Canções da Alma – 57ª Mensagem

Oração

“Santo, Justo e Todo-Poderoso Deus, cuja misericórdia e amor transcendem os nossos pensamentos e não podemos compreender, a Ti nos dirigimos em oração clamando por meio de Jesus Cristo, Teu Filho Amado em quem Tu te comprazes, para que o Teu Santo Espírito nos tome pelas mãos, nos conduza pela Tua Palavra transformando o nosso coração para que sejamos aquilo que Tu queres que sejamos. Tende piedade de nós e nos transforme. Em Nome de Jesus, amém!”.

Neste Deus Ponho a Minha Confiança

Sl 56

Introdução

Onde ou a quem você busca ajuda quando está passando por alguma situação difícil? Pense um pouco sobre isso. A resposta a essa pergunta revelará o quanto de fato você confia em Deus. Há neste salmo uma ideia que se repete nos v.3-4 e v.10-11, a saber, quando o medo causado pela ameaça dos inimigos vier sobre mim, eu correrei para Deus, e Nele porei a minha confiança. E tomando emprestada a expressão que se repete nos v.4 e v.11 proponho o seguinte tema para a nossa meditação: Neste Deus ponho a minha confiança.

Contexto

O título deste salmo nos proporciona a informação sobre a ocasião que levou Davi a escrevê-lo. É-nos dito que este hino de Davi teve como base a ocasião “quando os filisteus o prenderam em Gate”. A cidade de Gate era uma das principais cidades dos filisteus, grandes inimigos dos israelitas. Dessa cidade veio o gigante Golias que fora morto por Davi quando ainda era um menino (1Sm 17). Para Gate Davi fugira duas vezes. Na primeira vez que ele se refugiara em Gate não fora bem recebido e teve até que se fazer de louco para não ser morto (cf. 1Sm 21.10 – 22.1). Na segunda vez que ele se refugiou em Gate, estava com seus soldados e foi aceito (cf. 1Sm 27 – 30). A ocasião deste salmo foi na primeira vez que ele foi refugiar-se em Gate, na qual ele se viu ameaçado por estar sozinho no meio de inimigos. Isso explica a melodia deste salmo a qual é segundo a “A pomba nos terebintos distantes”, que também pode ser traduzido das seguintes maneiras “a pomba silenciosa em meio àqueles que estão distantes”, ou “a pomba silenciosa em meio a estranhos”, ou ainda “a pomba solitária entre os carvalhos distantes”. Esta já não seria a primeira vez que Davi usa a figura da pomba para falar de sua fragilidade e inocência, pois no Sl 55.6 ele já fizera isso.

                  O fato aqui é que Davi estando no meio dos filisteus de Gate sentia-se constantemente ameaçado tal como uma pomba solitária cercada de predadores. A pergunta que surge aqui é: por que Davi foi para Gate sabendo que lá ele não era bem-vindo? Não sabemos ao certo. Porém, o que importa aqui é vermos que Davi estando nessa situação de perigo e mesmo tendo buscado refúgio em Gate, em momento algum ele deixou de confiar em Deus e de buscar Nele o socorro e amparo.

                  Vemos neste salmo três ocasiões nas quais Davi expressou sua confiança em Deus, e da mesma forma nós também devemos fazê-lo.

                  Neste Deus ponho a minha confiança

1 – Quando sou atacado pelos inimigos, v.1-4

1 Tem misericórdia de mim, ó Deus, porque o homem procura ferir-me; e me oprime pelejando todo o dia.

2 Os que me espreitam continuamente querem ferir-me; e são muitos os que atrevidamente me combatem.

3 Em me vindo o temor, hei de confiar em ti.

4 Em Deus, cuja palavra eu exalto, neste Deus ponho a minha confiança e nada temerei. Que me pode fazer um mortal?

Estes versos descrevem as forças externas que oprimiam Davi. Entre os habitantes de Gate, Davi via-se em constante perigo, e ali estava porque no meio do seu povo era perseguido ferozmente por Saul. No v.2 ele diz que seus inimigos que o espreitavam queriam tirar-lhe a vida e muitos atrevidamente[1] lutavam contra ele violentamente. Tal como uma pomba solitária sob as vistas de predadores vorazes ele se sentia entre os filisteus. Para qual direção deveria olhar? Somente para Deus. Ele então clama angustiadamente por Deus “Tem misericórdia de mim, ó Deus” (v.1).

Em seu clamor, Davi ao mesmo tempo expressa o seu medo, mas, também a sua fé. “Em vindo o temor, hei de confiar em ti” (v.3), e assim ele nos mostra que somos passíveis de sentir medo, e sentirmos medo em face ao perigo não quer dizer que estamos pecando. Quando diante do perigo tememos e duvidamos do cuidado e poder de Deus, então aí estaremos pecando. Porém, quando ameaçados pelo mal, mesmo sentindo medo em nosso coração buscarmos a Deus e depositarmos Nele a nossa confiança, certamente não só venceremos o medo e o mal, mas, acima de tudo glorificaremos a Deus.

