Canções da Alma – 6ª Mensagem

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Salmo 7

Lidando Com As Calúnias

Contextualização

              No título deste salmo temos a seguinte afirmação: “Canto de Davi. Entoado ao SENHOR, com respeito às palavras de Cuxe, benjamita”. Esta é a única informação que temos sobre o contexto deste salmo. Mas, diante dessa declaração temos algumas deduções:

  • Cuxe, um benjamita, era da mesma tribo que o rei Saul, o grande inimigo de Davi. Alguns expositores bíblicos entendem que Cuxe é um codinome para Saul, pois, Davi não querendo infamar o rei chamou-o de Cuxe[1]. Concordo com Calvino que não aceitava essa interpretação, e, em vez disso afirmou que Cuxe poderia ser apenas um dentre o povo que se levantava contra Davi caluniando-o perante Saul[2]. De conformidade com 1Sm 22.8; 24.9 e 26.19, homens caluniadores e fraudulentos incitavam Saul contra Davi.
  • A palavra “Canto” no hebraico é  šiGGäyôn), a qual aparece somente aqui e em Hc 3.1. Seu significado é incerto. Uns a entendem como um ritmo musical livre, outros, como um cântico. Ao que tudo indica, a segunda opção é a mais coerente. Sendo o šiGGäyôn um cântico, era ele um cântico de lamento ou de exultação em Deus? Olhando para as duas únicas passagens bíblicas em que ele aparece (Sl 7 e Hc 3.1) podemos afirmar com certa segurança que o šiGGäyôn era um cântico em que a pessoa expressava sua confiança em Deus para julgar sua causa, e, por isso mesmo era um cântico de exultação em Deus.

              Diante de tudo isso, tiramos lições preciosas para nossa vida no tocante a lidarmos com as calúnias. Por isso, proponho para nossa meditação o seguinte tema: Lidando com as calúnias.

              A calúnia tanto pode ser uma mentira contada a respeito de alguém (como aconteceu a Davi), como também pode ser uma verdade que deveria ter sido guardada para se evitar um mal. Em ambos os casos, sendo mentira ou verdade, a calúnia tem o fim de prejudicar uma pessoa.

              Você já foi caluniado alguma vez? Como doeu, não é mesmo? Mas, você já caluniou alguém? Você já disse alguma mentira sobre alguém que trouxe profunda mágoa e danos para a pessoa? Você já espalhou uma verdade que deveria ter sido guardada e preservada para se evitar males incomensuráveis? Veja o que nos diz Pv.16.28: O homem perverso espalha contendas, e o difamador separa os maiores amigos”.

              Neste salmo aprendemos preciosas lições sobre como lidar com as calúnias.  Quando você for caluniado:

1) Refugie-se na Justiça Deus, v.1-2

Exposição v.1-2: “SENHOR Deus meu, em ti me refugio; salva-me de todos os que me perseguem e livra-me;  2 para que ninguém, como leão, me arrebate, despedaçando-me, não havendo quem me livre”.

              SENHOR Deus meu…”. Esta declaração inicial é muito importante, pois:

  • Mostra a relação pessoal que Davi tinha com Deus – Ele era o seu Deus!
  • Deus lhe era suficiente. Davi não olha para os muitos inimigos, antes, ele volvia seus olhos para Deus e sabia que nenhum outro socorro a mais seria necessário.

              A primeira atitude do servo de Deus em quaisquer circunstâncias, especialmente quando for alvo da calúnia e injustiça deve ser refugiar-se na justiça de Deus. Os Salmos descrevem Deus como uma muralha cercando e protegendo Seus filhos. Assim é a justiça de Cristo em nós – ela nos envolve. Não existe recurso melhor que este. Melhor do que sairmos defendendo nossa honra é nos refugiarmos em Deus esperando Nele a justiça.

              Duas palavras aqui são importantes: “salva-me” e “livra-me”. A situação em que ele se via era extremamente agonizante. Ele se via como uma presa nas garras de um leão pronto para despedaça-lo. Duas verdades sobressaem aqui:

  • Somente Deus, poderia livrá-lo.
  • Aqueles que se propuseram ajuda-lo falharam.

