Canções da Alma – 80ª Mensagem

“Eterno Deus, pela mediação de Teu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor e Salvador, nos aproximamos de Ti em oração para pedir-Lhe que nos instrua na Tua Palavra. Há tantas vozes competindo pela nossa atenção, mas, nosso coração precisa ouvir somente a Tua voz. Tome cativo nosso pensamento à Tua presença. Assim clamamos em nome de Jesus, amém!”.

Salmo 79

Quando Deus nos Disciplina

Introdução e Contextualização

                    Neste “Salmo de Asafe”, estamos diante de um assunto recorrente nas Escrituras: a disciplina de Deus sobre os Seus filhos. A ocasião em que este Salmo foi escrito, é da concordância de praticamente todos os expositores das Escrituras, que foi o cativeiro babilônico ocasionado em 608 a.C., quando Nabucodonosor, rei da Babilônia, invadiu Jerusalém, destruiu a cidade e o templo, e levou para a Babilônia os utensílios do templo juntamente com parte da aristocracia do povo como escravo. Justamente por esse contexto, esbarramos na dificuldade do Sl 74 quanto à autoria deste Salmo. Foi aquele Asafe, líder dos músicos nos dias do rei Davi quem o compôs, ou foi um descendente dele que oficiava no templo na ocasião do cativeiro babilônico? Se foi aquele Asafe dos dias de Davi, então temos que partir do fato de que o Espírito Santo lhe revelara o que haveria de acontecer uns três séculos depois; se foi um descendente dele, o mesmo registrou o que seus olhos viram, contudo, ele também fora inspirado pelo Espírito Santo, pois, nunca nenhuma profecia foi dada ou relato bíblico foi feito sem a inspiração do Espírito de Deus (cf. 2Pe 1.21).

                   Voltando para o assunto deste Salmo, proponho para a nossa meditação o seguinte tema: Quando Deus nos disciplina.

                   Este Salmo tem estreita ligação com Dt 28 – 30, onde Deus prometeu a Israel bênçãos se este fosse obediente e guardasse a Sua Aliança, e maldições, caso quebrasse a Aliança adorando falsos deuses. Israel quebrou a Aliança ao adorar outros deuses; e Deus o disciplinou.

                   Destacamos quatro verdades neste Salmo, sobre quando Deus nos disciplina  

A dor nos angustia, v.1-4

1 Ó Deus, as nações invadiram a tua herança, profanaram o teu santo templo, reduziram Jerusalém a um montão de ruínas. 

2 Deram os cadáveres dos teus servos por cibo às aves dos céus e a carne dos teus santos, às feras da terra. 

3 Derramaram como água o sangue deles ao redor de Jerusalém, e não houve quem lhes desse sepultura. 

4 Tornamo-nos o opróbrio dos nossos vizinhos, o escárnio e a zombaria dos que nos rodeiam.

                   Asafe abre o Salmo com uma triste queixa a qual ele apresenta a Deus em forma de oração. Ele descreve a terrível assolação que sobreviera ao povo de Deus. Como disse Calvino “Quase cada palavra expressa a crueldade desses inimigos”[1].

                   A crueldade dos inimigos é vista:

  • Em relação aos lugares: “As nações invadiram a tua herança” (v.1). O exército da Babilônia era composto por soldados de outras nações que foram conquistadas por ela, daí Asafe falar de nações invadindo Jerusalém, cujo nome literalmente significa “herança de paz”. Mas, paz era o que eles não desfrutavam naquele momento, pois, os inimigos profanaramo “santo templo”, entrando nele – o que era proibido aos gentios – saqueando seus utensílios, especialmente a Arca da Aliança, consagrados ao culto a Deus. Também “reduziram Jerusalém a um montão de ruínas”.
  • Em relação às pessoas: Eles deixaram os cadáveres dos filhos de Jerusalém ao relento para serem devorados por aves de rapina e por feras (v.2), e promoveram terrível carnificina, pois, “Derramaram como água o sangue deles ao redor de Jerusalém” (v.3). Os babilônios negaram as honras de um sepultamento digno aos hebreus. Por isso mesmo, eles se viam como “opróbrio” dos seus vizinhos, sentindo o “escárnio e a zombaria” (v.4) dos que os rodeavam. Aqueles que deveriam ser os portadores dos louvores a Deus e serem honrados pelos demais por isso, tornaram-se motivo de escárnio e zombaria.

          Aplicação v.1-4

Destacamos aqui dois fatos:

  • Nenhum ato de disciplina que Deus nos impõe vem sem aviso. Quando pecamos, sabemos perfeitamente que o pecado trará sobre nós a ira e a disciplina de Deus. Os israelitas sabiam perfeitamente que se um dia quebrassem a Aliança com Deus, ele haveria de puni-los. Em Dt 28, Deus avisara a Israel que se um dia quebrasse a Sua Aliança e fosse adorar outros deuses, Deus viria contra ele, e enviaria pragas e moléstias, mas, não só isso, Ele também dispersaria Israel por entre as nações onde eles haveriam de sofrer muito (Dt 28.61-68).
  • Não é a disciplina de Deus, mas, sim o pecado que tira a nossa paz. Jerusalém, a “herança da paz” estava sofrendo terrivelmente as angústias da dor que o seu pecado lhe trouxera. A disciplina de Deus era a “cura” de que precisavam. Sempre que optarmos pelo pecado precisamos saber que o preço dele será alto.          

