Canções da Alma – 79ª Mensagem

Oração

“Santo, Justo e Eterno Deus, cuja glória é incomparável, cuja sabedoria é insondável, e cujo amor transforma o mais vil pecador num herdeiro da Sua glória. A Ti buscamos com o coração quebrantado e desejoso de sermos por Ti mesmo restaurados e fortalecidos enquanto o Teu Santo Espírito aplica em nosso coração as verdades abençoadoras da Tua Palavra. Esse é o nosso desejo e a nossa oração em nome de Jesus Cristo, Teu Filho Amado, amém!”.

Salmo 78

Os Poderosos Feitos de Deus

Introdução e Contextualização

                   Este “Salmo Didático de Asafe” é, como o próprio nome diz, uma instrução, um ensino (lyKiªf.m;) que deveria ser passado a diante. Num tom de advertência à tribo de Judá, onde estava o Monte Sião, Jerusalém, onde foi construído o templo do SENHOR Deus para o Seu culto, Asafe fala sobre Os Poderosos Feitos do SENHOR.

                   Tomando como pano de fundo a Aliança de Deus com Seu povo – implicitamente a Aliança com Abraão (v.1-8); explicitamente a Aliança com Moisés (v.9-64) e a Aliança com Davi (v.65-72), a qual implicitamente aponta para a Nova Aliança em Cristo, o descente de Davi – Asafe apelou ao povo de Judá a que atentasse para duas verdades referentes aos poderosos feitos de Deus:

É preciso ensiná-los aos nossos filhos, v.1-8  

¹ Escutai, povo meu, a minha lei; prestai ouvidos às palavras da minha boca. 

2 Abrirei os lábios em parábolas e publicarei enigmas dos tempos antigos”.

                   Nos v.1-2, Asafe conclama ao povo a que preste atenção às suas palavras que são “enigmas dos tempos antigos” (v.2). A palavra “enigmas” (tAdªyxi) não quer dizer algo obscuro, mas, verdades importantes que merecem ser enfatizadas para as quais o povo deveria prestar máxima atenção. Eram verdades que o povo já conhecia e precisava ser relembrado.

Aplicação v.1-2

Aqueles que não dão ouvidos ao que Deus tem a dizer, não devem alimentar qualquer esperança de serem ouvidos por Deus em suas orações.

Em vez de buscarmos novidades, precisamos muito mais é de relembrar verdades antigas.

3 O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, 

4 não o encobriremos a seus filhos; contaremos à vindoura geração os louvores do SENHOR, e o seu poder, e as maravilhas que fez. 

                   Incluindo-se na advertência que faz ao povo, ele fala da responsabilidade de passar a diante aquilo que ouviram e aprenderam de seus antepassados (v.3), tendo a firme resolução de não lhes encobrir absolutamente nada dos “louvores do SENHOR, e o seu poder, e as maravilhas que fez” (v.4).

5 Ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e instituiu uma lei em Israel, e ordenou a nossos pais que os transmitissem a seus filhos,

6 a fim de que a nova geração os conhecesse, filhos que ainda hão de nascer se levantassem e por sua vez os referissem aos seus descendentes; 

7 para que pusessem em Deus a sua confiança e não se esquecessem dos feitos de Deus, mas lhe observassem os mandamentos; 

8 e que não fossem, como seus pais, geração obstinada e rebelde, geração de coração inconstante, e cujo espírito não foi fiel a Deus. 

                   Deus estabelecera e instituíra Sua Lei ao povo de Israel, a qual este deveria guardar em seu coração e transmitir às futuras gerações, especialmente aos pequeninos como nos dão a entender as palavras “nova geração” e “filhos que ainda hão de nascer” (v.5-6). A transmissão desse ensinamento tinha como objetivos: (1) que os filhos da Aliança fossem sábios e “pusessem em Deus a sua confiança”, (2) fossem gratos e “não se esquecessem dos feitos de Deus”, (3) fossem obedientes e “lhe observassem os mandamentos” (v.7), (4) sendo assim, o exato oposto de seus antepassados que foram “geração obstinada e rebelde, geração de coração inconstante e cujo espírito não foi fiel a Deus” (v.8).

