Canções da Alma – 70ª Mensagem

Oração

“Santo Deus, cujos olhos perscruta o que há de mais oculto em nossa alma, diante de quem nada podemos esconder. Como veremos nesta porção das Escrituras, nosso coração nos é obscuro, e desconhecido para nós mesmos; mas, não o é para o Senhor. Por isso mesmo, desvenda nossos olhos, clareia a escuridão da nossa alma para que vejamos nos seus recônditos os pecados, os sentimentos e os desejos que ali estão escondidos, e tudo isso seja trazido à Tua presença e entregue em Tuas santas mãos. Assim oramos, em nome de Jesus, amém!”.  

Canções da Alma

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Salmo 69

Das Profundezas da Angústia ao Alto Refúgio da Alegria

Introdução e Contextualização

                  A expressão “fundo do poço” descreve a situação de alguém que chegou ao mais profundo estado de miséria, quer financeira, quer moral, ou existencial. Este salmo fala justamente sobre isso. Ele nos mostra a trajetória de alguém que vai das profundezas da angústia às alturas da alegria.  

                  Davi compôs este salmo “Segundo a melodia ‘Os lírios’” (cf. Sl 45, 60 e 80), e o significado dessa melodia é incerto para nós. O que importa para nós aqui é que ao descrever suas aflições pessoais às quais ele derrama diante de Deus, Davi é o que chamamos de “tipo de Cristo”, ou seja, o que vemos aqui em Davi, também encontramos no Senhor Jesus, e, por isso mesmo, este salmo é compreendido como “um salmo messiânico”, como fica claro quando comparamos alguns de seus versículos com passagens do Novo Testamento: v.4 citado em Jo 15.25; o v.9 citado em Jo 2.17; o v.21 citado em Mt 27.34,38; os v.22,23 citado em Rm 11.9,10; o v.24 citado em Ap 16.1; e o v.25 citado em At 1.20.

                  Além disso este salmo trata do pecado e suas consequências e toca num assunto muito sério que tem sido deturpado por muitos em nossos dias, a saber, “Na Bíblia não há separação entre o pecado e o pecador, na forma em que a pessoa às vezes deseja divorciar um pecador (que é amado) de seu pecado (que é odiado)”[1]. Toda a tentativa em nossos dias de fazer com que pecadores se sintam amados por Deus sem antes verem a maldição e a feiura de seu pecado, tem produzido uma geração de crentes que só trazem vergonha para o Santo Nome de Deus, uma igreja sem expressão e vida que está mais para um clube do que para a assembleia dos santos reunidos para cultuarem e servirem ao Deus Santo.  

                  Como já dissemos, neste salmo Davi usa a figura de águas profundas cujo fundo é lamacento, para descrever a sua alma angustiada por várias circunstâncias, e como Deus o tirou dessa angústia e o levou para um alto refúgio, onde ele pôde louvar a Deus pelo livramento recebido. E por ser um salmo messiânico devemos ver aqui a trajetória do Senhor Jesus especialmente as horas de angústia no Getsêmani até Sua ressurreição e ascensão.

                  Vejamos primeiramente o servo de Deus

  1. Nas profundezas da angústia, v.1-12 

1 Salva-me, ó Deus, porque as águas me sobem até à alma.

2 Estou atolado em profundo lamaçal, que não dá pé; estou nas profundezas das águas, e a corrente me submerge.

3 Estou cansado de clamar, secou-se-me a garganta; os meus olhos desfalecem de tanto esperar por meu Deus.

4 São mais que os cabelos de minha cabeça os que, sem razão, me odeiam; são poderosos os meus destruidores, os que com falsos motivos são meus inimigos; por isso, tenho de restituir o que não furtei.

5 Tu, ó Deus, bem conheces a minha estultice, e as minhas culpas não te são ocultas.

6 Não sejam envergonhados por minha causa os que esperam em ti, ó SENHOR, Deus dos Exércitos; nem por minha causa sofram vexame os que te buscam, ó Deus de Israel.

