Canções da Alma – 59ª Mensagem

Oração

“Eterno, Santo e Todo-Poderoso Deus. Queremos conhecer mais de Ti, hoje para que O amemos ainda mais, O sirvamos com maior dedicação, e tenhamos toda esperança em Ti. Guie-nos pela Tua Palavra; guie-nos com a Tua Palavra. Assim oramos, em nome de Jesus Cristo, amém!”.

Há Um Deus Que Julga na Terra

Salmo 58

Introdução

Abrir os jornais e assistir aos noticiários e nos depararmos com a injustiça que vigora em nosso mundo, de fato é algo que nos causa grande tristeza e até revolta. Vermos políticos que foram eleitos pelo povo para cuidarem do nosso país, mas, que estando no poder trabalham em benefício próprio, e quando são acusados por seus crimes por alguns poucos juízes que buscam justiça, esquivam-se e usam de subterfúgios sórdidos para se defenderem, e na maioria das vezes conseguem escapar da punição, faz-nos ficar revoltados. Mas, não podemos jamais nos esquecer das palavras finais deste salmo, as quais eu tomarei como tema para nossa meditação nesta ocasião: “Há um Deus que julga a terra”.

Contexto

A situação deplorável dos nossos dias não é nem um pouco diferente dos dias de Davi e da ocasião em que ele escreveu este salmo. Durante os anos que Davi passou no exílio, o rei Saul afundou Israel numa situação deplorável política e espiritualmente, levando o povo para longe da Lei do SENHOR Deus. Cercado por um grupo de homens bajuladores e inescrupulosos, Saul teve seu ego alimentado e seus caprichos satisfeitos (veja p.ex. 1Sm 22.6ss). Saul colocou em cargos de autoridade pessoas que usavam sua posição em benefício próprio que pouco ou nada se importavam com o bem de Israel e com a glória de Deus. Tais pessoas vendo que o reino estava deteriorando, apressavam-se a tirar o máximo de proveito possível do mesmo. O próprio Davi, a quem Deus escolhera e ungira como o próximo rei de Israel estava sendo tratado com injustiça e desrespeito às leis.

As Escrituras nos relatam várias situações em que profetas do SENHOR Deus pregaram contra líderes ilegítimos e ímpios (Is 1.23-28; 5.22-25; 10.1-4; Am 5.7-13; Mq 3.1-4, 9-12; 7.1-6). Este salmo nos leva a refletir sobre a crise na liderança, quer seja a liderança de nossa nação, de nossa igreja ou do nosso lar, porque toda injustiça haverá de ser julgada por Deus.

O Deus que julga na terra

1 – Revela o caráter dos ímpios, v.1-5

1 Falais verdadeiramente justiça, ó juízes? Julgais com retidão os filhos dos homens?

2 Longe disso; antes, no íntimo engendrais iniquidades e distribuís na terra a violência de vossas mãos.

3 Desviam-se os ímpios desde a sua concepção; nascem e já se desencaminham, proferindo mentiras.

4 Têm peçonha semelhante à peçonha da serpente; são como a víbora surda, que tapa os ouvidos,

5 para não ouvir a voz dos encantadores, do mais fascinante em encantamentos.

Não temos condições e jamais devemos julgar as intenções de um coração. Mas, quando suas intenções são expostas por meio de palavras e ações então se tornam conhecidas, e, por isso podem ser julgadas. Deus revela as intenções dos corações. Por isso mesmo mostrou ao Seu servo Davi o caráter dos juízes iníquos que julgavam as causas do povo.

Nos v.1-2 vemos as ações que revelam as intenções. Davi dirigiu-se aos “juízes” do povo e numa pergunta retórica os questiona se de fato estavam falando “verdadeiramente a justiça”, se estavam julgando “com retidão os filhos dos homens” (v.1). Eles se calavam quando deveriam falar, e quando falavam ignoravam a Lei de Deus. A resposta que ele dá no v.2 é contundente: “Longe disso”, ou seja, eles estavam agindo justamente ao contrário do que deveriam agir. Tanto no seu “íntimo”, isto é, nas suas intenções, como nas “suas mãos”, ou seja, suas ações, eles espalhavam a violência sobre a terra. O julgamento que davam às questões incitava ainda mais a violência dos perversos, tanto por causa da impunidade quanto por causa do lucro que os perversos obtinham. Nada pode ser mais desastroso para uma nação do que a impunidade de criminosos e perversos. Isso tanto incentiva mais injustiça, violência e perversidade, quanto desestimula aqueles que querem viver honestamente. É neste momento que devemos ficar ainda mais firmes em nosso propósito de fazer a vontade de Deus, porque a nossa esperança não está nos homens, mas, em Deus somente.

