Canções da Alma – 81ª Mensagem

“Eterno Deus, cuja glória mortal algum pode contemplar sem que Teu Filho Jesus Cristo o tenha justificado e glorificado. A Ti clamamos neste momento que fale ao nosso coração. Como ouviremos agora sobre a Tua glória nos restaurando, restaure-nos! Assim oramos em Nome de Jesus, amém!”.

Salmo 80

Restaurados Pela Glória de Deus

Introdução e Contextualização

                    Fomos criados para a Glória de Deus, e, nela sermos plenamente felizes e satisfeitos. Porém, o pecado nos tornou seres totalmente depravados, afastados de Deus e merecedores da ira de Deus. Nas palavras do apóstolo Paulo: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23), ou como as versões ARC, ACF e BRP trazem: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Por causa do pecado fomos derrubados (daí falar-se de “Queda” referindo-se ao pecado), apartados, da Glória de Deus, e por isso mesmo, carentes dela. De todas as coisas que o homem mais necessita, dentre elas está o ser reconduzido à Glória de Deus. A isso damos o nome de restauração. Necessitamos ser restaurados por Deus; sim, restaurados à posição de santidade para a qual Deus nos criou, e para que isso pudesse acontecer, Cristo encarnou-Se, viveu de forma obediente ao Pai, e morreu vicariamente na cruz pelo Seu povo.

                   Quanto à ocasião em que este Salmo foi escrito, os comentaristas em sua maioria concordam que Asafe, profeticamente e inspirado pelo Espírito Santo, olhava para o Reino do Norte (Israel) o qual haveria de cair sob o poder da Assíria em 721 a.C., uns dois séculos após os dias de Asafe[1]. Contudo, a inclusão da tribo de Benjamim (uma tribo do Reino do Sul, Judá) com as tribos de Efraim e Manassés, filhos de José (tribos do Reino do Norte, Israel) sugere que o olhar de Asafe aqui era para todo o povo de Israel em sua inteireza, como um reino só.

                   Quanto à autoria, este Salmo é descrito como um “Testemunho de Asafe. Salmo”. Asafe, o entregou “Ao mestre de canto”. A melodia deste Salmo é “segundo a melodia Os lírios”. Allan Harman traduz o título deste Salmo assim: “Para o diretor de música. Para [a melodia de] ‘Os Lírios da Aliança’. De Asafe. Salmo”[2], o que parece fazer mais sentido. Não sabemos quase nada sobre essa melodia.

                   Este Salmo fala de restauração por meio da e para a Glória de Deus. Há três versículos que são repetidos com uma ligeira alteração no Nome de Deus e que definem a estrutura desse Salmo: v.3, 7 e 19, Cada um deles fecha uma seção do Salmo com a mensagem de restauração por meio do fulgor da luz do rosto de Deus, isto é, por meio da Sua Glória:

“Restaura-nos, ó Deus…” (v.3)

“Restaura-nos, ó Deus dos Exércitos…” (v.7)

“Restaura-nos, ó SENHOR Deus dos Exércitos” (v.19)

“…faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos”

                   O resplendor do rosto de Deus é a Sua Glória. Proponho para a exposição e nossa meditação neste Salmo o seguinte tema: Restaurados pela Glória de Deus. Para sermos restaurados pela Glória de Deus, precisamos 

Clamar por salvação, v.1-3

1 Dá ouvidos, ó pastor de Israel, tu que conduzes a José como um rebanho; tu que estás entronizado acima dos querubins, mostra o teu esplendor.