Aplicação v.3-8

Assim como Israel, recebemos também de nossos antepassados o testemunho dos poderosos feitos do SENHOR Deus. Cabe a nós transmiti-los, especialmente aos nossos filhos. Devemos entender que o primeiro campo missionário que temos diante de nós é a nossa família. Pais que se descuidam de ensinar seus filhos a confiarem em Deus, a não se esquecerem do que Ele lhes fez, e a observarem Seus mandamentos, estão fracassando como pais; e o preço será alto.

Ensine a seus filhos sobre os poderosos feitos do SENHOR Deus. Eles precisam aprender a confiar em Deus e a não se esquecerem Dele jamais. O bem eterno de seus filhos depende de eles aprenderem a confiar em Deus e não se esquecerem dos Seus testemunhos.

                   Outra verdade sobre os poderosos feitos do SENHOR Deus é que:

É preciso relembrá-los o tempo todo, v.9-72

                   A maior parte deste Salmo (os v.9-72), apresenta um ciclo na história do Povo de Deus, o qual nos lembra a narrativa do livro de Juízes, onde encontramos o povo de Israel quebrando a Aliança adorando falsos deuses, Deus permitindo que inimigos atacassem e subjugassem Israel, o qual depois de sofrer por um tempo, arrependia-se e clamava a Deus por livramento, e Ele então livrava-os enviando um libertador que também legislava sobre o povo; enquanto esse legislador vivia, Israel continuava nos caminhos do SENHOR Deus, mas, com a morte do juiz, Israel voltava para a idolatria. O ciclo aqui neste Salmo fala da impiedade de Israel demonstrada em vários pecados, e os feitos poderosos de Deus também demonstrados de diversas formas. Vejamos:

v.9-11: A impiedade de Israel (Efraim) – infidelidade e ingratidão.

9 Os filhos de Efraim, embora armados de arco, bateram em retirada no dia do combate. 

10 Não guardaram a aliança de Deus, não quiseram andar na sua lei; 

11 esqueceram-se das suas obras e das maravilhas que lhes mostrara.

                   Aqui, Israel é designado na sua tribo mais proeminente, a saber, Efraim. Numa de suas cidades, Siló, estava o Tabernáculo de Moisés, e, consequentemente, o culto a Deus. Embora não saibamos exatamente qual foi essa ocasião em que Efraim tenha se acovardado numa guerra e fugido, como nos dá a entender o v.9, os pecados em destaque aqui são o de infidelidade, pois, “Não guardaram a aliança de Deus, não quiseram andar na sua lei” (v.10), e de ingratidão, pois, “esqueceram-se das suas obras e das maravilhas que lhes mostrara” (v.11).

Aplicação v.9-11

Quebrar a Aliança com Deus e buscar outros deuses é descrito nas Escrituras como um ato de infidelidade, de traição, e, por isso mesmo, um adultério espiritual. Esquecermos do que Deus já fez por nós, é um ato de ingratidão, pois, não demos o devido valor ao que Ele nos fez. A infidelidade e a ingratidão sempre andam de mãos dadas. No momento em que abrigarmos a ingratidão em nosso coração, facilmente cairemos na infidelidade, trocando Deus por ídolos.

v.12-16: Os feitos poderosos de Deus – sustentou Israel no Êxodo.

12 Prodígios fez na presença de seus pais na terra do Egito, no campo de Zoã.   

13 Dividiu o mar e fê-los seguir; aprumou as águas como num dique. 

14 Guiou-os de dia com uma nuvem e durante a noite com um clarão de fogo. 

15 No deserto, fendeu rochas e lhes deu a beber abundantemente como de abismos. 

16 Da pedra fez brotar torrentes, fez manar água como rios. 

                   Aqui vemos como Deus agiu em favor de Israel quando este era escravo no Egito (v.12). O v.13 fala do Mar Vermelho sendo aberto para o povo fugir (Êx 14.15-25), o v.14 fala da proteção constante que Deus lhes dera durante a caminhada no deserto com sol escaldante, e os v.15-16 de como Deus lhes deu água a beber tirada de onde ela não existia, a saber, das rochas do deserto. Em 1Co 10.3-4 Paulo aponta para o fato de que era o próprio Senhor Jesus Cristo tipificado naquela pedra, que sustentava o povo no deserto: “Todos eles comeram de um só manjar espiritual e beberam da mesma fonte espiritual; porque bebiam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo”.

