionices, se não estiver dentro do que Deus prescreve nas Escrituras não O agradará.

                  Mas é aqui que surge a questão: como é o culto que agrada a Deus? Temos textos claros nas Escrituras que mostram como deve ser o culto? Uma vez que o culto do Antigo Testamento cumpriu o seu papel em Cristo Jesus, e o Novo Testamento pouco ou fala sobre as formas litúrgicas, o que devemos fazer? Por isso proponho como tema da exposição bíblica nesta ocasião o tema: Princípios do Culto Divino – Adorando a Deus do jeito que Ele quer ser adorado.

 

Contextualização

            Possivelmente o contexto deste salmo deve estar relacionado à cerimônia judaica conhecida como a Festa dos Tabernáculos, a qual acontecia a cada sete anos. Nesta festa os sacerdotes deveriam ler a Lei ao povo e explicar-lhe o seu significado (Dt 31.9-18; Ne 8). A ênfase dada aqui à uma vida piedosa deve resultar numa adoração verdadeira. Numa frase poderíamos resumir este salmo assim: a vida do culto depende de uma vida de culto, ou seja, cultuamos de verdade a Deus quando nossa vida o tempo todo reconhece reverentemente a santa presença de Deus. A nossa Confissão de Fé no Cap. XXII no §VI diz:

“Agora, sob o Evangelho, nem a oração, nem qualquer outro ato do culto religioso é restrito a um certo lugar, nem se torna mais aceitável por causa do lugar em que se ofereça ou para o qual se dirija (Jo 4.21); mas Deus deve ser adorado em todo o lugar (Ml 1.1; 1Tm 2.8), em espírito e em verdade (Jo 4.23,24), tanto em família (Dt 6.7; Jó 1.5; At 10.2), diariamente (Mt 6.11; Js 24.15), e em secreto, estando cada um sozinho (Mt 6.6; Ef 6.16), como também, mais solenemente, em assembleias públicas, que não devem ser descuidadas, nem voluntariamente negligenciadas ou desprezadas, sempre que Deus, pela Sua providência, proporcione ocasião (Is 56.7; Hb 10.25; At 2.42; Lc 4.16; At 13.42).

                  Encontramos três princípios do culto divino neste salmo os quais têm de estar presentes em nossa adoração:

1) Consciência da grandeza de Deus, v.1-6

1 Fala o Poderoso, o SENHOR Deus, e chama a terra desde o Levante até ao Poente.

2 Desde Sião, excelência de formosura, resplandece Deus.

3 Vem o nosso Deus e não guarda silêncio; perante ele arde um fogo devorador, ao seu redor esbraveja grande tormenta.

4 Intima os céus lá em cima e a terra, para julgar o seu povo.

5 Congregai os meus santos, os que comigo fizeram aliança por meio de sacrifícios.

6 Os céus anunciam a sua justiça, porque é o próprio Deus que julga.

                   Nestes versos Deus é descrito como o Justo Juiz (v.6) que com equidade e autoridade suprema julga todos os homens.

                   Quão grande é Deus! É incontestável Sua soberania, pois, quando Ele chama todos atendem Sua voz, e não há um só lugar desde o “Levante até ao Poente” do sol, em toda a vastidão da terra que a sua voz não se faça ouvir (v.1). Os três nomes de Deus neste versículo mostram a Sua grandeza: “Poderoso, SENHOR e Deus”, falam de sua grandeza sobre toda a criação e da Sua inigualável e singular glória.

                   “Desde Sião (…) resplandece Deus” (v.2). Deus escolhera Sião para dali fazer o Seu culto ser conhecido e Sua glória ser anunciada a todo o mundo (cf. Sl 48).

                   “Vem o nosso Deus e não guarda silêncio” (v.3). A presença de Deus não passa desapercebida até mesmo do mais arrogante pecador que insiste em negar a existência de Deus. Ele vem e faz questão de ser visto através do Seu juízo aqui representado num “fogo devorador”. A figura do fogo conota especialmente o juízo, o julgamento de Deus. Diante do Seu Trono Santo os pecadores se veem em “grande tormenta”, mas, os que por Ele foram justificados gozam da segurança e paz que o Seu infinito amor lhes dá.

