Canções da Alma – 55ª Mensagem

Oração

“Grandioso e Onipotente Deus, que habitas o alto e sublime trono do universo, mas, que também Se digna a habitar no coração de pecadores como nós. Somos totalmente necessitados da Tua graça. Por isso, humildemente suplicamos ao Senhor pelos méritos de Seu Filho Amado, Jesus Cristo, que fale ao nosso coração, esclareça a nossa mente e abra os nossos ouvidos para o que a Tua Palavra tem a nos dizer hoje. Assim oramos, nem Nome de Jesus, amém!”.

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Salmo 54

Quem Tem Deus Diante de Si

Introdução

                  Quando queremos encorajar alguém numa situação de luta e dificuldade, geralmente dizemos: “Deus está com você”. E de fato, não existe uma só pessoa que esteja fora do olhar de Deus, e nem mesmo uma só situação em que Ele não Se faça presente (cf. Pv 15.3). Mas, a questão se complica quando perguntamos: “Você está com Deus?”. Que Deus está presente com todos isso é indiscutível. Mas, a questão é: estamos nós com Deus? Estamos nós andando sob Seu olhar perscrutador recebendo Dele a aprovação?

                  Quando lemos a história de Davi e as várias ocasiões em que Saul o perseguiu a fim de mata-lo, podemos constatar a possibilidade de alguém iludir-se a respeito da presença e vontade de Deus.

Contextualização

                  As situações que forneceram ensejo a Davi para escrever este Salmo estão registradas em 1Sm 23.19 e 26.1. Os judeus habitantes da cidade de Zife, os zifeus (tipificando aqui Judas Iscariotes que traiu o Senhor Jesus[1]), traíram Davi delatando-o a Saul duas vezes. Saul estava cego pelo seu pecado, e pior, estava certo de que Deus estava com ele e aprovando todo o seu intento de matar Davi. Veja, por exemplo, em 1Sm 23.7 o que Saul disse quando soube que Davi estava na cidade de Queila: “Deus o entregou nas minhas mãos; está encerrado, pois, entrou numa cidade de portas e ferrolhos”. Mais a diante ele disse aos zifeus quando estes vieram dizer-lhe onde Davi estava: “Benditos sejais vós do SENHOR, porque vos compadecestes de mim”. Saul estava convicto de que Deus estava com ele, e, por isso, entregaria Davi em suas mãos para ser morto. Porém, quando lemos as várias ocasiões em que Davi tinha Saul sob a sua mira e poderia mata-lo, Davi recusou-se a fazer por saber que não cabia a ele executar Saul (veja 1Sm 24; 26.8-11).

                  Devemos tomar muito cuidado com aquilo que queremos. Nossos desejos nos cegam e nós não conseguimos ver o óbvio, a saber, que estamos pecando contra Deus, supondo que Ele está conosco aprovando o que estamos fazendo, quando na verdade, Ele está nos reprovando.

                  No v.3 deste Salmo, a frase final diz: “…não têm Deus diante de si”. Davi está se referindo aqui aos zifeus. Se de Saul e dos zifeus podemos dizer que eles eram homem que não tinham Deus diante de si, de Davi podemos dizer o contrário, pois, todas as vezes que ele teve a oportunidade de se vingar de Saul não o fez porque temia a Deus, porque ele tinha Deus diante de si. Quero tomar essas palavras emprestadas para o título da exposição bíblica de hoje: Quem tem Deus diante de si.

                  Aquele que tem Deus diante de si tem:

1) Oração suplicante, v.1-3

1 Ó Deus, salva-me, pelo teu nome, e faze-me justiça, pelo teu poder.

2 Escuta, ó Deus, a minha oração, dá ouvidos às palavras da minha boca.

3 Pois contra mim se levantam os insolentes, e os violentos procuram tirar-me a vida; não têm Deus diante de si.

                   Davi via-se ameaçado pelos adversários. Então ele clamou ao SENHOR Deus para que viesse em seu socorro e o salvasse “pelo teu nome” e lhe fizesse justiça “pelo teu poder” (v.1). Essas expressões são muito importantes. Ao pedir que Deus o salvasse e lhe fizesse justiça pelo Nome e poder de Deus, Davi apontava para o caráter fiel de Deus. Deus não somente é fiel em cumprir Suas promessas como também é poderoso para isso. A Davi foi prometido o trono de Israel, e para isso, ele não precisaria eliminar Saul, mas, tão somente confiar em Deus que no tempo certo haveria de fazê-lo. Aquele que tem Deus sempre diante de si não busca outro socorro e outra justiça senão os que são encontrados em Deus.

