Canções da Alma – 58ª Mensagem

Oração

“Deus Santo e Eterno, cujo Nome é excelso, cuja glória transcende a tudo neste universo. A Ti buscamos em oração suplicando que fales ao nosso coração que necessita da Tua orientação. Não permitas que desviemos nossa atenção, mas, que estejamos atentos à Tua Palavra. Guie-nos, Te pedimos em Nome de Jesus, amém!”.

Debaixo das Asas do Deus Altíssimo

Salmo 57

Introdução

Como eu posso saber se sou maduro ou não na fé? Maturidade cristã não depende do tempo, pois, muitos crentes são “velhos de igreja”, mas, não têm maturidade alguma, ao passo que outros tendo tão pouco tempo de conversão estão experimentando um crescimento espiritual extraordinário. Dois medidores da nossa maturidade espiritual são: a forma como aplicamos a Palavra de Deus às nossas lutas e dilemas, e, também a forma como enfrentamos o sofrimento.

Este salmo fala sobre os sofrimentos de Davi causados por Saul. Enquanto Davi se via ameaçado por Saul e sofrendo por causa disso, ele também experimentou o cuidado de Deus consigo de forma maravilhosa, e, assim, descobriu verdades preciosas para o seu coração enquanto passava por essas lutas. Tomando emprestadas as palavras do v.1 proponho o seguinte tema para nossa meditação enquanto expomos o texto sagrado: “Debaixo das Asas do Altíssimo”.

No Sl 55.6 ele desejou ter “asas como de pomba” para fugir dos inimigos. O Sl 56 foi composto segundo a melodia “A pomba nos terebintos distantes”. Porém, aqui, Davi compreendeu que melhor do que ter asas de pomba e poder fugir é estar sob as asas do Altíssimo.

Contexto

Como o próprio título hebraico deste salmo declara, a ocasião em que Davi o escreveu foi quando ele fugia de Saul e veio a encontrar-se no deserto de En-Gedi (1Sm 24). Ali ele abrigou-se numa caverna com seus soldados. Em determinado momento, Saul que estava no seu encalço, entrou na mesma caverna para defecar, sem saber que Davi estava ali dentro. Seus soldados o incitaram a matar Saul, e Davi num primeiro momento até tentou faze-lo, mas, Deus tocou em sua consciência e ele então nada fez contra Saul, por ser Saul um ungido do SENHOR. Apenas cortou um pedaço do manto de Saul, e quando este saiu da caverna Davi gritou por ele e lhe mostrou que embora tivesse tido a oportunidade de mata-lo (mostrando o pedaço das vestes de Saul para confirmar o que ele dizia) não o fez por respeito a Deus.

Refletindo sobre o que ocorrera naquela caverna e como Deus o livrara de seus inimigos, e também o livrara dele próprio em cometer um pecado contra Deus matando um ungido Dele, Davi tomando uma melodia bem conhecida daqueles dias da qual pouco sabemos, a melodia “Não destruas” (אַל־תַּ֭שְׁחֵת), compôs este belo salmo que me ensina, que debaixo das asas do Deus Altíssimo:

1 – Eu encontro proteção em meio aos perigos, v.1-5

1 Tem misericórdia de mim, ó Deus, tem misericórdia, pois em ti a minha alma se refugia; à sombra das tuas asas me abrigo, até que passem as calamidades.

2 Clamarei ao Deus Altíssimo, ao Deus que por mim tudo executa.

3 Ele dos céus me envia o seu auxílio e me livra; cobre de vergonha os que me ferem. Envia a sua misericórdia e a sua fidelidade.

4 Acha-se a minha alma entre leões, ávidos de devorar os filhos dos homens; lanças e flechas são os seus dentes, espada afiada, a sua língua.

5 Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus; e em toda a terra esplenda a tua glória.

