Canções da Alma – 62ª Mensagem

Oração

“Maravilhoso e Soberano Deus, que é digno de todo o louvor e adoração de cada ser e criatura. Achegamo-nos a Ti confiados nos méritos de Jesus Cristo para suplicar-Lhe que venhas falar ao nosso coração nesta ocasião. Dependemos de Ti. Esperamos na Tua Graça. Faça o nosso coração ensinável, maleável e submisso à Tua Palavra. Opera em nossos corações pelo Teu Santo Espírito. Em nome de Jesus, amém!”.

A Oração de Um Coração Aflito

Salmo 61

Parte I

A Dependência Que Ele Tem de Deus

Introdução

Quanto mais maduro o crente se torna em sua fé, mais certeza ele tem sobre duas necessidades: da Palavra de Deus, e, de ter uma vida de oração. Pela Palavra de Deus ele descobre a vontade de Deus; na oração ele encontra poder e graça para aplicar a Palavra de Deus ao seu coração.

Os Sl 61 a 64 tratam de oração, especialmente aquela oração que fazemos a Deus em tempos de angústia e aflição. Teremos como título para as mensagens nesses salmos: “A oração de um coração aflito”.

Contexto

A ocasião em que este salmo (e o Sl 62, 63 e 64) foi escrito está relacionada ao texto de 2Sm 15 – 18 por ocasião da revolta de Absalão, filho de Davi, quando este o perseguiu fazendo com que ele fugisse da cidade (compare os v.6-7 com 2Sm 15.1-23, e o v.4 com 2Sm 15.24-26,29).

Davi compôs este salmo e o entregou “Ao mestre de canto”, e este salmo deveria ser executado “Com instrumentos de cordas”. Nada mais sabemos disso.

Neste salmo vemos que a oração de um coração aflito expressa total dependência de Deus. Um coração aflito quando ora a Deus demonstra sua total dependência constatando:

1 – Sua própria limitação, v.1-4

1 Ouve, Ó Deus a minha súplica; atende à minha oração.

2 Desde os confins da terra clamo a ti, no abatimento do meu coração. Leva-me para a rocha que é alta demais para mim;

3 pois tu me tens sido refúgio e torre contra o inimigo.

4 Assista eu no teu tabernáculo, para sempre; no esconderijo das tuas asas.

 

Ele iniciou este salmo clamando e suplicando a Deus por socorro (v.1). A forma como ele repete as palavras aqui revela a sua perseverança em oração na presença de Deus. Por mais que Deus pareça demorado em nos responder, e ainda que Ele não nos responda de imediato, devemos continuar perseverantes em oração.

Longe do templo e da cidade real, fugindo de seu próprio filho que se revelara seu inimigo, Davi viu-se sobremaneira aflito. “Desde os confins da terra”, isto é, vagando pelo deserto de Judá ele clamava a Deus, e ali ele constatara que: (1) estava abatido em seu coração. O abatimento físico por conta do cansaço nem se compara ao abatimento do coração; (2) ele não tinha forças sequer para se abrigar em Deus. Ao dizer no v.2: “Leva-me para a rocha que é alta demais para mim”, declarou sua limitação, pois, não era capaz de por si só apropriar-se da salvação que Deus lhe oferecia. A rocha (lugar seguro) era alta demais para ele subir; ele precisava que Deus o colocasse a salvo.

Olhando para o passado, Davi constatou que Deus sempre o protegeu como um refúgio e uma torre (v.3), e por isso mesmo seu coração almejava estar novamente lá no templo do SENHOR Deus (v.4). Ele ansiava voltar para Jerusalém para adorar ao SENHOR. Provavelmente, as “asas” a que ele se referiu aqui apontavam para os querubins na tampa da Arca, o propiciatório. Ele não era um sacerdote, e por isso mesmo não podia entrar no Santo dos Santos do tabernáculo, mas, para os filhos de Deus, estar à porta do tabernáculo, ainda que não pudessem entrar nele, era melhor do que qualquer outro lugar neste mundo (cf. Sl 84.10). Mas, mesmo longe da Casa de Deus, Deus não estava longe de Davi. “As ‘asas’ de Deus protegiam Davi exatamente onde ele estava, de modo que não precisava ter as próprias ‘asas’ a fim de voar para longe (Sl 55.6-8)”[1].

Aplicação v.1-4:

  • Ore e persevere em oração. Se por algum motivo você for impedido de estar na Casa de Deus junto aos seus irmãos, ore a Deus e Ele atenderá você e cuidará de você. Não há lugar neste mundo em que Deus não esteja presente. Mas, tão logo quanto for possível volte para a Casa do Pai, busque o Seu abrigo.
  • Reconheça sua limitação e contemple a grandiosidade de Deus. Ainda que você seja limitado e nada possa fazer, Deus é ilimitado no Seu poder. Enquanto você não admitir sua total falência e impotência diante das circunstâncias, você não admitirá a sua dependência total de Deus. Enquanto você não reconhecer a sua incapacidade de se redimir por suas próprias forças, você não clamará pelo Salvador. No momento em que você assim o fizer, desfrutará da paz e alegria imensuráveis que só Deus pode lhe dar, o que fará com que você deseje ainda mais andar e viver na presença Dele.

