Canções da Alma – 54ª Mensagem

Oração

“Soberano e Eterno Deus, cuja glória transcende a tudo o que podemos imaginar, cuja santidade transforma o mais vil pecador num herdeiro da Tua glória. Diante da Tua Palavra precisamos somente da orientação, iluminação e poder do Teu Santo Espírito para fazer tudo aquilo que o Senhor requer de nós. Por Tua bondade e misericórdia fale ao nosso coração. Necessitamos de Ti. Por Jesus Cristo, Teu Filho amado, amém!”.

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Salmo 53

O Caminho da Insensatez

 

Introdução

                  Nossa geração tem sido fortemente influenciada pela “cultura do descartável”. Compramos um aparelho eletrônico, um celular, ou um carro que em pouco tempo será substituído por outro mais novo, nem tanto porque se tornou obsoleto e ultrapassado, mas, porque nos enjoamos deles e queremos um modelo mais novo.

                  Essa cultura do descartável também se faz ver também na área da Pedagogia e do Ensino. O método mnemônico (memorização) é tido por muitos educadores modernos como “lavagem cerebral”, obstrutor da criatividade por ser repetitivo, e, portanto, deve ser abandonado. Mas, essa “cultura do descartável” que tem dominado o Ensino em nossos dias e que está sempre buscando novidades e desprezando a repetição das coisas estabelecidas, em nada condiz com a Palavra de Deus.

                  As Escrituras usam a repetição em seus ensinamentos, e isso porque, não somente aprendemos por meio da repetição e memorização, mas, também precisamos ser lembrados constantemente do que já aprendemos. E para confirmar isso tomemos como exemplo este salmo. Ele é uma cópia quase que exata em todos os seus termos do Sl 14. Há quase um ano a maioria de vocês ouviu a exposição do Sl 14, e eu lhes pergunto: vocês se lembram de algo daquela pregação? Pois bem, é por isso que de tempos em tempos temos de ser relembrados das verdades das Escrituras.

Contextualização

                  O assunto deste salmo é exatamente o mesmo do Sl 14, a saber, o caráter do ímpio, expresso em suas ações corruptas.

                  As diferenças deste salmo com o Sl 14 são:

  • Os nomes Divinos (no Sl 14 aparece o nome pactual “SENHOR” – יהוה, e no Sl 53 Ele é chamado de “Deus”אֱלֹהִ֑ים ).
  • No Sl 14.1 aparece “abominação”, enquanto que aqui é “iniquidade”.
  • No 3 as palavras finais estão invertidas em relação ao Sl 14.3. Aqui aparece: “não há nem sequer um” enquanto que no Sl 14.3 é “não há nem um sequer”.
  • No 4 também encontramos alguma diferença. Aqui são acrescentadas as palavras “Esses” e “Eles” em referências aos obreiros da iniquidade, enquanto que no Sl 14.4 aparece a palavra “todos” também se referindo aos obreiros da iniquidade.
  • Também no 5 há uma diferença no tempo dos verbos que aqui estão no presente, enquanto que no Sl 14 estão no futuro; há também uma diferença que nos dá uma informação sobre o povo de Deus estar sitiado pelo inimigo. Essa informação é importante para entendermos outra razão pela qual este salmo se repete no Saltério. Enquanto o Sl 14 foi escrito por Davi, o Sl 53 de acordo com alguns exegetas foi revisado e adequado por algum músico ou escriba nos dias do rei Ezequias (uns 230 anos após a morte de Davi), quando Senaqueribe, rei da Assíria sitiou Jerusalém e na noite que antecederia ao ataque à cidade, o Anjo de SENHOR matou a 185 mil soldados assírios (2Rs 18-19)[1]. Este verso no Sl 14 é dividido em dois, e por isso lá encontramos sete versos, e aqui, seis.
  • No 6 (que no Sl 14 é o v.7), o nome “Israel” substitui a expressão “seu povo” lá no Sl 14.7. Da mesma forma acontece com a palavra “livramento” que no Sl 14.7 é “salvação”.

                  Em Rm 3.10-18 Paulo cita parte desse salmo para descrever a corrupção do gênero humano, da qual nem judeus e nem os gentios escapam. A depravação humana é universal. Logo, este salmo apresenta um “Raio X” do coração humano, falando sobre a total depravação em que este caiu, descrevendo os pensamentos, as palavras e as ações dos insensatos que zombam de Deus e se orgulhando de não crerem Nele. Assim, este salmo nos mostra como é O caminho da insensatez. E este será o tema da nossa mensagem.

                   Primeiramente vejamos

1) O seu começo, v.1-3

1 Diz o insensato no seu coração: Não há Deus. Corrompem-se e praticam iniquidade; já não há quem faça o bem.

2 Do céu, olha o Deus para os filhos dos homens, para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus.

3 Todos se extraviaram e juntamente se corromperam; não há quem faça o bem, não há nem sequer um.

                   Davi descreve o homem chamando-o de “insensato”. Várias palavras no idioma hebraico são traduzidas por “insensato”, mas, a que é empregada aqui significa não somente “néscio, louco”, mas, principalmente, “vil, perverso, desprezível”.

