Canções da Alma – 60ª Mensagem

Oração

“Rocha Eterna da nossa salvação, Deus Todo-Poderoso e misericordioso diante de quem nos apresentamos agora em oração. A Ti clamamos por graça e misericórdia reconhecendo que nada há em nós que seja digno do Teu amor. Mas, pelos méritos de Cristo Jesus, Teu Filho, ouça-nos, pois, esperamos de Ti a instrução para o nosso coração. Em nome de Jesus, amém!”.

Deus é o Meu Alto Refúgio

Salmo 59

Introdução

As lutas que passamos nesta vida são oportunidades valiosas para mostrarmos a nossa confiança em Deus. Deveríamos ter menos pressa de sairmos das tribulações, pelo menos não antes de testemunharmos o que Deus tem feito por nós e de professarmos a nossa fé Nele assim como fez Davi neste Salmo quando ele declarou não menos que três vezes que Deus era o seu “alto refúgio”. Tomarei essa declaração feita nos v.9, 16 e 17 como tema para a exposição bíblica nesta ocasião: Deus é o Meu Alto Refúgio.

Por “refúgio” aqui devemos entender “abrigo”, “fortaleza”. Deus não é só mais um dos abrigos aos quais podemos recorrer em tempos de aflição; Ele é o único abrigo real para nós. Quem tem a Deus como seu refúgio não precisará de outro refúgio. Tal como a águia que faz seu ninho no mais alto monte longe dos predadores, assim é aquele que confia em Deus, pois, estará no mais alto refúgio em plena segurança.

Contexto

O contexto deste Salmo é 1Sm 19.1-17 que narra a primeira tentativa de Saul em matar Davi com as suas próprias mãos – antes ele havia tramado para que Davi morresse numa das guerras contra os filisteus (cf. 1Sm 18.17-19). Estando Davi tocando sua harpa na presença do rei Saul, este tomado por um espírito maligno atirou sua lança contra Davi para mata-lo, mas, Davi escapou (v.10). Saul colocou guardas para vigiarem Davi aquela noite para poder mata-lo pela manhã. Porém, Mical, esposa de Davi e filha de Saul, o ajudou a fugir naquela noite, e colocou sobre a cama um ídolo que ela tinha, com um pedaço de pele de cabra na cabeça do ídolo, e quando os soldados vieram levar Davi, ela disse que ele estava doente. Mas, Saul mandou que o trouxessem mesmo daquele jeito, foi quando constataram que foram enganados por Mical. Esta, porém, quando Saul lhe perguntou por qual razão ela fizera isso, mentiu novamente dizendo que Davi a havia obrigado fazer isso senão ele a mataria (v.17).

E assim, como nos mostra o título deste Salmo “Hino de Davi, quando Saul mandou que lhe sitiassem a casa para o matar”, Davi viu nessa circunstância de perigo e ameaça à sua vida, a proteção real que Deus lhe deu. Seríamos nós capazes de louvar a Deus mesmo em circunstâncias tão adversas?

Em meio a circunstâncias tão adversas quando recorro a Deus que é o meu alto refúgio eu testemunho:

1 – O Seu poder que me fortalece a fé, v.1-9

1 Livra-me, Deus meu, dos meus inimigos; põe-me acima do alcance dos meus adversários.

2 Livra-me dos que praticam a iniquidade e salva-me dos homens sanguinários,

3 pois que armam ciladas à minha alma; contra mim se reúnem os fortes, sem transgressão minha, ó SENHOR, ou pecado meu.

4 Sem culpa minha, eles se apressam e investem; desperta, vem ao meu encontro e vê.

5 Tu, SENHOR, Deus dos Exércitos, és o Deus de Israel; desperta, pois, e vem de encontro a todas as nações; não te compadeças de nenhum dos que traiçoeiramente praticam a iniquidade.

6 Ao anoitecer, uivam como cães, à volta da cidade.

7 Alardeiam de boca; em seus lábios há espadas. Pois dizem eles: Quem há que nos escute?

8 Mas tu, SENHOR, te rirás deles; zombarás de todas as nações.

9 Em ti, força minha, esperarei; pois Deus é meu alto refúgio.

Logo no v.1 Davi clamou a Deus, o seu alto refúgio: “põe-me acima do alcance dos meus adversários”.  Ainda que pudesse contar com a engenhosidade de Mical para ajuda-lo a escapar, Davi sabia que só Deus poderia livrá-lo dos seus muitos inimigos, os quais, eram “sanguinários” (v.2), e armavam ciladas para a sua alma, acusavam-no de pecados e crimes que ele não cometera (v.3-4a).