7 Pois tenho suportado afrontas por amor de ti, e o rosto se me encobre de vexame.

8 Tornei-me estranho a meus irmãos e desconhecido aos filhos de minha mãe.

9 Pois o zelo da tua casa me consumiu, e as injúrias dos que te ultrajam caem sobre mim.

10 Chorei, em jejum está a minha alma, e isso mesmo se me tornou em afrontas.

11 Pus um pano de saco por veste e me tornei objeto de escárnio para eles.

12 Tagarelam sobre mim os que à porta se assentam, e sou motivo para cantigas de beberrões.

                   Três expressões demonstram os sentimentos de Davi no início deste salmo. A primeira é “as águas me sobem até à alma (…) estou nas profundezas das águas, e a corrente me submerge” (v.1,2b), a angústia chegara com toda força contra seu coração e este se via afogado, engolido e coberto não conseguindo sair para respirar. A segunda expressão é “Estou atolado em profundo lamaçal” (v.2a), no fundo dos rios há um lamaçal que prende e imobiliza. Com essas palavras ele estava mostrando que em sua angústia ele estava como que preso e imobilizado num terreno movediço, e quanto mais ele tentava se mover mais se afundava. E a terceira expressão é “Estou cansado de clamar” (v.3), e ele já não tinha mais voz e nem fôlego para sequer levantar sua voz, e o seu semblante (“olhos”) já estava descaído como de um morto.

Aplicação v.1-3

Afogando-se, atolando-se e desfalecendo-se. Você já se sentiu assim? Já tentou sair de uma situação que o engolia e quando chegou ao fundo na esperança de tomar um impulso o que você encontrou lá no fundo foi um lamaçal que o prendia ainda mais, e por isso mesmo você desfaleceu, entregou os pontos? A solução está no início do v.1: “Salva-me ó Deus”. Só Deus pode tirar você do fundo poço da sua angústia.

Cristo experimentou a mais profunda angústia que ser humano algum poderá experimentar. Ele enfrentou a angústia por amor ao Pai e a você. Quando a angústia chegar ao seu coração, lembre-se de que Cristo suportou algo infinitamente pior por você. Confie Nele, descanse Nele.

                   Nos v.4-9 Davi apresenta as circunstâncias da sua angústia:

  • Seus inimigos (v.4) eram “numerosos” mais que os cabelos de sua cabeça (uma hipérbole, é claro) e o perseguiam sem causa, “com falsos motivos”; eram “poderosos” e por isso mesmo o espoliavam fazendo com que ele restituísse aquilo que não furtara de ninguém.
  • Sua insensatez (v.5) em ter se descuidado e caído em pecados que o afligiam. E confessou seu pecado a Deus. Talvez ele não tivesse tomado os devidos cuidados e confiado em quem não deveria ter confiado. Isso foi estultícia, a qual estava diante de seus olhos!
  • A responsabilidade (v.6) que pesava sobre seus ombros para com aqueles que dele dependiam e nele confiavam. Como rei sabia que suas decisões acertadas ou pecaminosas afetariam seus súditos. E por isso mesmo ele clamou a Deus que não permitisse que seus erros afetassem os inocentes.
  • As afrontas (v.7) por causa de seu amor por Deus;
  • O desprezo (v.8) parte até mesmo de seus parentes;
  • A perseguição (v.9) dos inimigos contra ele porque ele era zeloso para com as coisas de Deus.

                   Tudo isso levou Davi a se quebrantar diante de Deus chorando e jejuando (v.10), humilhando-se diante de Deus e à vista dos homens (v.11). O escárnio destes que, bêbados e maldizentes desdenhavam dele aumentava ainda mais a sua angústia (v.12).

Aplicação v.4-12  

Cristo enfrentou numerosos inimigos espirituais e humanos; sobre Ele pesava a responsabilidade de salvar o Seu povo, a Sua Igreja, e em momento algum Ele foi insensato. Ele suportou afrontas por amor a Deus, foi desprezado pelo Seu povo e perseguido até à morte. Mas tudo isso estava nos propósitos santos e eternos de Deus.

Outra aplicação importante aqui diz respeito ao que chamamos de “circunstâncias” e não de “causas” da angústia. A angústia toma conta da nossa alma não quando somos atacados por circunstâncias desfavoráveis, mas, quando permitimos que essas circunstâncias tirem a nossa paz. Todas essas coisas agravaram e trouxeram intensa dor ao coração de Davi, mas, enquanto ele não se voltou para Deus e confiou Nele (como veremos a seguir), não contemplou qualquer possibilidade de alegria para a sua alma. O segredo para não sermos vencidos pela angústia é nunca perdermos Deus de vista e nunca deixarmos de crer que Ele está bem presente. E é justamente isso que vemos Davi fazendo agora no próximo momento deste salmo.   