Aplicação v.12-16

Deus sustenta a Sua Igreja através de Jesus Cristo que é o pão vivo que desceu do céu (Jo 6.32-35), e a água da vida (Jo 7.37-38). O maná que Deus mandava ao povo e a água que Ele providenciava ao mesmo no deserto foram feitos maravilhosos do Seu poder, porém, foram apenas sombras Daquele que a quem Ele enviaria para redimir todos os Seus filhos em todos os tempos, o Senhor Jesus Cristo que também é o alimento da nossa alma. Sem Ele morremos em nosso pecado e de inanição espiritual.

v.17-20: A impiedade de Israel – rebeldia e incredulidade.

17 Mas, ainda assim, prosseguiram em pecar contra ele e se rebelaram, no deserto, contra o Altíssimo. 

18 Tentaram a Deus no seu coração, pedindo alimento que lhes fosse do gosto. 

19 Falaram contra Deus, dizendo: Pode, acaso, Deus preparar-nos mesa no deserto? 

20 Com efeito, feriu ele a rocha, e dela manaram águas, transbordaram caudais. Pode ele dar-nos pão também? Ou fornecer carne para o seu povo?

                   Apesar da proteção e sustento que Deus lhes dera, se rebelaram “contra o Altíssimo” (v.17), e o tempo todo eram indispostos em relação à vontade de Deus provocando-O “pedindo alimento que lhes fosse do gosto” (v.18). Pecaram também com incredulidade, pois duvidavam do poder de Deus em dar-lhes o que eles queriam (v.19), e mesmo admitindo que Deus lhes dera água de uma rocha, zombavam Dele dizendo: “Pode ele dar-nos pão também? Ou fornecer carne para o seu povo?”.

Aplicação v.17-20

A rebeldia se faz ver quando em vez de nos submetermos à vontade de Deus, queremos que Ele faça a nossa vontade. Julgamos ser mais sábios do que Deus quando insistimos em fazer a nossa vontade em vez da Dele. Pior ainda é quando duvidamos do Seu poder questionando-O por não nos responder tal como queremos, como se Ele fosse obrigado a nos responder. Nunca questione o poder de Deus, pois, tais questionamentos são fertilizantes para as ervas daninhas da incredulidade, e podem atrair o juízo de Deus sobre sua vida tal como veremos a seguir.

v.21-31: Os feitos de Deus – juízo e misericórdia.

21 Ouvindo isto, o SENHOR ficou indignado; acendeu-se fogo contra Jacó, e também se levantou o seu furor contra Israel; 

22 porque não creram em Deus, nem confiaram na sua salvação. 

23 Nada obstante, ordenou às alturas e abriu as portas dos céus;

 24 fez chover maná sobre eles, para alimentá-los, e lhes deu cereal do céu. 

25 Comeu cada qual o pão dos anjos; enviou-lhes ele comida a fartar. 

26 Fez soprar no céu o vento do Oriente e pelo seu poder conduziu o vento do Sul. 

27 Também fez chover sobre eles carne como poeira e voláteis como areia dos mares. 

28 Fê-los cair no meio do arraial deles, ao redor de suas tendas.  

29 Então, comeram e se fartaram a valer; pois lhes fez o que desejavam. 

30 Porém não reprimiram o apetite. Tinham ainda na boca o alimento, 

31 quando se elevou contra eles a ira de Deus, e entre os seus mais robustos semeou a morte, e prostrou os jovens de Israel. 