                   Quando o SENHOR Deus nos disciplina

A Sua promessa deve ser relembrada, v.5-8

5 Até quando, SENHOR? Será para sempre a tua ira? Arderá como fogo o teu zelo? 

6 Derrama o teu furor sobre as nações que te não conhecem e sobre os reinos que não invocam o teu nome. 

7 Porque eles devoraram a Jacó e lhe assolaram as moradas.

8 Não recordes contra nós as iniquidades de nossos pais; apressem-se ao nosso encontro as tuas misericórdias, pois estamos sobremodo abatidos. 

                   “Até quando, SENHOR?” (v.5). Essa pergunta sempre aparece nos Salmos estando relacionada ao sofrimento e ao aparente silêncio de Deus diante da nossa dor. Até quando Deus pesaria a Sua mão contra Jerusalém? Será que a ira Dele duraria até o fim de suas vidas? O zelo (ha’n>qi) do SENHOR Deus, literalmente quer dizer “com ciúmes”. A Aliança com Deus é descrita nos termos do casamento, por isso Ele tem profunda tristeza quando vê Seus filhos trocando-O por falsos deuses, porque isso é um adultério espiritual. “Deus era o esposo ciumento de Israel (Êx 20.5), e o salmista apela para que haja um fim para este período de ira”[2].

                   Quando Deus estabelecera Sua Aliança com Israel nos dias de Moisés, também prometeu que faria vir sobre os inimigos de Israel todas as maldições que prometera (Dt 30.7). Devemos entender o pedido de Asafe no v.6, não como um desenho de vingança, mas, sim, um apelo às promessas de Deus, para que a Sua justiça se manifestasse a favor do Seu povo que sofria nas mãos dos inimigos (v.7).

                   Mas aqueles que invocam a misericórdia e a justiça de Deus, devem estar cônscios de seus pecados também. No v.8, Asafe reconhece que a disciplina de Deus não veio debalde sobre o povo, mas, foi por conta das iniquidades de seus antepassados. Contudo, não foi só a culpa dos antepassados, mas, a deles também, pois, como disse John Weslley: “O que uma geração tolera, a próxima irá abraçar”. A idolatria dos antepassados foi passada para as gerações seguintes, e essa iniquidade despertou a ira de Deus. Como sempre temos asseverado aqui, cada um é responsável diante de Deus por seus pecados, mas, é possível sofrermos por causa dos pecados cometidos por outros, e por isso mesmo, quando formos tentados a pecar devemos sempre pensar naqueles que estão sob a nossa responsabilidade, nas coisas que Deus nos confiou, e, acima de tudo na glória de Deus, pois, tudo isso estará em jogo quando pecarmos.

Aplicação v.5-8

Quando a disciplina de Deus vier sobre nós, precisaremos sempre recordar as promessas de Deus agarrando-nos a elas para que o nosso coração não se perca em questionamentos inócuos.  Clamemos também por Sua misericórdia, pois, só Ele pode interromper nosso sofrimento. Contudo, não tenhamos pressa em acabar com o sofrimento ocasionado pela disciplina de Deus, mas, sim, sejamos diligentes em reconhecer o nosso pecado, e buscarmos sincero arrependimento diante de Dele.  

                   Quando Deus nos disciplina

A Sua glória tem que ser nosso alvo, v.9-10

9 Assiste-nos, ó Deus e Salvador nosso, pela glória do teu nome; livra-nos e perdoa-nos os pecados, por amor do teu nome. 

10 Por que diriam as nações: Onde está o seu Deus? Seja, à nossa vista, manifesta entre as nações a vingança do sangue que dos teus servos é derramado.

                   Asafe clamou a Deus com base em Sua promessa e misericórdia. Agora ele apresenta sua motivação para viver, o alvo de sua vida: a glória de Deus. Ele clama a Deus por socorro: “Assiste-nos, ó Deus e Salvador nosso” (v.9). Anteriormente, pedira a Deus que não levasse em conta as iniquidades de seus pais, pois, se Ele assim fizesse, não sobraria nada deles. Agora, ele clama o perdão de Deus confiado no nome Dele, demonstrando assim que a sua preocupação em passar por vexame não era consigo mesmo trazendo desonra para si, mas com a glória do nome de Deus, nome este que ele temia desonrar, e ver sendo zombado na boca dos ímpios, como nos mostram as palavras do v.10 “Por que diriam as nações: Onde está o seu Deus?”. Asafe via a disciplina pela qual o povo estava passando como um ato da mão de Deus; mas, os ímpios viam o sofrimento de Israel como um abandono de Deus, ou pior ainda, como se o Deus de Israel fosse um deus falso, um ídolo, como os deuses dos pagãos. Dessa forma, Deus seria desonrado pelas nações pagãs as quais, por essa zombaria e sacrilégio, mereciam sofrer com a vingança de Deus tal como disse Asafe: “Seja, à nossa vista, manifesta entre as nações a vingança do sangue que dos teus servos é derramado”.