2. Saindo das profundezas da angústia, v.13-18

13 Quanto a mim, porém, SENHOR, faço a ti, em tempo favorável, a minha oração. Responde-me, ó Deus, pela riqueza da tua graça; pela tua fidelidade em socorrer,

14 livra-me do tremedal, para que não me afunde; seja eu salvo dos que me odeiam e das profundezas das águas.

15 Não me arraste a corrente das águas, nem me trague a voragem, nem se feche sobre mim a boca do poço.

16 Responde-me, SENHOR, pois compassiva é a tua graça; volta-te para mim segundo a riqueza das tuas misericórdias.

17 Não escondas o rosto ao teu servo, pois estou atribulado; responde-me depressa.

18 Aproxima-te de minha alma e redime-a; resgata-me por causa dos meus inimigos.

                   A figura agora é a de alguém que se aproxima da margem está saindo desse rio de angústia. O v.13 marca a mudança não só no assunto do salmo, como principalmente aponta para o que fez com que Davi vencesse a sua angústia: “Quanto a mim, porém, SENHOR, faço a ti, em tempo favorável, a minha oração”. Através da oração confiante na graça de Deus a Seu favor, Davi começa a sair das águas profundas e do tremedal de lama da angústia. O “tempo favorável” aqui quer dizer, que ainda que em seu clamor ele suplicara a ação imediata de Deus, é Ele quem determina o tempo em que a resposta será dada, e isso Ele fará conforme a riqueza da Sua graça e fidelidade.

                   Os v.14-15 repetem as palavras dos v.1-2, porém, há uma situação diferente aqui. Antes, ele se via totalmente afundado e encoberto pelas águas da angústia e preso no lodaçal da aflição. Agora já saindo dessa angústia porque buscara a Deus em oração confiante clama a Ele para que não o permita afundar novamente.

                   No v.16 ele se dirigiu a Deus e disse que esperava na graça compassiva, isto é, graça cheia de compaixão pelos Seus filhos que sofrem, e na riqueza das misericórdias de Deus, a qual é descrita como sendo intensa (riqueza e misericórdias).       

                   Nos v.17-18 Davi clamou a Deus que voltasse para ele o Seu rosto santo. Ele sabia que somente a manifestação da graça de Deus em sua vida poderia livrá-lo da sua tribulação. Davi sabia que Deus estava perto dele, mas, mesmo assim clamou “Aproxima-te de minha alma e redime-a; resgata-me por causa dos meus inimigos”.    

Aplicação v.13-18

Na cruz, Cristo clamou ao Pai. Mesmo sabendo que ali Ele estava enfrentando a ira de Deus pelos nossos pecados, o Seu único consolo era o amor do Pai. Mas, o que parecia ser o Seu fim (a cruz) era a Sua vitória sobre os inimigos. Com Cristo aprendemos a depender somente de Deus.

A confiança na graça de Deus bane do coração do pecador qualquer tentativa de confiar em si mesmo, ou de ver em si algum merecimento do favor divino. Ainda que aos nossos olhos necessitemos de socorro rápido, devemos sempre lembrar que Deus tem o Seu tempo predeterminado para agir. Perto está o Senhor daqueles que O invocam e Nele confiam (Sl 34.18; 145.18; Is 50.8), e por isso mesmo nunca nos abandonará. Ele sempre se voltará para socorrer aqueles que por Ele clamarem.

3. Andando nos campos da angústia, v.19-28

19 Tu conheces a minha afronta, a minha vergonha e o meu vexame; todos os meus adversários estão à tua vista.

20 O opróbrio partiu-me o coração, e desfaleci; esperei por piedade, mas debalde; por consoladores, e não os achei.

21 Por alimento me deram fel e na minha sede me deram a beber vinagre.

22 Sua mesa torne-se-lhes diante deles em laço, e a prosperidade, em armadilha.

23 Obscureçam-se-lhes os olhos, para que não vejam; e faze que sempre lhes vacile o dorso.

24 Derrama sobre eles a tua indignação, e que o ardor da tua ira os alcance.

25 Fique deserta a sua morada, e não haja quem habite as suas tendas.

26 Pois perseguem a quem tu feriste e acrescentam dores àquele a quem golpeaste.

27 Soma-lhes iniquidade à iniquidade, e não gozem da tua absolvição.

28 Sejam riscados do Livro dos Vivos e não tenham registro com os justos.

                   A imagem agora desses versos é a de alguém que está em terra firme, em campo aberto, mais precisamente um campo de guerra rodeado por inimigos. Nas profundezas das águas e do lamaçal da angústia ele se sentia desfalecendo e morrendo; às margens das águas da angústia ele recobrara o fôlego e confiara na graça de Deus para retirá-lo dali. Agora, mesmo caminhando em terra firme ele se deparava ainda com a angústia porque de todos os lados ele era atacado por inimigos.

