Canções da Alma – 73ª Mensagem

Oração

“Eterno Deus, hoje veremos como o Senhor é fiel em cuidar daqueles com quem estabelecestes a Tua Aliança. Não permita, ó Pai, que o nosso coração se perca em fúteis pensamentos, mas, que estejamos ávidos por recebermos mais de Ti em Tua santa Palavra. Toma o nosso coração. Em Cristo Jesus, Amém!”.  

Salmo 72

A Última Oração de Um Servo de Deus

Introdução e Contextualização

                  Estando você no seu leito de morte, e lhe fosse concedida a oportunidade de fazer mais uma oração a Deus, o que você Lhe pediria? Que desejos você expressaria a Deus nas suas últimas palavras?

                  Este salmo não somente encerra o Livro II do Saltério, como também é a última oração de Davi. O título “Salmo de Salomão” também pode ser traduzido como “Salmo para Salomão”[1]. Assim sendo, podemos afirmar com base no v.20 que indica que essas foram as últimas palavras de Davi, e que este salmo foi adaptado ou por Salomão para que fosse sempre entoado como uma oração a Deus a favor do rei. Essa oração que seu pai fizera em seu favor estando no leito de morte, é encontrada em 1Rs 1 e 2[2] e em 2Sm 7.1-17, onde vemos a aliança que Deus fez com Davi prometendo-lhe que seu trono seria eterno, apontando assim para o mais ilustre descendente de Davi, o Senhor Jesus Cristo.  

                  O pastor puritano, Isaac Watts (1674 – 1748) captou a ideia deste salmo em seu hino “Jesus Shall Reign” (“Jesus Reinará”)[3]:

Jesus reinará onde quer que o sol

Faça seu sucessivo percurso;

Seu reino se estende de mar a mar,

Até que a lua cresça e nunca mais diminua

                  Ainda que as palavras deste salmo tenham sido dirigidas por Davi a Deus em favor de Salomão, não podemos perder de vista que ele aponta para Aquele de quem Salomão foi uma mera sombra, a saber, o Senhor Jesus Cristo.

                  Dessa forma, a última oração de Davi torna-se ainda mais bela, porque nela ele não buscou glórias para si, ou qualquer outra coisa em seu próprio benefício. Pelo contrário, ele buscou a glória de Deus na pessoa do Seu Ungido. Em suas últimas palavras Davi quis glorificar somente a Deus, e isto ele fez exaltando o caráter do Messias, o Senhor Jesus, e podemos ver isto nas seguintes verdades aqui aplicadas a Cristo:

Cristo é o Rei Justo, v.1-7 

1 Concede ao rei, ó Deus, os teus juízos e a tua justiça, ao filho do rei.

2 Julgue ele com justiça o teu povo e os teus aflitos, com equidade.

3 Os montes trarão paz ao povo, também as colinas a trarão, com justiça.

4 Julgue ele os aflitos do povo, salve os filhos dos necessitados e esmague ao opressor.

5 Ele permanecerá enquanto existir o sol e enquanto durar a lua, através das gerações.

6 Seja ele como chuva que desce sobre a campina ceifada, como aguaceiros que regam a terra.

7 Floresça em seus dias o justo, e haja abundância de paz até que cesse de haver lua.

                   O povo de Israel vivia o que chamamos de teocracia, ou seja, Deus era o Rei sobre o Seu povo. Porém, tinha Seus representantes que governavam em Seu nome, tais como os juízes no período anterior à monarquia, e depois, na pessoa dos reis descendentes de Davi.

                   Ao rei competia guiar o povo com justiça, e Davi, em seu leito de morte, pediu ao SENHOR Deus que desse a Salomão, seu filho, a capacidade de julgar com sabedoria, conforme os juízos de Deus (v.1). Quando Deus perguntou ao jovem rei Salomão o que ele queria, ele pediu sabedoria para governar o povo, e Deus lhe deu (cf. 1Rs 3.1-15).

