Canções da Alma – 68ª Mensagens

Oração

“Santo Deus, que a Tua glória revelada em Tua Palavra toque em nossos corações. Que ouçamos Tua Palavra e por ela alimentados e fortalecidos, vivamos neste mundo para glorificar Teu santo Nome. Por Tua graça e misericórdia, fale ao nosso coração. Necessitamos de Ti. Em Nome de Jesus Cristo oramos, amém!”. 

Salmo 67

O Louvor de Um coração Agradecido

Parte III

Exaltando a Deus na Igreja e no Mundo

Introdução e Contextualização

                  Um coração cheio de gratidão a Deus será movido a anunciar os poderosos feitos de Deus por onde quer que ele vá. Um coração que tenha sido verdadeiramente transformado e impactado pela glória de Deus haverá de ser um proclamador da glória de Deus.

                  Este salmo foi entregue “ao mestre de canto” e composto “para instrumentos de cordas”, sendo um hino, um cântico que deveria ser entoado no culto congregacional. Assim como o Sl 66, não temos nenhuma informação sobre quem foi o seu autor e quando ele foi escrito. Mas, a conexão dele com os dois que o antecedem é muito clara, especialmente quanto ao assunto comum aos três, a saber, a glória de Deus sendo revelada na Igreja e no mundo.

                  Este salmo, portanto, nos mostra que devemos sempre exaltar a Deus na Igreja (o Seu povo) e no Mundo. É também um “salmo missionário”, que nos leva a olhar para além das divisas da Igreja e sermos impulsionados a proclamar o Nome de Deus no mundo, pois, o Seu Reino não está limitado apenas ao Seu povo (Israel/Igreja), mas, estende-se por toda a extensão da terra não deixando uma nação sequer de fora. Também devemos olhar para este salmo e o vermos também como um “salmo messiânico” contemplando assim o reinado de Cristo sendo estendido a partir de Israel para todas as nações, pois ele “toca de leve no reino de Deus, o qual seria erigido no mundo durante a vinda de Cristo”[1].

                 Quando um coração agradecido louva a Deus mostrando que Ele é digno de todo o louvor na Igreja e no mundo, três verdades a respeito de Deus ficam evidentes.

  1. A Sua graça resplandece, v.1-2

1 Seja Deus gracioso para conosco, e nos abençoe, e faça resplandecer sobre nós o rosto;

2 para que se conheça na terra o teu caminho e, em todas as nações, a tua salvação.

                   O coração que experimentou da Graça de Deus com certeza buscará cada vez mais a Deus para Dele receber mais de Sua graça. O adjetivo “gracioso”, no texto hebraico é um verbo (חָנַן) e traz a ideia de “favorecer alguém”. O salmista aponta para o fato de que Deus nos favorece generosamente sem qualquer merecimento nosso. Há neste verso um eco da bênção sacerdotal de Nm 6.24-26, o qual se repete ainda em Sl 4.6; 29.11; 31.16; 80.3,7,19; 119.135. Esta bênção sempre esteve na memória dos judeus. Dessa bênção de Deus dependem a paz, a segurança e a felicidade do Seu povo. É o resplendor da glória do rosto de Deus sobre os Seus filhos que ilumina suas vidas. É a Graça de Deus que livra os homens da miséria do pecado e os transforma em Seus filhos e em súditos de Seu Reino.

Toda nossa a nossa felicidade é oriunda da Graça de Deus e só pode ser completa e plena
enquanto vivermos sob a aprovação de Deus, pois, esta é a ideia de as palavras “resplandecer sobre nós o rosto”. Não ter o rosto de Deus resplandecendo sobre nós e perder o brilho da Sua glória significa estar sob o julgamento de Deus.

Aplicação v.1

Neste verso destacamos as seguintes aplicações para nós:

  • A principal oração que devemos sempre fazer é suplicar a graça de Deus. Nenhuma outra necessidade é mais urgente, mais real. Enquanto Deus não resplandece com Sua glória sobre o homem, este estará nas mais profundas trevas; só a luz da glória de Deus pode vencer as trevas da morte.
  • A nossa oração não deve egoísta. Na oração dominical (“Pai Nosso”) o Senhor Jesus nos ensinou a olhar para a coletividade da Igreja. Devemos clamar em favor de todos os nossos irmãos, tal como o salmista fez aqui.
  • A única coisa que realmente deve importar para nós é a aprovação de Deus. Se formos aprovados por Deus, nem toda a rejeição do mundo contra nós será capaz de roubar de nós a felicidade que Deus nos dá.