                   Davi disse a Deus que seus inimigos o afrontavam, envergonhavam e o expunham ao vexame (v.19) a ponto de seu coração estar partido e despedaçado, pois, esperava um pouco de piedade da parte deles, mas, foi à toa (v.20). A perversidade deles foi tamanha que misturaram fel (ou veneno?) à sua comida e vinagre à sua bebida aumentando ainda mais a sua dor (v.21).

Aplicação v.19-21

Temos aqui uma linguagem figurada, mas, o apóstolo João declara que isso aconteceu literalmente com o Senhor Jesus. Como disse Calvino: “qualquer crueldade que o réprobo praticasse contra os membros de Cristo, seria sinal visível que se via em Cristo mesmo”[2]. Todos os nossos sofrimentos são meras metáforas, meras figuras de linguagem se comparados aos de Cristo. Toda vez que alguém nos causar sofrimento e quisermos revidar, lembremo-nos dos sofrimentos que causamos a Cristo e da forma como Ele assim mesmo nos amou.

                   Os v.22-28 fazem parte daqueles que chamamos de imprecatórios. Até aqui, Cristo e Sua compaixão foram prenunciados; mas, de agora em diante o que se vê é o juízo de Deus sendo instaurado contra os perversos.

                   Ele apela para a intervenção divina em vez de precipitadamente agir e fazer justiça com as próprias mãos. Os que tentaram envenená-lo veriam em suas próprias mesas a morte (v.22);eles sofreriam emseus próprios corpos mais intensos sofrimentos que sofrera Davi (v.23), quando Deus derramasse sobre eles a Sua indignação e ira (v.24). A reversão de todas as coisas boas dessa vida, tais como uma casa para morar e uma família para desfrutar dessas alegrias lhes seriam retiradas (v.25).

                   O v.26 descreve o oportunismo dos inimigos que quando viram Davi sendo disciplinado por Deus, aproveitaram para lhe impor ainda mais sofrimento, e por isso mesmo Davi rogou a Deus para que lhes fosse dado o castigo que de fato mereciam sem qualquer esperança de perdão (v.27), e que os nomes deles fossem “riscados do Livro dos Vivos”. Essa figura do Livro dos Vivos foi tomada de Êx 32.32 e aparece lá em Ap 3.5; 13.8; 17.8, e não deve ser entendida literalmente como se Deus tivesse um livro lá nos céus no qual Ele tem todos os registros de nossa vida e do qual Ele pode nos riscar a qualquer momento. Deus é onisciente e não precisa de registros. Esse Livro dos Vivos (ou da Vida) nada mais é dos que o eterno propósito de Deus, pelo qual Ele predestinou seu próprio povo para a salvação[3]. O que Davi está pedindo a Deus é que jamais o ímpio seja contado com o justo. Como disse Warren Wiersbe: “…podemos entender o ódio de Davi contra o pecado desses homens perversos e seu desejo de proteger Israel e sua missão no mundo”[4]. Além disso, devemos sempre ver a gravidade do pecado do ponto de vista da Glória de Deus. Todo pecado é uma afronta à Glória de Deus e, por isso mesmo, merece toda a punição possível.         

Aplicação v.22-28

Estes versos vêm nos lembrar que toda iniquidade haverá de ser punida. O mal que alguém faz aos servos de Deus haverá de retornar ainda nesta vida e muito pior na eternidade, àqueles que se mantiveram no caminho da impiedade.

Nesta vida estamos num campo de batalha. Inimigos não nos faltam, pessoas malignas que querem nos destruir se levantaram. As palavras do Senhor Jesus devem estar sempre em nossa memória: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim” (Jo 15.18). Desse mundo não devemos esperar mais que do que ódio e oposição contra nós.

Porém, devemos sempre nos lembrar que bem-aventurados são aqueles por quem Cristo morreu na cruz, aqueles cujos nomes são encontrados no Livro da Vida. Seu nome está lá?