                   Um coração aflito quando ora a Deus demonstra sua total dependência constatando:

2 – A bondade e a fidelidade de Deus, v.5-8

5 Pois ouviste, ó Deus, os meus votos e me deste a herança dos que temem o teu nome.

6 Dias sobre dias acrescentas ao rei; duram os seus anos gerações após gerações.

7 Permaneça para sempre diante de Deus; concede-lhe que a bondade e a fidelidade o preservem.

8 Assim, salmodiarei o teu nome para sempre, para cumprir, dia após dia, os meus votos.

 

A quais votos Davi se referia aqui no v.5 não sabemos ao certo. Pode-se supor que as circunstâncias de aperto pelas quais Davi passava o levaram a fazer votos a Deus enquanto clamou por Seu socorro, como também podem ser os votos que ele fizera a Deus e ao povo na ocasião de sua coroação (cf. 2Sm 2.5-7). Contudo, é mais plausível vermos esses votos como orações que ele fizera a Deus por conta da declaração que ele faz aqui de Deus ter ouvido seu clamor e lhe abençoado com “a herança dos que temem o teu nome”. Que herança é essa? Calvino entendeu que essa herança é o cuidado de Deus como fica claro em todo esse salmo para com aqueles que temem o Seu santo Nome e zelam pela glória de Deus (cf. Sl 25.14). “Só os que temem a Deus é que contam com o verdadeiro e legítimo desfruto de suas bênçãos”[2]. Ele começara este salmo clamando a Deus que o ouvisse, e agora, ele constata que Deus o ouvira.

As palavras dos v.6-7 não podem ser aplicadas a Davi, ainda que ele tenha morrido em ditosa velhice (cf. 1Rs 2.1-12), seu reino tornou-se eterno por causa da promessa de Deus (cf. Sl 89.35-36) que cumpriu-se em seu mais nobre descendente, o Senhor Jesus Cristo, o qual é conhecido também como “Filho de Davi”. Como a figura do rei era importante para a estabilidade da nação, Davi pediu a Deus que lhe desse vida longa “Dias sobre dias (…) gerações após gerações”, para que a nação gozasse de estabilidade. Temos aqui uma implicação muito séria para nós como Igreja de Cristo. Assim como Davi como rei era o cabeça de Israel, o povo de Deus, Cristo é o Cabeça da Igreja. Quem dá estabilidade à Igreja, quem a mantém em meio aos ataques que ela sofre é o próprio Senhor Jesus.

No v.7, confiado na “bondade e fidelidade” de Deus, Davi expressa o seu desejo de permanecer para sempre na presença de Deus, ou como já dissera anteriormente no v.4, assistir no tabernáculo de Deus para sempre. “Tão numerosos são os perigos que nos cercam, que não poderíamos sobreviver um único momento se seus olhos não estivessem insones sobre nossa preservação”[3]. ´

Deus é bom e fiel. Ele cuida dos Seus filhos com a Sua bondade e fidelidade (חֶ֥סֶד וֶ֜אֱמֶ֗ת). Ambas, bondade e fidelidade expressam o caráter Santo de Deus. A base da garantia que temos da parte de Deus quanto ao cuidado Dele conosco é o Seu caráter.

A Sua bondade aponta para a Sua misericordiosa graça com a qual Ele age em favor do Seu povo com o qual estabeleceu uma Aliança perpétua, enquanto que a Sua fidedignidade aponta para o fato de que Ele jamais quebrará esta Aliança com Seu povo (2Tm 2.13).

O que mais poderia brotar dos lábios de Davi senão um louvor perene (cf. v.8)? Assim como ele perseverou em oração na presença de Deus, também queria perseverar em louvor e gratidão na presença, para que pudesse cumprir todos os votos que fizera a Deus.

Aplicação v.5-8:

  • Assim como para Davi, para nós também, toda nossa esperança e glória se concretizam na pessoa de Jesus Cristo. Em que ou no que você tem posto sua esperança? Qual glória seu coração tem buscado?
  • Você faz parte do grupo daqueles que temem a Deus e que herdam as bênçãos reservadas para estes? Há temor de Deus em seu coração? Para responder isso, veja como e quanto você tem lutado para se afastar do pecado. Somente quem foi impactado pela santidade de Deus trará em seu coração o temor em pecar contra Ele.
  • Você tem trazido o que em seus lábios? Louvor a Deus por Sua bondade e fidelidade em cuidar de você, ou palavras de murmúrio e descontentamento? Aqueles que foram salvos para louvar a Deus nesta vida, têm a garantia de louvá-Lo eternamente em Sua glória. Você tem essa certeza em sua vida? Somente quem foi profundamente impactado pela bondade e fidelidade de Deus tem um coração cheio de louvor e louvará a Deus por toda a eternidade.

Conclusão

A oração a Deus que começa com clamor reconhecendo a pequenez e insignificância própria, concluirá com louvor exultante na graça de Deus. Você pode estar neste momento numa situação de clamor, então persevere em oração, confie no caráter santo e imutável de Deus, pois, Ele ouvirá o seu clamor se este estiver em consonância com a vontade Dele, e transformará o seu clamor em louvor. Não reclame, clame. Deus nunca atendeu a um murmurador, assim como jamais desprezará um coração sincero que reconhece sua inteira dependência que tem de Deus.

[1] WIERSBE, 2010, vol.3, p.196.

[2] CALVINO, 1999, vol.2, p.566.

[3] CALVINO, 1999, vol.2, p.567.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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