                   Ainda que a nossa felicidade esteja em questão aqui, o objetivo principal de Deus resplandecer sobre nós a luz graciosa de Seu rosto é “para que se conheça na terra o teu caminho e, em todas as nações a tua salvação”. Por “caminho” (דֶּרֶךְ) aqui devemos entender Seu pacto, Sua aliança que Ele estabelecera com Seu povo, “o qual é a fonte donde emana a salvação e pelo qual Ele se manifestou no caráter de Pai a Seu antigo povo, e mais tarde de uma forma muito mais clara no evangelho, quando o Espírito de adoção foi derramado em grande profusão”[2].

Aplicação v.2

Como filhos de Deus o que mais devemos querer nesta vida é que em todos os lugares Deus seja visto e reconhecido como o Deus da Graça, o Salvador misericordioso que acolhe o pecador, porque estabeleceu um pacto eterno para salvá-lo. O nosso objetivo não é somente desfrutarmos da medida da glória de Deus que nos é permitida nesta vida, mas, também resplandecê-la no mundo para que Deus seja glorificado.

                   Outra verdade sobre Deus neste salmo é que

2. A Sua Justiça prevalece, v.3-5

3 Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos.

4 Alegrem-se e exultem as gentes, pois julgas os povos com equidade e guias na terra as nações.

5 Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos.

                   Deus é o Rei das nações. Ele é digno do louvor de todos os povos. Por isso o salmista declara: “Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos” (v.3,5). Além de enfatizar isso duas vezes no versículo, ele ainda repete duas vezes este versículo para que não reste dúvida de que Deus é, não somente digno de receber todo o louvor dos povos, como certamente Ele o receberá.

                  Desde o início, as nações têm se rebelado contra Deus e têm andado em seus próprios caminhos. Num primeiro olhar parece-nos que o homem ao se rebelar contra Deus escapa do Seu domínio e controle. Mas, nada pode estar mais longe da verdade do que isso. Nada foge do controle de Deus, e nem mesmo quando os homens se rebelam contra Ele, deixam de cumprir os Seus propósitos eternos. Todas as nações, todos os homens haverão de comparecer diante de Deus e lhe renderão louvor, reconhecerão Sua grandeza e glória, se renderão a Cristo e verão o Seu domínio sobre todos os reinos. Com o clangor da sétima trombeta e o som de grandes vozes nos céus disserem: “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11.15), neste dia, todas as nações estarão subjugadas e encurvadas diante do trono de Cristo.

                   Neste Grande Dia também todos verão a Justiça de Cristo que prevalecerá sobre toda iniquidade, julgará retamente cada ato, cada palavra e cada pensamento dos homens. A alegria descrita aqui no v.4 a qual tomará conta dos corações é a que resulta da graça resplandecente de Deus sobre os corações que foram salvos. “As gentes” aqui, não se refere a todos os seres humanos, mas, sim, a todos quantos foram alcançados, salvos e incluídos no povo de Deus, pois como nos lembra Calvino sobre o reino de Deus referido aqui nestes versos “…não é aquele governo de Deus que em sua natureza é geral, mas àquela jurisdição especial e espiritual que ele exerce sobre a Igreja, na qual não se pode dizer propriamente que ele governa de outra maneira senão quando ele tem a Igreja congregada sob sua égide por meio da doutrina de sua lei. A palavra justiçaé inserida em enaltecimento de seu governo” (compare com Is 11.4; Mq 4.3)[3].

                   A justiça de Deus contra o pecado é algo terrível (Hb 10.31). Para o ímpio, ela se revela terrível e devastadora. Mas, para o eleito de Deus, a Sua justiça se revela justificadora, ou seja, Cristo assumiu a condenação dos eleitos de Deus, e, tomou-lhes a culpa que pesava sobre eles e os perdoou revestindo-os com a Sua justiça. Para o ímpio, a justiça de Deus é motivo de pavor; para os salvos é motivo de louvor e gratidão.