                   Por fim, agora vemos o servo de Deus

4. Nas alturas do louvor, v.29-36

29 Quanto a mim, porém, amargurado e aflito, ponha-me o teu socorro, ó Deus, em alto refúgio.

30 Louvarei com cânticos o nome de Deus, exaltá-lo-ei com ações de graças.

31 Será isso muito mais agradável ao SENHOR do que um boi ou um novilho com chifres e unhas.

32 Vejam isso os aflitos e se alegrem; quanto a vós outros que buscais a Deus, que o vosso coração reviva.

33 Porque o SENHOR responde aos necessitados e não despreza os seus prisioneiros.

34 Louvem-no os céus e a terra, os mares e tudo quanto neles se move.

35 Porque Deus salvará Sião e edificará as cidades de Judá, e ali habitarão e hão de possuí-la.

36 Também a descendência dos seus servos a herdará, e os que lhe amam o nome nela habitarão.

                   O cenário agora é do topo de uma montanha, um lugar alto, um refúgio onde o servo de Deus não somente se vê livre e protegido dos ataques dos inimigos, como também onde ele louva a Deus por Seu cuidado.

                   “Quanto a mim” (v.29). Essas palavras marcam momentos importantes neste salmo. No v.13 elas marcaram o momento em que Davi começou a vencer sua angústia porque confiara na graça de Deus. Aqui, essas palavras mostram o tratamento exatamente oposto ao que Deus dera aos ímpios; enquanto estes haveriam de ser severamente punidos por Deus, Davi haveria de ser posto num lugar alto e seguro, livre de qualquer ameaça.

                   Lá, nesse “alto refúgio” da presença de Deus Davi veria a sua angústia e aflição serem desfeitas e substituídas por louvores e cânticos ao nome de Deus exaltando-O com ações de graças (v.30), como expressão de uma adoração sincera que é o que realmente agrada Deus e não de um mero ritual religioso (v.31).

                   Os humildes que buscam a Deus e Nele esperam o socorro, ao verem como Deus haveria de tratar Seu servo livrando-o da angústia causada pelos inimigos e colocando-o num alto refúgio de onde ele poderia louvar a Deus com toda a força de sua alma, certamente se alegrariam e teriam os seus corações reavivados na presença de Deus (v.32), e na certeza de que o SENHOR Deus sempre responde ao clamor dos necessitados que sempre confiam e buscam a Deus (v.33).

                   Os v.34-36 são um chamado à adoração universal e à congregacional, ou seja, toda a obra da Criação de Deus O louva, mas, o Seu povo O adora de forma especial. Mesmo a natureza inanimada, “céus, terra e mares” (v.34) O louva ao apontar para Deus como o Salvador e Edificador do Seu povo (v.35), o qual é mencionado aqui tipificando a Igreja de Cristo reunida, salva e edificada pela Graça de Deus[5]. O v.36 descreve as bênçãos da Aliança reservadas para aqueles que temem, amam e confiam em Deus. Foi primeiramente uma promessa feita ao povo de Israel prefigurando a Igreja de Cristo. A promessa de paz, vitória e glória é somente para aqueles que estão em Aliança com Deus.   

Aplicação v.29-36

A bênção de Deus na vida de um servo Dele serve de testemunho e motivo de louvor a todos que estão por perto. O servo de Deus é como canal de bênção para a nação e para a sua família. Enquanto os ímpios amargam a destruição de suas casas (v.22), os que temem a Deus e Nele esperam, desfrutam não só da alegria que expulsa a angústia nesta vida como também da certeza plena de que por toda eternidade estarão com Cristo na glória.

Conclusão

                   Do lamaçal da angústia ao alto refúgio, o percurso é de dor e luta, sofrimento e lágrima. Mas, valerá a pena esperar em Deus o Seu agir. A grande lição que este salmo nos dá é que mesmo em tempos de grande angústia os nossos olhos da fé têm de buscar a plena demonstração da misericórdia restauradora de Deus. Sempre haverá “um lar de justiça” à espera do povo de Deus “Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça” (cf. 2Pe 3.13)[6].      


[1] HARMAN, 2011, p.261.

[2] CALVINO, 1999, vol.3, p.21.

[3] CALVINO, 1999, vol.3, p.28.

[4] WIERSBE, 2010, vol.3, p.207.

[5] Cf. CALVINO, 1999, vol.3, p.35.

[6] Cf. HARMAN 2011, p.265.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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