Nos v.3-5 vemos o caráter corrupto dos ímpios. O v.3 traz uma revelação bombástica. A corrupção de um coração não é algo que aparece com o decorrer dos anos ou com o convívio com outros corruptos; pelo contrário, a corrupção que existe neste mundo é culpa nossa, e fomos nós que a trouxemos quando viemos a este mundo. Somos corruptos desde a concepção e logo após o nascimento (veja também Sl 51.5). Os verbos “desviar” e “desencaminhar” mostram que o pecado faz parte da natureza do homem. Nenhum pai crente sentou-se com seu filho pequeno e lhe deu uma aula sobre “como mentir sem ser pego na mentira”, mas, num determinado dia pegou seu filho pequeno que mal conseguia dizer algumas palavras, mentindo com a maior naturalidade. É justamente isso que o v.3 está dizendo.

Nos v.4-5, usando a figura de uma serpente para descrever o comportamento maligno desses juízes, Davi mostra que em vez de serem um remédio, um bálsamo para as pessoas que sofriam com a maldade alheia, esses juízes eram como víboras venenosas, tinham “peçonha semelhante à peçonha da serpente”. As víboras são surdas, elas agem e reagem pelo movimento das coisas. O que Davi está dizendo aqui é que esses juízes não ouviam o clamor das pessoas, mas, estavam atentos às circunstâncias para extraírem o maior lucro possível em benefício próprio.

Aplicação v.1-5: Não importa o quanto a sociedade se deteriore moralmente diante de nossos olhos; como filhos de Deus temos o dever de nos mantermos em retidão e comportarmo-nos com honestidade e justiça diante dos homens. Devemos revelar neste mundo o caráter de Deus em nós. Não agimos de acordo com as circunstâncias, mas, de acordo com a vontade diretiva de Deus revelada em Sua Palavra. Ele nos deu um novo coração quando nos converteu a Si, por esta razão, ainda que nós tenhamos nascido nas mesmas condições de pecado que todos os outros seres humanos, somente nós, os filhos de Deus recebemos uma nova natureza espiritual capaz de vencer o pecado e de nos fazer agir com justiça.

O Deus que julga na terra também,    

2 – Pune severamente os ímpios, v.6-9

6 Ó Deus, quebra-lhes os dentes na boca; arranca, SENHOR, os queixais aos leõezinhos.

7 Desapareçam como águas que se escoam; ao dispararem flechas, fiquem elas embotadas.

8 Sejam como a lesma, que passa diluindo-se; como o aborto de mulher, não vejam nunca o sol.

9 Como espinheiros, antes que vossas panelas sintam deles o calor, tanto os verdes como os que estão em brasa serão arrebatados como por um redemoinho.

Estes versos são aquilo que chamamos de imprecatórios. Num primeiro olhar nos causa estranheza encontrarmos na Bíblia palavras como essas em que um servo de Deus, neste caso Davi, expressa o seu desejo de ver os ímpios serem severamente punidos. Como já pudemos ver em outros salmos imprecatórios, o que deve ficar evidente para nós aqui é que o salmista está entregando a Deus o seu desejo de ver a justiça ser feita. Ele não quer uma vingança, mas, sim, que a santidade de Deus contra a qual todo pecado é uma afronta, seja vindicada (cf. Rm 12.19). Existe uma ira justa que deve sempre se manifestar quando indefesos são injustiçados (ver Ef 4.26-27). É importante observarmos que Davi não colocou em prática nenhuma dessas coisas que ele desejou contra os juízes iníquos, antes ele esperou em Deus que esses atos de justiça fossem executados.

Usando algumas figuras de linguagem, Davi nos mostra como o juízo de Deus contra os ímpios é algo severo:

  • 6 quebrar os dentes e arrancar os queixais dos leõezinhos significa tirar limitar os meios pelos quais os ímpios causam males aos mais fracos e indefesos.
  • 7 as águas escoando podem ser destruidoras e devastarem muitas coisas com suas correntezas, mas, uma vez absorvidas pelo solo nada podem fazer de mal. Da mesma forma acontece aos ímpios, pois, quando Deus exercer Seu juízo contra eles não mais poderão fazer mal a ninguém e desaparecerão como água numa terra seca. Que as flechas deles sejam encontradas quebradas quando eles forem atirá-las, e assim, não causassem dano algum. O desejo de Davi aqui que a justiça de Deus viesse a frustrar os intentos dos ímpios – e só Deus pode fazer isso!
  • 8 a lesma que se dissolve e o aborto e o aborto de uma mulher trazem a mesma ideia: que os ímpios vejam que sua existência é evanescente e desprezível. Uma lesma que em deixando o seu rastro está deixando partes de si mesma se desgastando aos poucos, e um aborto que jamais verá a luz do sol são figuras que mostram o quão insignificantes são os ímpios arrogantes que olhando para si se julgam grandes e poderosos. Com a mesma rapidez com que eles crescem em poder e em glória humana também cairão e se desfarão diante de Deus.
  • 9 os espinheiros no fogo transmitem a mesma ideia de algo evanescente e frágil. Tão rápido eles são consumidos no fogo que nem mesmo chegam a aquecer a panela, e as suas cinzas são espalhadas facilmente pelo vento. Quem já usou um fogão à lenha sabe muito bem que existem dois tipos de lenha para manter o fogo: um que é de combustão rápida (palha, cascas de árvore, gravetos) e outro que é de combustão mais lenta e duradoura (toras de árvore).