Aplicação v.3-5

Diante disso temos duas questões a serem aplicadas ao nosso coração:

  • Para você, a justiça de Deus é motivo de louvor e alegria porque você foi justificado por Cristo, ou pensar na justiça de Deus lhe causa pavor porque ainda você não é um salvo?
  • A justiça de Deus sempre prevalecerá. Até mesmo quando nos parece que a impiedade dos homens está prevalecendo, isso é só por um momento. O mal nunca vencerá o bem; a injustiça nunca prevalecerá sobre a Justiça de Deus.

                   Por fim, a última verdade sobre Deus que vemos aqui é

3. A Sua bênção engrandece, v.6-7

6 A terra deu o seu fruto, e Deus, o nosso Deus, nos abençoa.

7 Abençoe-nos Deus, e todos os confins da terra o temerão.

O desfecho deste salmo nos remete à preciosa verdade de que é Deus quem nos sustenta e nos faz plenamente satisfeitos. “A terra deu o seu fruto” porque é Deus “o nosso Deus

nos abençoa”. Não há bênção fora da benevolência de Deus. Por isso o salmista clama a Deus para que Ele abençoe o Seu povo, a fim de que Deus venha a ser temido, adorado em “todos os confins da terra” (v.7). Como disse Calvino “todo benefício que Deus concedera a seu antigo povo foi, por assim dizer, uma luz mantida diante dos olhos do mundo com o intuito de atrair a atenção das nações para ele”[4].

Mas a questão aqui é: qual a relação entre essa colheita abençoada por Deus e a conversão das nações do mundo? Como já demonstramos, este salmo está intimamente relacionado ao Pentateuco, e assim como o verso inicial aponta para a bênção sacerdotal de Nm 6. 24-26 estes versos finais apontam para Lv 26.3-4 no qual encontramos a seguinte promessa de Deus a Israel da qual dependia a sua obediência irrestrita a Deus: “Se andardes nos meus estatutos, guardardes os meus mandamentos e os cumprirdes, então, eu vos darei as vossas chuvas a seu tempo; e a terra dará a sua messe, e a árvore do campo, o seu fruto”.

As bênçãos que Deus derrama sobre Seu povo servem para testemunho diante das nações mostrando que somente Ele deve ser temido (v.7). Por que “todos os confins da terra” temeriam um Deus que não fosse capaz de abençoar o Seu povo?

                   Mas, além de engrandecer o Nome de Deus diante das nações, as bênçãos de Deus derramadas sobre nós também nos engrandecem. Podemos nós encontrar honra maior do que a de sermos chamados de povo de Deus, família de Deus, ou benditos (abençoados) do Senhor (Sl 115.15; Mt 25.34)?

Aplicação v.6-7

As aplicações para nós como Igreja aqui são claras:

  • Quando obedecemos ao Senhor, oramos e confiamos Nele, Ele supre todas as nossas necessidades, e assim servimos como testemunhos vivos da graça de Deus.
  • As bênçãos de Deus ao mundo são reflexos das bênçãos Dele para a Sua Igreja. O compromisso de Deus é com a Sua Igreja, o Seu povo.
  • Mas, que nunca nos deixemos levar por qualquer sentimento pecaminoso de orgulho e arrogância; o fato de Deus ter-nos escolhido para Si é motivo de alegria e júbilo, mas, nunca de arrogância e soberba pois, foi tudo obra da graça de Deus. Não caiamos no mesmo pecado em que caiu Israel ensoberbecendo-se e se esquecendo que Deus o houvera escolhido para ser luz para os gentios e não para se fechar em si mesmo guardando essa luz só para si.

Conclusão

                   Salvo pela graça, perdoado pela justiça e preservado pela bênção de Deus. A um coração que foi assim agraciado por Deus não faltam motivos para louvá-Lo e ser-Lhe grato. Um coração que recebeu tão grande graça, justiça e bênção não se conterá em si mesmo, antes proclamará em todos os lugares a grandiosa salvação que Deus lhe deu. Não permita que o comodismo tome conta de seu coração. Antes, anuncie o que Deus tem feito em sua vida e como Ele foi gracioso para consigo e lhe salvou.


[1] CALVINO, 1999, vol.2, p.635.

[2] CALVINO, 1999, vol.2, p.637.

[3] CALVINO, 1999, vol.2, p.636.

[4] Ibid, p.638.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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