Canções da Alma – 61ª Mensagem

Oração

“Alto e Sublime Deus, que tem o nome de Santo, que habitas o alto e sublime lugar, mas, também habitas conosco e em nós, porque és misericordioso e compassivo. Nossa alma se alegra em Ti, e precisa descansar em Ti. Tua Palavra refrigera nossa alma. Por Tua graça e bondade clamamos e esperamos que fales ao nosso coração. Assim oramos em nome de Jesus, amém!”.

Conhecendo Mais de Deus nas Tribulações

Salmo 60

Introdução

Um dos dilemas que mais inquieta o ser humano (e até mesmo nós, os crentes) é: como conciliar o cuidado de Deus conosco com as tribulações que passamos? Para os incrédulos a questão é: ou Deus é bom ou Ele é poderoso, mas, não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo, pois, se Ele for bom, mas, não consegue impedir que passemos por sofrimentos, então Ele não é poderoso; mas, se Ele for poderoso e não quer nos impede de sofrer, então Ele não é bom. Nada pode ser mais ímpio do que esse pensamento. Ele prova que quem pensa assim nada conhece sobre Deus.

Para nós crentes, o fato de Deus permitir que passemos por momentos difíceis e dolorosos em nada diminui a bondade e o poder de Deus. Aliás, compreendemos que as tribulações são uma oportunidade singular para conhecermos mais do caráter de Deus. Quero meditar com você sobre: Conhecendo mais de Deus nas tribulações.

Contexto

O contexto deste Salmo é 2Sm 8.1-14; 10.1-19 e 1Cr 18.1-13; 19.6-19 onde vemos que as diversas vitórias que Davi como rei de Israel teve sobre vários inimigos e assim ficando conhecido como um rei poderoso. Como nos mostra o título deste salmo (“Hino de Davi para ensinar. Quando lutou contra os siros da Mesopotâmia e os siros de Zobá”), enquanto Davi fazia suas campanhas militares no Norte de Israel e vencia a todos os inimigos, os edomitas (primos de Israel, descendentes de Esaú) o atacaram no Sul de Israel causando grandes estragos. Davi enviou a Joabe e Abisai com parte de seu exército, “derrotou de Edom doze mil homens, no vale do Sal” (1Cr 18.12) ao sul do Mar Morto[1]. Ao que nos dá a entender, Davi compôs este salmo na ocasião em que ficou sabendo do ataque do edomitas, e embora tenha sido pego de surpresa e ficado abatido e confuso pelo fato de Deus ter permitido essa tragédia, seu coração não deixou de confiar em Deus como indica a melodia “Os lírios do testemunho”, a qual aponta para a fidelidade de Deus testemunhada pelos Seus filhos.

Três verdades nos chamam a atenção aqui:

1 – Deus permite sofrimentos em nossas vidas, v.1-3

1 Ó Deus, tu nos rejeitaste e nos dispersaste; tens estado indignado; oh! Restabelece-nos!

2 Abalaste a terra, fendeste-a; repara-lhe as brechas, pois ela ameaça ruir.

3 Fizeste o teu povo experimentar reveses e nos deste a beber vinho que atordoa.

Deus havia rejeitado Saul como rei, e, por isso, sérias consequências sobrevieram ao povo de Israel. Davi se queixou de ver a situação lastimável em que a nação de Israel chegara por conta dos pecados de Saul. Ele sabia muito bem que Deus estava disciplinando o Seu povo. Nem mesmo as vitórias e o renome que ele conquistara (cf. 1Sm 8.13), fizeram com que ele ignorasse as tristezas e dores que a nação suportava. Alguém cujo coração é altruísta não é capaz de alegrar-se com suas vitórias quando tem ao seu redor irmãos que estão sofrendo.

Ele descreveu o sofrimento da nação como resultado da ação de Deus punindo a mesma por seus pecados. Ele via a indignação de Deus (v.1), e por isso mesmo sabia que o único que poderia livrar o povo da indignação e juízo de Deus era o próprio Deus com a Sua misericórdia! Só Deus em Sua misericórdia pode nos livrar Dele em Sua justiça!

No v.2 ele usa figuras de linguagem de catástrofes naturais para descrever a situação da nação. A vitória inicial de Edom foi como as águas de uma represa, como um terremoto abalando toda a terra. Como um terremoto que abala um edifício e abre fendas em suas estruturas, o mesmo acontecera a Israel com o péssimo governo de Saul. Este por sua irresponsabilidade e egoísmo querendo matar Davi para não perder o trono, deixara a nação totalmente desguarnecida e cheia de brechas em suas defesas, o que facilitou as incursões e ataques dos inimigos. Podemos aplicar essa lição para a nossa vida também, pois, quando vivemos focados em nossos próprios interesses e nos descuidamos de nossas responsabilidades e de uma vida de santidade, permitimos que brechas sejam abertas em nossas vidas pelas quais o inimigo entrará e nos solapará.

