Canções da alma – 5ª Mensagem

Canções da Alma
Uma Exposição do Livro dos Salmos
Salmo 6
Orando a Deus Pedindo Cura

Contextualização

Este salmo é uma oração que foi transformada em um cântico. A ocasião em que ele foi escrito pode não ter sido a mesma quando os fatos aqui descritos aconteceram. Tudo nos leva a crer que Davi posteriormente refletindo na provação que passara e na oração que ele fizera na ocasião pedindo a Deus que o curasse (v.1-7), e na resposta que obtivera do SENHOR Deus (v.8-10), compôs esse belíssimo salmo o qual influenciou outras partes das Escrituras, como por exemplo, a oração do rei Ezequias louvando a Deus quando recebera Dele a cura de sua enfermidade (Is 38.9-20) na qual há muita semelhança com este salmo.

Em nossos dias, por causa dos exageros e distorções que muitos grupos religiosos fazem com relação aos milagres de Deus, infelizmente, caímos no outro extremo, o de pouco falarmos sobre a graça e a bondade de Deus em curar aqueles que O buscam por conta de uma enfermidade. Se a banalização do milagre é um grave erro, a omissão em falar do mesmo também o é. Como diz aquele adágio popular: “Ao jogarmos a água suja da banheira não devemos jogar a criança também”. Por isso, devemos recorrer ao que a Palavra de Deus nos ensina sobre a cura divina.

Aqui neste salmo Davi descreve seu estado de enfermidade. Não sabemos qual era a sua doença, ou se a tristeza que ele sentia era tão forte e profunda, que, a dor refletia no mais no mais íntimo do seu ser, lá nos seus ossos. Só sabemos que em meio a essa dor intensa ele orou ao SENHOR Deus e clamou por cura. Assim sendo o assunto desse salmo e o tema da nossa meditação é: Orando a Deus pedindo cura.

E observando a postura de Davi enquanto orava a Deus pedindo cura, podemos destacar e aplicar os seguintes princípios quando orarmos a Deus pedindo a cura de alguma enfermidade. Quando você orar a Deus pedindo a cura de uma enfermidade:

1) Clame pela misericórdia de Deus, v.1-3

Exposição v.1-3: “SENHOR, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor. 2 Tem compaixão de mim, SENHOR, porque eu me sinto debilitado; sara-me, SENHOR, porque os meus ossos estão abalados. 3 Também a minha alma está profundamente perturbada; mas tu, SENHOR, até quando?”.

No v.1 Davi demonstra que sabia o seu lugar diante de Deus. Ao clamar a Deus para que não o repreendesse em Sua ira e nem o castigasse em Seu furor, ele esta declarando duas verdades: (1) Deus é santo e vindica a Sua glória. Davi não está a apresentar Deus como um ser cheio de ira e fúria desproposital, mas, sim, como o Deus que não pactua com a imundícia do pecado e tem total aversão ao mesmo. Assim sendo, Davi também mostra que (2) ele era um pecador e que merecia ser tratado com todo o rigor da Lei. Contudo, ele apela para o Deus que está acima da Lei, O qual estabeleceu a Lei e pode aplica-la ou não, de acordo com o Seu querer. Deus está acima da Sua Lei. A Lei foi estabelecida para nós, e diferentemente de nós que estabelecemos nossas leis por meio de convenções, ou seja, acordos entre seres iguais, cujas leis se aplicam a todos os homens iguais a nós, a Lei de Deus foi estabelecida por Ele sem que tivesse havido alguma convenção celeste na qual Deus teve de concordar com alguém semelhante a Ele.

Por isso, mesmo Davi clama pela compaixão de Deus. Ele se sentia “debilitado”, enfraquecido, e por isso mesmo se a ira de Deus se manifestasse contra ele o destruiria por completo. Mas, o mesmo Deus que tem todo poder para executar justiça plena também tem todo o poder para sarar, curar aquele que humildemente clama por Seu socorro e misericórdia. Somente o poder de Deus seria capaz de atingir o mais profundo do seu ser e revigora-lo, fortalece-lo de dentro para fora. A enfermidade de Davi fazia com que sua alma estivesse “profundamente perturbada”, e nessa angústia ele perguntava a Deus “SENHOR, até quando?”. Com isso ele não estava questionado os propósitos de Deus, mas, sim, demonstrando sua aflição.

Em momento algum Davi esqueceu-se que era um pecador, e por isso mesmo sabia que Deus tinha todo o direito de vindicar nele Sua santidade. Um pecador que trazia em seu coração a certeza de que seu pecado estava causando todo este sofrimento. É claro que nem toda enfermidade é resultado de pecado. Como afirma William MacDonald(1):

“Davi interpretou sua enfermidade como disciplina de Deus por algum pecado. Quando ficamos doentes, muitas vezes a mesma ideia nos passa pela mente. Há ocasiões em que esse diagnóstico é correto: algumas enfermidades são, de fato, causadas por pecados não confessados na vida do cristão (1Co 11.30), mas nem sempre é o caso. Com frequência, Deus permite enfermidades para mostrar seu poder e glória (Jo 9.3; 11.4), para produzir frutos espirituais (Rm 5.3), para evitar o pecado (2Co 12.7), ou em resultado natural do excesso de trabalho (Fp 2.30) ou da velhice (Ec 12.3-6)”.

