Canções da Alma – 56ª Mensagem

Oração

“Tua glória, ó Deus é o nosso maior tesouro. Nossa alma não se satisfaz verdadeiramente com nada além dela. Na Tua Palavra, ó Pai, aprendemos mais sobre Ti e como podemos viver para a glória do Teu santo Nome. Esclarece a nossa mente, abra os nossos ouvidos, ilumina nossos olhos, afasta de nós quaisquer empecilhos para que assim possamos desfrutar das delícias da Tua Palavra e glorificar Teu santo Nome ainda mais. Assim oramos, pelos méritos de Cristo Jesus, amém!”.

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Salmo 55

Deus Ouve As Nossas Orações

Introdução

                  Como é maravilhoso saber que Deus ouve as nossas orações! Como traz paz ao nosso coração sabermos que Deus jamais despreza as orações de Seus filhos, mas responde em conformidade com a Sua santa vontade (cf. 1Jo 5.14). Este salmo nos fala justamente disso. Quero propor para nossa exposição do texto bíblico o seguinte tema: Deus ouve as nossas orações. Essa era a certeza de Davi e deve ser a nossa certeza também.

Contextualização

                  Há alguma divergência entre os expositores bíblicos sobre as circunstâncias que levaram Davi a escrever este salmo[1]. Enquanto uns afirmam que foram as ocasiões das várias perseguições de Saul, outros afirmam que foi a rebelião de Absalão, seu filho, e mais especificamente, a traição de Aitofel que era conselheiro de Davi e que se debandara para o lado de Absalão. Isso esclareceria, por exemplo, o v.9 que fala de Deus confundir os conselhos (Aitofel era conselheiro) desses inimigos, e os v.12-14 que descrevem a proximidade que eles tinham um do outro. Para nortear-nos na interpretação e aplicação deste salmo tomaremos aqui a rebelião e traição de Absalão apoiado por Aitofel como pano de fundo.

                  Este salmo, portanto, foi composto para ser entoado no culto a Deus, para que o Seu povo expressasse sua confiança Nele nas mais diversas situações desta vida. Voltando para o nosso tema, precisamos ter bem nítida em nosso coração a certeza de que Deus nos ouve em todos os momentos de nossa vida. Aqui quero destacar pelo menos três desses momentos.

                  Deus nos ouve:

1) Quando temos lutas interiores, v.1-8

Dá ouvidos, ó Deus, à minha oração; não te escondas da minha súplica.

2 Atende-me e responde-me; sinto-me perplexo em minha queixa e ando perturbado,

3 por causa do clamor do inimigo e da opressão do ímpio; pois sobre mim lançam calamidade e furiosamente me hostilizam.

4 Estremece-me no peito o coração, terrores de morte me salteiam;

5 temor e tremor me sobrevêm, e o horror se apodera de mim.

6 Então, disse eu: quem me dera asas como de pomba! Voaria e acharia pouso.

7 Eis que fugiria para longe e ficaria no deserto.

8 Dar-me-ia pressa em abrigar-me do vendaval e da procela.

 

                   Um dos sentimentos mais desconfortáveis é a angústia. Ela nos sufoca, nos atordoa e nos fustiga. Davi travava uma luta interior; ele estava profundamente angustiado.

                   Podemos ver aqui as seguintes razões para Davi sentir-se tão angustiado assim:

  • O silêncio de Deus (v.1). Davi clamou a Deus para que não escondesse dele a Sua face, pois, sabia que nada poderia agravar ainda mais sua angústia do que Deus não socorrê-lo. Em seu papel de pai, Davi foi negligente para com Absalão e seus irmãos. Davi nada fez ante o estupro incestuoso de Amnom e Tamar, ante o assassinato de Amnom premeditado por Absalão, para citarmos algumas ocasiões apenas. Agora, seu coração encontrava-se angustiado pela possibilidade de Deus também ignorá-lo assim como ele ignorara seus filhos. Ele sabia que Deus o estava punindo pelo seu adultério com Bate-Seba e assassinato de Urias tal como lhe dissera o profeta Natã (2Sm 12.9-12), mas, mesmo assim agarrava-se à misericórdia de Deus.
  • Perturbação (v.2-3). Então ele se pôs a clamar a Deus para que lhe respondesse à oração, pois ele estava perplexo e andava perturbado e desorientado. Não sabia o que fazer. Aqui ele disse literalmente que andava fazendo ruídos, gemendo de dor e angústia (v.2). Toda a hostilidade dos inimigos e todo o barulho que eles faziam oprimiam o seu coração (v.3).
  • Medo (v.4-5). Seu coração batia descompassado, e ele sentia a presença da morte por meio das ameaças dos inimigos (v.4), o que lhe causava terríveis sofrimentos. No 5 ele usa três palavras que descrevem vividamente o que ele estava sentindo: “temor, tremor e horror”. Davi era um soldado, um guerreiro que não temia a morte no campo de batalha; mas, neste momento de sua vida seu coração estava tomado pelo medo. Como nos lembra Calvino: “…desta passagem podemos aprender não só que os sofrimentos que Davi suportava nessa época eram pesados, mas também que a fortaleza dos maiores servos de Deus lhes vacila no momento de dura prova”[2].
  • Vontade de fugir (v.6-8). A figura da pomba usada aqui descreve a fragilidade de Davi ante às ameaças. Tal como uma pomba que é frágil diante de seu predador cuja única chance de sobrevivência é voar com rapidez para bem longe num lugar deserto, Davi percebia-se frágil diante de seus inimigos, porém, diferentemente da pomba ele não podia fugir. Mas, seu coração ansiava por fugir de seus inimigos e encontrar um lugar de paz.

                   Por todos esses motivos (o silêncio de Deus, perturbação, medo e vontade de fugir) Davi via-se angustiado.

Aplicação v.1-8: No meio das angústias dessa vida é muito natural expressarmos nossos sentimentos de angústia, solidão, perturbação, medo e vontade de fugir, mas, isso não resolve nada, antes, só atrapalha. As pombas podem voar para lugares distantes tentando fugir das tempestades, mas, somente as águias voam acima das tempestades (cf. Is 40.30-31). Não é fugindo da luta, ou nos recolhendo em nossos medos e temores que ficaremos protegidos. A nossa única proteção é Cristo e é a Ele que devemos recorrer em oração. Creia! Quando você buscar a Deus em oração Ele lhe ouvirá. Você não foi chamado para se comportar como pomba, mas, sim, como águia diante das tempestades dessa vida. Enfrente-as confiado no poder de Deus.

                   Deus nos ouve:

2) Quando temos lutas exteriores, v.9-15


10 Dia e noite giram nas suas muralhas, e, muros a dentro, campeia a perversidade e a malícia;9 Destrói, Senhor, e confunde os seus conselhos, porque vejo violência e contenda na cidade.

11 há destruição no meio dela; das suas praças não se apartam a opressão e o engano.

12 Com efeito, não é inimigo que me afronta; se o fosse, eu o suportaria; nem é o que me odeia quem se exalta contra mim, pois dele eu me esconderia;

13 mas és tu, homem meu igual, meu companheiro e meu íntimo amigo.

14 Juntos andávamos, juntos nos entretínhamos e íamos com a multidão à Casa de Deus.

15 A morte os assalte, e vivos desçam à cova! Porque há maldade nas suas moradas e no seu íntimo.

                  

                   Nos versos anteriores, Davi descreveu suas lutas interiores; agora, ele descreve suas lutas exteriores, a saber, as obras malignas dos seus inimigos que se revelavam das seguintes formas:

  • Conselhos malignos (v.9). Por isso Davi pediu a Deus que confundisse os conselhos deles. Isso nos lembra o que ocorreu na torre de Babel, onde Deus confundiu a linguagem das pessoas de modo que um não entendia o outro (Gn 11.1-9). Se os inimigos tramavam em como destruir a cidade promovendo contenda, Deus poderia confundi-los a ponto frustrar-lhes os planos. Deus de fato frustrou os planos de Absalão quando levantou Husai para influenciar Absalão a rejeitar o conselho de Aitofel, e que por fim, levou à derrota do rebelde exército de Absalão (cf. 2Sm 16.15 – 17.31).
  • Planos malignos (v.10-11). Dia e noite esses homens perversos rondavam a cidade circundando seus muros por fora como que procurando brechas para destruí-la, e dentro dela praticavam toda sorte de perversidade e malícia. A cidade estava destruída. Quando a iniquidade reina, o que se vê é só destruição.
  • Traição (v.12-15). Davi conviveu não uma, mas, várias vezes com a traição de pessoas que lhe eram próximas. No Sl 41.9 ele disse que aquele que comia do seu pão “levantou contra mim o calcanhar”. Se tivesse sido um perseguidor, um inimigo declarado que o tivesse traído, disse Davi: “eu o suportaria”; se tivesse sido um que declaradamente o odiasse, “dele eu me esconderia” (v.12), disse Davi. Mas não foi. Aqui ele declara que quem o traíra não fora alguém que ele considerava um inimigo, mas, sim, um “igual, meu companheiro e meu íntimo amigo” (v.13), alguém por quem Davi tinha grande consideração e apreço. Neste que lhe traíra, ele confiara e com ele tivera comunhão, pois, iam juntos “com a multidão à Casa de Deus” (v.14). Mas, tais pessoas sempre serão apanhadas com surpresa pelo juízo de Deus. Assim como a traição delas causou surpresa desagradável àqueles que neles confiavam, eles também serão apanhados com uma surpresa desagradável da parte de Deus, pois, a morte lhes assaltará em suas casas, lá, no mesmo lugar onde eles tramam suas obras malignas que nascem no íntimo de seus corações (v.15).

Aplicação v.9-15: Uma das maiores lutas que travamos quando somos atacados pela maldade das pessoas é o refrear a nossa vontade e sede de vingança. Mais uma vez ouvimos nos Salmos que devemos confiar em Deus para julgar àqueles que nos fazem mal. O crente não tem a opção do revide. Ele só pode esperar em Deus a justiça, pois, sendo o perverso criado para o dia da calamidade (cf. Pv 16.4), a saber, o dia em que Deus vier ajustar contas com ele, neste dia Deus será glorificado no julgamento do perverso. Logo, se tomarmos vingança com as nossas próprias mãos, estaremos usurpando a glória de Deus. Lembre-se também o quanto dói ser traído, e nunca traia a confiança de alguém, especialmente daqueles que lhe forem “iguais, companheiros e amigos íntimos”.

                   Por fim, Deus nos ouve

 

3) Quando confiamos Nele, v.16-23

16 Eu, porém, invocarei a Deus, e o SENHOR me salvará.

17 À tarde, pela manhã e ao meio-dia, farei as minhas queixas e lamentarei; e ele ouvirá a minha voz.

18 Livra-me a alma, em paz, dos que me perseguem; pois são muitos contra mim.

19 Deus ouvirá e lhes responderá, ele, que preside desde a eternidade, porque não há neles mudança nenhuma, e não temem a Deus.

20 Tal homem estendeu as mãos contra os que tinham paz com ele; corrompeu a sua aliança.

21 A sua boca era mais macia que a manteiga, porém no coração havia guerra; as suas palavras eram mais brandas que o azeite; contudo, eram espadas desembainhadas.

22 Confia os teus cuidados ao SENHOR, e ele te susterá; jamais permitirá que o justo seja abalado.

23 Tu, porém, ó Deus, os precipitarás à cova profunda; homens sanguinários e fraudulentos não chegarão à metade dos seus dias; eu, todavia, confiarei em ti.

