Canções da Alma – 66ª Mensagem

Oração

“A Ti, oh Deus Eterno, cuja glória é singular e vai além do que podemos compreender, buscamos agora em oração e Lhe pedimos que por Sua graça e misericórdia fale ao nosso coração nesta hora. Somos limitados, fracos e pecadores, e mesmo redimidos por Sua graça necessitamos que o Senhor nos sustente e nos ensine. Assim oramos em nome de Jesus”.

Salmo 65

O Louvor de Um coração Agradecido

Parte I

Exaltando o Ser de Deus

Introdução e Contextualização

                  Uma das principais virtudes de um verdadeiro crente é a sua gratidão a Deus. Um coração que reconhece a misericórdia, a graça e providência de Deus em sua vida será agradecido, trará nos lábios um louvor constante a Deus.

                  Nos próximos quatro salmos (Sl 65 a 68) veremos: O louvor de um coração agradecido, pois, este é o tema que une estes salmos. E hoje, no Sl 65 veremos que um coração agradecido quando louva a Deus o faz exaltando o ser de Deus como o Deus Salvador dos pecadores (v.1-4), o Rei das nações (v.5-8), e o Provedor dos Seus filhos (v.9-13).

                  O contexto histórico deste salmo é incerto. Trata-se de um cântico louvando a Deus por Suas muitas bênçãos derramadas sobre os homens e sobre a natureza por Sua bondade. Este salmo O exalta como o Deus da Criação e da Aliança, apresentando-O como Misericordioso, Generoso, Todo-Poderoso e Fiel. A julgar pela expressão “Coroas o ano da tua bondade” no v.11, este salmo parece referir-se a uma das festas religiosas dos judeus, a saber, a Festa das Colheitas, realizada no primeiro mês do ano civil de Israel (nosso outubro), ou ao Dia da Expiação (v.3).

                  A estrutura deste salmo é muito bela. Composto por três estrofes, onde cada uma começa descrevendo a grandeza de Deus (v.1, 5 e 9), no meio apresentam a misericórdia de Deus chamando os Seus eleitos e sustentando-os (v.2-3; 6-7; 10-12), e encerram mostrando que Deus enche de alegria e gratidão os corações de Seus filhos e por isso eles O louvam fervorosamente (v.4, 8 e 13).   

                  Quando um coração está cheio de gratidão a Deus por tudo o que Ele lhe tem feito, este coração exalta a Deus descrevendo-O como

  1. O Salvador dos pecadores, v.1-4

1 A ti, ó Deus, confiança e louvor em Sião! E a ti se pagará o voto.

2 Ó tu que escutas a oração, a ti virão todos os homens,

3 por causa de suas iniquidades. Se prevalecem as nossas transgressões, tu no-las perdoas.

4 Bem-aventurado aquele a quem escolhes e aproximas de ti, para que assista nos teus átrios; ficaremos satisfeitos com a bondade de tua casa – o teu santo templo.

                   Ao abrir este salmo Davi o faz adorando a Deus em Quem o Seu povo confia e a Quem o Seu povo louva. Os v.1-4 estão descrevendo um ato de culto a Deus no templo (cf. v.4), onde vemos os seguintes elementos do culto: louvor, oração, confissão de pecado e dedicação. E uma grande verdade que encontramos nestes quatro versos iniciais é que Deus salva os pecadores de seus pecados.

                   A frase “A ti, ó Deus, confiança e louvor em Sião!”, tal como está traduzidaesconde um pouco do sentido literal da mesma no hebraico (לְךָ֤ דֻֽמִיָּ֬ה תְהִלָּ֓ה אֱלֹ֨הִ֥ים בְּצִיּ֑וֹןlükä dù|miyyâ tühillâ ´élöhîm Büciyyôn), a qual traduzida literalmente seria “O louvor  para ti está em silêncio em Sião”, ou “A ti, louvor é silêncio”, ou seja, diante da grandiosidade de Deus os homens se calam reverentemente. O silêncio é cabível na adoração especialmente quando se reconhece a própria pequenez diante da grandiosidade de Deus. O profeta Habacuque diz: “O SENHOR, porém, está no seu santo templo; cale-se diante dele toda a terra” (Hq 2.20), e o mesmo disse o profeta Zacarias: “Cale-se toda carne diante do SENHOR, porque ele se levantou da sua santa morada” (Zc 2.13). Mas, não só a reverência na presença de Deus deve ser a nossa atitude. Além da reverência deve haver no coração do adorador a fidelidade em cumprir os votos feitos a Deus.

Aplicação v.1

É muito triste vermos que com quanta facilidade adentramos ao recinto de adoração a Deus de forma relaxada e irreverente. Reverência não pelo lugar, mas, pelo o que é feito aqui. Perdemos a dimensão da seriedade e santidade diante de Deus e por isso nos comportamos desleixadamente no Seu culto. E o coração que se descuida da reverência diante de Deus também quebrará os votos que um dia foram feitos a Ele. Mas um coração agradecido nunca perderá de vista a grandiosidade de Deus, e por isso sempre será reverente e fiel a Ele.