Aplicação v.6-9: Diante da injustiça que encontramos em nossa sociedade e da arrogância com que as autoridades ímpias se nos apresentam, devemos ter sempre em mente que: (1) a maldade deles não é permanente, (2) eles serão severamente punidos por Deus ainda que nos pareça demorada a justiça de Deus, (3) adotarmos uma postura passiva não significa frouxidão de nossa parte, mas, sim, que não estamos tirando de Deus o direito que Ele tem de fazer justiça, e, por isso mesmo confiamos Nele. Somente Nele deve estar a nossa esperança e o nosso desejo de justiça.

O Deus que julga na terra, por fim

3 – Alegra o justo verdadeiramente, v.10-11

10 Alegrar-se-á o justo quando vir a vingança; banhará os pés no sangue do ímpio.

11 Então, se dirá: Na verdade, há recompensa para o justo; há um Deus, com efeito, que julga na terra.

Aqui no v.10 novamente nos deparamos com a questão: como pode um filho de Deus que foi chamado para exercer misericórdia alegrar-se em banhar os seus pés no sangue do ímpio? Precisamos entender o contexto militar do qual Davi tirou essa figura.

Nas guerras naqueles tempos, o exército vencedor entrava nas cidades dos inimigos vencidos para espolia-los e levar os despojos da guerra. Os soldados vencedores andando sobre os cadáveres dos inimigos derrotados ficavam com seus pés sujos pelo sangue deles. O que deve ficar em evidência aqui é a alegria da vitória concedida por Deus. É claro que nunca devemos nos alegrar com a desgraça de quem quer que seja. Mas, também não podemos deixar de nos alegrar com o livramento que Deus nos der, e, se Ele nos livrar das mãos de nossos inimigos, certamente isso será maravilhoso para nós, ao passo que para os inimigos, o juízo de Deus será algo terrível. Como Calvino nos lembra, devemos nos regozijar em sermos testemunhas dos poderosos feitos de Deus quando Ele vem vindicar a Sua glória sobre os ímpios pecadores e arrogantes que passaram a sua vida toda zombando Dele.

No v.11 vemos que não somente nós testemunharemos os poderosos feitos de Deus, mas, muitos outros constarão essas duas verdades:

  • “há recompensa para o justo”: a recompensa para aqueles que ficam firmes em sua confiança em Deus é que o próprio Deus virá julgar a sua causa. Que recompensa maior poderíamos esperar? O fato de saber que este Deus que é justo, que conhece as intenções dos corações e revela o caráter dos homens, e por isso mesmo pune severamente os ímpios, Ele próprio haverá de julgar a nossa causa, deve nos levar a descansar em Sua Palavra e a esperar o Seu tempo de agir. Ele próprio nos prometeu saciar a nossa fome e sede de justiça, se o nosso desejo for glorifica-Lo acima de tudo (Mt 5.6).
  • “há um Deus, com efeito, que julga na terra”. Observe que Davi disse que Deus “julga na terra” e não “julga a terra”. As pessoas têm a ideia de que o trono de Deus está somente no céu, e que Ele julgará as pessoas quando estas comparecerem diante Dele um dia. Ainda que isso em partes seja verdadeiro é importante observarmos que o trono Dele está nos céus, mas, Seu juízo está em todos os lugares e é na terra que Ele exerce Sua justiça.

Aplicação v.10-11: Essas duas verdades apontam para o fato que as recompensas para o justo e punições para os ímpios não estão confinadas somente à eternidade, mas, já começam a ser experimentadas nesta vida. Tanto a recompensa para os justos quanto a punição para os ímpios nesta vida são apenas um breve reflexo do que haverá de ser na eternidade. Nos v.6-9 todas aquelas punições descritas ali para os ímpios são para essa vida. Sendo elas um breve reflexo, o que haverão de ser as punições para os ímpios na eternidade? Sendo a certeza que o justo tem de que Deus julgará a sua causa um breve reflexo do que haverá de ser sua recompensa na eternidade, como deverá ser essa recompensa?

Conclusão

Irmãos, ainda que a impiedade e a injustiça estejam presentes de forma estarrecedora em nossas vidas, jamais devemos perder de vista a verdade de que há um Deus que com certeza julga na terra. Ele fará justiça pelos Seus filhos. A parte que nos cabe é andar em justiça. Deseje que a justiça de Deus seja executada neste mundo, mas, tenha certeza também de você mesmo estar vivendo de forma condizente com essa justiça.

 

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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