Aplicação v.9-10

Desses versículos extraímos a verdade de que a nossa reconciliação com Deus nunca será uma obra nossa, ou mesmo algo que partiu de nós. Como disse Calvino: “À luz deste fato aprendemos que os pecadores não são reconciliados com Deus por meio de satisfações [humanas] nem mediante os méritos das boas obras, mas mediante um perdão soberano e imerecido”[3].

Outra verdade que precisamos ressaltar é que nada pode ser mais digno do nosso zelo, da nossa dedicação, do nosso desejo do que a glória do nome de Deus. Todas as nossas ações, quer privadas, quer públicas, devem ser motivadas pela glória do nome de Deus. Em tudo devemos querer honrar e glorificar a Deus; em todo tempo devemos nos empenhar para não trazermos desonra ao nome Dele.

                   Por fim, quando Deus nos disciplina  

A esperança tem que estar em Deus, v.11-13

11 Chegue à tua presença o gemido do cativo; consoante a grandeza do teu poder, preserva os sentenciados à morte. 

12 Retribui, Senhor, aos nossos vizinhos, sete vezes tanto, o opróbrio com que te vituperaram. 

13 Quanto a nós, teu povo e ovelhas do teu pasto, para sempre te daremos graças; de geração em geração proclamaremos os teus louvores.

                   Encerrando o Salmo, Asafe expressa sua esperança em relação a Deus. Todas as palavras desses versículos trazem consigo um tom de esperança. E assim, ele encerra este Salmo de forma exatamente oposta à que começou. Nos v.1-5, cada palavra trazia a crueldade dos inimigos; nestes versículos finais, cada palavra expressa a esperança no poder e misericórdia de Deus.

                   No v.11, ele diz: “Chegue à tua presença o gemido do cativo”. É fato que eles não estavam presos em cadeias ou masmorras. Mas, eles não podiam voltar da Babilônia quando quisessem, pois, seriam mortos com certeza. De qualquer jeito, ficando na Babilônia ou fugindo de lá estariam sentenciados à morte. No meio dessa situação deplorável, os cativos erguiam suas vozes a Deus, e Asafe esperava que Deus recolhesse em Sua presença suas orações.

                   No v.12, Asafe expressa sua esperança e confiança na justiça de Deus quando pediu que Ele retribuísse aos seus vizinhos, que na verdade eram seus parentes Amom, Moabe e Edom. É importante destacar que Deus usara a Babilônia para disciplinar Judá. Contudo, a maldade com que a Babilônia fustigou Judá merecia ser punida por Deus também. Isso nos mostra que Deus responsabiliza o pecador por seus pecados, e até mesmo quando Ele usa os pecadores para cumprirem Seus propósitos, Ele não alivia o rigor de Sua sentença contra eles.

                   No v.13, Asafe faz uma reafirmação de fé mesmo estando numa situação de intensa dor e sofrimento: “Quanto a nós, teu povo e ovelhas do teu pasto, para sempre te daremos graças; de geração em geração proclamaremos os teus louvores”. Novamente voltamos aqui ao ponto da glória do nome de Deus. Os servos de Deus não devem querer sua preservação ou bem-estar mais do que a glória do nome de Deus[4]. Não deveríamos querer ficar livres de algum sofrimento ou desconforto mais do que querer que Deus seja louvado e engrandecido em nossas vidas. O que Asafe está dizendo aqui neste último versículo é uma reafirmação de fé mesmo em tempos de angústia e disciplina divina.

Aplicação v.11-13

Diante de qualquer situação, não permita que o seu coração ponha a esperança em algo que não seja a Palavra de Deus, e nem em alguém que não seja Ele próprio. Somente Deus é a esperança dos que Nele confiam, e os que Nele confiam não precisam de nenhuma outra esperança.

Não permita que o seu coração execute a vingança. Ela pertence a Deus e Ele sabe como executá-la em cada coração.

Não permita que as circunstâncias ditem a sua forma de louvar a Deus. Em todo tempo, glorifique o nome Dele, renda-Lhe graças, ainda que você seja o único a fazer isso.

Conclusão

                   Que nos tempos de disciplina possamos conhecer mais do caráter do nosso Pai, e ver nosso caráter ser moldado de conformidade com o de Seu Filho, Cristo Jesus!


[1] CALVINO, 1999, vol.3, p. 249.

[2] HARMAN, 2011, p.296.

[3] CALVINO, 1999, vol.3, p.257.

[4] Cf. CALVINO, 1999, vol.3, p.261.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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