Aplicação v.1-2: Quando você for alvo da calúnia de uma pessoa, volte-se para Deus e confie exclusivamente Nele. Ele poderá usar alguém para ajudar você, contudo, esse alguém é só um instrumento nas mãos de Deus. Não há lugar melhor para nos abrigarmos nessas horas difíceis, senão em Deus.

               Sua confiança em Deus levará você ao segundo passo:

2) Purifique-se com Justiça de Deus, v.3-5

Exposição v.3-5: 3 SENHOR, meu Deus, se eu fiz o de que me culpam, se nas minhas mãos há iniquidade,  4 se paguei com o mal a quem estava em paz comigo, eu, que poupei aquele que sem razão me oprimia,  5 persiga o inimigo a minha alma e alcance-a, espezinhe no chão a minha vida e arraste no pó a minha glória”.

               Duas ações de Davi aqui resumem estes três versículos:

  • Davi avaliou sua consciência e não encontrou nenhum dos pecados de que seus caluniadores o acusavam. Não devemos tomar essas palavras de Davi como um gesto arrogante de alguém que está a dizer que não tem pecado. Pelo contrário, essas palavras no mesmo tempo que mostram que ele tinha a consciência limpa diante de Deus de que não havia cometido nenhum desses pecados de que caluniosamente era acusado, ele também admitiu que era um pecador passível de cair nesses pecados, pois, se colocara nas mãos de Deus para puni-lo caso tivesse cometido, ainda que involuntariamente, algum desses pecados de que era acusado pelos seus inimigos.
  • O uso consciente que ele faz da imprecação contra seus inimigos. A imprecação (praga, maldição) era uma forma de trazer mais peso às palavras. Davi dá ainda maior peso às suas palavras, pois, sabia perfeitamente que essas imprecações poderiam se voltar contra ele caso fosse culpado daqueles pecados e crimes de que estava sendo acusado pelos inimigos.

               Precisamos entender a gravidade e seriedade desse ato de Davi. Para tomarmos Deus como nosso advogado suplicando-Lhe que faça justiça por nós quando formos falsamente acusados por caluniadores precisamos ter plena consciência de que não estamos envolvidos nestes pecados para que a justiça de Deus não se volte contra nós mesmos. Como Calvino nos lembra: “…cometeríamos grave erro se desejássemos engajá-lo como advogado e defensor de uma má causa”[3]. Mas, infelizmente, é o que mais vemos acontecer. As pessoas tomam o Nome de Deus em vão, recorrem à justiça Dele fazendo uso da imprecação contra os inimigos, esquecendo-se ou fingindo não ver seus próprios pecados odiosos aos olhos de Deus. Comportam-se levianamente diante de Deus e dos homens.

Aplicação v.3-5: Uma das maiores bênçãos é uma consciência limpa. Toda vez que alguém acusar você de algo, vasculhe seu coração, veja se tal acusação procede. Sendo falsa, Deus tomará justiça por você. Sendo verdadeira, arrependa-se e peça o perdão de Deus, mas, nunca evoque a justiça de Deus contra as pessoas caso elas tenham razão naquilo em que acusam você. Invocar Deus como seu advogado estando você com a consciência suja fará com que Ele venha como Juiz sobre você e para lhe impor as penas do seu pecado!

               Uma vez que você estando refugiado em Deus e com sua consciência limpa

3) Medite na justiça de Deus, v.6-11

Exposição v.6-11: 6 Levanta-te, SENHOR, na tua indignação, mostra a tua grandeza contra a fúria dos meus adversários e desperta-te em meu favor, segundo o juízo que designaste.  7 Reúnam-se ao redor de ti os povos, e por sobre eles remonta-te às alturas.  8 O SENHOR julga os povos; julga-me, SENHOR, segundo a minha retidão e segundo a integridade que há em mim.  9 Cesse a malícia dos ímpios, mas estabelece tu o justo; pois sondas a mente e o coração, ó justo Deus.  10 Deus é o meu escudo; ele salva os retos de coração.  11 Deus é justo juiz, Deus que sente indignação todos os dias”.

