Canções da Alma – 64ª Mensagem

Oração

“Glorioso e majestoso Deus, santo, eterno, invisível, mas, real, a Ti buscamos agora em oração suplicantes por Tua graça e instrução. Há em nosso coração barreiras que precisam ser derrubadas pela Tua graça; há empecilhos em nossa mente, atrações que nos distraem e assim atrapalham de nos concentrarmos em Tua Palavra e de sermos confrontados e edificados por ela. Venha em nosso socorro. Precisamos de Ti para fazermos o que Te agrada. Toma o nosso coração, ouvidos e olhos. Fale conosco. Encarecidamente, rogamos-Te em nome de Jesus, amém!”.

Canções da Alma

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Salmo 63

A Oração de Um Coração Aflito

Parte III

Como Glorificar a Deus Nas Tribulações

Introdução e Contextualização

                  As circunstâncias de angústia e sofrimento na vida do crente servem para lapidar seu coração e revelar uma verdade muito importante: o quanto ele tem sede de Deus. O crente não se detém nas circunstâncias e nem mesmo guia a sua vida por elas; seus olhos estão fixos em Deus, e Dele, espera o socorro.

                  Davi escreveu este salmo “quando no deserto de Judá” no caminho para o Rio Jordão fugindo de Absalão, seu filho (2Sm 15.23). Mas, ali no deserto ele não olhou para o seu passado com remorso por ter sido um pai relapso especialmente para com Absalão, também não olhou ao redor com medo ou lamentando sua situação de desconforto e perigo no deserto. Pelo contrário, ele olhou para o alto, para Deus, reafirmando sua fé e amor por Ele. Num deserto em que ele poderia estar desanimado, abatido e cheio de autocomiseração, ele buscava a Deus com tanta sede como uma terra seca que suga a água nela despejada. Num lugar onde ele estava sem um santuário ou até mesmo um sacerdote que pudesse conduzi-lo na adoração a Deus, Davi se voltou para Deus e O buscou recebendo Dele forças[1].

                  Este salmo sempre foi usado pela Igreja Cristã nos seus primórdios como parte de suas orações matutinas[2]. “Talvez outros salmos se igualem a este na expressão de profunda devoção; poucos, ou talvez nenhum, o ultrapassem[3].

                  Mais uma vez no deserto fugindo de inimigos de dentro de sua própria casa, Davi vem nos mostrar neste salmo, que a oração de um coração aflito quepõe somente em Deus a sua esperança e razão de sua existência (cf. Sl 62.1,5), passa a ver os “desertos” dessa vida como oportunidades singulares para glorificar a Deus. Este Salmo nos mostra Como glorificar a Deus nas tribulações.Mas, para que isso aconteça é preciso:

  1. Desejar somente a Deus, v.1-4

1 Ó Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água.

2 Assim, eu te contemplo no santuário, para ver a tua força e a tua glória.

3 Porque a tua graça é melhor do que a vida; os meus lábios te louvam.

4 Assim, cumpre-me bendizer-te enquanto eu viver; em teu nome, levanto as mãos.

                   Ao declarar “Ó Deus, tu és meu Deus forte” (v.1), Davi viu seu deserto transformar-se num santuário, sua angústia em adoração. Olhando para aquele deserto ele compara todo o seu ser a ele. Sua alma e o seu corpo estavam secos e áridos como aquele deserto, e assim, como este necessitava de água, muito mais o seu ser necessitava de Deus. Assim, com todo o seu ser ele desejava Deus, almejava a Deus e O buscava “ansiosamente” (algumas traduções trazem “te busco logo cedo” em lugar de “ansiosamente”, como sendo a primeira necessidade de sua alma), ou seja, desejando ser saciado por Deus.

Aplicação v.1

Matthew Henry disse que “a alma está mais onde ela ama do que onde ela vive”. Almejamos a Deus quando o único alimento que nos interessa é a Palavra que sai da boca do Senhor (Dt 8.3; Mt 4.4). É correto afirmarmos que temos muitos desejos, mas, enquanto Deus não for o nosso único desejo não saberemos lidar com as coisas que conquistamos, pois, elas nos possuirão em vez de nós as possuirmos; nossos relacionamentos serão possessivos e utilitaristas, pois, amamos a nós mesmos. Se não nos satisfizermos em Deus a sede da nossa alma, ela definhará em seus desejos egoístas.

                   No v.2, ele se recorda da adoração que ele rendia a Deus no tabernáculo que ele levantara para Deus em Sião onde ele colocara a Arca da Aliança. Ele por não ser da tribo de Levi não podia entrar no santuário, mas, por saber como o culto a Deus ali deveria ser prestado, seu coração enchia-se de alegria, amor e temor em relação a Deus. “Assim, eu te contemplo no santuário”. Essa declaração é muito profunda pois, o que Davi está dizendo aqui é que independente do lugar onde ele viesse estar, ele adoraria a Deus da mesma forma, cheio de amor, alegria e reverência tal como ele fazia no santuário por ter consciência de estar na presença de Deus.