                   Nestes três versículos podemos ver que a insensatez do pecador começa dentro dele mesmo; não é algo externo que o obriga a agir de uma determinada maneira, mas, sim é o seu coração, a sua mente e sua decisão é que são depravadas. Forças pecaminosas externas o incitam, mas, ele é o responsável pelo seu pecado.

                   Em seu coração ele diz: “Não há Deus”. O ateísmo é a essência da depravação, é o começo de tudo. Quando o homem se afasta de Deus, ele segue o seu próprio coração. Observe que o ateísmo do insensato primeiramente não é algo filosófico produzido por sua mente, mas, sim, algo moral, do seu coração (vontade). Sua vontade (coração) é inimiga de Deus. O nome dado a Deus aqui é élöhîm que descreve Deus como o Supremo Governante e Juiz da terra. Dessa forma o coração do insensato não aceita o governo de Deus e se rebela contra Ele.

                   Olhando para a terra, Deus busca entre os filhos dos homens “para ver se há quem entenda, se há quem busque a Deus”. A mente do insensato está destituída da iluminação da glória de Deus (Rm 3.23). Uma mente envolta na escuridão do pecado não busca a Deus. O evangelista norte-americano Billy Sunday costumava dizer que os pecadores não conseguem encontrar Deus pelo mesmo motivo que criminosos não conseguem encontrar policiais – simplesmente porque não estão procurando; estão fugindo![2]

            Um coração depravado, uma mente envolta na escuridão produzirão somente decisões corrompidas. No v.3 vemos que “Todos se extraviaram e juntamente se corromperam”. O verbo “extraviar” indica uma ação em que os homens deram as costas para Deus, O desprezaram e ignoraram o propósito para o qual foram criados: glorifica-Lo. E tal ação não foi um ato individual, mas, sim, universal, pois, todos juntos se corromperam, se estregaram como um leite que azeda numa vasilha, não somente parte dele, mas, ele todo se estragou. E isto resultou numa completa inaptidão individual e coletiva de fazer o bem.

Aplicação v.1-3: Não permita que o seu coração se recuse a se submeter a Deus; nem que sua mente se afaste da luz da glória de Deus, para que suas decisões não voltem a ser corrompidas e malignas. Você foi salvo por Deus, recebeu um novo coração (regeneração), uma nova disposição mental (arrependimento), e foi capacitado a decidir por aquilo que glorifica a Deus (santificação).

                   Em segundo lugar vejamos o meio do caminho da insensatez

 

2) O seu percurso, v.4

4 Acaso, não entendem os obreiros da iniquidade? Esses, que devoram o meu povo como quem come pão, que não invocam o SENHOR?

                   Quem são esses “obreiros da iniquidade”? João Calvino afirmou que eram os príncipes do povo, autoridades que deveriam cuidar do povo, mas, que, em vez disso estavam explorando e dilapidando o povo[3]. Outros, porém, como Warren Wiersbe[4] e Allan Harman[5] entendem que estes obreiros da iniquidade são todos quantos se levantam contra o seus semelhantes e especialmente contra os filhos de Deus para oprimi-los. A metáfora “devoram o meu povo, como quem come pão” expressa a naturalidade e a facilidade com que praticam sua maldade explorando e devastando os filhos de Deus. Mas, a maior loucura que os insensatos comentem está no fato que eles “não invocam o SENHOR?”. E por que ele não O invocam? Porque não querem se submeter a Ele. O não convertido não quer nada com Deus até que Deus queira salvá-lo.

                   O britânico Bertrand Russell que era um filósofo agnóstico, certa feita foi arguido sobre quando morresse o que faria ao se deparar na presença de Deus, o que ele iria dizer Àquele a quem ele sempre negou existir. Russel respondeu: “Deus, você não nos deu provas suficientes da Sua existência!”[6]. Como este tolo ainda podia exigir mais provas? A natureza, o universo, as mais variadas formas de organismos e elementos criados por Deus já seriam suficientes (Rm 1.20), mas, a cruz é o brado maior não só da existência, mas, do amor de Deus (Rm 5.8).

                   Um cosmonauta ateu afirmou numa entrevista que enquanto estava no espaço sideral procurou atentamente por Deus, mas, não O encontrou. Alguém comentou: “Se ele tivesse aberto a porta de sua capsula espacial O teria encontrado”[7].

                   Ao insensato nem todas as provas são suficientes; ao justo, nenhuma prova além da Palavra de Deus é necessária.

