Canções da Alma – 71ª Mensagem

Oração

“Eterno Deus, como veremos neste salmo, nosso coração é ansioso, afoito e não sabe esperar o Seu tempo de agir. Na medida em que meditarmos neste salmo, molde o nosso coração, transforme a nossa vontade e faça-nos render à Tua vontade que é boa, agradável e perfeita. Assim oramos em Nome de Jesus, amém!”.  

Salmo 70

Quando o Coração Tem Pressa em Ser Socorrido Por Deus

Introdução e Contextualização

                  Quem necessita de ajuda geralmente tem pressa de que essa ajuda seja dada o quanto antes. As Escrituras Sagradas estão repletas de histórias que ilustram muito bem essa verdade, nas quais servos de Deus suplicaram pelo Seu socorro, e Este nem sempre veio de imediato socorrê-los. E o silêncio de Deus revela a nossa impaciência.

                  Este salmo nos fala sobre: Quando o Coração Tem Pressa em Ser Socorrido Por Deus.Este salmo aparece integralmente no Sl 40.13-17, com algumas leves alterações. A razão da repetição deste salmo não é um ponto de acordo entre os comentaristas, e não iremos comenta-las aqui, mas, apenas afirmamos que este salmo foi extraído do Sl 40 para servir como uma oração (ou canção) em tempos de aflição como indica a expressão “Em memória” no título deste. Quando meditamos no Sl 38 vimos que aquele também recebe esse título, o qual aponta para a oferta memorial estabelecida em Nm 5.26; Lv 2.2; 24.7, na qual o ofertante queimava azeite, farinha e outros elementos sobre o altar para relembrar que ele era um pecador que deveria morrer por causa de seu pecado, mas, Deus em Sua infinita misericórdia providenciou um sacrifício em seu lugar – tudo isso apontava para as memoráveis misericórdia e graça de Deus.

                  Seja como for, é sempre oportuno e importante relembrarmos a misericórdia de Deus, e isso tantas vezes quantas necessárias forem, “pois pode ser útil, em certos momentos, fazermos novamente as orações que já havíamos feito anteriormente a Deus em situações similares, pois estas podem ser feitas com um novo fervor”[1].

                  Quando o nosso coração tiver pressa em ser socorrido por Deus devemos

  1. Exercitar a paciência em Sua presença, v.1 

1 Praza-te, ó Deus, em livrar-me; dá-te pressa, ó SENHOR, em socorrer-me.

                   No texto hebraico não aparecem as palavras iniciais “Praza-te, ó Deus” que foram tomadas do Sl 40.13. Uma tradução literal desse verso ficaria assim: “Deus, para livrar-me, Senhor, ao meu socorro, apressa-te”[2], ou “Senhor Deus, apressa-te ao meu socorro para livrar-me”.

                   Davi orou a Deus clamando por Seu socorro o quanto antes. Estava angustiado e já não tinha mais forças em si mesmo. Todas as expectativas a respeito de si mesmo haviam fracassado. Só havia uma direção a olhar: para Deus. E por Deus ele clamou desesperadamente.

                   A aflição e a necessidade são duas súplicas muito próprias de serem feitas na presença deste Deus que é misericordioso, que não despreza o suspiro de um coração contrito[3].         

Aplicação v.1

Às vezes Deus parece moroso em nos atender e intervir em nosso favor, e muitas vezes entramos em desespero enquanto deveríamos estar confiantes em Sua misericórdia. A grande lição que Deus quer nos ensinar quando Ele aos nossos olhos parece demorar em nos socorrer, é a paciência. Deus não nos atenderá porque temos pressa, mas, sim, porque Ele é misericordioso e fará tudo aquilo que estiver em Seus propósitos que glorifiquem o Seu santo Nome. Por esta razão, “nós que cremos em Deus não devemos apressar, de forma a antecipar ou passar por cima dos conselhos divinos, e nem mesmo forçar uma rota de fuga ou fazer uso de métodos ilegais a fim de obter o alívio esperado”[4]. Em vez disso, devemos correr em direção a Deus humildes e quebrantados clamar por Seu socorro.

                   Quando o nosso coração tiver pressa em ser socorrido por Deus devemos

2. Mostrar dependência da Sua justiça, v.2-3

2 Sejam envergonhados e cobertos de vexame os que me demandam a vida; tornem atrás e cubram-se de ignomínia os que se comprazem no meu mal.

3 Retrocedam por causa da sua ignomínia os que dizem: Bem-feito! Bem-feito!

                   Nestes versos imprecatórios somos lembrados de uma verdade muito preciosa: “Porque a ira do homem não produz a justiça de Deus” (Tg 1.20). Quando somos tomados por um desejo de vingança, não estamos fazendo a vontade de Deus. Por isso mesmo temos de exercitar nossa dependência da justiça de Deus. Temos de fazer como Davi fez: entregar aos cuidados de Deus aqueles que nos fazem mal, pois, Deus sabe como cuidar deles e de nós.

                   Os inimigos de Davi estavam caçando-o como se fosse um animal. Queriam acabar com a sua vida, humilhando-o e desonrando-o. Eles festejavam quando viam Davi sofrendo alguma dor ou calamidade, e se regozijavam com a desgraça dele. A expressão “Bem-feito! Bem-feito!” (v.3) no hebraico é הֶ֨אָ֥ח׀ הֶאָֽח e aponta para uma atitude de quem está feliz com a tragédia alheia; seria uma gargalhada sarcástica.