Aplicação v.1-3: Quando você orar a Deus pedindo a cura de uma enfermidade você precisa clamar pela misericórdia de Deus porque você é um pecador. Por isso mesmo, investigue seu coração e veja se existe algum pecado não confessado e não abandonado. Se a sua enfermidade for resultado de um pecado não confessado, não haverá remédio neste mudo capaz de curá-lo. Os males do pecado são extirpados somente mediante confissão e perdão. Também você deve pedir a Deus que cumpra os propósitos Dele em meio a essa enfermidade. Depois disso, busque a ajuda de um médico. Deus tanto pode curar você com ou sem a ajuda da medicina. Fazer uso da medicina dessa forma não é falta de fé, mas, sim, colocar tudo no seu devido lugar, isto é, primeiramente você deve buscar a Deus.

Orando a Deus pedindo a cura de uma enfermidade

2) Confie na misericórdia de Deus, v.4-7

Exposição v.4-7: “4 Volta-te, SENHOR, e livra a minha alma; salva-me por tua graça. 5 Pois, na morte, não há recordação de ti; no sepulcro, quem te dará louvor? 6 Estou cansado de tanto gemer; todas as noites faço nadar o meu leito, de minhas lágrimas o alago. 7 Meus olhos, de mágoa, se acham amortecidos, envelhecem por causa de todos os meus adversários”.

No v.3 Davi pergunta: “SENHOR, até quando?”, pois, sentia que Deus estava distante dele. Mas, em vez de se revoltar contra Deus, Davi clama a Deus pedindo-Lhe que Se voltasse em sua direção e livrasse a sua alma salvando-o exclusivamente por Sua infinita graça (misericórdia). A palavra aqui no hebraico é hesed e significa “benignidade, amor firme, graça, misericórdia, fidelidade, bondade, devoção”, sendo um dos termos mais importantes no vocabulário da teologia do Antigo Testamento. O significado de hesed deve sempre comunicar “força, firmeza e amor” de Deus para com os Seus filhos socorrendo-os em suas aflições. Se encontrarmos um significado que não contemple essa ideia, então estará errado(2).

João Calvino comentando este versículo afirma(3):
“Os homens jamais encontrarão um antídoto para suas misérias, enquanto, esquecendo se de seus próprios méritos, diante do fato de que são os únicos a enganar a si próprios, não aprenderem a recorrer à misericórdia gratuita de Deus”.

Qualquer esperança em nossos recursos não devem jamais suplantar nossa esperança na graça de Deus, bem como também jamais deverá vir antes da nossa esperança na bondade e fidelidade de Deus. Como já afirmamos, devemos utilizar os recursos que temos, mas, nunca permitir que a arrogância tome nosso coração a ponto de acharmos que nos bastamos para nós mesmos. Quem deixa de confiar na graça de Deus, não somente está perdendo o maior tesouro que pode ter, como também, pior ainda, estará zombando de Deus.

No v.4 precisamos tomar cuidado para não cairmos em erro teológico com relação à nossa existência após a morte. Davi tão somente está afirmado aqui que um cadáver não pode louvar a Deus porque está morto. Ele não está dizendo que após a morte o nosso espírito entra num estado de dormência ou mesmo de aniquilação como afirmam várias seitas heréticas. O que Davi está dizendo aqui para Deus é: “Senhor Deus, se eu morrer não poderei mais contar às pessoas sobre Seus poderosos feitos”.

Nos v.6-7, Davi abre o seu coração diante de Deus e relata-Lhe a sua dor e angústia. Isso ele fez não porque Deus não o soubesse. Aliás, essa é uma questão que muitos que não creem plenamente na soberania de Deus levantam: “Se Deus já sabe, porque então orar?”. Três motivos respondem a essa questão:

 Oração é uma ordem de Deus. Oração não é só um benefício que podemos ou não desfrutar; é também uma ordem que devemos acatar, e quando não a cumprimos estamos pecando. Se Deus nos ordena apresentarmos a Ele tudo em oração, não nos resta outra ação a não ser obedecê-Lo;
 Oração nos ajuda a ver quem somos e quem Deus é. Enquanto estamos ali na presença de Deus em oração apresentando-Lhe nossos pedidos, além de estarmos expressando nossa confiança em Deus, também estamos admitindo nossa total incapacidade e impotência para resolver nossos problemas.
 Deus determinou que certas bênçãos só seriam concedidas a nós mediante a oração. Foi o Pr. John Piper que fez tal afirmação. E concordo plenamente com ele. Muitas bênçãos nos são concedidas sem termos feito qualquer pedido a Deus; porém, outras, só serão recebidas se pedirmos a Ele, porque assim Ele determinou.