Aplicação v.4: Não percorra o caminho da insensatez. Você em pouco tempo renegará a Deus, usará as pessoas como se coisas fossem, e, não terá mais volta. O caminho da insensatez é caminho de morte (Pv 14.12; 16.25).

                   Por fim, vejamos como o caminho da insensatez termina.

                 

3) O seu fim, v.5-6

5 Tomam-se de grande pavor, onde não há quem temer; porque Deus dispersa os ossos daquele que te sitia.

6 Quem me dera que de Sião viesse já a livramento de Israel! Quando o SENHOR restaurar a sorte do seu povo, então, exultará Jacó, e Israel se alegrará.

                   O temor a Deus é o único temor capaz de acabar com todos os outros temores. Mas, por não temerem a Deus, os insensatos vivem atemorizados com qualquer ameaça. Temem “onde não há a quem temer”. Isso é o resultado de uma consciência pesada tomada pelo pecado e pela insensatez.  No Sl 14.6 a frase “Tomar-se-ão de grande pavor”, tal como é construída no idioma hebraico é dx;p’_ Wdx]P’ä ~v’Û – šäm PäºHádû päºHad cuja tradução segura é “Ali tremem de medo”. Como se o salmista estivesse apontando com o dedo e dizendo: “Ali onde eles fazem o mal aos filhos de Deus, eles tremerão de medo, porque Deus está com Seus filhos para lhes fazer justiça”. E se aplicarmos essas palavras ao contexto de 2Rs 19 na ocasião em que Senaqueribe viu nada menos que 185 mil  cadáveres de seus soldados que da noite para o dia morreram pela ação do Anjo de Deus, então a frase “Deus dispersa os ossos daquele que te sitia” faz todo o sentido, especialmente porque nos comunica o cuidado de Deus com Seus filhos.

                   Apesar de viverem com medo de tudo, eles não temem a Deus. Por mais que os insensatos sejam advertidos do Juízo de Deus eles continuam zombando Dele e fazendo pouco caso. Porém, a justiça do SENHOR Deus não tarda em vir. Por isso mesmo o v.6 é uma expressão da confiança do salmista, uma aspiração, um desejo de sua alma: “Quem me dera que de Sião viesse já o livramento de Israel!.

                   Novamente devemos voltar nossa mente para 2Rs 19. Jerusalém (Sião) estava sitiada pelos assírios. Como o salmista poderia esperar que dali viesse o livramento? O que ocorre é que ele não esperava o livramento vindo das mãos dos exércitos de Israel, mas, sim, das mãos de Deus tal como aconteceu de fato. Por isso mesmo ele afirmou: “Quando o SENHOR restaurar a sorte do seu povo, então, exultará Jacó, e Israel se alegrará”.

                   O servo de Deus deve almejar a justiça de Deus mais do que tudo, porque Ele promete saciá-los e fartá-los com Sua justiça (cf. Mt 5.6). O salmista não olhava nem para a direita e nem para a esquerda, mas, para cima, para Aquele que governa o universo. Assim, ao encerrar este salmo ele estabeleceu um contraste impressionante com o seu começo. No v.1 ele inicia mostrando que o insensato rejeita o governo de Deus, e, por isso mesmo, vive de mal a pior; aqui, no v.6 ele mostra que aquele que reconhece e se submete ao governo de Deus, tem em seu coração a esperança inabalável. E bem sabemos que a esperança é uma poderosa aliada da fé. Um coração sem esperança em Deus definha, ao passo que um coração que espera em Deus jamais será envergonhado!

 

Aplicação v.5-6: Em quem você tem posto a sua esperança? Para responder isso com exatidão observe o seguinte: o seu coração e os seus lábios têm exultado de alegria pelo que Deus tem feito em sua vida? Se o seu coração estiver amargo, lamuriante e em desespero significa que você tem esperado em qualquer outra coisa ou pessoa, menos em Deus. Lembre-se: o SENHOR Deus está com Seus filhos, bem ali no meio da dor, da luta e da perseguição; é ali que Ele executará o juízo contra os algozes do Seu povo, portanto, é ali que Ele tem de ser louvado e exaltado na vida de Seus filhos.

Conclusão

                   Por quais caminhos você tem andado? Que escolhas você tem feito? Que esperanças alentam o seu coração? Busque ao SENHOR Deus. Não seja um insensato que decidiu ser o senhor de si mesmo. Por sermos totalmente depravados não sabemos nos guiar sozinhos, precisamos de Deus. Medite sempre em Pv 3.5-8: 5 Confia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento.  6 Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas.  7 Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao SENHOR e aparta-te do mal;  8 será isto saúde para o teu corpo e refrigério, para os teus ossos”.

[1] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.186 e HARMAN, 2011, p.222.

[2] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.113.

[3] Cf. CALVINO, 1999, vol.1, p.280.

[4] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.114.

[5] Cf. HARMAN, 2011, p.106.

[6] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3. p.113.

[7] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3. p.113.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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