Canções da Alma – 63ª Mensagem

Oração

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“Deus amado, aquieta o nosso coração agora quando vamos ouvir Tua Palavra; retire de nós a inquietude e distração. Molda o nosso coração de acordo com a Tua vontade. Conduza-nos pelas veredas da justiça por amor do Teu nome. Assim oramos em nome de Jesus Cristo, Teu Filho amado, amém!”.

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Salmo 62

A Oração de Um Coração Aflito

Parte II

A Esperança Está Somente em Deus

Introdução e Contextualização

                  Este salmo fala de uma das coisas que mais procuramos nesta vida: Esperança. Continuando o assunto que propomos desde a mensagem anterior (Sl 61), a saber, “A oração de um coração aflito”, neste salmo veremos que quando um coração aflito eleva a Deus a sua oração confiando plenamente Nele tem a oportunidade de pôr em prática a Palavra de Deus de forma mais intensa. E é na prática da Palavra de Deus que está o segredo de uma vida vitoriosa (cf. Tg 1.22-25).

                  A ocasião em que este salmo (e o Sl 62, 63 e 64) foi escrito está relacionada ao texto de 2Sm 15 – 18 por ocasião da revolta de Absalão, filho de Davi, quando este o perseguiu fazendo com que ele fugisse da cidade real (veja “Contexto” na exposição do Sl 61).

                  Davi compôs este salmo e o entregou “Ao mestre de canto” para que toda a congregação o cantasse no culto. Este salmo foi escrito “Segundo a melodia de Jedutum”, isto é, sobre uma melodia composta por Jedutum, o qual foi o primeiro escolhido para ser um dos principais músicos na condução dos louvores no santuário judaico quando a arca foi conduzida de Obede-Edom ao monte Sião. Seus descendentes foram também designados a presidir os diferentes departamentos do culto vocal e instrumental no tabernáculo.

                  Este salmo é dividido em três estrofes, cada qual começando com o advérbio de tempo “Somente” (אַ֣ךְ), e traz consigo a ideia de uma certeza inabalável. A esperança que Deus gera no coração dos Seus filhos é inabalável.

                  Neste salmo vemos que a oração de um coração aflito expressa a sua esperança exclusiva em Deus, e, por isso mesmo desfruta de:

  1. Tranquilidade, v.1-4

1 Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa; dele vem a minha salvação.

2 Só ele é a minha rocha, e a minha salvação, e o meu alto refúgio; não serei muito abalado.

3 Até quando acometereis vós a um homem, todos vós, para o derribardes, como se fosse uma parede pedida ou uma muro prestes a cair?

4 Só pensam em derribá-lo da sua dignidade; na mentira se comprazem; de boca bendizem, porém no interior maldizem.

                   “Somente em Deus…” (v.1). A intenção de Davi com essas palavras aqui (e no v.5) foi demonstrar que ele não colocava a sua confiança em nada e em ninguém mais além de Deus. Não há espaço para o sincretismo num coração que confia totalmente em Deus. Davi orou a Deus e Nele esperou silenciosamente. Apesar de tudo o que lhe estava acontecendo com a perseguição de Absalão, Davi mantinha a sua alma em silêncio perto de Deus. Só em Deus ele encontrava paz, por isso mesmo declarou que “Só ele é a minha rocha, e a minha salvação, e o meu alto refúgio” (v.2). No Sl 61.2 ele clamou a Deus que o colocasse sobre a rocha que era elevada demais para ele, e aqui, ele deixa bem claro que essa rocha era o próprio Deus. Ele não discutira com o inimigo, mas, simplesmente orou a Deus, confiou e esperou, sabendo que Deus a Seu tempo haveria de salvá-lo dos seus inimigos. Ele sabia que haveria de sofrer ataques dos inimigos, pois, Deus não isenta Seus filhos de passarem por aflições, mas, confiava em Deus é por isso mesmo disse “não serei muito abalado”.