2 Perante Efraim, Benjamim e Manassés, desperta o teu poder e vem salvar-nos. 

3 Restaura-nos, ó Deus; faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos. 

                   O v.1 liga este Salmo ao último versículo do Salmo anterior, o qual também fala do povo de Deus como “ovelhas do teu pasto” (Sl 79.13). Aqui no v.1 Asafe descreve Deus como “pastor de Israel”, e ao povo de Israel como “um rebanho”. Ainda que use figuras terrenas para fazer tal descrição, Asafe não perde de vista a glória Daquele a quem ele se dirige em sua oração, e por isso diz a Deus: “tu que estás entronizado acima dos querubins”. O que Asafe tinha em mente aqui era o propiciatório da Arca, sobre o qual havia dois querubins de ouro em posição reverente. Estes querubins de ouro não eram adorados por Israel, mas, apenas serviam como um memorial de que Deus estava ali presente, como de fato está em toda parte, pois, é Onipresente. Este grandioso Deus está “acima dos querubins”, ou seja, os seres mais santos que possam existir estão abaixo Dele e Lhe são inferiores. A Este Deus tão glorioso Asafe se dirige e pede: “mostra o teu esplendor”. Essas palavras ecoam Nm 6.24-27: “O SENHOR te abençoe e te guarde; o SENHOR faça resplandecer o rosto sobre ti e tenha misericórdia de ti; o SENHOR sobre ti levante o rosto e te dê a paz. Assim, porão o meu nome sobre os filhos de Israel, e eu os abençoarei”. A luz do rosto de Deus, é a Glória do Seu nome, e era a luz da Glória de Deus que guiava Israel no deserto.

                   Asafe pediu a Deus que viesse novamente estar com Seu povo, e no v.2 vemos que Este glorioso Deus que está acima de todos os seres mais santos assentado em Seu trono de Glória, também habita com os homens, com o Seu povo e está “Perante Efraim, Benjamim e Manassés”. Por boca de Isaías Deus diz: Porque assim diz o Alto, o Sublime, que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Is 57.15). Por isso Asafe Lhe clamou: “…desperta o teu poder e vem salvar-nos”. Essas palavras nos lembram Nm 10.35 onde vemos que todas as vezes que o acampamento de Israel fosse seguir viagem, Moisés, olhando para o tabernáculo, dizia: “Levanta-te, SENHOR, e dissipados sejam os teus inimigos”. Asafe continuou seu clamor e disse: “Restaura-nos, ó Deus; faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos”. Neste versículo e nos v.7 e 19, ele repetirá esse pedido de salvação, pois, sabia que o único que poderia salvá-los de tão grande sofrimento era Deus.

Aplicação v.1-3

A contemplação da santidade de Deus deve infligir em nosso coração um terrível senso pecaminosidade. Enquanto não contemplarmos a santidade de Deus e lamentarmos a nossa pecaminosidade, não seremos restaurados. O caminho da restauração do nosso coração passa pela convicção de que o que mais necessitamos nesta vida é a Glória de Deus, e quando Ele desvia de nós a Sua face de luz, tudo vai de mau a pior. “Pedir que Deus faça resplandecer seu rosto é o mesmo que pedir ‘restaura nossa condição anterior de bênção e de relacionamento com o Senhor’”[3].   

                   Para sermos restaurados por Deus precisamos também:

Confessar nosso pecado, v.4-7

4 Ó SENHOR, Deus dos Exércitos, até quando estarás indignado contra a oração do teu povo? 

5 Dás-lhe a comer pão de lágrimas e a beber copioso pranto. 

6 Constituis-nos em contendas para os nossos vizinhos, e os nossos inimigos zombam de nós a valer. 

7 Restaura-nos, ó Deus dos Exércitos; faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos. 

                   Nestes versículos, Asafe reconhece o seu pecado e o do povo ao ver que a disciplina de Deus sobre eles. Dirigindo-se a Deus ele diz: “Ó SENHOR, Deus dos exércitos” (v.4), tratamento este que ele repetirá no v.19. Asafe usa aquela forma de questionamento sempre presente nos Salmos: “até quando…?” e passa a descrever os efeitos da ira de Deus sobre o povo. Até as orações do povo indignavam a Deus. Em Pv 28.9 lemos: “O que desvia os ouvidos de ouvir a lei, até a sua oração será abominável”. Israel fizera-se abominável aos olhos de Deus, Ao povo que no deserto Deus “fendeu rochas e lhes deu a beber abundantemente”, e “pão dos anjos” (Sl 78.15 e 25), agora, por causa da desobediência deste povo, lhe dava “pão de lágrimas (…) copioso pranto” (v.5) ao qual eles bebiam. Beber as próprias lágrimas é uma expressão típica dos Salmos para descrever intenso sofrimento, como podemos ver no Sl 42.3.