Deus estava permitindo o povo experimentar “reveses”, ou seja, Deus fez o povo passar por duras provas, a ponto de o povo sentir-se atordoado como quem toma um vinho forte, ou um veneno que tira a lucidez da pessoa (v.3).

Aplicação v.1-3: Precisamos entender que reveses em nossas vidas são permitidos por Deus. O sofrimento faz parte da vida dos filhos de Deus. Podemos estar bem num momento desfrutando de vitórias e conquistas, e, no momento seguinte sermos acometidos por um sofrimento inesperado. Todos nós estamos sujeitos a isso e a despeito de sermos crentes em Cristo Jesus, salvos por Sua graça não temos garantia alguma de que não passaremos por sofrimentos. Contudo, não devemos perder de vista que os sofrimentos são uma ocasião muito especial para conhecermos mais de Deus.

Isso nos remete para a segunda verdade neste Salmo

2 – Deus sempre intervém em nossos sofrimentos, v.4-8

4 Deste um estandarte aos que te temem, para fugirem de diante do arco.

5 Para que os teus amados sejam livres, salva com a tua destra e responde-nos.

6 Falou Deus na sua santidade: Exultarei; dividirei Siquém e medirei o vale de Sucote.

7 Meu é Gileade, meu é Manassés; Efraim é a defesa de minha cabeça; Judá é o meu cetro.

8 Moabe, porém, é a minha bacia de lavar; sobre Edom atirarei a minha sandália; sobre a Filístia jubilarei.

Davi interpretou a derrota de Israel como um sinal de que Deus havia rejeitado Seu povo. Mas, sendo um homem de fé, em vez de desistir, reuniu o povo ao redor do estandarte do SENHOR Deus (v.4). Essa bandeira mencionada aqui no v.4 não era o tipo de bandeira que um exército usa para identificação, mas, sim, era aquela que demarcava onde era o lugar de proteção para os soldados. Eles deveriam fugir do ataque do inimigo (aqui chamado de “arco”) e abrigarem-se seguros onde Deus lhe havia preparado a proteção. Deus era a proteção para o Seu povo e este deveria se abrigar confiante no Seu poder[2]. Um dos nomes hebraicos para Deus era YAHWEH NISSI – o SENHOR é a Minha Bandeira, aludindo assim que Ele próprio é a proteção, o refúgio do Seu povo.

No v.5 Davi expressa a sua confiança em Deus dizendo que Nele os Seus amados estariam livres e salvos por Sua destra poderosa.

Os v.6-8 descrevem o domínio de Deus sobre as nações. Deus não governa somente sobre o Seu povo, como pensavam os pagãos em relação aos seus deuses que eram “territoriais”. O Deus de Israel também é o Deus das nações, e onde Ele quiser chegar com Seu domínio Ele chegará. Mas, no v.6 há uma afirmação que merece mais da nossa atenção aqui. Nele se diz: “Falou Deus na sua santidade”. Algumas versões traduzem o termo “santidade” por “santuário”[3], mas, o substantivo hebraico é קֹדֶשׁ é “santidade”. Destacamos aqui, primeiramente, a palavra de Deus – Ele não precisa fazer nada mais do que falar para demonstrar a Sua autoridade suprema. Em segundo lugar, é a santidade de Deus que atesta a veracidade da Palavra de Deus, bem como a eficácia da Sua promessa.

Aplicação v.4-8: Soberano, Santo e Verdadeiro. Assim Deus é descrito nestes versos. Não há um só lugar ou uma só situação na existência humana em que Deus não seja Soberano, portanto, não precisamos ficar desesperados quando estivermos passando por tribulações – tudo está no controle de Deus. Ele é Santo e a Sua santidade nos comunica a verdade de que Ele nos separou para Si mesmo, e por ter nos separado para Si jamais nos desamparará. Ele é Verdadeiro, e, por isso podemos descansar confiantes em Sua Palavra que não falhará. Deus intervém em nosso sofrimento nos mostrando quem Ele é: Soberano, Santo e Verdadeiro. Isto nos mostra a terceira verdade que extraímos deste Salmo:

3 – Deus sempre nos revigora a fé, v.9-12

9 Quem me conduzirá à cidade fortificada? Quem me guiará até Edom?

10 Não nos rejeitaste, ó Deus? Tu não sais, ó Deus, com os nossos exércitos!

11 Presta-nos auxílio na angústia, pois vão é o socorro do homem.

12 Em Deus faremos proezas, porque ele mesmo calca aos pés os nossos adversários.

Ao receber a notícia de que os edomitas haviam atacado o Sul Davi dirige a Deus as perguntas que estão nos v.9-10, não duvidando de Deus, mas, reafirmando que Deus tinha uma Aliança com Seu povo à qual Ele não quebraria, porque Ele é fiel em Sua Aliança. A “cidade fortificada” a qual ele se refere aqui divide a opinião dos estudiosos. Uns pensam ser Tiro, outros, Petra, ou Sela, e ainda outros, Rabá. Todas essas cidades eram importantes cidades de Edom. O que importa aqui é sabermos que Davi tinha diante de si um desafio enorme: vencer os inimigos justamente onde eles eram mais fortes e guarnecidos.

Ele orou fervorosamente a Deus. Deixou claro que Ele não era homem de ficar olhando para o passado (ainda que tivesse muitas glórias para se alegrar), mas, sim, para o futuro demonstrando sua confiança em Deus a quem ele suplicou dizendo: “Presta-nos auxílio na angústia, pois vão é o socorro dos homens” (v.11). Que confissão de fé! Grande prova de sabedoria é não confiar no socorro dos homens, mas, somente no socorro de Deus.

“Em Deus faremos proezas, porque ele mesmo calca aos pés os nossos adversários” (v.12). Com essa nota de segurança e confiança exclusiva em Deus Davi encerra este Salmo mostrando, que sem Deus nada poderemos fazer, e com Deus poderemos fazer proezas, ou seja, sermos vitoriosos sobre inimigos que nos parecem intransponíveis e invencíveis como uma cidade fortificada. O v.12 contrasta-se com o v.9, pois, a cidade fortificada que humanamente seria impossível de ser tomada, pelo poder de Deus ela certamente seria tomada, pois, o próprio Deus haveria de pisotear o inimigo.

Dessa forma Deus revigora a fé dos Seus filhos quando estes, em meio às tribulações são conclamados a confiarem no Seu eterno poder.

Aplicação v.9-12: O futuro nos é incerto e obscuro, e por isso mesmo ele nos traz desconforto e abala a nossa fé. Nessa hora corremos o risco de corrermos para o passado num saudosismo contemplando as vitórias que tivemos. Olhar com saudosismo para o passado é perigoso, pois, nos ilude de que jamais voltaremos a vencer como antes. A segurança de um passado vitorioso pode nos atrapalhar de nos lançarmos ao futuro confiantes em Deus. Devemos olhar para o passado com gratidão a Deus e, assim, com fé em Deus nos lançarmos ao futuro. Também precisamos nos lembrar que a honra da vitória não é nossa, mas, sim de Deus. Ele é quem pisará sobre os inimigos; Ele é quem reúne o Seu povo em lugar de proteção e amparo em meio aos ataques dos inimigos; Ele é quem nos revigora a fé. Não temos o direito de ficar com a glória que é Dele (cf. Ap 4.10-11). Podemos e devemos nos alegrar com a vitória que Ele nos dá, mas, nunca usurparmos a Sua glória. Nele faremos proezas, ou seja, tudo é por meio Dele, para Ele e por Ele. Como disse Calvino “aqueles que arrogam para si a menor fração de força à parte de Deus, simplesmente atraem ruína sobre si através de sua soberba”[4].

Conclusão

Teremos sofrimentos (e muitos) nesta vida. Mas, em meio a estes sofrimentos somos conclamados a nos reunir em torno do estandarte da glória de Deus e nos abrigarmos em Seu poder. É na presença de Deus, ali de joelhos e em oração suplicante que Deus revigorará a nossa fé em Sua Palavra que nos promete a vitória sobre cada luta nesta vida. Que toda glória seja creditada somente a Ele!

[1] A aparente contradição com a informação aqui no Salmo de que foram doze mil siros mortos por Joabe e a informação em 1Sm 8.13 de que foram dezoito mil siros mortos, deve ser entendido da seguinte forma: dezoito mil é o total de siros mortos pelas campanhas de Davi, e doze mil, é o número de siros mortos por Joabe e Abisai (cf. CALVINO, 1999, vol. 2, p. 546).

[2] Cf. HARMAN, 2011, p.238.

[3] Calvino rechaça a interpretação de “santuário” (cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.553).

[4] CALVINO, 1999, vol.2, p.559.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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