                   Ali na presença de Deus, Davi expressou a sua confiança em Deus ao saber que Ele ouve as orações dos pecadores quando estes veem a Sua bondade em todos os lugares (v.2), e clamam por Seu perdão e misericórdia, reconhecendo a iniquidade de seus corações. No v.3 Davi declara uma das verdades mais preciosas: apesar de serem muitas as nossas transgressões, Deus nos perdoa cada uma delas.           

Aplicação v.2 e 3

Oh! Que verdade maravilhosa! “…onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rm 5.20). Ao aproximarmo-nos de Deus com um coração quebrantado e humilde, reconhecendo a nossa pecaminosidade, certamente seremos agraciados com Seu perdão, pois, como disse Isaías: “Eis que a mão do SENHOR não está encolhida para que não possa salvar; nem surdo seu ouvido para não poder ouvir” (Is 59.1). Embora por causa de nossas iniquidades mereçamos ser expulsos da presença de Deus, Ele Se volta para nós com misericórdia e perdão. Contudo, devemos sempre orar suplicando Seu perdão. Antes de nos aproximarmos Dele, devemos suplicar o Seu perdão e crer no Seu amor.                    

                   O v.4 descreve não só o resultado de um coração que foi perdoado por Deus, mas, a razão porque Deus perdoa o pecador. É Deus que escolhe o pecador e o aproxima de Sua santa presença a fim de que este pecador redimido assista nos Seus átrios. Davi prossegue: “ficaremos satisfeitos com a bondade de tua casa – o teu santo templo”, ou seja, quão feliz é aquele a quem Deus escolheu e convidou para estar no Seu santuário. Para o israelita não havia privilégio maior do que estar na presença de Deus. Entrar no santuário era algo permitido somente aos sacerdotes. O povo tinha um acesso limitado ao templo, não podendo sequer entrar no mesmo, mas, somente ficar na parte externa conhecida como átrio. Mas, só o fato de estar ali, ainda que na parte externa do santuário, para Davi era causa de intensa alegria. “Aquilo que os adoradores de Israel tinham em seu santuário, os cristãos de hoje têm em Jesus Cristo e encontramos Nele a mais plena satisfação”[1].

Aplicação v.4

Somente pela graça de Deus é que temos acesso a Ele e ao Seu perdão (Jo 15.16). Quando compreendemos que foi Deus quem nos escolheu, nos chamou e nos deu o privilégio de estar em Sua presença, nosso coração não somente O louvará mas, ficará satisfeito com a bondade do SENHOR revelada a nós. Em Deus ficamos plenamente satisfeitos.

                   Um coração cheio de gratidão por tudo o que Deus lhe tem feito ao adora-Lo, O exalta destacando também que Deus é

2. O Rei das nações, v.5-8

5 Com tremendos feitos nos respondes em tua justiça, ó Deus, Salvador nosso, esperança de todos os confins da terra e dos mares longínquos;

6 que por tua força consolidas os montes, cingido de poder;

7 que aplacas o rugir dos mares, o ruído das suas ondas e o tumulto das gentes.

8 Os que habitam nos confins da terra temem os teus sinais; os que vêm do Oriente e do Ocidente, tu os fazes exultar de júbilo.

                   Deus estabeleceu a Sua Aliança com Seu povo escolhido (cf. v.4) para que que este fosse uma luz para os gentios (Is 42.6; 49.6), para que assim Seu povo não fosse constituído somente da nação de Israel, mas de pessoas de todas as nações, pois Cristo com Seu sangue comprou “para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação” (Ap 5.9).

                   Nestes versos vemos que Deus exerce Seu domínio real sobre tudo e todos. Ele “Com tremendos feitos” responde em Sua justiça àqueles que por Ele clamam, salvando-os e enchendo de esperança os corações de todos aqueles a quem Ele reúne “de todos os confins da terra e dos mares longínquos” (v.5). Seu reinado é sustentado pelo Seu poder absoluto, que não só criou tudo o que existe, mas, também sustenta (consolida) os montes (v.6), aplaca a fúria dos mares e cala o “tumulto das gentes” (v.7). Um fato importante aqui é que as Escrituras sempre retratam as nações pagãs com a figura das águas dos mares (Is 17.12), e por esta razão em Apocalipse a besta que emerge do mar é uma força que se levanta de entre as nações (Ap 13.1,7)

                   Os tremendos feitos do Rei Supremo são vistos em toda a face da terra, pois, até “Os que habitam nos confins da terra temem os teus sinais”, e, reunidos tanto do “Oriente e do Ocidente” (v.8) os Seus eleitos são plenificados por Deus e Ele faz com que eles exultem de júbilo em Sua presença.  