Aplicação v.2

“É a nossa adoração constante que nos prepara para as crises da vida”[4].O coração que tem prazer, alegria e reverência no culto público e comunitário, que zela por uma devoção compartilhada com os irmãos e preza por estar na Casa do SENHOR, quando estiver longe enfrentando a aridez deste mundo, ou num leito de enfermidade que o impossibilite de estar na Casa do SENHOR, ou qualquer outra circunstância alheia à sua vontade que justifique o impedimento de estar na comunhão com os irmãos haverá de louvar a Deus como se estivesse na Casa Dele.                         

                   Embora Davi tenha aprendido lá no tabernáculo como se devia adorar a Deus, ele não dependia do tabernáculo para louvá-Lo, mas, “Porque a Tua graça é melhor que a vida” (v.3) disse ele, os seus lábios louvariam a Deus. Ele compreendera o privilégio que havia recebido, a saber, louvar a Deus enquanto ele vivesse (v.4) e por isso mesmo queria ocupar todo o seu viver em constante adoração a Deus. O ato de levantar as mãos aqui deve ser visto como um ato de rendição. Ele não tinha em suas mãos nenhuma oferta e nenhum sacrifício para oferecer a Deus, por isso mesmo ele ofereceu a sua vida a Deus que foi comprada com a Sua graça.

Aplicação v.3 e 4

Com quanta facilidade somos tentados a colocar nossa dependência e confiança nos auxílios materiais, sendo que o que nos sustenta de fato é a graça de Deus. Enquanto não aprendermos a desejar a Deus mais do que a nossa própria vida não saberemos de fato qual o valor da Sua excelsa graça. Nas palavras do apóstolo João em Ap 12.11 falando dos crentes que viveram, morreram e venceram pelo sangue do Cordeiro, Jesus Cristo: “Eles, pois, o venceram por causa do sangue do Cordeiro e por causa da palavra do testemunho que deram e, mesmo em face da morte, não amaram a própria vida”. Enquanto não medirmos o valor da nossa vida pelo peso da Graça de Deus não O amaremos nem O desejaremos mais que tudo.

                   O coração que estiver passando por uma circunstância difícil e angustiante, se quiser glorificar a Deus além de deseja-Lo mais que tudo precisa também:

2. Deleitar-se somente em Deus, v.5-8

5 Como de banha e de gordura farta-se a minha alma; e, com júbilo nos lábios, a minha boca te louva,

6 no meu leito, quando de ti me recordo e em ti medito, durante a vigília da noite.

7 Porque tu me tens sido auxílio; à sombra das tuas asas, eu canto jubiloso.

8 A minha alma apega-se a ti; a tua destra me ampara.

                   O v.5 nos reporta aos sacrifícios feitos no tabernáculo. A gordura e a banha dos animais sacrificados tinham de ser queimadas na presença de Deus e não podiam ser consumidas pelos sacerdotes. Eram tidas como comidas finas (Sl 81.16; 147.14; Dt 32.14; Is 25.6). A ideia aqui neste verso é que a presença de Deus farta a alma dos Seus filhos e lhes dá todo o deleite, prazer e satisfação que os leva a louvarem a Deus com todo o seu ser, com um louvor que sai a plenos pulmões.

Aplicação v.5

Os deleites desse mundo, os finos manjares dos homens e suas iguarias, nem qualquer outra coisa pode trazer ao nosso coração o deleite que só Deus pode trazer. Nosso coração foi criado para se satisfazer com o que é eterno; como poderia se satisfazer com as coisas desse mundo? Não entregue o seu coração aos deleites desse mundo, pois, eles ao fim se mostrarão uma ilusão, um vazio; eles são realizações de homens igualmente vazios (cf. Sl 62.9).

                   No v.6 vemos o deleite de Davi em Deus era tanto que até mesmo quando o sono lhe fugia à noite, Davi não o via como algo inoportuno ou angustiante. Pelo contrário, ele punha-se a pensar em Deus e em Nele meditar. Apesar do seu corpo estar num deserto, sua alma estava num oásis espiritual, a saber, na presença de Deus. Ele buscava a Deus logo pela manhã (cf. v.1), e da mesma forma, com a mesma intensidade ele O buscava “durante a vigília da noite” quando o sono lhe fugia. Quando a preocupação rondava o seu coração, Davi recordava-se das seguintes verdades sobre Deus (v.7): (1)Ele era o seu auxílio e a sua proteção, pois, debaixo de Suas asas (cf. Sl 61.4), isto é, na Sua presença ele estava protegido; (2) seu leito era os braços de Deus e por isso ele repousava seguro.

Aplicação v.6 e 7

O desafio para nós aqui é buscarmos a Deus intensa e ininterruptamente. Se assim o fizermos, deleitaremos Nele e teremos somente Nele o prazer real que a nossa alma tanto anseia. Um dos grandes desafios para nós crentes é sermos constantes em nosso amor e devoção a Deus. Quantos são os que sofrem com males como a insônia e uma das principais razões para esse mal é a ansiedade, a falta de confiança em Deus, a recusa em deleitar-se em Deus e aceitar com serenidade a Sua vontade e Seus planos. Quando o sono lhe fugir por causa da ansiedade batendo à porta do seu coração, recorde-se dos poderosos feitos de Deus em sua vida e confie Nele.