               Clamando pela intervenção divina Davi declara:

  • A indignação de Deus em contraste com a fúria dos seus adversários. Infinitamente pior é cair nas mãos de Deus em Sua indignação contra o pecado. A indignação de Deus faz a fúria dos homens parecer uma brisa suave. A indignação de Deus não é uma raiva descontrolada; ela é a expressão da justiça e do juízo de Deus (v.6).
  • Deus é o Justo Juiz das nações. Perante Ele todos devem comparecer (v.7), para receberem Dele o julgamento (v.8). Só Ele pode fazer cessar as obras malignas geradas nos corações (malícia), pois, só Ele sabe as reais motivações dos corações (v.9). Ao mesmo tempo que Ele é o escudo e salvação para os retos de coração (v.10), Ele também é “justo juiz, Deus que sente indignação todos os dias” (v.11).

               Diante dessas verdades, Davi novamente apela para a sua consciência limpa (v.9). Mais do que falar de si mesmo, Davi aqui está falando do caráter de Deus. A questão é a que já foi levantada anteriormente: como ele seria louco em evocar a justiça de Deus sobre os adversários caluniadores se ele fosse realmente culpado daquilo que era acusado por eles? Se ele fizesse isso estaria insultando a santidade e justiça de Deus com tamanha perversidade. Assim sendo, ele deveria ter sua consciência tranquila, ou não invocar a justiça de Deus. Ele tinha a consciência tranquila e por isso evocou a justiça divina em seu favor. Quantas vezes, lamentavelmente, deixamos de invocar a justiça de Deus a nosso favor porque estamos em pecado! Tão grave quanto invocar a justiça de Deus estando sujos com o pecado é deixarmos de invocar a Deus porque estamos enlameados com o pecado. Abandonemos então o pecado e não a presença santa de Deus!

               Como fazemos bem ao nosso coração quando em vez de nos ocuparmos nossa mente pensando nas maldades feitas contra nós, colocamos nosso pensamento em Cristo Jesus e nos Seu maravilhoso amor por nós!

Aplicação v.6-11: Não permita que o pecado se aloje em seu coração afastando-o da comunhão com Deus. Lembre-se do que diz Salomão: “Em todo tempo sejam alvas as tuas vestes, e jamais falte o óleo sobre a tua cabeça” (Ec 9.8). Busque uma vida de comunhão com Deus em santidade. Medite na justiça de Cristo com a qual você foi revestido e pela qual você está em paz com Deus (Rm 5.1). Somente a justiça de Cristo poderá mantê-lo em pé diante daqueles que o acusarem de pecados que você cometeu no passado, dos quais você já foi perdoado; somente a justiça de Deus revelada em Cristo pode dar ao seu coração a certeza de que ninguém poderá intentar acusação contra você porque foi Deus quem o justificou (Rm 8.33).

               Por fim,

4) Proclame a Justiça de Deus, v.12-17

Exposição v.12-17:  12 Se o homem não se converter, afiará Deus a sua espada; já armou o arco, tem-no pronto;  13 para ele preparou já instrumentos de morte, preparou suas setas inflamadas.  14 Eis que o ímpio está com dores de iniquidade; concebeu a malícia e dá à luz a mentira.  15 Abre, e aprofunda uma cova, e cai nesse mesmo poço que faz.  16 A sua malícia lhe recai sobre a cabeça, e sobre a própria mioleira desce a sua violência.  17 Eu, porém, renderei graças ao SENHOR, segundo a sua justiça, e cantarei louvores ao nome do SENHOR Altíssimo”.

               Anunciando a justiça de Deus, Davi não se esquece de falar da Sua misericórdia, pois, havendo conversão do pecador, Deus o acolherá, mas, “Se o homem não se converter, afiará Deus a sua espada; já armou o arco, tem-no pronto” (v.12). Afigura de um guerreiro preparado para matar é empregada por Davi para mostrar a justiça de Deus. Para o ímpio que não se arrepende do seu pecado e se recusa a abandoná-lo, Deus, “para ele preparou já instrumentos de morte, preparou suas setas inflamadas” (v.13). Em nossa prática de evangelismo devemos sempre incluir essa terrível verdade: sem arrependimento e conversão a única coisa que o pecador pode esperar de Deus é a Sua ira justa. Os pecadores precisam saber que estão em franca oposição a Deus e que Ele não fará vistas grossas ao pecado deles.

