Canções da Alma – 75ª Mensagem

Oração

“Quão magnífico em toda a terra é o Teu nome, ó Deus. Quão maravilhoso é o Teu amor em nos salvar e nos constituir Tua família por meio da Aliança. Assim, ó Pai, clamamos a Ti que nos ensine, nos transforme e nos aperfeiçoe em Tua Palavra. Por Cristo Jesus, amém!”.

Salmo 74

A Aliança de Deus Com Seu Povo

Introdução e Contextualização

                   Imagine você presenciando um exército furioso entrando em nossa cidade e destruindo tudo o que consideramos importante, como a nossa casa, o nosso templo, a escola de nossos filhos, os hospitais, etc. Como nos sentiríamos vendo essa barbárie? Este Salmo foi escrito numa situação parecida.

                   O contexto e a autoria deste salmo são questões de difícil resposta. Ele descreve uma situação desoladora em que o povo de Deus estava passando. A maioria dos comentaristas e exegetas entendem que este salmo foi composto não por Asafe, mas, por um descendente dele com o mesmo nome, pelo fato de que ele descreve uma catástrofe em Israel causada por inimigos, a qual muito se assemelha à invasão dos babilônios sob a liderança de Nabucodonosor no território de Judá, mais, especialmente, na cidade de Jerusalém no ano 586 a.C., o que assim sendo, definitivamente a autoria deste salmo não pode ser creditada a Asafe, o líder dos músicos nos dias de Davi[1]. Há quem pense que de fato foi Asafe, que, nos dias de Davi, falara por meio do Espírito Santo profeticamente, o que não podemos descartar[2]. A hipótese de que este salmo tenha sido escrito nos dias de Antíoco Epifânio[3] que também promoveu terrível ataque a Jerusalém, é insustentável pelo fato de que neste período de mais ou menos 400 anos entre os dois Testamentos, nenhum profeta foi levantado por Deus, nenhuma profecia foi dada por Ele. Sendo assim, temos de escolher: ou ficamos com este salmo como inspirado por Deus dado através de um dos Seus servos, ou o retiramos da Bíblia porque pertence a uma época em que houve um silêncio profético e tudo o que foi dito neste período não pode ser tomado como Palavra de Deus no mesmo pé de igualdade com as demais partes das Escrituras (assim como acontece com os livros apócrifos da igreja de Roma).

                   Este salmo fala sobre A Aliança de Deus com Seu povo, o que tomarei como tema da nossa mensagem. Por causa da Sua Aliança:

Deus corrige o Seu povo, v.1-11 

1 Por que nos rejeitas, ó Deus, para sempre? Por que se acende a tua ira contra as ovelhas do teu pasto?

2 Lembra-te da tua congregação, que adquiriste desde a antiguidade, que remiste para ser a tribo da tua herança; lembra-te do monte Sião, no qual tens habitado.

3 Dirige os teus passos para as perpétuas ruínas, tudo quanto de mal tem feito o inimigo no santuário.

4 Os teus adversários bramam no lugar das assembleias e alteiam os seus próprios símbolos.

5 Parecem-se com os que brandem machado no espesso da floresta,

6 e agora a todos esses lavores de entalhe quebram também, com machados e martelos.

7 Deitam fogo ao teu santuário; profanam, arrasando-a até ao chão, a morada do teu nome.

8 Disseram no seu coração: Acabemos com eles de uma vez. Queimaram todos os lugares santos de Deus na terra.

9 Já não vemos os nossos símbolos; já não há profeta; nem, entre nós, quem saiba até quando.

10 Até quando, ó Deus, o adversário nos afrontará? Acaso, blasfemará o inimigo incessantemente o teu nome?

11 Por que retrais a mão, sim, a tua destra, e a conservas no teu seio?

                   Estes onze primeiros versos descrevem a situação catastrófica em que se encontrava Jerusalém. O salmista encontrava-se numa angústia terrível porque a cidade onde estava o santuário de Deus (Jerusalém) estava desolada; o templo do SENHOR Deus, devastado e os objetos utilizados e consagrados ao culto do SENHOR estavam destruídos e profanados. Vendo essa terrível desolação o salmista elevou sua voz a Deus e clamou por socorro.