                   Ele deveria julgar “com justiça (…) com equidade” os aflitos (v.2). Quando Deus desse ao rei os Seus santos juízos (integridade e habilidade para julgar corretamente) a terra toda seria abençoada com prosperidade, justiça e paz (v.3), tal como disse Calvino: “Governar bem uma nação é um dote muitíssimo excelente para levar a terra ao desenvolvimento”[4]. A prosperidade verdadeira vem somente quando a justiça é aplicada resultando em paz. Sob o cetro de Salomão, o rei justo, “os aflitos do povo” e os “filhos dos necessitados” seriam amparados, protegidos e justiçados, pois, por sua justiça os opressores seriam detidos (v.4). De fato, essa tranquilidade e prosperidade vieram sobre Israel nos dias de Salomão. Contudo, o reino de Salomão foi apenas uma sombra do que será o Reinado Eterno de Cristo.

                   Os v.5-7, ainda que sejam uma poesia, e como tal, cabe o uso de linguagem figurada, não devem ser entendidos como que referindo-se a Salomão, mas, Àquele de quem Salomão foi apenas uma sombra: o Senhor Jesus. Deus prometera a Davi que seu trono seria eterno, ou seja, que não lhe faltaria um descendente para ocupar seu trono; essa promessa foi reiterada várias vezes (Sl 89.28,29; 132.11,12; Is 9.7). É fato que não existe mais monarquia em Israel, e nem mesmo um trono com um descendente de Davi nele assentado. Por isso, a promessa de Deus deve ser vista como se cumprindo na pessoa de Jesus Cristo, o Rei Eterno, em quem a memória de Davi sempre será lembrada. Somente Cristo é o Rei Eterno que reina “através das gerações” (v.5), e de quem vem o sustento para o povo trazendo abundância e fartura em Sua presença (v.6). Por isso mesmo, em Sua presença, o justo encontra “a abundância de paz” (v.7).      

Aplicação v.1-7

          Cristo é o Rei Justo e por isso pode justificar a todo o que Nele confia. Pelo fato Dele ter cumprido as exigências da Justiça Divina, Ele imputou a nós a Sua Justiça pela qual podemos ser aceitos por Deus.

          Quando olhamos para Salomão vemos que no início de seu reinado, de fato, ele reinou com justiça e seu nome tornou-se célebre por toda a terra. Contudo, com o passar dos anos, Salomão mudou seus valores. Ele oprimiu o povo com pesados impostos (cf. 1Rs 12.1-16; 4.7; 5.13-15). Mas, quando olhamos para Cristo vemos não somente o Rei que é eterno em Seu ser como também imutável é Seu caráter. Por isso podemos desfrutar da Sua justiça, paz e tranquilidade que Ele nos dá. Cristo em nossa vida é como a chuva para a terra seca trazendo vida e prosperidade. Salomão, como rei, tirava do povo por meio dos impostos; Cristo, o nosso Rei, nos concede bênçãos abundantes decorrentes de Sua Graça.

Cristo é o Rei dos reis, v.8-11

8 Domine ele de mar a mar e desde o rio até aos confins da terra.

9 Curvem-se diante dele os habitantes do deserto, e os seus inimigos lambam o pó.

10 Paguem-lhe tributos os reis de Társis e das ilhas; os reis de Sabá e de Sebá lhe ofereçam presentes.

11 E todos os reis se prostrem perante ele; todas as nações o sirvam.

                   Deus prometera a Abraão que a sua descendência tomaria posse de toda a terra do rio do Egito, ao sul, até o rio Eufrates ao norte da Mesopotâmia (cf. Gn 15.18) e cumpriu a promessa. Tanto o reino de Davi quanto o de Salomão foram extensos (1Rs 4.21,24; 1Cr 9.26), mas, nenhum deles dominou “de mar a mar e desde o rio até aos confins da terra” (v.8). Diante de Davi e Salomão nações e reis se prostraram, pagaram tributos, inimigos se renderam (v.9-10), mas, somente diante de Cristo todos os reis haverão de se prostrar (v.11).

Aplicação v.8-11  

Nestes versos vemos a grandeza do reino de dois mortais: Davi e Salomão. Contudo, nada pode ser comparado ao Reinado de Cristo, tanto por Seu poder, quanto pela sua extensão. O Reino de Cristo não é limitado pela geografia e nem pelo tempo. Ele é eterno e abrange cada milímetro desse vasto universo. Reis se curvam, lambem o pó, e inimigos tombam diante Dele todos os dias. Por mais poderoso que seja um homem, quando Cristo lhe encerrar os seus dias chamando-o por meio da morte, este não escapará. Não há um só ser que Lhe resista à vontade. Podem passar suas vidas zombando de Cristo, mas, quando chegar a hora de cada um se apresentar diante Dele, nada poderão fazer em contrário.