                   Nestes versos finais, Davi ressalta a sua confiança em Deus. Ainda que ele tenha voltado a falar dos seus inimigos que tanto lhe fizeram mal, ele enfatiza aqui o caráter de Deus e Suas ações em favor de Seu servo. Os seguintes atributos são ressaltados aqui:

  • Deus é o seu Salvador (v.16-17). Por isso mesmo ele declarou “Eu, porém, invocarei a Deus”. Seguindo o sistema judaico de horas, o qual começa à tarde de um dia e se encerra na tarde do outro dia, Davi eleva a Deus sua voz em oração suplicante. O que Davi está dizendo aqui é que ele buscaria a Deus o tempo todo na certeza de que Deus lhe ouviria a voz.
  • Deus é o seu Libertador (v.18). A Deus ele clamou “Livra-me a alma, em paz”. Só Deus poderia livra-lo dos muitos inimigos que se levantaram contra ele.
  • Deus é o seu Soberano Eterno (v.19-21). Ele é quem “preside desde a eternidade”. Ainda que os homens vivam sem demonstrar qualquer temor a Deus (v.19), ainda que os homens sejam pérfidos e vivam praticando toda sorte de maldade contra os outros (v.20), ainda que eles sejam falsos e hipócritas usando de palavras bajuladoras e suaves as quais escondem a malignidade de seus corações pervertidos para em breve revelarem o que eles de fato são (v.21), nada disso muda em absolutamente nada o que Deus é.
  • Deus é o seu Sustentador (v.22a). Davi conclama aos que estão lendo este salmo a confiarem a Deus os “teus cuidados, e ele te susterá”. Mas, só desfruta do sustento de Deus aqueles que realmente confiam Nele.
  • Deus é o justo Juiz (v.22b-23). O justo, isto é, aquele que anda na presença de Deus e se afasta do pecado, pode ter a certeza de que jamais será abalado, ainda que enfrente lutas internas e externas. Se o homem ímpio pode viver neste mundo como se Deus não existisse, um dia estará face a face com Deus e a Ele terá de prestar contas de todas as suas ações. Contudo, o seu maior juízo esteja reservado para o futuro, na eternidade, o ímpio deve saber que já nesta vida ele começará a colher os frutos amargos de sua malignidade, pois, sua vida será abreviada quer em número de dias quanto na qualidade de vida; assim como eles são agentes da morte, por ela serão visitados o quanto antes e “não chegarão à metade dos seus dias” (v.23).

                   O v.23 encerra com uma nota mui bela: não importa o que estiver acontecendo ao redor do servo de Deus, este, sempre dirá “eu todavia, confiarei em ti”, isto é, em Deus. E assim, confiante em Deus, o Seu servo pode saber que Deus sempre lhe ouvirá ás orações.

Aplicação v.16-23: Em meio aos ataques furiosos dos inimigos, em meio à iniquidade desenfreada de uma sociedade corrupta e corruptora, ou em meio às decepções causadas pela traição daqueles em quem confiamos um dia, não podemos perder de vista a grandiosidade, a beleza, o poder e a supremacia de Deus. Nada que os homens fizerem poderá mudar um milímetro sequer dos atributos de Deus. Por isso mesmo Nele devemos depositar toda a nossa confiança. Se podemos estar certos de que as pessoas nos decepcionam, muito mais certos devemos estar de que Deus jamais nos decepcionará. Ele sabe honrar aqueles que Nele confiam.

Conclusão

                   Deus ouve as nossas orações. Não importa o tamanho da nossa angústia e dor, Ele sabe muito bem o que fazer com elas. Em meio às angústias dessa vida que nunca percamos o foco da glória de Deus, pois, somente a glória de Deus nos consolará diante das inglórias deste mundo.

[1] Para Calvino foram as perseguições de Saul (CALVINO, 1999, vol.2, p.471). Para Wiersbe, Harman e Henry foi a rebelião de Absalão e a traição de Aitofel (WIERSBE, 2010, vol.3, p.187; HARMAN, 2011, p.224; HENRY, 2010, vol. 3, p. 401).

[2] CALVINO, 1999, vol.2, p.473.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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