                   Nestes versos vemos o perfeito equilíbrio da justiça e amor de Deus. Nos  v.21-22 vemos o juízo de Deus vindo com o fogo da Sua ira como resposta à incredulidade do povo. Em Nm 11.1-9 temos um exemplo de um desses momentos em que Deus irou-Se contra o povo, acendendo o Seu fogo contra o mesmo, vindo aquele lugar a se chamar Taberá. Mas, Ele é misericordioso e vemos a misericórdia de Deus quando Ele “abriu as portas dos céus” (v.23), sobre o povo dando-lhe o maná (v.24), “o pão dos anjos” (v.25), e deu-lhe também muita carne (v.26) enviando-lhe codornizes aos bandos sem que Israel tivesse qualquer esforço para apanhá-las (v.27-29- cf. Êx 16). Mas, a ganância de seus corações fez com que não reprimissem o seu apetite (v.30), e por isso mesmo Deus pesou Sua mão novamente fazendo com que muitos morressem empanzinados com a carne que lhes fora mandada (v.31). Assim, o mau uso da bênção trouxe-lhes o castigo de Deus.   

Aplicação v.21-29

Deus é justo e misericordioso; Ele Se ira contra o nosso pecado, mas, não deixa de ter misericórdia de Seus filhos.

Que haja em nosso coração contentamento com as bênçãos que Deus nos dá e que sejamos sábios em usufruir dessas bênçãos da misericórdia de Deus, pois, o mau uso das bênçãos de Deus atrairá sobre nós o juízo Dele tal como aconteceu com os israelitas.

v.32-37: A impiedade de Israel – menosprezo e falsidade.   

32 Sem embargo disso, continuaram a pecar e não creram nas suas maravilhas. 

33 Por isso, ele fez que os seus dias se dissipassem num sopro e os seus anos, em súbito terror. 

34 Quando os fazia morrer, então, o buscavam; arrependidos, procuravam a Deus. 

35 Lembravam-se de que Deus era a sua rocha e o Deus Altíssimo, o seu redentor. 

36 Lisonjeavam-no, porém de boca, e com a língua lhe mentiam. 

37 Porque o coração deles não era firme para com ele, nem foram fiéis à sua aliança.

                   “Sem embargo disso…”, ou seja, mesmo vendo o juízo de Deus ceifando muitos do povo, os israelitas não deram importância e “continuaram a pecar e não creram nas suas maravilhas” (v.32). E quando novamente a mão de Deus pesou sobre eles, “arrependidos, procuravam a Deus” (v.33-34) e até mesmo “lembravam-se de que Deus era a sua rocha e o Deus Altíssimo, o seu redentor” (v.35). Mas, o que parecia ser um arrependimento sincero, na verdade, não passava de bajulação e mentiras (v.36). Nem confessavam seu pecado com sinceridade, e nem atribuíam a Deus a glória pelo livramento[1]. E por que faziam assim? Porque eram inconstantes e infiéis a Deus em seus corações (v.37). Pesavam o sofrimento causado pelo juízo de Deus, mas, não pesavam a gravidade do seu pecado conta Deus.

Aplicação v.32-37

O fato de Israel não crer em Deus mesmo tendo visto as maravilhas de Suas mãos, nos mostra que o dom da fé vem de Deus, pois, o coração humano, mesmo diante das grandes maravilhas de Deus é incapaz de crer Nele por si só. Precisamos de Deus para crer Nele, obedecê-Lo e amá-Lo.

Não podemos tratar a Graça de Deus com menosprezo; não podemos ser falsos e fingidos em nosso arrependimento, pois, Deus conhece o nosso coração. O arrependimento sincero e verdadeiro produz confiança e fidelidade constantes e firmes em Deus.

v.38-39: Os feitos de Deus – misericórdia e clemência.

38 Ele, porém, que é misericordioso, perdoa a iniquidade e não destrói; antes, muitas vezes desvia a sua ira e não dá largas a toda a sua indignação. 

39 Lembra-se de que eles são carne, vento que passa e já não volta.

                   O intuito de Deus em pesar Sua mão sobre os Seus filhos, não é para fazê-los sofrer caprichosamente, mas, sim, trazê-los de volta à Sua presença e ao gozo de Sua aliança. Isso é misericórdia! Ele é misericordioso e tem prazer em restaurar corações com Seu perdão (v.38). Ele até poderia dar vazão total à Sua ira, mas, Ele sabe que os homens não a suportariam (v.39). Ele os corrige e os disciplina, mas, não Se esquece de ser misericordioso e clemente.