                   Ele então elevou sua voz em oração fervorosa a Deus. É impressionante como as tribulações têm o poder de tornar nossas orações mais fervorosas! Ele clamou angustiado a Deus para que lhe ouvisse o clamor (v.2), pois, “homens insolentes (…) violentos” se levantaram contra ele para lhe tirar a vida (v.3). Não bastava eles o delatarem, eles ainda queriam mata-lo. É importante lembrarmos que Davi se referia aos zifeus quando descreveu seus inimigos como insolentes e violentos. Como já dissemos, os zifeus eram judeus, portanto, parte do povo de Deus, que por desprezarem a Deus e Lhe darem às costas (este é o significado de “insolentes”, pois, “não têm Deus diante de si”, também se tornaram traiçoeiros em relação a Davi. Quando alguém dá as costas para Deus certamente desprezará seus semelhantes e os tratará de forma perversa.

Aplicação v.1-3: Enquanto o ímpio se afunda cada vez mais no seu lamaçal de pecados, o servo de Deus, mesmo envolto em angustiosa situação clama e suplica a Deus por socorro. Enquanto o ímpio se esquece de Deus e se põe a destruir seu semelhante, o servo de Deus não ousa fazer justiça com as próprias mãos, pois, sabe que Deus é o seu Juiz que com todo poder e autoridade cuidará de sua causa. Neste mundo, os filhos de Deus não terão descanso, pois, este nos é prometido somente nos céus. Aqui é o lugar do clamor e da súplica. Ninguém há que tenha aprendido a suplicar a Deus por socorro em tempos de aflição que não tenha saído dessa aflição mais maduro, mais puro. Quando suplicamos a Deus por socorro exercitamos nossa confiança e esperança Nele, e cada vez menos em nós mesmos, e por isso mesmo, aquele que tem Deus diante de si, também tem:

2) Confiança inabalável, v.4-5

4 Eis que Deus é o meu ajudador, o SENHOR é quem me sustenta a vida.

5 Ele retribuirá o mal aos meus opressores; por tua fidelidade dá cabo deles.                                      

                  

                   Que maravilhosa declaração de fé Davi faz no v.4! Ele declara que Deus é o seu “ajudador”,  e “quem me sustenta a vida”. Como disse Calvino “Davi não dirigia suas orações ao acaso, sem qualquer propósito, mas as oferecia no exercício de uma fé vívida”[2]. O advérbio “eis” traz consigo a ideia de Davi como que estivesse apontando o seu dedo na direção de Deus e dizendo: “Ele é quem me ajuda, é Dele que vem o poder para me socorrer e para me manter vivo”. O servo de Deus, em meio à tribulação, não chama a atenção das pessoas para si mesmo, mas, para Deus. Seu alvo não é fazer com que as pessoas tenham pena dele ao vê-lo sofrendo injustiças, mas, sim, glorificar a Deus como o seu “socorro bem presente nas tribulações” (Sl 46.1).

                   É importante observar que foi justamente nessa época que Jônatas, filho de Saul, foi ao encontro de Davi e o animou recordando a promessa de Deus de que Davi seria o rei de Israel (cf. 1Sm 23.16-18). Deus usou Jônatas para revigorar o coração de Davi. Como é maravilhoso ter ao nosso lado pessoas que nos trazem refrigério e animam o nosso coração quando estamos cercados por perversos que querem nos destruir.

                   No v.5 Davi expressa sua confiança em Deus ao revelar seu anseio de que o juízo contra seus caluniadores e opressores. Tal anseio deve ser entendido da seguinte maneira: os inimigos do povo de Deus, são inimigos do próprio Deus (cf. At 9.1-4). Com relação a Saul, as duas vezes que ele teve oportunidade de mata-lo, Davi não o fez, pois, sabia que apesar de Saul comportar-se com tanta iniquidade, ele era o rei ungido, e, tocar num ungido do SENHOR lhe era um pecado grave. Além disso, Davi sabia que o próprio Deus trataria com Saul. Portanto, Davi não tinha opção, ou ele confiava em Deus e deixava em Suas mãos a justiça, ou então ele também pecaria contra Deus não confiando em Sua fidelidade.

Aplicação v.4-5: Ainda que o nosso coração esteja sofrendo terrivelmente sob os ataques dos perversos, não devemos em momento algum tomar vingança por nossas próprias mãos, mas, sempre confiar em Deus para assim fazê-lo, pois, essas situações de perseguição, calúnia e opressão que os inimigos nos causam são acima de tudo uma oportunidade singular para a manifestação da justiça de Deus. Ou demonstramos e exercitamos nossa confiança na fidelidade de Deus, ou O desonraremos. Em meio às tribulações o servo de Deus tem de demonstrar a confiança inabalável de que Deus está com ele, e, portanto, não precisa de nenhum outro socorro.

