Canções da Alma – 53ª Mensagem

Oração

“Eterno Deus que habita o trono celeste e eterno. Bendito seja o Teu nome por todo o sempre. Neste momento clamamos a Ti que nos dispenses Teu favor dando-nos a compreensão da Tua Palavra. Nossa mente é limitada, nosso coração é confuso, por isso necessitamos do Teu Santo Espírito nos orientando e dirigindo em cada momento. Ajude-nos, assim clamamos em nome de Jesus Teu Filho Amado, amém!”.

 

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

O Juízo de Deus Contra a Perversidade

Sl 52

 

Introdução                                                                  

                  Nestes últimos tempos temos convivido com a tal “delação premiada”, na qual políticos que foram condenados recebem algum benefício tal como a redução de pena se vierem a delatar seus comparsas facilitando assim a ação da Justiça na solução de casos de corrupção. Os delatados sentem-se traídos e os delatores são tidos como traidores.

 

Contextualização

                  No presente salmo encontramos uma circunstância de delação, só que aqui o delatado era inocente mesmo, enquanto que o delator era um homem perverso. O delatado foi Davi, e o delator foi Doegue, o edomita.

                  O contexto deste salmo está relacionado aos textos de 1Sm 21.1-9 e 22.6.23. Davi enquanto fugia do rei Saul que queria mata-lo, buscou refúgio na cidade de Nobe junto ao sacerdote Aimeleque (ou Abimeleque) o qual deu provisão a Davi e a seus soldados com os pães da proposição destinados somente aos sacerdotes, bem como deu-lhe a espada de Golias para usar em sua defesa. Ali estava um homem chamado Doegue, o edomita, descendente de Esaú (Edom) irmão de Jacó. Ele era um dos homens de Saul (o maioral de seus pastores 1Sm 21.7). Ele presenciou tudo isso.

                  Estando Saul em Gibeá, pressionou seus soldados a que lhe dessem alguma informação sobre Davi. Doegue, o edomita, vendo a oportunidade de “fazer uma média” com Saul, delatou Davi dizendo que ele estivera na casa do sacerdote Aimeleque e que este o ajudara dando-lhe provisão e consultando a Deus a favor de Davi (1Sm 22.9-10). O rei Saul mandou chamar o sacerdote Aimeleque e indagou-o sobre tudo o que ele fizera para Davi. Aimeleque confirmou tudo e disse que havia um bom tempo que ele ajudava Davi, pois, via nele um homem de Deus, fiel e sério (1Sm 22.14-15). Enfurecido, Saul ordenou aos seus soldados que matassem a Aimeleque e a todos de sua casa. Nenhum de seus soldados, porém, teve coragem de pôr as mãos nos servos de Deus (v.17). Voltando-se para Doegue, Saul ordenou-lhe que matasse aquelas pessoas, e Doegue o fez. Naquele dia, além dos oitenta e cinco sacerdotes que oficiavam com Aimeleque, também todos os homens, mulheres, meninos, crianças de peito, bois, jumentos e ovelhas da cidade de Nobe foram mortos (v.18-19). Um dos descendentes de Aimeleque chamado Abiatar buscou refúgio junto a Davi o qual assumiu a culpa indireta por aquela chacina (cf. 1Sm 22.22-23). Doegue é assim descrito como um bajulador fofoqueiro que para conquistar algum favor do rei foi capaz de uma atrocidade terrível assassinando pessoas inocentes.

                  Neste contexto encontramos as palavras deste salmo. “A perversidade sempre esteve nos altos escalões, e o povo de Deus deve aprender a lidar com esse fato da maneira condizente com sua devoção”[1], e isso quer dizer que ainda que a perversidade e a corrupção estejam bem presentes no nosso cotidiano, jamais devem fazer parte de nossas vidas e nem mesmo levar-nos a agir de forma contrária à nossa fé.

                  O v.5 deste salmo é o seu ponto central, no qual vemos como Deus julga o perverso. Por isso proponho para nossa meditação o seguinte tema: O juízo de Deus contra a perversidade. E bem nítidas neste salmo temos três verdades sobre o juízo de Deus contra a perversidade.