                   Como Justo Juiz de todos, Ele “Intima os céus lá em cima e a terra, para julgar o seu povo” (v.4). O Seu julgamento começa com Seu povo, e lá em 1Pe 4.17 diz: “Porque  a ocasião de começar o juízo pela casa de Deus é chegada; ora, se primeiro vem por nós, qual será o fim daqueles que não obedecem ao evangelho de Deus?”. Os filhos de Deus estão amparados por Sua Aliança aos quais ele ordena “Congregai os meus santos, os que comigo fizeram aliança por meio de sacrifícios” (v.5). Estes não precisam temer o Juízo vindouro, mas, descansarem na certeza do amor de Deus (cf. 1Jo 4.17-18). Mas, os ímpios estarão no mais profundo pavor, pois, se aqui eles escondem dos homens os seus pecados, “Os céus anunciam a sua justiça, porque é o próprio Deus que julga” (v.6), ou seja, dos olhos de Deus ninguém escapa e nem pode ocultar algo; Ele próprio revelará os pensamentos mais íntimos dos corações e julgará todas as ações dos homens.

Aplicação v.1-6 (1) “Temos mais facilidade de pecar quando nos esquecemos da transcendência de Deus”[1]. Quanto mais meditarmos na transcendência e grandeza de Deus, mais, seremos tomados por um senso de reverência e temor diante Dele. (2) Aqueles que temem a Deus hoje, não terão do que ter medo no Dia do Juízo Final; mas, os que vivem hoje zombeteiramente diante Dele serão apanhados por profundo e eterno terror.

                  Outro princípio do divino neste salmo é:

2) Confrontação do pecado, v.7-21


7 Escuta, povo meu, e eu falarei; ó Israel, e eu testemunharei contra ti. Eu sou Deus, o teu Deus.

8 Não te repreendo pelos teus sacrifícios, nem pelos teus holocaustos continuamente perante mim.

9 De tua casa não aceitarei novilhos, nem bodes, dos teus apriscos.

10 Pois são meus todos os animais do bosque e as alimárias aos milhares sobre as montanhas.

11 Conheço todas as aves dos montes, e são meus todos os animais que pululam no campo.

12 Se eu tivesse fome, não to diria, pois o mundo é meu e quanto nele se contém.

13 Acaso, como eu carne de touros? Ou bebo sangue de cabritos?

14 Oferece a Deus sacrifício de ações de graças e cumpre os teus votos para com o Altíssimo;

15 invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás.

16 Mas ao ímpio diz Deus: De que te serve repetires os meus preceitos e teres nos lábios a minha aliança,

17 uma vez que aborreces a disciplina e rejeitas as minhas palavras?

18 Se vês um ladrão, tu te comprazes nele e aos adúlteros te associas.

19 Soltas a boca para o mal, e a tua língua trama enganos.

20 Sentas-te para falar contra teu irmão e difamas o filho de tua mãe.

21 Tens feito estas coisas, e eu me calei; pensavas que eu era teu igual; mas eu te arguirei e porei tudo à tua vista.

                   O Justo Juiz profere Seu julgamento. Ele julga o Seu povo, e, com este trata do pecado de hipocrisia em duas instâncias: hipocrisia em relação a Deus – culto fingido (v.7-15); hipocrisia nos relacionamentos interpessoais – amor fingido (v.16-21). Dessa, forma, o povo estava descumprindo toda a Lei que nos manda amar a Deus acima de todas as coisas com todo o nosso ser, e, ao nosso próximo como a nós mesmos (cf. Mt 22.37-40).

                   As pessoas não gostam de ouvir que são pecadoras. Até mesmo dentro das igrejas este assunto tem sido evitado. Mas, quem declara a nossa pecaminosidade é o próprio Deus.