Aplicação v.38-39

Foi assim que Ele agiu para com Israel inúmeras vezes; é assim que Ele age também conosco. Se Ele quisesse nos castigar conforme as nossas iniquidades, certamente não suportaríamos. Mas, Ele não quer aniquilar Seus filhos; Ele quer restaurá-los. Que Deus maravilhoso é o nosso Deus!

v.40-64: A impiedade de Israel – rebelião e indiferença.

40 Quantas vezes se rebelaram contra ele no deserto e na solidão o provocaram! 

41 Tornaram a tentar a Deus, agravaram o Santo de Israel. 

42 Não se lembraram do poder dele, nem do dia em que os resgatou do adversário; 

43 de como no Egito operou ele os seus sinais e os seus prodígios, no campo de Zoã; 

44 e converteu em sangue os rios deles, para que das suas correntes não bebessem. 

45 Enviou contra eles enxames de moscas que os devorassem e rãs que os destruíssem. 

46 Entregou às larvas as suas colheitas e aos gafanhotos, o fruto do seu trabalho. 

47 Com chuvas de pedra lhes destruiu as vinhas e os seus sicômoros, com geada. 

48 Entregou à saraiva o gado deles e aos raios, os seus rebanhos. 

49 Lançou contra eles o furor da sua ira: cólera, indignação e calamidade, legião de anjos portadores de males. 

50 Deu livre curso à sua ira; não poupou da morte a alma deles, mas entregou-lhes a vida à pestilência. 

51 Feriu todos os primogênitos no Egito, as primícias da virilidade nas tendas de Cam. 

52 Fez sair o seu povo como ovelhas e o guiou pelo deserto, como um rebanho. 

53 Dirigiu-o com segurança, e não temeram, ao passo que o mar submergiu os seus inimigos. 

54 Levou-os até à sua terra santa, até ao monte que a sua destra adquiriu. 

55 Da presença deles expulsou as nações, cuja região repartiu com eles por herança; e nas suas tendas fez habitar as tribos de Israel. 

56 Ainda assim, tentaram o Deus Altíssimo, e a ele resistiram, e não lhe guardaram os testemunhos. 

57 Tornaram atrás e se portaram aleivosamente como seus pais; desviaram-se como um arco enganoso. 

58 Pois o provocaram com os seus altos e o incitaram a zelos com as suas imagens de escultura. 

59 Deus ouviu isso, e se indignou, e sobremodo se aborreceu de Israel. 

60 Por isso, abandonou o tabernáculo de Siló, a tenda de sua morada entre os homens, 

61 e passou a arca da sua força ao cativeiro, e a sua glória, à mão do adversário. 