                   Por fim, aquele que tem Deus diante de si também tem

 

3) Esperança triunfante, v.6-7

6 Oferecer-te-ei voluntariamente sacrifícios; louvarei o teu nome, ó SENHOR, porque é bom.

7 Pois me livrou de todas as tribulações; e os meus olhos se enchem com a ruína dos meus inimigos.

                   Enquanto a confiança inabalável tem seus frutos no presente, a esperança triunfante tem seus frutos no futuro. As palavras do v.6 expressam a esperança que Davi nutria em seu coração de um dia entrar no santuário de Deus, e lá, oferecer-Lhe sacrifícios de louvor. Ele estava fugindo de Saul e achava-se no deserto, primeiramente, no deserto de Zife (1Sm 23.14,15) e depois no de En-Gedi (1Sm 24.1). Mas, seu coração estava no santuário de Deus, e pulsava de esperança de um dia poder louvar a Deus, onde e como Ele havia determinado, “porque é bom”. Não há atividade mais sublime, mais honrosa e mais enriquecedora do que louvar a Deus. Para isso fomos criados.

                   Ainda no v.6 há uma palavra que merece mais atenção: “voluntariamente”. O que Davi quis dizer com isso? No sistema de culto do Antigo Testamento havia aquelas ofertas conhecidas como “ofertas voluntárias”, ou seja, que não precisavam estar presas a um calendário religioso, ou a uma ocasião específica. Estas ofertas poderiam ser entregues a Deus a qualquer momento (veja Lv 22.17-30; Nm 15.1-12). Davi estava dizendo que a gratidão a Deus em seu coração por tudo o que ele esperava e tinha certeza de que Deus faria em seu favor, o compelia a louvar a Deus não por uma obrigação ou imposição, mas, porque o seu coração reconhecia o amor de Deus, e, tomado de profunda alegria não ficaria preso a ritos e rituais, mas, sim, louvaria a Deus com fervor e disposição em servi-Lo. Como disse Calvino: “Somos instruídos por esta passagem que, ao chegarmos à presença de Deus, não podemos esperar sua aceitação a menos que abracemos seu serviço com uma mente disposta”[3].

                   O v.7 volta ao assunto do v.5. Até aqui neste salmo, Davi dirigiu suas palavras a Deus, e, agora, neste último verso dirige suas palavras aos seus companheiros, àqueles que estavam ao seu redor e lhes dá um testemunho vívido da fidelidade de Deus. A esperança ao mesmo tempo que lança o seu olhar para o futuro, também volve-se para o passado buscando as memórias que registraram o agir de Deus. Por isso mesmo, Davi, cheio de esperança em Deus ao falar do agir de Deus no futuro emprega os verbos no passado como se já tivessem acontecido, de tão grande era a sua esperança em Deus. Mas, neste momento surge uma questão: pode um servo de Deus alegrar-se com a ruína dos ímpios quando estes são julgados por Deus? E a resposta é: sim. Mas, isso dependerá do que está motivando o coração do crente. “Se sua satisfação procede em certa medida da gratificação de um sentimento depravado, então dever ser condenada; mas, há certamente um deleite puro e justificável que podemos sentir na contemplação de tais ilustrações da divina justiça”[4], ou seja, quando há em nosso coração deleite pelo Nome de Deus tendo Sua santidade vindicada nos inimigos Dele, não estamos felizes por vermos outros sofrendo, mas, por Deus ser glorificado como deve.

Aplicação v.6-7: A esperança do filho de Deus está em Deus, e, por isso, nunca falha. Ao mesmo tempo em que você lançar seu olhar para o futuro esperando o agir de Deus, olhe também para o passado e veja o que Ele já fez por você, e então, exulte de alegria na presença de Deus, solte a sua voz em louvores a Deus na certeza de que Ele agirá tão certo como se já tivesse agido. Mas, lembre-se que somente a glória do Nome de Deus deve ser a motivação do seu coração quando Ele pesar a mão sobre os inimigos do Seu povo.

Conclusão

                   Enquanto os olhos dos ímpios estão “vazios” da glória de Deus (cf. v.3), os olhos dos servos de Deus estão cheios da Sua justiça revelada sobre os ímpios (cf. v.7). Tenha certeza de  que você realmente está do lado de Deus.  Não seja como Saul que estando cego pelo pecado foi incapaz de perceber que Deus o havia rejeitado. Seja como Davi,  que cheio de temor a Deus recusava-se a praticar vingança contra Saul, mas,  em vez disso,  confiava em Deus para lhe fazer justiça.  Que a nossa oração a Deus seja fervorosa, expressando toda a nossa inabalável confiança Nele, para que a nossa esperança Nele seja triunfante. Amém!

[1] Cf. HENRY, 2010, vol3, p.399.

[2] CALVINO, 1999, vol.2, p.467.

[3] CALVINO, 1999, vol2, p.469.

[4] Ibid, p.470.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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