                   Apontando primeiramente a hipocrisia do povo em relação a Ele (v.7-15), Deus revelou o que estava no coração do povo e mostrou o que está ali. Ele é quem diz: “testemunharei contra ti” (v.7), ou seja, Ele é o Juiz que não precisa do testemunho de outros para formar Seu veredito sobre os fatos e executar a justiça. Quando Ele disse: “Eu sou Deus, o teu Deus” trouxe um peso ainda maior sobre o Seu povo, pois, lembrou-o de que em sua iniquidade o povo em seu coração afastara-se Dele e trouxera para o Seu culto invenções agradáveis a eles, mas, não a Deus. O povo fazia questão de continuar com uma religiosidade formal, porém, vazia e morta; trazia sacrifícios, e muitos sacrifícios a Deus, aos quais Ele não atribuía valor algum (v.8), pela forma hipócrita como estavam sendo oferecidos a Ele. Ele mesmo instituíra os sacrifícios e a forma como os mesmos deveriam ser consagrados, e essa forma era com sinceridade; a oferta trazida tinha de ser um reflexo de uma vida consagrada! Aliás, é importante observar aqui como Deus vê as nossas ofertas. Não damos nada a Deus que já não Lhe pertença. Esta é a mensagem dos v.9-13. Todos os animais do campo, todos os seres, tudo o que existe é de Deus. Logo, quando Lhe ofertamos algo, não estamos dando nada a Ele, mas, simplesmente devolvendo-Lhe tudo o que é Dele por direito.

                   Nos v.14-15 Deus mostra como Ele quer ser adorado. Ele ordena que O adoremos com ações de graças e com fidelidade no cumprimento dos votos que Lhe fizemos. Com isso Deus está nos mostrando que o culto que agrada a Ele é aquele em que reconhecemos que nada somos sem Ele, que tudo o que temos é Dele, e que, portanto, cabe-nos louvá-Lo demonstrando em nossas palavras e ações um desejo sincero de honrá-Lo em todas as coisas.

                   Nos v.16-20 Deus confronta o pecado da hipocrisia nos relacionamentos interpessoais acusando o povo de quebrar pelo menos seis dos Seus mandamentos: o primeiro, o segundo, o terceiro, o sétimo, o oitavo e o nono. Eles traziam em seus lábios a Lei de Deus e a repetiam mecanicamente (v.16), mas em seus corações eles a desprezavam, trocando todos os efeitos e benefícios da Lei por pecados (v.17). Mesmo recitando a Lei de Deus eles eram cúmplices dos ladrões e dos adúlteros e até tinham prazer nestes pecados (v.18), e assim quebraram o sétimo e oitavo mandamentos. Nos v.19-20 Deus condena a maledicência, a calúnia e o perjúrio contra seus irmãos, e nisso eles quebraram o nono mandamento.

                   Mas, no v.21 vemos o povo quebrando os três primeiros mandamentos. Ao ver o silêncio de Deus diante dos seus pecados, o povo interpretou este silêncio como aprovação, ou seja, se Deus não falou e fez nada contra é porque Ele estava feliz com o comportamento do povo, ou pelo menos não estava irritado. Assim, o povo criou no seu imaginário um deus que nada tinha a ver com o SENHOR Deus (quebraram o primeiro e o segundo mandamento). Tomaram o Nome de Deus em vão quando Dele blasfemaram com suas ações pecaminosas (quebraram o terceiro mandamento).