Sua esperança estava em Deus “desperta, vem ao meu encontro e vê” (v.4b). No v.5 ele declara sua fé em Deus a quem chama de “Deus dos Exércitos”, ou seja, Aquele que comanda as hostes celestiais, e “Deus de Israel”. E novamente clama “desperta, pois, e vem de encontro a todas as nações…”. Devemos entender essas palavras como expressão da fraqueza humana, e da nossa fé muitas vezes oscilante. Nosso coração é traiçoeiro e ao mesmo tempo que clama a Deus confiante em Seu poder, também questiona duvidoso o cuidado de Deus quando Ele não age no exato momento que queremos.

A situação de perigo e vulnerabilidade em que Saul colocou a nação de Israel em relação às outras nações era algo preocupante. Enquanto ele estava absorto em matar Davi, deixou a nação à mercê de inimigos oportunistas. Aos olhos de Davi parecia que Deus estava apático, pois, Deus não estava agindo em favor dele e do povo de Israel. Como cães uivando nas ruas ao anoitecer (v.6), seus inimigos espalhavam mentiras sobre ele na cidade e falavam arrogantemente contra Deus (v.7). Mas, novamente Davi se volta para Deus com confiança e diz que Deus é quem riria por último (v.8) subjugando os inimigos do Seu povo. E assim, Davi expressou sua confiança em Deus ao dizer “Em ti, força minha, esperarei; pois Deus é meu alto refúgio” (v.9).

Aplicação v.1-9: O nosso discernimento do agir de Deus muitas vezes é equivocado. Infelizmente, nossa fé não é constante, e por vezes questionamos e até duvidamos do cuidado de Deus. Tal fé é imatura e precisa ser fortalecida. Por esta razão Deus nos permite passar por situações tão duras e difíceis para que a nossa fé Nele seja fortalecida. Assim como Davi, nós também oscilamos em nossa fé. Quem nos dera termos uma fé que não se altera independente das circunstâncias! Que possamos olhar para as tribulações e vê-las como uma oportunidade singular que Deus nos dá para fortalecer nossa fé. Que em meio às tribulações olhemos firmemente para Deus e esperemos Nele que é a nossa força e alto refúgio.

Em meio a circunstâncias tão adversas quando recorro a Deus que é o meu alto refúgio eu testemunho:

2 – A Sua justiça contra os ímpios, v.10-13

10 Meu Deus virá ao meu encontro com a sua benignidade, Deus me fará ver o meu desejo sobre os meus inimigos.

11 Não os mates, para que o meu povo não se esqueça; dispersa-os pelo teu poder e abate-os, ó Senhor, escudo nosso.

12 Pelo pecado de sua boca, pelas palavras dos seus lábios, na sua própria soberba sejam enredados e pela abominação e mentiras que proferem.

13 Consome-os com indignação, consome-os, de sorte que jamais existam e se saiba que reina Deus em Jacó, até aos confins da terra.

No v.4 Davi clamou a Deus para que Ele viesse ao seu encontro. Agora, no v.10 ele expressa a sua certeza de que “Meu Deus virá ao meu encontro com a sua benignidade”. Algumas traduções antigas trazem “O Deus de minha misericórdia me antecipará”[1]. Davi só depositou a sua confiança em Deus (cf. v.9), porque antes de tudo Deus veio ao seu encontro com a Sua benignidade.

Voltamos àquele tema dos imprecatórios. Warren Wiersbe acertadamente comenta que não se tratava de uma questão pessoal entre Davi e Saul, mas, sim, a sobrevivência e preservação da linhagem da qual vivia o Messias ao mundo[2]:

Se os pedidos de Davi parecem violentos e inapropriados para o espírito cristão, é importante ter em mente que o futuro de Israel e da dinastia de Davi estavam em jogo. Não se tratava de uma cruzada pessoal da parte de Davi, pois havia pedido que Deus combatesse o inimigo por ele (Rm 12.17-21).

Isso nos leva a pensar que os negócios do Reino de Deus devem ocupar nossos corações e não os nossos próprios interesses. Ao pedirmos que Deus venha livrar-nos e fazer justiça contra inimigos que se levantam contra a Igreja de Cristo, em momento algum devemos levar isso como ofensa pessoal e necessidade de vindicar a nossa honra, mas, sim, que a honra de Deus estampada em Sua Igreja seja vindicada quando ímpios se levantarem contra o povo de Deus.

As palavras de Davi “Deus me fará ver o meu desejo sobre os meus inimigos” (v.10) não devem jamais ter outro significado para nós além de “quero que a honra de Deus seja reparada e que Ele seja exaltado sobre aqueles que arrogantemente pecam e zombam Dele”. Não se trata de querer o mal para as pessoas, mas, sim de querer que a glória de Deus seja manifestada através de Sua justiça neste mundo.