Aplicação v.5-8

Deus é o Rei absoluto e supremo sobre as nações, e delas, ele reúne aqueles a quem Ele escolheu e quis salvar. Em Seu poder que Ele tem com o qual criou tudo o que existe e mantém toda a Sua criação podemos esperar, e em esperando no Seu poder exultaremos de alegria. O fato de sabermos e cremos nessas verdades a respeito de Deus deveríamos trazer em nossos lábios somente louvores que testemunhassem ao mundo os Seus “tremendos feitos”. Em toda terra o Nome do SENHOR Deus será proclamado, e os Seus adoradores serão reunidos. Em Deus exultaremos de júbilo.

                  Um coração cheio de gratidão por tudo o que Deus lhe tem feito ao adorá-Lo, O exalta destacando também que Deus é

3. O Provedor de Seus filhos, v.9-13

9 Tu visitas a terra e a regas; tu a enriqueces copiosamente; os ribeiros de Deus são abundantes de água; preparas o cereal, porque para isso a dispões,

10 regando-lhe os sulcos, aplanando-lhe as leivas. Tu a amoleces com chuviscos e lhe abençoas a produção.

11 Coroas o ano da tua bondade; as tuas pegadas destilam fartura,

12 destilam sobre as pastagens do deserto, e de júbilo se revestem os outeiros.

13 Os campos cobrem-se de rebanhos, e os vales vestem-se de espigas; exultam de alegria e cantam.

                   Uma das promessas de Deus para os israelitas referentes à terra prometida foi “mas a terra que passais a possuir é terra de montes e vales; da chuva dos céus beberá as águas; terra de que cuida o SENHOR, vosso Deus; os olhos do SENHOR, vosso Deus, estão sobre ela continuamente, desde o princípio até ao fim do ano” (Dt 11.11-12). E assim, Davi sabia que mesmo Deus estando continuamente atento à Sua criação e especialmente sobre Seu povo, em tempos específicos Ele visita a terra e revela o Seu poder suprindo e provendo as necessidades do Seu povo.

                   Do próprio Deus vinham as chuvas para regar a terra, enriquecê-la e fazer que dela brotassem ribeiros de abundantes águas (v.9), controlando o curso das águas para que estas não transbordassem destruindo em vez de trazer vida (v.10). Deus prepara a terra e “a amoleces com chuviscos”. Numa terra seca se a chuva cai com força ela simplesmente não penetra o solo e leva tudo com a enxurrada. Mas, se a chuva vem mansa e serena então ela penetra o solo, o amolece e este fica pronto para receber a semente. E assim Davi pôde dizer a Deus: “e lhe abençoas a produção” (v.10).

                   Como já foi dito anteriormente, o v.11 parece referir-se à Festa das Colheitas. Numa linguagem poética tão bela Davi retrata a Deus passando pela terra com Seus carros carregados de cereal, e na abundância desses carros quando estes balançam, Deus permite que deles caia mantimento para os Seus filhos. Foi isso o que ele quis dizer com “as tuas pegadas destilam fartura”[2]. Mas, Deus não somente supre de mantimento os Seus filhos; Ele também “derrama” as sementes para as futuras lavouras. Foi isso o que ele quis dizer com “destilam sobre as pastagens do deserto” (v.12). E onde há pastagens, há rebanhos, há fartura, há sustento (v.13). O salmo encerra apresentando os montes, a terra, e toda a natureza personificados exultando de alegria e cantando louvores a Deus.   

Aplicação v.9-13

Davi reconheceu que tudo vem das mãos de Deus: as águas para regarem e fecundarem o solo; o solo que recebe a água e a semente, e a própria semente vem das mãos de Deus. É Deus quem prepara todas as coisas para que Seus filhos recebam as bênçãos de Suas poderosas e generosas mãos. Isso deve nos fazer melhores mordomos das bênçãos que Deus nos deu, especialmente do alimento. Devemos evitar a todo custo o desperdício e o menosprezo para com o alimento que Ele amorosamente nos dá. Ele jamais desampara o justo e permite que a descendência deste mendigue o pão (Sl 37.25). Em Deus está toda a certeza de sermos supridos e amparados em quaisquer necessidades. E assim Ele nos faz exultar de alegria e cantar.

Conclusão

                   O salmo começou falando do cuidado de Deus com a minúscula nação de Israel, passando por todas as nações e encerrou falando do Universo todo louvando a Deus. Em nossa gratidão a Deus devemos demonstrar nossa reverência, amor, temor, admiração por Sua beleza, majestade e poder. Expressando nossa gratidão a Deus nossa alma será plenamente satisfeita Nele, e exultará de júbilo e alegria. Certamente, não há melhor maneira de viver do que esta.


[1] WIERSBE, 2010, vol.3, p.201.

[2] Cf. HARMAN, 2011, p.250.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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