                  A primeira é:

1) O perverso ignora o juízo de Deus, v.1-4

1 Por que te glorias na maldade, ó homem poderoso? Pois a bondade de Deus dura para sempre.

2 A tua língua urde planos de destruição; é qual navalha afiada, ó praticadora de enganos!

3 Amas o mal antes que o bem; preferes mentir a falar retamente.

4 Amas todas as palavras devoradoras, ó língua fraudulenta!

                   Se há algo que o perverso gosta de fazer é vangloriar-se de suas ações malignas, as quais ele as vê como “esperteza”. Ao que tudo indica, a expressão “ó homem poderoso” referindo-se a Doegue, é usada por Davi com sarcasmo. Doegue em seu cargo de chefe dos pastores de Saul via-se como um homem influente e importante. Sua glória era o seu cargo e ele queria mais. Doegue é o típico caso de gente que quer se promover a qualquer custo, nem que para isso tenha que trair, delatar e até assassinar pessoas inocentes. Não era nem um pouco diferente de Saul que para se manter no poder estava disposto até a assassinar homens consagrados a Deus e pessoas inocentes como os habitantes de Nobe. Tais homens entregues aos seus sórdidos desejos de poder ignoram o fato de que o único poder real e eterno neste universo é o de Deus revelado em Sua bondade eterna. Doegue e Saul eram poderosos aos seus próprios olhos, mas, aos olhos de Deus eram vermes insignificantes.

            Os v.2-4 descrevem o caráter deste homem perverso. A língua e o coração deste homem só espalham morte e destruição. A língua e o coração de um homem estão intimamente ligadas, tal como o Senhor Jesus disse: “porque a boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.45).

Vemos no v.2 que as palavras do homem perverso sempre são pensadas para destruir as pessoas; elas são como uma navalha afiada; e em seu coração ele trama enganos o tempo todo. No v.3 vemos que ele ama o mal em vez do bem, a mentira em vez da verdade. E no v.4, ele ama todas as palavras (ditas por ele ou por outros) que causam destruição e mal. Com o seu coração ele ama tudo o que não presta e com a sua boca ele traz às claras tudo o que está em seu coração.

Aplicação v.1-4 Ai daqueles que vivem como se Deus não lhes estivesse vendo e nem Se importasse com o que eles fazem. Grande loucura é ignorar a bondade de Deus. Pessoas cegadas pelo poder desprezam a Deus também tratam com desdém, vileza e traição os seus semelhantes. Verão as pessoas como “meios” para conseguirem mais poder e influência. Não é difícil percebermos os “Doegues” ao nosso redor. Basta vermos que eles buscam oportunidades para se promoverem e são capazes das mais terríveis vilezas para conseguirem o que querem. Cuidado com aqueles cujo assunto é principal é a vida alheia; um dia você será a vítima dessa pessoa. E cuide-se para que você não seja o “Doegue” de alguém.

                   A segunda verdade é:

2) Deus em Seu juízo não ignora o perverso, v.5

5 Também Deus te destruirá para sempre; há de arrebatar-te e arrancar-te da tua tenda e te extirpará da terra dos viventes.

 

                   Este verso expressa o terrível juízo de Deus contra o perverso. Primeiramente vemos que o perverso sofrerá um castigo eterno como nos mostra a expressão “para sempre”. Doegue, sob as ordens de Saul, extirpou a família de Aimeleque bem como a cidade de Nobe. Se tal feito foi algo terrível de se ver, infinitamente pior será o castigo que perversos (como Doegue) haverão de sofrer da parte de Deus que não deixará passar impune a perversidade.

                   Como uma planta que é puxada e arrancada com força, o perverso tem a promessa de Deus de que será arrancado e extirpado do meio de sua habitação.

                   Enquanto estão bem e amparados por seus meios, os perversos se veem indestrutíveis e inatingíveis. Mas, quando Deus vier acertar contas com eles haverão de ver o horror da Sua ira. Deus virá acertar contas com eles, e isto é tão certo que Davi fez questão de enfatizar o juízo de Deus com expressões que repetem essa verdade: Deus destruirá, arrebatará, arrancará e extirpará o perverso.

Aplicação v.5 Devemos ficar atentos para um pecado que ronda o nosso coração quando vemos o perverso aparentemente “se dando bem” quando executa os seus planos malignos, a saber, o pecado de duvidarmos da justiça e fidelidade de Deus para com Seu povo. O fato de um perverso não estar recebendo nenhuma punição no exato momento em que pratica sua perversidade não quer dizer que nunca a receberá da parte de Deus. Que nunca duvidemos da fidelidade de Deus, e jamais confundamos Sua paciência com inércia e conivência diante da perversidade.