                   Deus também havia posto Israel “em contendas” (v.6) com os seus vizinhos os quais zombavam dele “a valer”. Israel sofria com a zombaria dos vizinhos, e, humanamente falando, estava sozinho. Havia só uma solução: voltar-se para Deus e clamar por salvação. Por isso, Asafe repete o que dissera anteriormente no v.3, e agora acrescenta ao Nome de Deus o designativo “dos Exércitos” (v.7), e clama a Deus por salvação.

                   Nas palavras desses versículos, nas quais Asafe reconhece o pecado do povo, ao clamar pela salvação de Deus, ele também está admitindo pecaminosidade do povo. Asafe não culpava a Deus pelo sofrimento do povo, pois sabia que a culpa era do povo somente; Deus estava disciplinando o mesmo.

Aplicação v.4-7

Nenhum coração pode ser restaurado enquanto não admitir sua pecaminosidade diante de Deus. Enquanto você não entender que o pecado é o grande mal do seu coração, e que o seu coração é totalmente depravado e irrecuperável por si mesmo, e que somente Deus pode pôr um fim ao seu sofrimento causado pelo seu pecado ao transformar seu coração, você não será restaurado por Deus.

Clame o perdão de Deus; suplique a Ele por restauração.

                   Por fim, para sermos restaurados por Deus precisamos

Desejá-Lo mais que tudo, v.8-19

8 Trouxeste uma videira do Egito, expulsaste as nações e a plantaste. 

9 Dispuseste-lhe o terreno, ela deitou profundas raízes e encheu a terra. 

10 Com a sombra dela os montes se cobriram, e, com os seus sarmentos, os cedros de Deus. 

11 Estendeu ela a sua ramagem até ao mar e os seus rebentos, até ao rio. 

12 Por que lhe derribaste as cercas, de sorte que a vindimam todos os que passam pelo caminho? 

13 O javali da selva a devasta, e nela se repastam os animais que pululam no campo. 

14 Ó Deus dos Exércitos, volta-te, nós te rogamos, olha do céu, e vê, e visita esta vinha; 

15 protege o que a tua mão direita plantou, o sarmento que para ti fortaleceste. 

16 Está queimada, está decepada. Pereçam os nossos inimigos pela repreensão do teu rosto. 

17 Seja a tua mão sobre o povo da tua destra, sobre o filho do homem que fortaleceste para ti. 

18 E assim não nos apartaremos de ti; vivifica-nos, e invocaremos o teu nome. 

19 Restaura-nos, ó SENHOR, Deus dos Exércitos, faze resplandecer o teu rosto, e seremos salvos.

                   Estes versículos se dividem em dois pontos: (1) um breve relato de como Deus formou o Seu povo Israel (v.8-13), e (2) um forte anseio por Deus e reafirmação da Aliança (v.14-19).

Um breve relato de como Deus formou o Seu povo Israel (v.8-13)

                   Nos v.8-11 Israel é descrito como uma “videira” que foi trazida do Egito. O sarmento (cf. v.15) é um ramo. Israel foi um ramo de videira trazido do Egito e plantando na Terra Prometida, de onde foram expulsas as nações que lá viviam (v.8). Deus preparou a terra e a Sua videira (Israel) “deitou profundas raízes e encheu a terra” (v.9). Como uma videira frondosa, Israel espalhou sua sombra (presença) em toda a terra (v.10), indo do Rio Jordão ao litoral da Palestina (v.11).   