No v.4 Davi declara: “Em Deus, cuja palavra eu exalto, neste Deus ponho a minha confiança e nada temerei”. Observemos que ele não nega ter sentido medo, mas, no momento em que ele se moveu em direção a Deus e Nele depositou sua confiança, o medo bateu em retirada. Neste verso ele também nos mostra a base da nossa confiança, a saber, a Palavra de Deus na qual ele exultava. Em Rm 10.17 a Escritura declara: “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo”. É na Palavra de Deus que o crente deposita a sua confiança, é no que ele sabe e conhece de Deus e que está revelado na Palavra, e não no que ele sente. Se a sua confiança está em revelações extra bíblicas, em profecias humanas, ou em conselhos encharcados de psicologia e autoestima, você não só estará piorando ainda mais sua situação como pior ainda, estará desonrando a Deus. O crente não só confia na Palavra de Deus, mas, também nela exulta. Como observa Calvino, o verbo “exultar” aqui tem o sentido de gloriar-se, confiar[2]. Por esta razão, confiando totalmente na Palavra de Deus, Davi olhava para os seus inimigos que o oprimiam e podia dizer: “Que me pode fazer um mortal?”. Muito mais do que desdenhar dos seus inimigos, Davi apontava para a graça de Deus e Nele confiava. Como disse Calvino[3]:

Portanto, a fé de Davi não era uma pequena prova de que ele desprezava as ameaças de seus inimigos. E seria bom que todos os santos de Deus fossem dominados pelo senso de sua superioridade diante de seus adversários, ao ponto que fossem levados a demonstrar semelhante desprezo pelos perigos. Quando assaltados por estes, nunca lhes faltava o reconhecimento de que a controvérsia na realidade era entre seus inimigos e Deus, e que seria blasfemo, neste caso, duvidar do resultado.      

Nossa atitude diante dos nossos inimigos não deve ser de desdém e arrogância, mas, sim, de total confiança em Deus que toma a nossa causa e a julga com sabedoria para a Sua honra e glória.

Aplicação v.1-4: O problema não é sentirmos medo, e sermos assaltados por temores, mas, sim permanecermos no medo em vez de confiarmos em Deus. Uma situação que nos causa medo deve ser vista antes de tudo como uma oportunidade para exercitarmos a nossa fé em Deus. Quando o medo rondar seu coração, volte-se para a Palavra de Deus e exultante, confie nas Suas benditas promessas. Não corra a trás dos seus sentimentos; em vez disso sabia, creia e confie no que a Palavra de Deus diz. Mostre aos seus inimigos que a sua confiança está em Deus e que por isso mesmo você esperará Deus agir por você.

                   Neste Deus ponho a minha confiança

2 – Quando sou caluniado pelos inimigos, v.5-11

5 Todo o dia torcem as minhas palavras; os seus pensamentos são todos contra mim para o mal.

6 Ajuntam-se, escondem-se, espionam os meus passos, como aguardando a hora de me darem cabo da vida.

7 Dá-lhes a retribuição segundo a sua iniquidade. Derriba os povos, ó Deus, na tua ira!

8 Contaste os meus passos quando sofri perseguições; recolheste as minhas lágrimas no teu odre; não estão elas inscritas no teu livro?

9 No dia em que eu te invocar, baterão em retirada os meus inimigos; bem sei isto: que Deus é por mim.

10 Em Deus, cuja palavra eu louvo, no SENHOR, cuja palavra eu louvo,

11 neste Deus ponho a minha confiança e nada temerei. Que me pode fazer o homem?

Estes versos descrevem as forças internas que traziam angústia a Davi.  “Pisando em ovos”. Todos já ouvimos essa expressão e ela indica alguém que tem de estar em constante alerta não só com o que faz, mas com o que fala na presença de determinadas pessoas. Davi via suas palavras serem distorcidas o tempo todo, e tudo o que ele dizia seus inimigos usavam contra ele (v.5).

“Com um alvo nas costas” era assim que ele se sentia, pois, em todos os lugares via os inimigos se ajuntando contra ele, mas, quando ele via-os escondiam-se como víboras que se camuflam para atacar a sua presa. Andando pelas ruas sabia que seus passos estavam sendo vigiados, e assim ele era espreitado como um animal sob a mira do seu predador esperando o momento exato de dar o bote (v.6).

Calúnias, ciladas e emboscadas constantes, tudo isso trazia terrível aflição ao coração de Davi. Mas, seu coração sabia que não era somente sob o olhar dos inimigos que ele estava; ele também estava sob as vistas do Deus Todo-Poderoso que governa o universo por quem ele clamou (v.7-8). Aliás, é importante notarmos que o nome de Deus que ele usa neste salmo (9 vezes ao todo) é אֱלוֹהַּ que descreve Deus como o Supremo Governante, o Rei dos reis. Por isso mesmo, ele buscou em sua memória o consolo que ele um dia recebera de Deus, e, se os inimigos espionavam os seus passos, Davi bem sabia que Deus lhe contou os passos, ou seja, Deus estivera com ele o tempo todo em sua vida e o conhecia completamente. Deus não só estivera presente com ele, mas, também lhe trouxe consolo recolhendo suas lágrimas no Seu odre. Os odres eram feitos de couro de animais e neles se guardavam vinho, azeite e água. Em escavações arqueológicas foram encontrados pequenos recipientes chamados de lacrimários, nos quais as pessoas recolhiam suas lágrimas e deixavam no túmulo de seus entes queridos[4]. O que Davi está dizendo aqui é que suas lágrimas não caíram no chão e foram desprezadas por Deus, mas, sim, que Ele guardara consigo as lágrimas (orações suplicantes) de Seu servo e, no tempo certo haveria de responder-lhe.