                   Os v.1-2 expressam a confusão que abatera o coração do salmista. Ao ver a terrível destruição da cidade que estava em ruínas (v.3), o santuário do SENHOR Deus havia sido destruído, e no lugar onde o povo de Deus se reunia em assembleia para adorá-Lo, os inimigos levantaram “seus próprios símbolos idólatras”, com o objetivo de zombar de Deus (v.4). Em sua fúria contra Jerusalém, pareciam lenhadores derrubando uma mata (v.5); e assim eles destruíram todos os utensílios da Casa do SENHOR feitos com tanto esmero e dedicação (v.6). Atearam fogo em tudo no santuário transformando tudo em cinzas (v.7). Os inimigos estavam resolutos em destruir tudo a fim de extirparem a memória do povo de Deus (v.8). E tudo aquilo que era considerado sagrado e dedicado a Deus havia sido destruído e o salmista lamentava não ver mais nada dessas coisas, e nem mesmo tinha uma perspectiva de quando todo esse sofrimento acabaria (v.9). Por isso ele clamou a Deus indagando-O: “Até quando, ó Deus, o adversário nos afrontará? Acaso, blasfemará o inimigo incessantemente o teu nome? Por que retrais a mão, sim, a tua destra, e a conservas no teu seio?” (v.10,11).

                   No Sl 73 Asafe encontrava-se numa crise pessoal de fé; aqui no Sl 74 a sua crise de fé se deu porque ele não conseguia entender como tudo isso podia estar acontecendo ao povo com quem Deus estabelecera Sua Aliança. Como podia Deus ter rejeitado àqueles a quem Ele mesmo adquirira para ser a Sua “congregação”, e redimira para ser a Sua “herança” e isto, “desde a antiguidade” (v.2)? Como Deus permitira que tudo isso tivesse acontecido ao povo da Sua Aliança?

                   Quando Deus retirou Israel do Egito, reafirmou com este a Aliança que fizera com Abraão, prometendo não abandonar jamais o Seu povo (Dt 4.29-31; 26.18-19). Prometeu também estar sempre presente com o Seu povo dizendo: “Andarei entre vós e serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo” (Lv 26.12). Israel fora escolhido por Deus para dele vir o Messias. Então, como podia estar acontecendo tudo aquilo com Israel?

                   A resposta a todas essas perguntas está no fato de que Israel deixou de confiar em Deus para confiar no templo, nos seus utensílios (especialmente, a Arca) e nos seus rituais de culto. Não demorou para que Israel trouxesse para o culto a Deus elementos idólatras dos pagãos. Por meio de Seus profetas Deus alertou a Israel e Judá de seus pecados, mas, mesmo assim, o povo continuou em sua idolatria. Toda essa destruição que sobreveio ao povo de Deus era, antes de tudo, obra de Deus para corrigir Seu povo.  

Aplicação v.1-11

          A Aliança de Deus conosco é perpétua e eterna. Nada pode destruí-la porque ela está firmada no caráter santo de Deus. Contudo, a Aliança não permite espaço para o pecado e rebeldia. Pelo contrário, ela traz a correção sobre os filhos de Deus.

          Deus corrigiu a Israel, não sem antes enviar-lhe Seus profetas para alertar o povo do seu pecado. Mas, até a paciência de Deus tem limites. Ele retirou Seus profetas e deixou o povo amargar em seus erros. Contudo, Deus não abandonaria o Seu povo ali nas mãos dos inimigos.

          É importante que sempre avaliemos a forma como temos agido diante de Deus. A correção Dele em nossa vida não significa que Ele nos abandonou; pelo contrário, demonstra que Ele está bem presente, e se estiver permitindo que o inimigo ou as circunstâncias nos fustiguem é para que aprendamos os Seus caminhos e neles andemos. Deus jamais abandonará aqueles com quem Ele fez aliança. Até o Seu castigo é cumprimento de Sua Aliança com Seu povo.

                   Outra verdade que vemos neste salmo é que, por causa da Sua Aliança:          

Deus salva o Seu povo, v.12-23

12 Ora, Deus, meu Rei, é desde a antiguidade; ele é quem opera feitos salvadores no meio da terra.

13 Tu, com o teu poder, dividiste o mar; esmagaste sobre as águas a cabeça dos monstros marinhos.

14 Tu espedaçaste as cabeças do crocodilo e o deste por alimento às alimárias do deserto.

15 Tu abriste fontes e ribeiros; secaste rios caudalosos.

16 Teu é o dia; tua, também, a noite; a luz e o sol, tu os formaste.

17 Fixaste os confins da terra; verão e inverno, tu os fizeste.

18 Lembra-te disto: o inimigo tem ultrajado ao SENHOR, e um povo insensato tem blasfemado o teu nome.

19 Não entregues à rapina a vida de tua rola, nem te esqueças perpetuamente da vida dos teus aflitos.

20 Considera a tua aliança, pois os lugares tenebrosos da terra estão cheios de moradas de violência.

21 Não fique envergonhado o oprimido; louvem o teu nome o aflito e o necessitado.

22 Levanta-te, ó Deus, pleiteia a tua própria causa; lembra-te de como o ímpio te afronta todos os dias.

23 Não te esqueças da gritaria dos teus inimigos, do sempre crescente tumulto dos teus adversários.

                   O v.12 é a “chave” para entendermos este salmo. Asafe declara sua fé em Deus dizendo: “Ora, Deus, meu Rei, é desde a antiguidade; ele é quem opera feitos salvadores no meio da terra”. Deus é ao mesmo tempo, o Rei Eterno e o Salvador presente. O tempo e o espaço não o limitam. Ele não está distante do Seu povo, pelo contrário, está “no meio da terra” (v.12). “Enquanto em outras religiões do Oriente Próximo o louvor era reservado para o que os homens haviam feito pelos deuses, em Israel o louvor era entoado pelo que Deus tem feito por Seu povo”[4].

