Canções da Alma – 77ª Mensagem

Oração

“Majestoso e Eterno Deus, diante de quem nos apresentamos humildes, clamando para que Tu nos desvende os olhos, purifique nossa alma e fortaleça a nossa fé por meio da Tua Palavra agora lida e que será exposta. Exponha aos nossos olhos os nossos pecados, a nossa impureza para que, confrontados por Tua santidade, sejamos também transformados conforme o caráter de Teu Filho Jesus Cristo, em nome de quem oramos, amém!”.

Salmo 76

Deus Se Faz Conhecido

Introdução e Contextualização

                   Só podemos conhecer a Deus porque partiu Dele Se dar a conhecer a nós. Jamais O conheceríamos por nós mesmos, porque desde que o pecado entrou na existência humana com a desobediência de Adão e Eva, tornamo-nos completamente incapazes de conhecer a Deus tal como Ele Se deu a conhecer a nós por meio da Revelação Especial das Escrituras Sagradas e na Pessoa de Seu Filho bendito, o Senhor Jesus Cristo.

                   Logo no primeiro versículo deste salmo somos apresentados à verdade de que Deus Se dá a conhecer aos homens: “Conhecido é Deus em Judá; grande é o seu nome em Israel”. Por isso, proponho o seguinte tema para nossa reflexão nessa ocasião: Deus Se Faz Conhecido.    

                   Neste salmo de Asafe, não encontramos explicitamente a ocasião em que ele fora escrito. Na Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento) aparece o acréscimo ao título desse salmo dizendo “concernente aos assírios”, fazendo menção à derrota sobrenatural sofrida por Senaqueribe, da Assíria, nos dias do rei Ezequias, quando na véspera de invadir Jerusalém, o Anjo do SENHOR matou a 185.000 soldados assírios (2Rs 18 – 19; Is37 – 38)[1]. Existem outras conjecturas, mas, esta parece ser a mais plausível.

                   A ênfase deste salmo não está na vitória miraculosa, mas, sim, em Deus que revelou-Se poderosamente contra os inimigos do Seu povo. Os grandes feitos de Deus revelam o Seu caráter e poder grandiosos. E assim, destacamos aqui três verdades sobre a auto revelação de Deus.

                   Deus Se faz conhecido para que

O conheçamos cada vez mais, v.1-3

1 Conhecido é Deus em Judá; grande, o seu nome em Israel.

2 Em Salém, está o seu tabernáculo, e, em Sião, a sua morada.

3 Ali, despedaçou ele os relâmpagos do arco, o escudo, a espada e a batalha.

                   Nestes primeiros versículos, o salmista mostra o relacionamento de Deus com a Sua Igreja, o Seu povo. Sabemos que Israel era a Igreja de Deus no Antigo Testamento. A Sua Aliança foi feita com Israel, e Sião (Jerusalém) foi o local que Ele escolhera para dali Sua revelação e Seu culto propagarem-se ao mundo. Ao mencionar Israel e Judá juntos, o salmista está mostrando que apesar da divisão que houve nos dias de Roboão, Deus sempre tratou com Seu povo como uma unidade.

                   “Conhecido é Deus em Judá”, ali em Jerusalém (Salém) estava o templo do SENHOR e a Arca da Aliança (v.2). Ali o povo se congregava para louvá-Lo. Ali em Jerusalém Deus Se fazia conhecido ao Seu povo por meio do Seu culto, e, dali Seu nome era engrandecido “em [todo] Israel” (v.1).

                   O nome “Salém” (v.2) é a abreviação de Jerusalém, cujo significado é “herança de paz”. Sim, Deus trouxe paz ao Seu povo quando destruiu as armas de guerra dos inimigos, “relâmpagos do arco” (flechas), “o escudo, a espada”. Mas, não só isso. Ele destruiu “a batalha”, pois, quando matou os 185.000 soldados assírios, para estes a guerra havia terminado, e com derrota vergonhosa.    