O v.11-13 retrata justamente esse juízo de Deus contra os ímpios. Davi pediu a Deus que não os exterminasse de uma só vez, mas, que a punição fosse gradual a fim de que todos pudessem ver e nunca se esquecerem de como Deus trata os ímpios. Eles seriam punidos por causa de seus próprios pecados abomináveis; Deus nunca pune injustamente o pecador!

Aplicação v.10-13: Deus é justo. Ele não trata o pecado com leviandade e nem faz vistas grossas ao mesmo. Às vezes Ele ceifa a vida do ímpio; em outras, Ele permite que o ímpio colha vagarosamente as consequências terríveis de seus pecados; e ainda em outras, Ele usa a Sua misericórdia e imputa a Sua justiça aos pecadores a fim de salvá-los e transforma-los em Seus filhos, como aconteceu conosco.

Em meio a circunstâncias tão adversas quando recorro a Deus que é o meu alto refúgio eu testemunho:

3 – A Sua graça em meu favor, v.14-17

14 Ao anoitecer, uivam como cães, à volta da cidade.

15 Vagueiam à procura de comida e, se não se fartam, então, rosnam.

16 Eu, porém, cantarei a tua força; pela manhã louvarei com alegria a tua misericórdia; pois tu me tens sido alto refúgio e proteção no dia da minha angústia.

17 A ti, força minha, cantarei louvores, porque Deus é meu alto refúgio, é o Deus da minha misericórdia.

Os v.14-15 descrevem mais do comportamento pecaminoso desses ímpios. Usando novamente a figura já empregada no v.6, Davi os retrata como cães vadios e selvagens rondando as ruas da cidade na escuridão da noite, revirando lixo, e ameaçando as pessoas, pois, nunca se saciam em sua malignidade. O ímpio jamais refreia sua malignidade por si só; somente quando Deus intervém em sua vida é que ele se vê livre de tamanha desgraça.    

Enquanto os ímpios zombam de Deus, os filhos de Deus O louvam por Sua graça excelsa. A graça de Deus é descrita nestes versos finais por meio:

  • Da Sua força que opera em favor do Seu servo.
  • Da Sua misericórdia em resgatar Seu servo das mãos dos inimigos.
  • Da proteção que Ele concede ao Seu servo que Nele confia.

As palavras desses versos finais recapitulam tudo o que já foi dito no Salmo. Davi reconhecia que Deus era a sua força, ou seja, todo o livramento, toda a proteção e todo cuidado presentes em sua vida eram resultado do amor pactual de Deus (חֶסֶד – “misericórdia”). Nestes momentos de perseguição por parte de seus inimigos, Davi deparava-se com a sua fraqueza. O homem natural nessas circunstâncias entra em desespero, mas, o servo de Deus, quando depara-se com a sua fraqueza, canta louvores a Deus assim como Davi declarou aqui e como Paulo que disse quando pediu a Deus que tirasse dele o “espinho na carne”, e Deus lhe respondeu: “A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” (v.9). Essa resposta de Deus a Paulo, longe de frustra-lo encheu-o de alegria e por isso mesmo ele declarou: “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (v.10).

O poder de Deus é revelado em nossa fraqueza. Ele jamais age a favor daqueles que se comportam com arrogância, mas, para com aqueles que admitem sua fraqueza e limitação e são capazes de até se alegrar com o fato de que a sua fraqueza proporciona ocasião para que o poder de Deus seja visto, então Ele age poderosamente.

Aplicação v.16-17: Essa mesma convicção e alegria devem estar em seu coração. A sua fraqueza é o terreno onde o poder de Deus será visto. Deleite-se no fato de que você é fraco, mas, em você, o poder de Deus é manifestado. A noite pode trazer as ameaças terríveis ao nosso coração, mas, se confiamos em Deus podemos ter a certeza de que pela manhã O louvaremos (cf. Sl 30.5b), e isto porque o seu amor e compaixão “renovam-se a cada manhã” (cf. Lm 3.22-23).

Conclusão

Deus é o nosso alto refúgio. Se nos abrigarmos Nele não precisaremos de nenhum outro abrigo; se confiarmos Nele jamais entraremos em desespero porque ao nos depararmos com a nossa fraqueza seremos amparados com o Seu eterno poder. Cantemos louvores a Deus, adoremos a Ele com todo o nosso coração, testemunhando assim do Seu poder, justiça e graça neste mundo.

[1] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.536.

[2] WIERSBE, 2010, vo.3, p.194.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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