                   Uma vez que seu coração estava firme em Deus e Nele refugiado e protegido, Davi então se voltou para os inimigos que vinham contra ele e lhes falou diretamente: “Até quando acometereis vós a um homem, todos vós, para o derribardes, como se fosse uma parede pendida ou um muro prestes a cair?” (v.3), e com palavras hipócritas e fingidas, esses inimigos estando em sua presença o animavam, porém, pelas costas o maldiziam e o difamavam (v.4). Enquanto Davi via Deus como uma rocha de salvação, um alto refúgio intransponível e inacessível aos inimigos, via-se como um homem frágil, que estava prestes a cair derrubado. Não era um ato de autocomiseração, mas, sim, de se ver como de fato ele era: um homem frágil cujo Deus é Todo-Poderoso que vem ao encontro de Seus filhos para salvá-los.

                   Em face aos ataques de seus inimigos inescrupulosos, em face da possibilidade de cair a qualquer momento, Davi estava tranquilo por saber que Deus viera ao seu socorro.

Aplicação v.1-4

  • Esperar somente em Deus é recusar qualquer outra ajuda, é não confiar em nada e ninguém mais além Dele; é ter a convicção de não necessitar de nenhuma outra ajuda.
  • Esperar silenciosamente em Deus não é entregar-se à ociosidade. Antes, é uma combinação de fé com adoração sincera que nos leva a descansar no poder de Deus, até que Ele nos ordene a agir.
  • Esperar em Deus é reconhecer-se totalmente sem forças e incapaz de vencer os inimigos, e, por isso mesmo depender somente do poder de Deus.

                   Um coração aflito quando ora a Deus expressando sua esperança exclusiva Nele, desfruta de:

2. Estabilidade, v.5-8

5 Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa, porque dele vem a minha esperança.

6 Só ele é a minha rocha, e a minha salvação, e o meu alto refúgio; não serei jamais abalado.

7 De Deus dependem a minha salvação e a minha glória; estão em Deus a minha forte rocha e o meu refúgio.

8 Confiai nele, ó povo, em todo tempo; derramai perante ele o vosso coração; Deus é o nosso refúgio.

                   Calvino disse: “Não é sem luta que os santos recompõem sua mente”[1]. Isso explica o motivo de Davi repetir nestes versos as verdades que ele disse nos v.1-2, ou seja, para que ele se lembrasse dessas verdades as quais seu coração esquecia com facilidade. Após falar do ataque dos inimigos (v.3-4) ele lembra a si mesmo que a sua confiança deveria estar em Deus. Com a certeza de que de Deus viria a sua salvação, Davi vê-se fortalecido pela esperança resultante do socorro divino. Não se tratava de uma expectativa, mas, de uma certeza. É muito comum vermos a esperança como uma mera expectativa (v.5). Mas, a esperança do crente é a fé em ação, fé esta que se expressa na certeza, é convicção da realização das promessas de Deus: “Ora, a fé é a certeza das coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem” (Hb 11.1).

                   Novamente, Davi fala da exclusividade que Deus tinha em seu coração (v.6). Só em Deus ele encontrava proteção e salvação, pois Deus era o seu alto refúgio. Mas, aqui no v.6 ele faz uma alteração importante em relação ao v.2. Antes ele dissera que não seria muito abalado, mas, agora ele afirma: “não serei jamais abalado”. Antes o seu coração foi tranquilizado pelo agir de Deus. Agora o seu coração desfrutava da estabilidade promovida por Deus. Quanto melhor compreensão ele teve do agir de Deus em sua vida, maior tranquilidade em seu coração ele desfrutou.

                   No v.7 Davi repetiu suas convicções a respeito de Deus e acrescentou que de Deus “dependia a sua glória” além da sua salvação. O substantivo “glória” (כָּבוֹד) aqui significa “honra”. Em 1Sm 2.30, Deus falou ao sacerdote Eli através de um profeta anônimo repreendendo a impiedade de seus filhos: “…porque aos que me honram, honrarei, porém os que me desprezam serão desmerecidos”.