Aplicação v.1-3

Essa verdade se aplica à Igreja de Cristo. É a partir da Igreja que o mundo pode conhecer a Deus. E é a partir das Escrituras Sagradas que a Igreja pode conhece-Lo e fazê-Lo conhecido.

Quando a Igreja se reúne para adorá-Lo e cultuá-Lo, ela testemunha ao mundo a sua fé e obediência a Deus. Ela cumpre o seu papel de fazê-Lo conhecido no mundo. Ela mostra ao mundo que crê na existência de Deus.

Hoje, Deus não habita em templos como o de Jerusalém, pois, essa fase da infância da Igreja, na qual eram necessários esses recursos, já passou. Hoje, Ele habita em templos vivos, ou seja, os nossos corações. A paz que Ele nos dá não está circunscrita a um local, mas, em nosso coração, e por isso mesmo Ele nos diz: “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim” (Jo 14.1). A auto revelação de Deus em Sua Palavra e na pessoa de Jesus Cristo traz à Igreja a paz que ela precisa quando esta é atacada pelos inimigos.

O que cabe a nós é buscar conhecer a Deus cada vez mais.

                   Deus Se faz conhecido para que

Confiemos Nele cada vez mais, v.4-6

4 Tu és ilustre e mais glorioso do que os montes eternos.

5 Despojados foram os de ânimo forte; jazem a dormir o seu sono, e nenhum dos valentes pode valer-se das próprias mãos.

6 Ante a tua repreensão, ó Deus de Jacó, paralisaram carros e cavalos.

                   Estes versos descrevem com nitidez o que aconteceu aos 185.000 soldados assírios naquela noite. Sequer conseguiram fugir. Foram todos imobilizados e paralisados ali, e todos pelo sono mortal. O que aconteceu ali no arraial assírio, em todos os sentidos foi algo impressionante, especialmente porque por boca do profeta Isaías, Deus prometera que faria isso: “Quebrantarei a Assíria na minha terra e nas minhas montanhas a pisarei, para que o seu jugo se aparte de Israel, e a sua carga se desvie dos ombros dele” (Is 14.25). E tal qual Deus prometera, Ele fizera.

                   Ele é “ilustre e mais glorioso do que os montes eternos” (v.4), ou seja, não foi a geografia acidentadado monte de Sião nas imediações de Jerusalém que trouxe paz e tranquilidade para o povo cercado pelo inimigo, mas, sim, o próprio Deus ali presente cumprindo o que Ele prometera ao Seu povo é que trouxe a segurança ao mesmo e o triunfo sobre os assírios. Foi Deus quem despojou “os de ânimo forte” que em sua arrogância se julgavam invencíveis, mas que, enquanto estavam dormindo confiantes em si mesmos, foram devastados pelo Anjo do SENHOR, e nenhum deles pôde “valer-se das próprias mãos” (v.5). Depois que o Anjo do SENHOR passou ali, os carros e cavalos estavam paralisados ao lado dos milhares de cadáveres dos soldados (v.6).

Aplicação v.4-6                                                                                                                                       

Enquanto os versos anteriores se aplicam especificamente à Igreja, estes versos aplicam-se de forma individual a cada crente. Eles nos mostram que precisamos dia a dia confiar cada vez mais em Deus. E como faremos isto? Confiando cada vez mais em Sua Palavra. Se Deus falou, não temos o que temer, somente obedecer. Temos que crer no que Ele nos diz em Sua Palavra, e isso é um exercício pessoal. Ele prometera que abateria a Assíria nas terras de Israel, nas suas montanhas, e de fato o fez.

Assim como o salmista compreendeu que o livramento veio diretamente das mãos de Deus e não de qualquer outro recurso, precisamos individualmente guardarmos essa preciosa lição em nosso coração e também depositarmos somente em Deus a nossa confiança e isso cada vez mais. “Portanto, embora possamos ser privados de todos os meios de auxílio criados, descansemos satisfeitos simplesmente com o favor de Deus, considerando-o como infinitamente suficiente, visto não ter ele necessidade de grandes exércitos para repelir os assaltos do mundo inteiro, porém, é capaz, pelo mero sopro de sua boca, subjugar e dissipar todos os assaltantes”[2].