Davi abriu seu coração diante de Deus e expressou sua profunda tristeza e dor. Já estava cansado de gemer  anaha , que indica que ele estava ofegante, exaurido em suas forças. Suas noites eram marcadas pelo pranto, seu leito estava encharcado por suas lágrimas, e os seus olhos estavam “amortecidos”, isto é, ofuscados. “A tristeza que domina a mente facilmente segue sua rota rumo aos olhos, e seguindo essa via concretamente se revela”(4).

Aquele que outrora experimentara o sono tranquilo resultante do cuidado de Deus (Sl 3.5; 4.8) agora, passava por dias difíceis e noites mal dormidas. Sua enfermidade causava esse desconforto e, ao mesmo tempo esse desconforto agravava ainda mais sua enfermidade, numa constante retroalimentação de sua dor. E para piorar sua dor, seus adversários motejavam dele. Contudo, Davi confiava na misericórdia de Deus, e sabia que a Seu tempo Ele viria em socorro de Seu servo.

Aplicação v.4-7: Quando você estiver passando por aflições, quando você sentir que suas forças se esvaíram e o seu vigor secou, quando você olhar ao redor e seus olhos ofuscados pelas lágrimas verem os inimigos zombando de você e colocando em dúvida o cuidado de Deus contigo, confie na misericórdia de Deus. Mais importante quanto vencer a luta é desfrutar da doce e poderosa companhia de Deus em meio à luta.

Por isso mesmo, quando você orar a Deus pedindo a cura de alguma enfermidade

3) Testemunhe da misericórdia de Deus, v.8-10

Exposição v.8-10: “8 Apartai-vos de mim, todos os que praticais a iniquidade, porque o SENHOR ouviu a voz do meu lamento; 9 o SENHOR ouviu a minha súplica; o SENHOR acolhe a minha oração. 10 Envergonhem-se e sejam sobremodo perturbados todos os meus inimigos; retirem-se, de súbito, cobertos de vexame”.

Deus promete grandes e incontáveis bênçãos àqueles que sinceramente (como fez Davi) O buscarem em oração. A primeira dessas bênçãos é a certeza de que Ele ouve nossas orações. Davi faz três declarações importantes sobre sua certeza de que Deus ouviu suas orações:
 “…porque o SENHOR ouviu a voz do meu lamento”;
 “o SENHOR ouviu a minha súplica”;
 “o SENHOR acolhe a minha oração”.
Sua ação diante de Deus é descrita como lamento, súplica e oração, e a ação de Deus respondendo-lhe é descrita nos termos “ouvir e acolher”. Deve haver em nossas orações lamento e súplica, pois, esses dois não somente revelam a nós mesmos a necessidade que temos da misericórdia de Deus, como também revelam aos olhos dos homens (mesmo nossos adversários) o quanto nós necessitamos e dependemos de Deus.

A essa oração necessitada e suplicante Deus ouve e acolhe, ou seja, Ele toma sobre Si o fardo que está sobre nós. O profeta Isaías falando da obra do Messias declara justamente isso: “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si” (Is 53.4).

Allan Harman(5) lembra-nos que no começo desse salmo era Davi que se encontrava na mais profunda perturbação a qual era agravada pela zombaria de seus inimigos, mas, agora, ao final do mesmo, são os seus inimigos que sofrem essa perturbação enquanto ele é ternamente amparado e fortalecido por Deus que ouviu e acolheu suas orações. Davi não está aqui desejando o mal aos seus adversários, mas, sim, declarando que Deus lhe fará justiça e que retribuirá aos seus inimigos conforme os feitos deles – se fizeram o mal, o mal colheriam; zombaram do servo de Deus e do próprio Deus desacreditando-O diante das pessoas, consequentemente, Deus vindicaria a Sua glória sobre eles. Também o fizera sobre Davi como pudemos ver no v.1, mas, para com este Deus revelou Sua misericórdia. O mesmo não acontecerá com os adversários. Em tudo isso, testemunharemos a misericórdia de Deus.

Aplicação v.8-10 Quando você orar a Deus e for atendido por Ele, testemunhe às pessoas, distinga-se dos malfeitores e perversos, aparte-se deles, mas, não deixe de mostrar-lhes o que Deus fez por você, para que em tudo isso Deus seja glorificado e eles saibam do pecado deles, e, quem sabe, arrependidos se voltem para Deus que é misericordioso e estende a Sua mão àqueles que por Ele clamam sinceramente.

 

Conclusão

Deus é misericordioso. Só Ele pode curar-nos das nossas enfermidades, restaurar-nos espiritualmente. Tão somente o que precisamos é pedir, confiar e testemunhar de Sua misericórdia neste mundo. Que ele nos ajude a assim vivermos. Amém!

______________________

(1) MACDONALD, 2011, vol.1, p.375
(2) VINE, 2002, p.183.
(3) CALVINO, 1999, vol.1, p.128.
(4) Ibid, 1999, vol.1, p.130.
(5) HARMAN, 2011, p.88.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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