                   No v.8 vemos que a adoração de Davi não era uma atitude meramente contemplativa e passiva. Em sua devoção a Deus ele era diligente e por isso disse “A minha alma apega-se a ti”. O verbo “apegar” literalmente se traduz aqui por “estreitar, seguir de perto”[5].Ele aparece em outras passagens do Antigo Testamento: em Gn 2.24 em relação à devoção nupcial; em Dt 10.20, quanto à lealdade ao SENHOR Deus; em Rt 1.14 como exemplo de lealdade e compromisso. Mas, é em Jo 14.21-27 que encontramos seu significado pleno. O Senhor Jesus fala da união entre Ele, o Pai, o Espírito Santo e a Igreja. Quando os crentes realmente obedecem com amor e temor aos mandamentos de Cristo demonstram que realmente O amam. Contudo, devemos lembrar que nosso amor por Deus é sempre uma resposta ao Seu amor por nós (1Jo 4.19). Foi porque Deus revelara a ele a sua graça (v.3) e como seu auxílio e proteção (v.7) é que ele então apegou-se a Deus com amor.

Aplicação v.8                           

Deus nos chamou e nos buscou neste mundo (Dt 10.20; 11.22-23; 13.4; 30.20). Agora, somos nós que devemos busca-Lo com todo amor e devoção (Jr 24.7; 29.13; 31.3), tanto com uma fé submissa quanto com uma busca ativa. Mas, sempre nos lembremos que só podemos buscar a Deus porque Ele com a Sua graça veio ao nosso encontro primeiro. Não deve haver em nosso coração qualquer resquício de merecimento nosso, mas, uma forte convicção de que tudo é pela graça de Deus.

                   Por fim, o coração aflito que ora a Deus em meio às angústias, se de fato quiser glorificar a Deus nessas circunstâncias, além de desejar a Deus mais do que tudo, além de deleitar-se somente em Deus, também precisa:

3. Gloriar-se somente em Deus, v.9-11

9 Porém os que me procuram a vida para a destruir abismar-se-ão nas profundezas da terra.

10 Serão entregues ao poder da espada e virão a ser pasto dos chacais.

11 O rei, porém, se alegra em Deus; quem por ele jura gloriar-se-á, pois se tapará a boca dos que proferem mentira.

                   Nos v.910 Davi pediu ao SENHOR que retribuísse aos seus inimigos conforme está registrado em 2Sm 18.6-8, e particularmente, isso aconteceu na vida de Absalão, quando este ficou preso pelo pescoço numa forquilha dos galhos de um carvalho, e, Joabe o traspassou com três dardos o seu coração (2Sm 18.9-18). Já temos visto em outros salmos que apresentam essas orações imprecatórias, nas quais Davi clama a Deus que intervenha para livra-lo dos seus inimigos. Pouco mais resta ser dito sobre isso, a não ser que quando nos deparamos com essas porções das Escrituras, em vez de nos assustarmos ou mesmo relutarmos em aceita-las, que as vejamos como um lembrete da Justiça de Deus contra os pecadores atrevidos que se opõem aos Seus santos propósitos. Davi gloriava-se no SENHOR Deus, ou seja, ele confiava somente em Deus para executar a justiça. Ele desejava que a verdade de Deus triunfasse sobre os mentirosos. Ele não se regozijou e nem festejou a destruição de seus inimigos como vemos em 2Sm 18.19-33, mas, exultou pelo fato de Deus vindicar Sua glória.

                   O último verso é um testemunho pessoal. Davi declara que ele, “o rei, porém, se alegra em Deus”, e não somente ele, mas, “quem por ele jura gloriar-se-á”, porque Ele, o próprio Deus “tapará a boca dos que proferem mentira”. Quando um líder dá o exemplo de confiança em Deus e os que estão sob sua responsabilidade o seguem, o Nome de Deus é glorificado no mundo.

Aplicação v.9-11

Nossa alegria deve estar em vermos Deus ser glorificado e honrado. Não desejamos o mal às pessoas, mas, precisamos mostrar-lhes que estão zombando de Deus e que Ele a Seu tempo virá vindicar Sua glória, e isso será terrível aos ímpios. O amor de Deus revelado no Evangelho não esconde a Sua justiça. Enquanto o pecador estiver deliberadamente contra Deus, este não deve alimentar qualquer esperança positiva, mas, sim, do juízo mais severo que alguém poderá receber. 

Conclusão

                   O deserto é o lugar mais terrível para alguém estar, mas pode ser o lugar das orações mais lindas, mais, profundas, mais sinceras e verdadeiras se a glória de Deus for o principal objetivo de um coração aflito. Olhe para o deserto (aflição) pelo qual sua alma tem passado não como um lugar do qual você quererá sair o mais rápido possível, mas, como o lugar onde sua alma será saciada com o oásis da presença de Deus.


[1] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.198.

[2] Cf. HARMAN, 2011, p.244.

[3] KIDNER, 1980, vol.1, p.246.

[4] WIERSBE, 2010, vol3, p.198.

[5] Cf. CALVINO, 1999, vol.2, p.594.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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