                   Deus Se faz conhecido para que

O temamos cada vez mais, v.7-12

7 Tu, sim, tu és terrível; se te iras, quem pode subsistir à tua vista?

8 Desde os céus fizeste ouvir o teu juízo; tremeu a terra e se aquietou,

9 ao levantar-se Deus para julgar e salvar todos os humildes da terra.

10 Pois até a ira humana há de louvar-te; e do resíduo das iras te cinges.

11 Fazei votos e pagai-os ao SENHOR, vosso Deus; tragam presentes todos os que o rodeiam, àquele que deve ser temido.

12 Ele quebranta o orgulho dos príncipes; é tremendo aos reis da terra.

                   O temor a Deus é um dos temas principais deste salmo como podemos ver nestes versos finais. No Sl 75 vimos que Ele deve ser reverenciado, respeitado e temido. A. W. Tozer afirmou: “Ninguém que primeiro não tenha conhecido o temor de Deus pode conhecer a verdadeira graça de Deus”[3]. Enquanto o pecador não compreende e lamenta por sua devassidão e depravação, jamais clamará pela misericórdia e graça de Deus. Quando uma pessoa compreende o quanto ofendeu a Deus com seus pecados, e que Ele mesmo assim está pronto a salvá-la de Sua própria ira, correrá para Ele clamando por Sua misericórdia. O quanto antes o pecador entender: “Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8), o quanto antes correrá para Ele. O temor a Deus nos levar ao Seu amor.

                   Nestes versos finais, Asafe descreve as razões pelas quais devemos temer a Deus:

  • Deus é o maior terror dos homens (v.7): Ele repete o pronome “Tu” em relação a Deus, para enfatizar que somente Deus é tão terrível. Quando Deus vem e Se manifesta com Sua ira santa “quem pode subsistir à tua vista?”, pergunta o salmista. Quando Ele manifesta a Sua ira tudo se desvanece diante Dele e é reduzido a nada somente com o Seu olhar fulminante. Basta um simples olhar de Deus cheio de ira e ninguém permanece vivo. Que tal aviso esteja sempre em nossos ouvidos e corações e nos desviemos do pecado, seja ele qual for, pois, o pecado atrai a ira de Deus.
  • Deus é a salvação dos humildes (v.8-9): os humildes são injustiçados, humilhados e ultrajados pelos ímpios. Isso deixou Asafe consternado (Sl 73.2-16). Mas, quem vem fazer justiça pelos humildes é o próprio Deus. “Desde os céus fizeste ouvir o teu juízo”, ou seja, Ele está acima de todos; Ele é inatingível, e, por isso, ninguém pode mudar o Seu juízo, nem mesmo refutá-Lo e muito menos evita-lo. O trovão do Seu juízo faz a terra se estremecer. Como disse Francis Shaeffer “Deus está aqui e não faz silêncio”. Quando Ele se levanta em Seu tribunal para julgar a impiedade e injustiça na terra a favor dos humildes, tudo se cala.
  • Deus é o único digno de louvor (v.10-11): preste atenção: tudo o que existe é para a glória de Deus e redundará em louvor a Ele de um jeito ou de outro. Até mesmo quando os ímpios se voltam furiosos e vociferando contra Deus as suas impiedades, Deus reverte isso em glória e louvor ao Seu santo Nome. A ira dos homens contra Deus nada é, pois, Deus Se reveste “das iras” dos homens, e as usa para o Seu louvor. A ira dos homens não abala a glória de Deus. Um exemplo disso é o que aconteceu com o Faraó que quando mais se opunha aos desígnios de Deus, tanto mais era humilhado, e tanto mais Deus foi exaltado por Seus poderosos feitos salvando Seu povo (cf. Êx 9.16; Rm 9.14-18). Enquanto os ímpios fecham seus punhos em direção a Deus, rilham seus dentes mostrando seu ódio por Ele e se revoltam porque suas vidas estão nas mãos de Deus, os justos, por sua vez, respondem amoravelmente o chamado para adorá-Lo, para reverenciá-Lo cumprindo os votos feitos a Ele, e mesmo reconhecendo o fato que Ele é Aquele “que deve ser temido”, e justamente por temerem-No, O adoram consagrando a Ele suas vidas e seus pertences como presentes a Deus (v.11). O justo O louva por amor espontâneo; o ímpio O adorará por temor e pavor, mas quando isso acontecer será tarde demais, pois, estarão bebendo do cálice da ira de Deus (cf. Sl 75.8)
  • Deus é o Rei dos reis (v.12): Este verso fecha este salmo de forma impactante. Deus quebranta, esmiúça e esmaga o orgulho dos príncipes. Senaqueribe, por meio de seu mensageiro Rabsaqué zombou de Deus quando afrontou Ezequias (2Rs 18.19-37). Primeiramente ele zombou de Ezequias questionando a sua confiança (v.19,20); depois zombou dos reis vizinhos, como o do Egito (v.21); mas sua arrogância não parou aí, pois, ele zombou de Deus dizendo: “Mas, se dizeis: Confiamos no SENHOR, nosso Deus, não é esse aquele cujos altos e altares Ezequias removeu, dizendo a Judá e a Jerusalém: Perante este altar adorareis em Jerusalém?” (v.21), e continuou zombando de Deus dizendo que Deus falara com ele (v.25). Também jogou o povo contra Ezequias dizendo que ele estava enganando o povo, pois, ninguém poderia livrá-los das mãos de Senaqueribe (v.29-35). Deus respondeu à arrogância dos assírios, devastando todo o seu exército numa noite enviando o Seu Anjo para isso. Naquela noite Senaqueribe fez parte do grupo dos reis da terra perante os quais Deus é tremendo.