                   Daí a exortação de discorre no v.8 faz todo o sentido: “Confiai nele, ó povo, em todo tempo; derramai perante ele o vosso coração; Deus é o nosso refúgio”. Aquele que experimenta a tranquilidade e a estabilidade de Deus haverá de querê-la aos que estão sob seus cuidados. Assim como ele derramara seu coração diante de Deus e Nele aguardara silenciosamente, Davi conclamou o povo a fazer o mesmo, pois, nada pode ser mais danoso à nossa fé do que encerrar em nosso peito as angústias que enfrentamos sem derramá-las diante de Deus e clamar por Seu socorro. O ato de “derramar” diante de Deus as orações aqui é emprestado da linguagem sacerdotal e do sistema de culto do Antigo Testamento. Havia ofertas de libação, ou seja, ofertas líquidas que eram derramadas no altar do SENHOR Deus. E assim Davi incita o povo a derramar suas orações na presença de Deus, pois, nada agrada mais a Deus do que corações sinceros e totalmente rendidos em Sua presença clamando por Sua misericórdia.

Aplicação v.5-8

  • Satanás renova constantemente seus ataques à nossa fé. Ele quer nos ver fraquejar, duvidar e até questionar a fidelidade de Deus. Por isso mesmo, meu irmão diga ao seu coração o tempo todo que ele deve confiar somente em Deus. Sim, você pode e deve dar ordens ao seu coração para que ele nunca se aparte de Deus. Não ceda um milímetro sequer à dúvida. Repita ao seu coração quantas vezes necessárias forem que Deus é a sua esperança. Somente Ele poderá tranquilizar e estabilizar sua vida.
  • A esperança advinda da presença poderosa de Deus em nosso coração deve nos levar a um constante crescimento tal como vemos em Davi nos v.2 e v. 6. Em meio às confusas emoções da nossa mente precisamos exterminar qualquer traço de carnalidade para que confiemos plenamente em Deus. A única forma de não perdermos a tranquilidade em nosso coração é mantendo a nossa esperança firme em Deus.
  • Quanto mais demonstramos nossa confiança e esperança em Deus tanto mais O glorificamos diante dos homens, e quanto mais O glorificarmos com nossa fé e esperança mais firmes e felizes ficaremos.
  • Como é importante termos pessoas que nos incentivam e encorajam a confiar em Deus em meio às aflições. Como é importante sermos essa pessoa incentivando outros a confiarem em Deus tal como Davi fez com o povo.

                   Um coração aflito quando ora a Deus expressando esperança exclusiva Nele, desfruta da:

3. Recompensa, v.9-12

9 Somente vaidade são os homens plebeus; falsidade, os de fina estirpe; pesados em balança, eles juntos são mais leves que a vaidade.

10 Não confieis naquilo que extorquis, nem vos vanglorieis na rapina; se as vossas riquezas prosperam, não ponhais nelas o coração.

11 Uma vez falou Deus, duas vezes ouvi isto: Que o poder pertence a Deus,

12 e a ti, Senhor, pertence a graça, pois a cada um retribuis segundo as suas obras.

                   O último “somente” deste salmo é o oposto exato dos dois anteriores. Se aqueles apontaram para a pessoa, poder, glória, fidelidade e misericórdia de Deus, este aponta para a efemeridade e “vaidade” dos homens arrogantes.

                   Na balança divina (v.9) eles não têm peso algum; não há registro algum de peso e consistência. A palavra “vaidade” (הֶבֶל) traz a conotação de “nada, vácuo, sopro, vapor”, ou seja, algo sem peso algum. Isso nos lembra Tg 4.14, onde Tiago nos alerta sobre a transitoriedade da nossa existência. Davi disse: “eles juntos são mais leves que a vaidade”. Toda a raça humana aqui representada do mais pobre e desprezado ao mais rico e exaltado pelos homens, todos sem exceção são a representação exata da corrupção e total depravação e nulidade humana. Por que então confiar em tais pessoas? Não seria isso prova de loucura e sandice?