No v.9 ele expressou não só a sua confiança em Deus, mas a certeza de que Deus viria em seu socorro, pois, sabia (crer também é saber) que no momento em que ele invocasse a Deus e Ele viesse em seu socorro, os inimigos bateriam em retirada. A afirmação final no v.9 é preciosa: “bem sei isto: que Deus é por mim”. O coração que confia em Deus pode ter esta certeza firme de que Deus é por ele, porque, Deus se agrada daqueles que Nele confiam e com eles Ele sempre está presente para socorrê-los.   

Repetindo o refrão no v.10-11 Davi novamente expressa que a sua confiança estava somente na Palavra de Deus. A única diferença aqui é que no v.10 ele usa o nome pactual de Deus, SENHOR (יהוה). Por vezes precisamos repetir certas verdades ao nosso coração que com facilidade se esquece das mesmas.

Aplicação v.5-11: Deus guarda as nossas lágrimas derramadas na presença Dele para que futuramente as use para regar as bênçãos que Ele tem reservado para nós, se de fato confiarmos Nele. Tanto mais agradamos a Deus quanto mais Nele confiamos. De todas as certezas que o nosso coração deve ter, a da presença de Deus conosco é a mais importante, pois, nada mais importa nesta vida se Deus estiver conosco. Ele estando conosco nem mesmo as aflições da nossa alma poderão roubar a nossa paz. Estando Ele ao nosso lado a verdade será estabelecida quando os inimigos nos caluniarem.

                   Neste Deus eu ponho a minha confiança

3 – Para continuar na presença Dele, v.12-13

12 Os votos que fiz, eu os manterei, ó Deus; render-te-ei ações de graças.

13 Pois da morte me livraste a alma, sim, livraste da queda os meus pés, para que eu ande na presença de Deus, na luz da vida.

Os versos finais deste salmo vêm nos falar de compromisso. Havia no coração de Davi o desejo de cumprir os votos que ele fizera a Deus quando em suas peregrinações fugindo de Saul ele almejava voltar para Jerusalém e estar na Casa do SENHOR. Seu maior desejo era glorificar a Deus, e por isso sabia que teria de cumprir os votos que um dia fizera. Com muita seriedade devemos cumprir os votos que um dia fizemos a Deus, pois, Ele “não se agrada de voto de tolos” (Ec 5.4), ou seja, de alguém que age insensatamente fazendo votos aos quais não tem a mínima intenção de cumprir.

Davi queria louvar a Deus e render-Lhe graças pelo livramento que recebera de Deus (v.12-13). Ele também reconhecia que este livramento que Deus lhe proporcionou tinha como propósito que ele andasse “na presença de Deus, na luz da vida”. O crente sabe que tudo o que ele tem, tudo o que ele é, e tudo o que ele faz está na dependência completa que ele tem de Deus, tal como disse o Senhor Jesus: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). A expressão “luz da vida” também é aplicada ao Senhor Jesus (cf. Jo 8.12). “Ao seguirmos ao Senhor Jesus nos dias de hoje, desfrutamos a plenitude de vida e a luz gloriosa de sua presença. Andamos na luz[5]. Mas, para andar na luz de Cristo, precisamos totalmente Dele para nos preservar nessa luz.

Aplicação v.12-13: Lembre-se dos votos que você fez a Deus. Não demore em cumpri-los. Mas, tome cuidado também para que você não deposite sua confiança em você mesmo e nas obras de suas mãos e nos seus votos cumpridos, mas, em vez disso, deposite sua confiança somente em Cristo. Confiar plenamente em Deus significa também confiar no jeito e método Dele.

Conclusão

Que Deus em Sua infinita graça nos sustente firmes em Sua santa presença para que independentemente das circunstâncias em que nos encontrarmos não deixemos jamais de pôr nosso confiança somente Nele. Que nunca troquemos a Sua Palavra pelos ensinamentos dos homens, mas, que confiemos Nela inteiramente e louvemos a Deus por nos guiar através dela.

[1] Algumas como a ARC e ACF traduzem “altivamente” não em referência aos inimigos, mas, a Deus: “…pois são muitos os que pelejam contra mim, ó Altíssimo”. De fato, temos aqui um substantivo singular e não um advérbio (מָרוֹם). Isto também harmoniza-se mais com os dizeres dos v.1-2 que são uma oração, um clamor a Deus.

[2] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.495.

[3] Ibid, p.496.

[4] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.188.

[5] WIERSBE, 2010, vol.3, p.190.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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