Aplicação v.7-21 (1)Deve chamar-nos a atenção o fato de que até fazendo o que é certo (cultuar a Deus) somos capazes de estragar tudo por causa do nosso pecado. (2) A sua melhor oferta a Deus é agradece-Lo por tudo o que Ele lhe tem feito, bem como cumprir todas as promessas e votos que um dia você fez a Deus. Ele não quer ritualismo e formalismo enquanto o coração não deseja honrá-Lo de fato. (3) Não cultuamos a Deus de verdade se não amamos de verdade os nossos irmãos. (4) O fato de Deus não nos castigar de imediato a cada transgressão nossa, não quer dizer que Ele tenha afrouxado Suas leis, e nem mesmo que o nosso pecado não seja tão grave assim. Grande prova de impiedade é confundirmos a paciência de Deus com afrouxamento de caráter. Quem assim o fizer não passará impune aos olhos de Deus. (5) Não brinque com o pecado. Confronte-o em seu coração.

                   Por fim, o terceiro princípio do culto divino apresentado por este salmo é

3) Conversão sincera, v.22-23

22 Considerai, pois, nisto, vós que vos esqueceis de Deus, para que não vos despedace, sem haver quem vos livre.

23 O que me oferece sacrifício de ações de graças, esse me glorificará; e ao que prepara o seu caminho, dar-lhe-ei que veja a salvação de Deus.

                   Nestes versos finais Deus chama ao arrependimento o Seu povo e lhe concede a oportunidade de se converter a Ele. Mas, esta conversão tem de ser sincera e obediente.

                   Misericordiosamente, Deus chama os pecadores e lhes diz: “Considerai, pois, nisto, vós que vos esqueceis de Deus, para que não vos despedace, sem haver quem vos livre” (v.22). No que Deus queria que eles considerassem? A resposta está no v.23: “O que oferece sacrifício de ações de graças, esse me glorificará; e ao que prepara o seu caminho, dar-lhe-ei que veja a salvação de Deus”.

                   Deus quer que o pecador considere isso, compreenda de vez que o que Ele quer em relação ao culto é que não somente expressemos gratidão por tudo o que Ele tem nos feito, mas, que sejamos gratos de verdade demonstrando isso por meio de um viver obediente à Sua Lei, consagrado totalmente a Ele desejando somente glorifica-Lo em cada momento de nossa vida e não só quando nos reunimos publicamente para cultuá-Lo.

Aplicação v.22-23 (1) Deus é paciente e longânimo. Ele sempre concede ao pecador a oportunidade de arrepender-se dos seus pecados e voltar-se para Ele arrependido e convertido. Mas, Sua paciência tem limite também, e, aqueles que zombam de Sua paciência devem se lembrar que Ele quando executa o Seu juízo vem para despedaçar sem que haja alguém para livrar o pecador de Suas mãos (v.22). Não nos esqueçamos que “Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb.10.31); mas (2) não existe bênção maior do que a conversão sincera. Só pode receber “a salvação de Deus” aqueles que para Ele se voltaram arrependidos clamando por Sua misericórdia. Estes tais rendem a Deus o culto que Ele requer para Si.

 

Conclusão

                   O culto que agrada a Deus é prescrito por Ele próprio. Nossa adoração aqui conquanto Igreja é apenas um resumo do que é a nossa vida diária. Se vivemos em consagração constante, nosso culto aqui a Deus será agradável a Ele; se houver gratidão a Deus o tempo todo em nosso coração por tudo o que Ele tem feito por nós jamais cairemos no pecado de um culto antropocêntrico que visa agradar às pessoas e não a Deus, pois, reconheceremos que tudo é Dele, e que Ele é o único que merece todo o louvor e deve ser agradado. Somente quando mostrarmos que somos convertidos de fato a Deus é que poderemos chama-Lo de nosso Deus. Lembremo-nos sempre: a vida do culto é uma vida de culto. Nosso alvo é glorificar a Deus e não a nós mesmos.

Oração

“Ó Deus, afasta de nós toda concepção errônea de culto. Que o nosso coração tendo a consciência da Tua grandeza afaste-se do pecado, e quando o pecado for encontrado em nós, que o mesmo seja confrontado, confessado e abandonado por nós, para que a glória do SENHOR seja o único alvo de nossas vidas. Em nome de Jesus assim oramos, amém!”.

[1] WIERSBE, 2010, vol.3, p.182.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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