                   A partir do v.13 ele passa a descrever esses “feitos salvadores”. Os v.13-15 descrevem os portentos do Êxodo quando Deus abriu o Mar Vermelho, e ali mesmo despedaçou “as cabeças do crocodilo e o deste por alimento às alimárias do deserto” (v.14), numa clara referência ao Faraó e seus soldados. O crocodilo (!t’y”w>li) era tido como um animal sagrado no Egito. Ali mesmo Faraó foi derrotado e os corpos dos seus soldados se tornaram em alimento para as bestas feras do deserto. Mas, não foi somente isso. No deserto Deus alimentou e dessedentou o Seu povo abrindo fontes e rios no deserto (v.15).

                   Os v.16-17 expressam o domínio de Deus sobre a Criação. Aquele que está “no meio da terra” (v.12), não está à toa. Ele está ali cuidando de tudo e dando uma ordem perfeita à Criação.

                   Os v.18-23 constituem-se uma súplica do salmista a Deus na qual ele apela para a Aliança. Asafe sabia das normas da Aliança: se Israel obedecesse a Deus, seria abençoado; se desobedecesse, seria disciplinado; se confessasse o seu pecado seria perdoado. Asafe sabia quão grande fora o pecado de Israel apartando-se de Deus, não ouvindo os Seus profetas. Porém, a Babilônia ultrajou e blasfemou o Nome do SENHOR, quando destruiu toda a cidade e o santuário levantando ali seus ídolos (v.18). Seus reis e príncipes levaram o povo à idolatria. Tivessem reis e príncipes de Israel conduzido o povo na Palavra de Deus e nada disso teria acontecido; Israel não seria essa pomba cercada de predadores. Mesmo sabendo disso, o salmista apelou para a misericórdia de Deus (v.19). Também apelou para o caráter fiel de Deus ao mencionar a Aliança (v.20), afinal, somente a intervenção de Deus salvando o Seu povo era a esperança para os que se achavam oprimidos, aflitos e necessitados (v.21).

                   Os v.22-23 encerram este salmo mostrando-nos que apesar de tudo destruído, o salmista não somente esperava em Deus a salvação, mas, também entendera que a principal ofensa não fora feita a eles, mas, sim, à glória de Deus. A glória de Deus movia o coração do salmista, e era com a glória de Deus que o salmista estava preocupado e não com a honra da nação e muito menos com as perdas materiais. Por isso ele clamou a Deus que se levantasse como Juiz sobre a terra e julgasse a afronta que os inimigos fizeram ao Seu santo Nome, e isto com gritarias e tumulto.  

Aplicação v.12-23  

          Deus é a única salvação do Seu povo. Somente Ele pode refrear a disciplina que Ele mesmo impôs sobre nós por causa da nossa rebeldia e pecado. Enquanto não nos arrependermos de nossas faltas, não seremos perdoados e muito menos restaurados. Deus não nos abandona e nem nos desampara por causa de Sua misericórdia (Ne 9.31).

          A nação havia sido devastada, a cidade de Jerusalém estava arruinada e o templo fora destruído e incendiado – porém tudo o que havia de mais essencial não fora tocado pelo inimigo: o Deus Jeová ainda era o Deus de Israel, sua Palavra e sua aliança não haviam mudado e Jeová ainda operava no mundo! Não precisamos nos desesperar, pois Deus está trabalhando em nosso mundo hoje[5].

Conclusão

                   As circunstâncias podem roubar a nossa tranquilidade, abalar-nos terrivelmente; podemos ter perdas enormes, porém, nada poderá nos separar de Deus e tirar-nos de Sua Aliança, porque Ele próprio é quem a sustenta. Jamais perderemos a Deus porque Ele próprio é quem nos mantém em Suas poderosas mãos (Jo 10.28-29; Rm 8.35; 2Tm 2.11-13).


[1] Para mais detalhes veja os comentários de João Calvino, Warren Wiersbe, Matthew Henry, Allan Harman e Derek Kidner.

[2] KIDNER, 1980, vol.2, p.294.

[3] Veja CALVINO, 1999, vol.3, p.125.

[4] HARMAN, 2011, p.278.

[5] WIERSBE, 2010, vol.3, p. 215.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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