               As pessoas pecam porque são pecadoras; mas, elas insistem em seus pecados porque não alimentam em seus corações nenhum temor pelo ser de Deus. Para os pecadores, Deus é visto de duas formas: ou Ele é um Deus tão bom que no final das contas não punirá ninguém, ou Ele é tão ausente da vida neste mundo que pouco ou nada Se importa com o que as pessoas fazem aqui. Ambas conclusões levam ao ateísmo prático, ou seja, as pessoas até admitem a existência de Deus, mas, O julgam tão irrelevante e sem sentido que acabam por afundarem-se em toda sorte de pecados e iniquidades. Os v.14-15 comprovam isso por meio de duas figuras que Davi empregou para falar de seus adversários caluniadores:

  • A da parturiente (v.14). Como uma parturiente em dores de trabalho de parto, eles engravidaram-se da malícia[4] e agora dão à luz a mentira. Observemos aqui o processo do pecado. Tudo começa no coração (malícia) para depois surgir em forma de palavras (mentira) e ações (iniquidade);
  • A do coveiro (v.15). Assim como um coveiro que num dia abriu uma cova para sepultar outra pessoa e no outro dia morrera e fora sepultado na cova que abrira no dia anterior, os adversários de Davi caíram nas próprias ciladas e mentiras que armaram contra Davi. O 16 complementa essa ideia mostrando que toda a malícia, tudo o que eles laboraram contra Davi, toda a violência com que o atacaram haveriam de recair sobre a cabeça e a mioleira deles. A lei da semeadura é infalível; tudo o que se planta haverá de ser colhido!

               No desfecho do salmo, Davi proclama a justiça de Deus com louvores. Ele louva e exalta o Nome de Deus dizendo: “Eu, porém, renderei graças ao SENHOR, segundo a sua justiça, e cantarei louvores ao nome do SENHOR Altíssimo”. Enquanto os adversários seriam vergonhosamente desbaratados por Deus que agindo com Sua justiça veio em favor de Seu servo, este, diferentemente dos adversários, renderia graças ao SENHOR tendo como parâmetro da Justiça de Deus, e, cantaria louvores ao Nome do SENHOR que é o Altíssimo, o Único Deus e Todo-poderoso!

Aplicação v.6-11: Proclame a justiça de Deus. O mundo clama por justiça, mas, precisa saber que a única justiça que realmente fará diferença é a justiça de Deus. Proclame aos pecadores que eles estão em guerra contra Deus e que Ele pessoalmente virá vindicar Sua santidade. Proclame aos pecadores que se eles não se converterem e abandonarem seus caminhos iníquos haverão de cair nas mãos de Deus e sofrerem terrivelmente. Diga-lhes que hoje Deus lhes estende a mão de misericórdia, mas, que no dia em que Ele se voltar para eles para exercer Sua justiça não haverá mais esperanças para eles.

Conclusão

               Lidar com a calúnia não é fácil. Nosso senso de justiça é muito forte. Não admitimos ver nosso nome enxovalhado por mentirosos. Porém, devemos nos refugiar em Deus – não há outro abrigo para nós. Devemos ter nossa consciência sempre limpa e ajustada pela justiça de Cristo – os justos são os justificados por Cristo. Meditemos na justiça de Deus, pois, enquanto nossa mente se ocupar com esse maravilhoso assunto não cairemos na tentação de achar que tudo está perdido – Deus está no controle e fará justiça! Por fim, nunca deixemos de anunciar aos pecadores que eles estão sob sério risco de morte diante de Deus, pois, Ele está pronto para ferir mortalmente àqueles que zombam Dele – anunciar a salvação requer anunciar também a condenação dos ímpios atrevidos e zombeteiros.

               Que Deus nos proteja de tais pessoas! Amém!

[1] Cf. HENRY, 2010, vol.3, p. 244.

[2] CALVINO, 1999, vol.1, p.136.

[3] CALVINO, 1999, vol.1, p.138.

[4] A palavra que aqui é traduzida por “malícia” (v.9,14 e 16) no hebraico é `ámäl é “trabalho, esforço, obra”. Algumas versão tais como ACF e a ARC traduzem por “obra”. O sentido aqui é claro: obras malignas geradas no coração.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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