“O Novo Testamento fala de um dia vindouro quando Jesus terá destruído todos os demais domínios e poderes, e todos os seus inimigos serão postos debaixo de seus pés (…) Jesus, como o Cordeiro, vence porque Ele é o Senhor dos senhores e Rei dos reis (Ap 17.14; 19.16)[5].

Cristo é o Rei Compassivo, v.12-14

12 Porque ele acode ao necessitado que clama e também ao aflito e ao desvalido.

13 Ele tem piedade do fraco e do necessitado e salva a alma aos indigentes.

14 Redime a sua alma da opressão e da violência, e precioso lhe é o sangue deles.

                   Estes versos descrevem o que se espera de um rei. Davi orou a Deus pedindo que desse a Salomão sabedoria para exercer a compaixão de forma justa. Em contraste com os outros reinos do Oriente Próximo que não se importavam com seus súditos e entregavam-se à rapacidade, o reino davídico foi um reino estabelecido em amor para com os desvalidos e fracos, como fizera com Mefibosete, filho de Jônatas (2Sm 9).

                   O rei de Israel era considerado um pastor escolhido por Deus que cuidava com amor do rebanho do Senhor (Sl 78.70-72; 100.3; Ez 34). A ele o povo recorria para decidir questões e contendas. De seus lábios o povo esperava o veredicto, e ele próprio se certificava de que os juízes locais estavam sendo honestos ou não em suas decisões. Logo, se um rei de Israel se entregasse à injustiça, fosse um tirano perverso espoliando o povo, estaria agindo de forma contrária ao que se esperava de um rei escolhido por Deus.

                   O rei compassivo socorre os necessitados que por ele clamam e alivia a aflição do que se encontra desvalido (v.12). Seu coração é tomado de piedade para com o mais fraco, e ele luta para proteger a vida dos indigentes (v.13), pois, “precioso lhe é o sangue deles” (v.14).  

Aplicação v.12-14  

“O que vemos nesta passagem é, sem dúvida, uma descrição de nosso Salvador, que teve grande compaixão pelos desvalidos e supriu suas necessidades (Mt 9.36)[6].

Nenhum rei ou governante, por mais, compassivo e misericordioso que seja, por mais que deseje ser justo e agir com justiça, conseguirá ser como o Senhor Jesus. Em Sua compaixão Ele socorre ao mais aflito coração; em Sua piedade Ele estende Suas mãos ao mais fraco dos mortais e redime sua alma da opressão dos inimigos (Satanás, o pecado e a morte).

É em Cristo somente, que o mais fraco, o mais necessitado, o mais indigno e o mais oprimido dos pecadores encontra o alívio, a compaixão e a redenção de que tanto precisa.

          O mais miserável dos pecadores, considerado um indigente para os demais, para Cristo a sua vida é preciosa.   

Cristo é o Rei Bendito, v.15-20

15 Viverá, e se lhe dará do ouro de Sabá; e continuamente se fará por ele oração, e o bendirão todos os dias.

16 Haja na terra abundância de cereais, que ondulem até aos cimos dos montes; seja a sua messe como o Líbano, e das cidades floresçam os habitantes como a erva da terra.

17 Subsista para sempre o seu nome e prospere enquanto resplandecer o sol; nele sejam abençoados todos os homens, e as nações lhe chamem bem-aventurado.

18 Bendito seja o SENHOR Deus, o Deus de Israel, que só ele opera prodígios.

19 Bendito para sempre o seu glorioso nome, e da sua glória se encha toda a terra. Amém e amém!

20 Findam as orações de Davi, filho de Jessé.

                   Nestes versos finais, vemos um resumo de tudo o que já foi dito sobre o caráter do rei (Cristo). Muitos tipos de riquezas se mencionam no v.16: o ouro que se extrai com a coragem de perícia dos homens (cf. Jó 28.1); as bênçãos que são invocadas com amor; a fertilidade do solo produzindo alimento em abundância. Tudo isso é resultado da misericórdia de Cristo.