62 Entregou o seu povo à espada e se encolerizou contra a sua própria herança. 

63 O fogo devorou os jovens deles, e as suas donzelas não tiveram canto nupcial. 

64 Os seus sacerdotes caíram à espada, e as suas viúvas não fizeram lamentações.

                   Nestes versículos, Asafe recapitula os acontecimentos na saída do Egito (v.42-53), na conquista de Canaã (v.54-64). Asafe aponta para o fato de que a rebeldia de Israel contra Deus não foi um ato isolado, mas, repetido várias vezes (v.40); eles tentaram a Deus duvidando do Seu poder várias vezes (v.41). Ao dizer que eles “Não se lembraram do poder dele” (v.42), Asafe não está falando de um mero esquecimento de algo insignificante, mas, sim, de uma atitude deliberada de indiferença e descaso para com fatos impressionantes e que são impossíveis de ser esquecidos. A quais fatos ele estava se referindo? (1) Às dez pragas que Deus enviou sobre o Egito. Ele alista sete das dez pragas, que aparecem aqui fora da ordem apresentada em Êxodo: praga das águas transformadas em sangue (v.44), praga de enxames de moscas e das rãs (v.45); praga dos gafanhotos (v.46), praga de chuva de granizo e relâmpagos (v.47), morte dos animais (v.48), e morte dos primogênitos do Egito (v.49-51). No v.50 Asafe destaca que contra os egípcios, Deus “deu livre curso `sua ira”, ao passo que aos Seus filhos, Ele a reteve (cf. v.38). Mesmo assim, Israel fez pouco caso de todo o cuidado de Deus com ele no deserto, mesmo Deus agindo como um pastor que guia e protege suas ovelhas (v.52), e dando vitória a Israel sobre os egípcios (v.53). (2) À posse da terra prometida. Após 40 anos no deserto, Deus introduziu Israel na “terra santa ao monte que a sua destra adquiriu” (v.54). Deu-lhe vitória sobre as nações (v.55), mas os filhos de Israel novamente “tentaram o Deus Altíssimo” (v.56) desobedecendo à Sua Lei. Tal como seus pais, os filhos de Israel se “portaram aleivosamente” (v.57), tal como um arco torto que engana o arqueiro com sua mira, Israel desviou-se dos caminhos de Deus, errou o alvo da glória de Deus. Tal como uma esposa infiel que abandona seu companheiro por outro, Israel trocou Deus pelas “imagens de escultura” (v.58). O resultado disso foi que Deus retirou de Israel o Seu santuário e de Siló (Efraim) o centro do Seu culto. Os v.59-64, descrevem o ocorrido nos dias de Eli (cf. 1Sm 4.4-22). Deus “se indignou, e sobremodo se aborreceu de Israel” (v.59), e isso fez quando “abandonou o tabernáculo em Siló”(v.60), permitiu que a Arca fosse levada pelos filisteus (v.61), e também que Hofni e Fineias, filhos de Eli, que eram sacerdotes, porém, perversos, fossem mortos na guerra (v.62-64), e quando soube dessa tragédia, Eli também caiu de sua cadeira para trás e quebrou seu pescoço vindo, assim, a óbito. O pecado de Israel trouxe mais uma vez a ira e a disciplina de Deus, e Israel viu a Glória do SENHOR Deus retirar-se do seu meio (cf. 1Sm 4.21-22).

Aplicação v.40-64

Israel viu a grande salvação e tremendo livramento que Deus lhe dera tirando-o das garras do Egito, bem como as portentosas e sucessivas vitórias sobre os cananeus por ocasião da conquista, e mesmo assim, Israel foi rebelde e indiferente para com o amor de Deus. Somos nós diferentes de Israel? Somos agradecidos a Deus e Lhe devotamos obediência amorosa e constante em resposta aos Seus poderosos feitos nos salvando através de Cristo? Penso que muitas vezes estamos numa situação ainda mais deplorável que Israel, pois, os livramentos e vitórias que Deus concedera a Israel no passado, eram sombras do que Cristo viria fazer séculos depois. Se Israel tinha motivos para jamais abandonar o SENHOR Deus e trocá-Lo por falsos deuses, muito mais nós temos razão para jamais nos rebelarmos contra Deus e deliberadamente esquecermos do que Ele fez por nós. Muitas vezes, mesmo sabemos que estamos diante de um pecado, e sem qualquer dificuldade nos entregamos a ele, ofendendo assim a Deus. Quantas vezes deliberadamente não nos lembramos do que Deus fez por nós, e O ofendemos com nossos pecados? Isso deve alertar-nos para nunca confiarmos em nós mesmos; nunca confiarmos em nossa obediência falha e inconstante, mas sempre confiarmos na obediência de Cristo e em Seus méritos.  

v.65-72: Os feitos poderosos de Deus – reafirmação da Sua Aliança.

65 Então, o Senhor despertou como de um sono, como um valente que grita excitado pelo vinho; 

66 fez recuar a golpes os seus adversários e lhes cominou perpétuo desprezo. 

67 Além disso, rejeitou a tenda de José e não elegeu a tribo de Efraim. 

68 Escolheu, antes, a tribo de Judá, o monte Sião, que ele amava. 

69 E construiu o seu santuário durável como os céus e firme como a terra que fundou para sempre. 

70 Também escolheu a Davi, seu servo, e o tomou dos redis das ovelhas; 

71 tirou-o do cuidado das ovelhas e suas crias, para ser o pastor de Jacó, seu povo, e de Israel, sua herança. 