                   No v.10 Davi apontou para a fonte das riquezas e poder dos seus inimigos: a extorsão, opressão e rapina. Toda riqueza adquirida de forma ímpia, tal como uma fumaça se desfará, tal como areia escoará pelos vãos dos dedos. Daí a exortação que decorre: “se as vossas riquezas prosperam, não ponhais nelas o coração”. O que um ser que é efêmero pode produzir de substancial e duradouro? Nada. Daí é mais loucura ainda confiar no que homens mortais e pecadores podem ajuntar e nos oferecer como recurso para nos tirar da nossa aflição.

                   Em contraste com o pecador efêmero, Davi aponta para o Deus Eterno que “Uma… duas vezes falou”, isto é, várias vezes, repetidamente Deus nos fala em Sua Palavra: “Que o poder pertence a Deus, e a ti, Senhor, pertence a graça…” (v.11-12). Não é a homem algum que o poder pertence, por mais fina que seja a sua estirpe, por mais nobre que tenha sido o seu berço e por mais influência opressora ele tenha sobre as pessoas; o poder pertence a Deus, e por isso mesmo Ele retribuirá a cada um “segundo as suas obras”. O aviso dado neste versículo contrasta com o modo ímpio de vida indicado no v.10. Os pecadores acham que poderão esconder seus pecados, que jamais serão pegos em suas falcatruas e impiedades. Semelhante pecado ronda o coração dos crentes quando estes permitem que a dúvida paire em seus corações com relação à recompensa que Deus lhes dará por terem se mantido fiéis a Ele. Em 1Tm 5.24-25 fica claro que tanto os pecados ocultos quanto as obras discretas as quais não alardeamos quando as fazemos, não passarão desapercebidas aos olhos de Deus. Nunca nos esqueçamos que Deus retribuirá a cada um segundo às suas obras. O crente pode certificar-se do fato de que Deus haverá de recompensá-lo, e por isso mesmo nenhuma outra recompensa lhe é necessária e nem mesmo deve ser almejada.

Aplicação v.9-12

  • Até mesmo nós crentes devemos ficar atentos pois, não estamos isentos de cairmos nessa cilada do nosso coração enganoso.
  • Não importa quão elevada seja a nossa posição social ou quão afluente seja a nossa situação econômica, todos os homens são como uma fumaça, um vácuo. Qualquer demonstração de soberba e arrogância revela a loucura do nosso coração pecador.
  • Em tempos como os nossos, onde a esperteza é admirada e ovacionada, o lucro ímpio e desonesto é visto como uma oportunidade que não pode ser perdida, onde escapar de pagar impostos devidos é um ato justificado como um protesto contra um governo corrupto, devemos nos lembrar que tudo aquilo que é adquirido nessas condições não é abençoado por Deus porque O desagrada, e logo desvanecerá.
  • A força (poder) e a bondade (graça) de Deus são suficientes para nossa vida para suportarmos todas as aflições que nos acometerem. Deus não falha; Ele não é como os homens.
  • Confiemos em Deus quanto à recompensa que Ele nos dará pelas nossas obras que O glorificam. Não busquemos a glória dos homens, mas, somente a de Deus, pois Dele dependem a nossa salvação e glória (v.7). Não importa o que as pessoas nos façam ou o que possam dizer sobre nós, Deus guarda Seus registros e, um dia, dará aos pecadores e aos santos as recompensas que cada um merece (1Co 3.8).

Conclusão

                   Na aflição do nosso coração busquemos a Deus para que sejamos tranquilizados, estabilizados e recompensados por Ele, pois, quando os homens virem essas bênçãos em nossa vida saberão que há um Deus que cuida da Igreja, a Quem toda honra e glória devem ser dadas.


[1] CALVINO, 1999, vol.2, p.574.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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