No v.1 vemos que a presença gloriosa e protetora de Deus transforma uma caverna escura e fria no santuário de Deus. A expressão “à sombra das tuas asas me abrigo” aponta para o fato de que a divina proteção por vezes é descrita como uma ave que acolhe debaixo de suas asas seus filhotes. O Senhor Jesus usou essa figura a respeito de Si mesmo e de Jerusalém (Mt 23.37). Mas aqui também somos remetidos para o tabernáculo de Moisés, no qual estava a Arca da Aliança, símbolo da presença de Deus. Sobre a tampa da Arca, o propiciatório, ficavam dois querubins com suas asas estendidas e entrelaçadas (cf. Êx 25.17-20). Assim, o que Davi está dizendo aqui é que mesmo desejando estar no templo do SENHOR, ele sabia que Deus estava ali com ele, e, por isso, estava protegido e abrigado. Ele clamava pela misericórdia de Deus, e em Deus ele se refugiava “até que passem as calamidades”.

Nestes tempos que Davi chamou de “calamidades” ele resolveu firmemente em seu coração clamar ao “Deus Altíssimo”, de quem ele diz que é o “Deus que por mim tudo executa” (v.2). O verbo “executar” (גֹּמֵ֥ר) no hebraico tem o sentido de “cumprir”. E assim Davi descansava em Deus por saber que Deus cumpriria em sua vida o que havia prometido, a saber, se tornar o rei de Israel. Por essa razão Davi não matou Saul mesmo tendo todas as oportunidades como esta que teve na caverna em En-Gedi.

Davi sabia que Deus não o desampararia. Pelo contrário “dos céus me envia o seu auxílio e me livra” (v.3). Na misericórdia e na fidelidade de Deus ele esperava. Ele se via cercado por inimigos a quem ele comparou a “leões, ávidos de devorar os filhos dos homens” (v.4). O contraste entre o seu Socorro e os seus inimigos é imensurável. Se os inimigos são como bestas selvagens, o seu Socorro vem dos céus, é o próprio Deus.

O v.5 que juntamente com o v.11 formam o refrão deste salmo, apontam para o fato de que toda a investida contra um filho de Deus para lhe fazer mal, é antes de tudo um ataque à glória de Deus. Por esta razão Davi não tocou em Saul, e por esta razão ele clamou a Deus que Se exaltasse acima dos céus e revelasse em toda a terra a Sua excelsa glória.

Aplicação v.1-5: Sim, é na glória de Deus que devemos esperar. É Dele que virá o nosso socorro. Só Deus pode transformar qualquer situação de angústia e aperto em algo maravilhoso para nós. “Em casa ou gruta, boa ou ruim, é céu ali, com Cristo em mim” (NC – Hino 102). A nossa proteção não está num lugar, mas, sim na presença de Deus. No Sl 56 relata que Davi estava no palácio de Aquis, rei de Gate, onde ele se sentia ameaçado; ali naquela gruta ele estava protegido porque Deus era a sua proteção. Só em Deus nossa alma estará verdadeiramente protegida e abrigada. O coração que se abriga em Deus não terá necessidade de outro obrigo.

Debaixo das asas do Deus Altíssimo   

2 – Eu desfruto da verdadeira alegria, v.6-9

6 Armaram rede aos meus passos, a minha alma está abatida; abriram cova diante de mim, mas eles mesmos caíram nela.

7 Firme está o meu coração, ó Deus, o meu coração está firme; cantarei e entoarei louvores.

8 Desperta, ó minha alma! Despertai, lira e harpa! Quero acordar a alva.

9 Render-te-ei graças entre os povos; cantar-te-ei louvores entre as nações.

Os inimigos haviam trazido intensa dor e angústia a Davi. Armaram redes e laços para prendê-lo como um passarinho. Sua alma estava abatida. Mas, porque ele confiou em Deus em vez de fazer justiça com suas próprias mãos, Davi testemunhou seus inimigos caindo nas próprias covas que eles abriram para que ele caísse (v.6).