72 E ele os apascentou consoante a integridade do seu coração e os dirigiu com mãos precavidas.

                   Asafe encerra este Salmo mostrando-nos uma verdade fundamental para nossa vida cristã: é Deus quem estabelece e sustenta a Sua Aliança com Seu povo. Deus disciplina Seus filhos, mas, jamais os abandona. Os filisteus tinham levado a Arca da Aliança e trazido grande tristeza aos israelitas. Tudo isso era a disciplina de Deus. Porém, Ele não desamparou Israel. Levantou-Se em glória e poder (v.65), e “fez recuar a golpes os seus adversários” (v.66) impondo-lhes “perpétuo desprezo”, isto é, uma vergonhosa derrota que é lembrada geração após geração. Essa derrota está registrada em 1Sm 5 – 7. O v.67 traz uma severa advertência: a paciência de Deus tem limites. Israel prevaricou contra Deus, apostatou e desprezou Sua Aliança. Ele então voltou-Se para Judá, e o escolheu para ali, no Monte Sião, em Jerusalém (v.68) estabelecer o Seu culto. Ali em Jerusalém “construiu o Seu santuário” (v.69), e colocou Davi como rei sobre o povo (v.70-72), um rei que fosse segundo o Seu coração (At 13.22), isto é, estabelecido somente por Sua própria vontade, diferentemente de Saul que foi escolhido pelo povo. Uma tribo sem expressão e importância, uma cidade também sem qualquer destaque, e um pastorzinho totalmente improvável de ser rei, foram todos escolhidos por Deus e enaltecidos por Sua escolha, por Sua Aliança, a qual apontava para Aquele que é o “Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi” (Ap 5.5), o Senhor Jesus Cristo. Assim, Deus reafirmou com Davi a Sua Aliança que fizera com os antepassados, e preparava o caminho para Cristo que viria instaurar a Nova Aliança.

Aplicação v.65-72

A nossa glória é Deus. A nossa salvação é obra Dele. Ele é quem nos salvou e estabeleceu Sua Aliança conosco a qual Ele mesmo a sustenta e preserva em Seu poder. Ele é quem estabelece o Seu culto e diz quando, onde e como ele deve ser realizado. O fato de Deus ter removido o Seu tabernáculo de Siló e trazido ele para Jerusalém, lembra-nos o que Cristo disse à Igreja de Éfeso: “Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do seu lugar teu candeeiro, caso não te arrependas” (Ap 2.5). Deus fez isso com Israel; Cristo fez isso com a Igreja em Éfeso; Ele também pode fazer o mesmo conosco caso não guardemos a Sua Aliança. Deus tinha escolhido Judá, Jerusalém e Davi, contudo, dera uma oportunidade a Israel (Efrain), Siló e Saul. Se eles tivessem feito a vontade de Deus, teriam permanecido com essa glória. Mas, por seguirem seus próprios corações, Deus então os puniu, e deu a Sua glória a quem Ele havia predeterminado.

Conclusão

                   Relembre os poderosos feitos de Deus em sua vida, especialmente, a salvação em Cristo. De todos os poderosos feitos de Deus, sem dúvida alguma, a nossa salvação em Cristo Jesus é o mais importante. Relembre a todo momento os poderosos feitos de Deus, não dê descanso à sua memória; exercite a gratidão e o louvor, primeiro porque Ele merece, e segundo, porque é assim que a sua fé será fortalecida a cada dia.

                   Transmita às pessoas tudo o que você tem aprendido sobre Deus, especialmente a seus filhos, eles são o seu primeiro e principal campo missionário, a sua mais importante congregação. Ensine-os sobre os poderosos feitos de Deus, não encubra nada deles; prepare-os para que eles um dia também passem aos filhos deles, e isso de geração em geração, até que todos nós um dia nos encontremos na Glória Eterna, na presença deste Grande Deus que faz grandes coisas.          


[1] Cf. CALVINO, 1999, vol.3, p.221.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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