                   O v.17 é praticamente uma repetição da promessa que Deus fizera a Abraão em Gn 12.2-3, reforçando assim o fato de que a promessa de Deus para o Seu povo é que garante a estabilidade e a prosperidade do mesmo. É a bênção do SENHOR Deus que enriquece o Seu povo. Os profetas escreveram sobre esse reino glorioso, e suas profecias já estão se cumprindo (Is 35 e 60 – 62; Ez 40 – 48; Am 9.11-15; Mq 4; Zc 10 e 14). Haverá fartura de cereais até mesmo no alto dos montes nas regiões mais improdutivas. Os campos de cereais se parecerão com os bosques de cedro do Líbano (1Rs 4.33).

                   Os v.18-20, de conformidade com alguns comentaristas bíblicos, não fazem parte originalmente deste Salmo, mas, são a conclusão do Livro II do Saltério[7]. Contudo, que melhor maneira haveria de encerrar uma oração, ou mesmo um livro tão belo do que com uma doxologia rendendo a Deus todo o louvor que Lhe é devido? E quem de nós tendo a oportunidade que Davi teve de, pelos olhos da fé e pela revelação de Deus, antever os gloriosos feitos do Messias, também não renderia a Deus tão intenso louvor[8]?

                   “Bendito seja o SENHOR Deus, o Deus de Israel, que só ele opera prodígios” (v.18). Com essas palavras Davi aponta para o fato de que somente Deus pode dar ao Seu povo todas as bênçãos descritas nos v.16-17. De fato, na história de Israel podemos encontrar Deus várias vezes agindo prodigiosamente em favor do Seu povo cumprindo a Sua promessa feita a Davi. A fidelidade de Deus em cumprir Suas promessas a Davi aponta para “o seu glorioso nome” (v.19), pois, como diz o profeta Habacuque (Hq 2.14) é da glória do SENHOR Deus que toda terra será cheia, e não da glória de um rei ou de qualquer outro mortal.

                   O v.20 nos traz a informação sobre o seu autor e também e suas últimas palavras nesta vida.

Aplicação v.15-20  

Este salmo nos lembra que a oração que mais devemos fazer e fazer com intensidade cada vez maior é a que Cristo nos ensinou: “Venha o teu reino!”. Nenhum outro desejo deve ser maior em nosso coração do que vermos a glória de Deus manifestada em Seu Reino entre nós! Que a glória de Deus encha toda a terra. E chegará este dia, o Dia glorioso da volta de Cristo, quando a glória do SENHOR Deus será vista em todos os lugares e por todos os olhos.

Que em nossos lábios sempre estejam os louvores a Deus, e que possamos engrandecer Seu santo Nome o tempo todo, pois, não há motivo maior de louvor do que a glória de Deus.

Conclusão

                   Que Deus nos dê a graça de durante toda a nossa vida glorificarmos Seu Santo Nome, e nos instantes finais da mesma, nossas palavras sejam um hino de louvor a Deus para que todos saibam que não há bem maior para o nosso coração do que o nosso Senhor Jesus Cristo, o Rei Justo, Rei dos reis, o Rei Compassivo e o Rei Bendito do nosso coração.

                   A forma crescente como este salmo se desenvolve deve ser ressaltada aqui. Davi começa intercedendo por um homem, seu filho e o tempo todo aponta para Deus até que no final do salmo ele prorrompe em louvores esfuziantes enaltecendo a glória de Deus. Nossa vida deve ser marcada por esse louvor.

                   Por fim, este salmo vem nos lembrar também do desafio que temos de orar pelos nossos governantes ainda que sejam ímpios e nos governem impiamente. A maneira mais eficaz de um crente protestar contra um governo é dobrando seus joelhos na presença de Deus e assim clamando por estes, sem nunca se esquecer que quem de fato governa a sua vida não é um mortal, mas, sim, o Senhor Jesus Cristo.          


[1] No hebraico לִשְׁלֹמֹ֙ה , a preposição לְ, pode ser traduzida por “para”.

[2] Cf. CALVINO, 1999, vol.3, 67; WIERSBE, 2010, vol.3, p.209;

[3] Cf. HARMAN, 2011, p.269.

[4] CAVILNO, 1999, vol.3, p.70.

[5] HARMAN, 2011, p.271.

[6] WIERSBE, 2010, vol.3, p.211.

[7] WIERSBE, 2010, vol.3, p.211; KIDNER, 1980, vol.1. p.280; HARMAN, 2011, p.272.

[8] Cf. CALVINO, 1999, vol.3, p.85.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
This entry was posted in Mensagens Expositivas do Livro de Salmos. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.