Enquanto seus inimigos vacilavam e caíam, ele podia dizer de si mesmo: “Firme está o meu coração, ó Deus, o meu coração está firme, cantarei e entoarei louvores” (v.7). A palavra “firme” quer dizer “preparado, assentado” e aponta para a inabalável confiança que Davi depositava em Deus, a qual ele dá ênfase repetindo-a duas vezes aqui. E o resultado imediato dessa plena confiança em Deus foi um louvor espontâneo “cantarei e entoarei louvores”. O coração que descansa confiante em Deus terá louvores jorrando de seus lábios.

No v.8 lançando mão de uma linda poesia, Davi declara o ardor e desejo de seu coração em louvar a Deus. Em vez dele ser acordado pelo raiar do dia, ele queria antecipar o alvorecer com louvores a Deus. Com o saltério (hinário) e a harpa em suas mãos, sua alma exalta louvando a Deus. Tanto com instrumentos musicais, quanto com a sua voz, Davi queria mostrar a todos quão grande era o Seu Deus, e por isso mesmo disse: “Render-te-ei graças entre os povos; cantar-te-ei louvores entre as nações” (v.9).

A alegria que toma conta de um coração que louva a Deus é algo que extravasa, que se torna notória. Por mais abatido que Davi estivesse, a partir do momento que ele voltou-se para a glória de Deus e para a Sua beleza, seu abatido coração tornou-se exultante e jubiloso, tomando por profunda e intensa alegria.

Aplicação v.6-9: Um coração firme é aquele que se apega às promessas de Deus. A um coração firmado nas promessas de Deus não faltarão motivos para louva-Lo; será verdadeiramente alegre e feliz. A alegria do SENHOR é a nossa força (Ne 8.10). A verdadeira alegria só pode ser encontrada e desfrutada quando nos rendemos em adoração a Deus louvando o Seu excelso nome.

Por fim, debaixo das asas do Deus Altíssimo

3 – Eu conheço mais do caráter de Deus, v.9-10

10 Pois a tua misericórdia se eleva até aos céus, e a tua fidelidade, até às nuvens.

11 Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus; e em toda a terra esplenda a tua glória.

Novamente Davi fala da misericórdia e fidelidade de Deus. O que ele está nos dizendo aqui no v.10 é que é impossível medirmos a misericórdia e a fidelidade de Deus. Escapam totalmente à nossa compreensão a misericórdia e a fidelidade Dele, e isso deve nos levar a confiarmos ainda mais Nele. A misericórdia e a fidelidade de Deus são os principais motivos para louvá-Lo, e através desses dois atributos podemos conhece-Lo ainda mais. Por Sua misericórdia Ele se dispõe a socorrer pecadores indignos como nós; por Sua fidelidade Ele nos garante que jamais nos deixará à mercê dos inimigos e das circunstâncias de dor e sofrimento.

Repetindo o refrão do v.5, aqui no v.11 Davi apresenta outra conotação para essas palavras. Matthew Henry argumenta que aqui Davi está expressando o seu desejo de que Deus glorifique o Seu próprio Nome, pois, ainda que todos as criaturas o façam, quem melhor que o próprio Deus poderia fazê-lo? Nos louvores da Igreja triunfante, Deus é exaltado nos céus; nos louvores da igreja militante, Deus é exaltado na terra[1].

Aplicação v.10-11: Os nossos momentos de tribulação são momentos singulares para conhecermos mais do caráter misericordioso e fidedigno de Deus. Sim, nesses momentos experimentamos a misericórdia de Deus cuidando de nós de forma tão explícita que veremos com ainda mais clareza a Sua fidelidade.

Conclusão

Não há melhor lugar para estarmos do que debaixo dos cuidados de Deus. Não importam as circunstâncias, nem mesmo os recursos que temos, somente Deus pode dar ao nosso coração a proteção e a alegria que necessitamos. Não há refúgio melhor que as asas do Deus Altíssimo. Para aqueles que Nele se refugiam nenhuma outra proteção é necessária e satisfatória.

[1] Cf. HENRY, 2010, vol.3, p.411.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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