Aplicação v.7-12                                                                                                                                     

O terrível e glorioso Deus, o Rei dos reis está cercado de humildes. Os arrogantes são por Ele abatidos e destruídos, e sobre a impiedade e ira destes Ele prevalece arrancando deles o louvor que Lhe é devido.

Este salmo começou falando da ação de Deus no meio do Seu povo. Depois mostrou que cada um de nós é responsável diante Dele. E agora termina alcançando toda a terra, convocando todas as nações ao redor de Israel a se curvarem diante de Deus.

Um dia todos se curvarão diante de Deus; grandes e pequenos, nobres e pobres; reis e plebeus; fiéis e ateus; arrogantes e humildes. Querendo ou não todo joelho se dobrará e toda língua haverá de confessar que Ele é o único Deus, que deve ser temido e amado, que é terrível aos arrogantes, mas, é o deleite dos humildes.

Conclusão

            O que aconteceu com Israel, o que Deus fez no meio do Seu povo, foi notado pelas nações vizinhas. O mesmo acontece conosco hoje como Igreja de Cristo. É à Igreja que foi dada a honra de ser a porta-voz de Deus neste mundo. É através da Igreja e na vida de cada um de nós que Deus mostrará os efeitos de Sua Palavra transformadora, mas, é por meio dela que Ele também julgará o mundo. O Senhor Jesus disse: “Quem me rejeita e não recebe as minhas palavras tem quem o julgue; a própria palavra que tenho proferido, essa o julgará no último dia” (Jo 12.48). Que sejamos contados com os humildes que pela Palavra de Deus foram transformados, para que naquele Dia não sejamos encontrados com aqueles a quem a Palavra condenará.


[1] Cf. HARMAN, 2011, p.281; CALVINO, 1999, vol.3, p.161; WIERSBE, 2010, vol.3, p217.

[2] CALVINO, 1999, vol.3, p.166.

[3] In WIERSBE, 2010, vol.3, p.218.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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