                   A terceira verdade aqui é:

3) O Filhos de Deus exultam no Seu juízo, v.6-9

6 Os justos hão de ver tudo isso, temerão e se rirão dele, dizendo:

7 Eis o homem que não fazia de Deus a sua fortaleza; antes, confiava na abundância dos seus próprios bens e na sua perversidade se fortalecia.

8 Quanto a mim, porém, sou como a oliveira verdejante, na Casa de Deus; confio na misericórdia de Deus para todo o sempre.

9 Dar-te-ei graças para sempre, porque assim o fizeste; na presença dos teus fiéis, esperarei no teu nome, porque é bom.

                   Um dos graves erros que cometemos diante de uma injustiça contra nós é querermos agir com as próprias mãos. É neste momento que pecamos contra Deus tomando a para nós mesmos a prerrogativa da justiça e vingança que somente a Ele pertence (cf. Rm 12.19). O v.6 é claro: nós veremos o que Deus fará. Não precisamos agir, mas, somente, esperar Deus agir. Os justos ao verem tudo isso, temerão a Deus e se rirão desse homem perverso, e dirão: “Aqui está o homem que não confiava e se abrigava em Deus, mas, confiava em suas muitas riquezas e nas suas próprias ações más” (cf. v.7). O perverso cairá na própria cova que fez para outros caírem (cf. Sl 9.15; Pv 26.24-28; 29.6). Enquanto Saul e Doegue mostravam seu poder sobre Aimeleque e os seus assassinando-os friamente, Deus estava preparando-lhes o Seu juízo do qual não escapariam. Não sabemos como Doegue terminou seus dias, mas, certamente foi trágico tanto quanto foi como aconteceu com Saul que da mesma forma covarde que viveu também morreu suicidando-se (1Sm 31.1-7).

                   Ao falar da confiança que o perverso tinha “na abundância dos seus próprios bens e na sua perversidade se fortalecia”, Davi está nos mostrando que qualquer coisa em que alguém confiar em vez de confiar somente em Deus será a causa da sua ruína. Por isso mesmo, ele então declarou: “Quanto a mim, porém, sou como a oliveira verdejante, na Casa de Deus; confio na misericórdia de Deus para todo o sempre” (v.8). Poderia Davi ter visto alguma oliveira plantada próximo do templo de Aimeleque? Se sim, isso explicaria o por quê ele se compara à uma oliveira plantada perto da Casa de Deus. Mas, o que importa aqui é sabermos que fora da presença de Deus somos como arbustos solitários que se definham rapidamente (cf. Jr 17.5-6). Sua confiança estava na “misericórdia de Deus para todo o sempre” justamente o contrário da atitude do perverso que a despreza (v.1). Os perversos são como árvores desarraigadas, e, os justos são como oliveiras frondosas carregadas de frutos porque confiam na misericórdia de Deus.

                   Por esta razão Davi louvava a Deus constantemente e o queria fazer para todo o sempre, e, juntamente com seus irmãos a quem ele chama de “teus fiéis”, ou seja, na congregação do povo de Deus, ele esperaria (confiaria) no Nome de Deus porque é bom. Isto quer dizer que ele esperaria no caráter de Deus que é expresso em Seu grande Nome. Mais uma vez no livro dos Salmos nos deparamos com a verdade de que um filho de Deus sempre tem de estar na presença de outros filhos Dele. Fomos constituídos igreja e família de Deus para vivermos em comunhão uns com os outros.

Aplicação v.6-9 O juízo de Deus é coisa séria. Nada pode ser mais terrível para o pecador; nada deve ser mais esperado pelo servo de Deus. Somente estarão livres do juízo de Deus aqueles que em Deus se abrigarem e Nele confiarem tal como fez Davi.

Conclusão

                   Apesar do mal parecer triunfar, devemos continuar obedecendo e servindo ao Senhor sem desanimar. É o povo de Deus que vai “rir por último”.

Oração

“Eteno e Justo Deus. Não permita que nos desviemos da Tua presença jamais. Não permita que duvidemos de Sua fidelidade e justiça ainda que ao nosso redor os perversos pareçam prosperar sem qualquer consequência ou dano. Que o nosso coração confie em Ti e espere em Ti para que frutifiquemos para Tua glória. Guarde-nos em Teu poder. Assim oramos em Nome de Jesus, amém!”.

  

[1] WIERSBE, 2010, vol.3, p.185.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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