                   Nos v.12-13, a videira frondosa foi castigada por Deus por causa de seus pecados – deu “uvas bravas” (Is 5.2). Deus lhe derrubou “as cercas” (v.12), ou seja, tirou-lhe a proteção, de sorte que os estrangeiros tomavam de seus frutos à revelia – muitas vezes, os filisteus, os sírios, os amonitas, moabitas e edomitas e tantos outros povos invadiram e depredaram a Israel. Esses inimigos foram descritos na figura do “javali da selva” (v.13), o qual era um animal impuro cerimonialmente, e aqui descreve a impureza dos inimigos.

Um forte anseio por Deus e reafirmação da Aliança (v.17-19)

                   Os v.14-19 descrevem o anseio de Asafe, que então clama: “Ó Deus dos Exércitos, volta-te, nós te rogamos, olha do céu, e vê, e visita esta vinha” (v.14). Ele sabia que a única solução para o povo vinha das mesmas mãos que estavam castigando-o, a saber, as mãos de Deus, e por isso pediu a Deus que novamente protegesse “o que a tua mão direita plantou, e o sarmento que para ti fortaleceste” (v.15), e que, agora se achava “queimada (…) decepada” (v.16) por causa dos inimigos que a invadiram, os quais deveriam sofrer o juízo de Deus.

                   Encerrando este Salmo, Asafe apresenta o seu forte anseio e desejo pela restauração de Deus em suas vidas, o que o levou a reafirmar a sua Aliança com Deus. No v.17 Asafe clama a Deus: “Seja a tua mão sobre o povo da tua destra…”. Essa redundância nas palavras é proposital e bela, pois, Israel era o povo que fora constituído pela destra (mão direita) de Deus, e por essa mesma mão era mantido, e quando necessário, disciplinado. Israel era o povo escolhido de Deus, “…o filho do homem” que Deus fortalecera, isto é, constituíra para ser Seu povo. Assim sendo, só Ele poderia sustentar aquela videira que Ele mesmo plantara.

                   Nos v.18-19 encontramos a reafirmação da Aliança com Deus tanto nas palavras “E assim não nos apartaremos de ti; vivifica-nos e invocaremos teu nome”, como no nome pactual de Deus, “SENHOR” (hwhy). Quando Deus restaurasse a Israel, este se encontraria em condições de nunca se apartar Dele; quando Israel fosse vivificado por Deus, então ele invocaria o nome de Deus. Em suma, tal como o Senhor Jesus disse que: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5), Asafe reconhecia que precisava de Deus para ser o que Deus queria que ele e Israel fossem e fizessem.

Aplicação v.8-19

Deus nos tirou da escravidão do pecado e do reino das trevas, e nos transportou para o Reino do Filho do Seu amor (Cl 1.13); Ele nos desarraigou deste mundo (cf. Gl 1.4) e nos plantou em Seu Reino onde devemos florescer “como um jardim regado, como um manancial cujas águas jamais faltam” (Is 58.11).

Não são as dificuldades das circunstâncias que determinam a nossa fidelidade a Deus e o nosso compromisso com a Sua Aliança, mas, sim, a fidelidade de Deus em restaurar-nos e capacitar-nos a fazer a Sua vontade.

Conclusão

                   Ainda falando sobre o refrão deste Salmo nos v.3,7 e 19, ressaltamos que há nestes versículos um progresso no pensamento do salmista em relação ao seu conhecimento sobre Deus. No v.3 ele o chama de “Deus” (~yhiîl{a/) que quer dizer “Senhor, Dono”. No v.7 ele o chama de “Deus dos Exércitos” (tAaåb’c. ~yhiäl{a/) mostrando que Ele é o Senhor e Dono das hostes celestiais, dos anjos mais elevados. E, por fim, O chama de “SENHOR Deus dos Exércitos” (tAaåb’c. ~yhiäl{a/ hw”Üh«y>), ou seja, Ele é o Eterno e Todo-Poderoso Senhor e Dono de tudo e de todos. Há alguém mais adequado do que Ele para nos restaurar?


[1] Calvino, Harman e Wiersbe pensam assim.

[2] HARMAN, 2011, p.297.

[3] WIERSBE, 2010, vol.3, p.225.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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