                   Mas, Davi clamou ao SENHOR Deus para que a vergonha e desonra que estes inimigos lhe causavam, voltassem para eles mesmos e os cobrissem.      

Aplicação v.2-3  

Quando clamarmos a Deus que faça justiça por nós, muito mais do que desejar que Deus frustre os planos dos ímpios devemos desejar que Deus seja glorificado como o Deus Justo e que é o único que pode justificar pecadores, transformando-os em instrumentos de Sua glória assim como Ele fizera conosco. No Sl 83.16 Asafe faz uma oração imprecatória a qual devemos fazer também: “Enche-lhes o rosto de ignomínia para que busquem o teu nome, SENHOR”. A única esperança de salvação para um pecador está em voltar-se para Deus. Com toda certeza Deus humilhará àquele a quem Ele quiser salvar, pois, para que haja salvação é necessário arrependimento, e este traz um forte senso de pecaminosidade e vergonha diante de Deus.

                   Quando o nosso coração tiver pressa em ser socorrido por Deus devemos

3. Louvar a benevolência da Sua graça, v.4

4 Folguem e em ti se rejubilem todos os que te buscam; e os que amam a tua salvação digam sempre: Deus seja magnificado!

                   A ideia geral desse verso indica que, se Deus socorrer o Seu servo, o resultado será uma grande explosão de louvor ao Senhor. Todos os que buscam ao Senhor exultarão no socorro divino e o adorarão como o grandioso Deus da salvação[5].

                   Aqueles que foram agraciados por Deus com a salvação são cheios (folgam-se) da mais plena alegria; estes têm o único motivo real para serem verdadeiramente felizes. Aqueles que foram salvos por Deus entendem que o próprio Deus é a razão de sua alegria e por isso o glorificam e magnificam o Seu santo Nome.

Aplicação v.4  

Somos desafiados neste verso a amarmos a salvação que Deus nos deu, e isso quer dizer:

  • Fazermos do nosso culto a Deus a nossa principal tarefa e atividade, na qual nos deleitamos na presença de Deus e temos o nosso coração tomado por um santo prazer pelo fato de pertencermos a Ele.
  • Buscarmos nossa felicidade somente em Deus, pois, qualquer outra fonte de felicidade além Dele, é passageira e vazia. Que nenhum outro benefício secular nos seja mais desejado do que a felicidade de estarmos na presença de Deus louvando-O com todo o nosso coração. Que o Dia do Senhor seja amado, guardado e dedicado ao Seu culto e não em prazeres egoístas.
  • Deleitarmo-nos na excelsa graça de Deus sabendo que a nossa alegria só será interrompida se não amarmos a salvação que Deus nos deu e não tivermos nosso prazer e deleite em Sua excelsa graça. Quando logo pela manhã buscarmos a Deus em Sua Palavra com diligência, exultaremos o tempo todo na Sua bondade e misericórdia. Um coração que foi salvo por Deus para viver envolto em Sua glória jamais poderá ser feliz se viver fora da vontade de Deus. 

                   Por fim, quando o nosso coração tiver pressa em ser socorrido por Deus deverá

4. Expressar a carência do Seu poder, v.5

5 Eu sou pobre e necessitado; ó Deus, apressa-te em valer-me, pois tu és o meu amparo e o meu libertador. SENHOR, não te detenhas!

                   Encerrando este salmo, Davi expressa a sua miserabilidade. Isso é ainda mais significativo se lembrarmos que ele era o rei de Israel. Reis fazem questão de exibir seu poder, sua glória e sua suficiência diante das pessoas. Um rei mostrar-se “pobre e necessitado” é inadmissível aos olhos das pessoas. Ninguém teria confiança em seguir um rei que fizesse tal declaração. Em nossos dias quando a figura do líder é pintada como sendo alguém forte, resoluto, que não tem dúvidas, fraquezas e autoconfiante. Ninguém estará disposto a seguir alguém de que se declare pobre e necessitado.          

                   Mas, o servo de Deus sabe que não pode contar com mais ninguém além de Deus. Somente Ele é o seu “amparo” (עֵזֶר) e “libertador” (פּלט). Ele sabe que Deus tem uma aliança com Seus filhos e está comprometido a agir assim com todos os que procuram por Seu socorro.

Aplicação v.5  

O coração que se deleita exclusivamente em Deus, também reconhece a sua total carência da graça e do poder de Deus. Não buscará outro amparo e socorro, simplesmente pelo fato de que nenhum outro amparo e socorro poderão fazer o que Deus pode fazer por ele. Aquele que se deleita na salvação de Deus, não sentirá falta de nenhuma outra ajuda e socorro, e se não tiver a ajuda de Deus sentirá um vazio insuportável na alma.

Conclusão

                   Que em todas essas lições que Deus nos ensina enquanto esperamos o Seu agir em nossa vida esteja a certeza de que a vontade de Deus é boa, agradável e perfeita, e, ainda que nos pareça demorada a resposta de Deus, saibamos que Ele está nos ensinando a principal lição: confiar em Sua sabedoria para nos socorrer, livrar e fortalecer em todo tempo. Que o nosso coração jamais abrigue a impaciência, a desconfiança e a ingratidão em relação a Deus.


[1] HENRY, 2010, vol.3, p.455.

[2] KIDNER, 1980, vol.1, p.272.

[3] HENRY, 2010, vol.3, p.456.

[4] Ibid, p.456.

[5] Cf. MACDONALD, 2007, vol.1, p.443.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
This entry was posted in Mensagens Expositivas do Livro de Salmos. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.