Canções da Alma – 82ª Mensagem

“Santo Deus, Teu Filho Jesus Cristo nos deu acesso à Sua presença santa, ao justificar-nos com Sua justiça. Um dos muitos benefícios que recebemos é poder adorar ao Senhor em espírito e em verdade. Hoje ouviremos o que a Sua Palavra diz sobre o Teu culto. Instrua-nos nas Tuas santas veredas para que Te adoremos cada vez mais da forma como o Senhor quer ser adorado. Em nome de Jesus oramos, amém!”

Salmo 81

O Culto Divino

Introdução e Contextualização

                   De todas as atividades mais nobres que podemos realizar, sem dúvida alguma, de longe, o culto a Deus é a mais nobre. Nada neste mundo confere maior dignidade ao homem do que estar na presença de Deus, em Sua Casa, junto a outros filhos de Deus adorando-O.

                   Este “Salmo de Asafe”, o qual ele entregou ao “Ao mestre de canto” e compôs “segundo a melodia Os lagares”, provavelmente não foi escrito com base num acontecimento específico, mas, em decorrência das cerimônias de culto descritas no v.3. Davi, pelo Espírito Santo, foi quem introduziu os cânticos no culto ao SENHOR Deus. Ao compor este Salmo, Asafe tinha em vista instruir o povo na forma correta de louvar a Deus. Este Salmo, portanto, vem nos falar sobre o culto divino. Destacamos aqui três verdades sobre o culto divino.

Foi instituído por um decreto de Deus, v.1-5a

1 Cantai de júbilo a Deus, força nossa; celebrai o Deus de Jacó. 

2 Salmodiai e fazei soar o tamboril, a suave harpa com o saltério. 

3 Tocai a trombeta na Festa da Lua Nova, na lua cheia, dia da nossa festa. 

4 É preceito para Israel, é prescrição do Deus de Jacó. 

5a Ele o ordenou, como lei, a José, ao sair contra a terra do Egito.

                   Este Salmo começa conclamando os filhos de Deus a cantarem, a celebrarem, a salmodiarem e a tocarem instrumentos musicais na presença de Deus, ou seja, louvá-Lo de todo o coração e com vários recursos. Todo o povo deveria comparecer ao culto (v.1); os músicos deveriam tocar os instrumentos (v.2); e sacerdotes deveriam tocar as trombetas convocando a todos (v.3) a comparecerem no tabernáculo e louvarem ao SENHOR Deus.

                   Asafe chama Deus de “força nossa” (v.1). Louvar a Deus é reconhecer quem Ele é e que dependemos totalmente Dele. Isso, longe de ser visto por nós como um fardo, deve ser visto como celebração e alegria esfuziante.

                   Enquanto cantassem os hinos (“Salmodiai”) do seu hinário (“o saltério”), deveriam fazer “soar o tamboril” juntamente com o tanger da “suave harpa” (v.2). As trombetas deveriam ser tocadas pelos sacerdotes convocando o povo para a “Festa da Lua Nova” (v.3), que fora estabelecida por Deus. O calendário judaico era lunar, assim sendo, os meses iniciavam-se com o primeiro dia da lua nova. Todo o primeiro dia de cada mês deveria ser dedicado a Deus para o Seu culto. Em Nm 10.10 lemos sobre a instituição da Festa das Lua Nova: “Da mesma sorte, no dia da vossa alegria, e nas vossas solenidades, e nos princípios dos vossos meses, também tocareis as vossas trombetas sobre os vossos holocaustos e sobre os vossos sacrifícios pacíficos, e vos serão por lembrança perante vosso Deus. Eu sou o SENHOR, vosso Deus”. Certamente eram essas palavras que Asafe tinha em mente quando disse: “É preceito para Israel, é prescrição do Deus de Jacó. Ele o ordenou, como lei, a José, ao sair contra a terra do Egito” (v.4-5a). Eles não inventaram nada; tudo foi prescrito e normatizado por Deus mostrando como Ele queria ser adorado. Havia ocasiões de adoração que eram estipuladas, enquanto outras eram espontâneas (p.ex., na vitória sobre os inimigos). Mas, o culto tinha que ser como Deus queria, como Ele havia ordenado.      

Aplicação v.1-5a

O povo de Deus deve ser conhecido pelo seu louvor vibrante e cheio de vida que retrata o seu amor por Deus. A espontaneidade deve ser reservada para a nossa devoção pessoal; mas, quando se tratar do culto público, a unidade toma o lugar da espontaneidade, pois, se num culto público todos quiserem dar vazão à espontaneidade, o culto se transformará numa balbúrdia. O comportamento de todos no culto público deve ser de forma a promover a unidade dos crentes, e, para isso, é necessário que todos façam como Deus determina em Sua Palavra.

Não temos liberdade para cultuar a Deus do nosso próprio jeito e de conformidade com a nossa criatividade. Deus não exige criatividade de nós em Seu culto; Ele requer obediência para com os Seus preceitos referentes ao Seu culto.

Hoje, não celebramos mais as cerimônias do Antigo Testamento, pois, todas elas se cumpriram em Cristo. Hoje, o nosso culto tem que primar pela simplicidade para que em evidência fique somente o Senhor Jesus Cristo. Não nos enganemos. Quanto mais simples for o culto, mais ele glorificará a Deus por evidenciar Cristo. Quanto mais cheio de pompas e coisas impressionantes, menos de Cristo será visto, e quanto menos Dele for visto, menos honraremos e glorificaremos a Deus.

Sendo o culto divino um decreto de Deus que Ele ordenou a nós, o não cumpri-lo constitui-se em grave desobediência.   

                   Outra verdade sobre o culto divino é que

Deus requer exclusividade no culto, v.5b-12

5b Ouço uma linguagem que eu não conhecera. 

6 Livrei os seus ombros do peso, e suas mãos foram livres dos cestos. 

7 Clamaste na angústia, e te livrei; do recôndito do trovão eu te respondi e te experimentei junto às águas de Meribá. 

8 Ouve, povo meu, quero exortar-te. Ó Israel, se me escutasses! 

9 Não haja no meio de ti deus alheio, nem te prostres ante deus estranho. 

10 Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito. Abre bem a boca, e ta encherei. 

11 Mas o meu povo não me quis escutar a voz, e Israel não me atendeu. 

12 Assim, deixei-o andar na teimosia do seu coração; siga os seus próprios conselhos.

                   Nestes versículos, Asafe relembra o povo dos livramentos de que Deus executou sobre o mesmo. Eles eram estranhos vivendo escravizados por um povo com uma linguagem desconhecida (v.5b). Do jugo desse povo Deus livrou Israel, os “cestos” eram as cargas pesadas que eles carregavam em seus “ombros” (v.6).

                   O v.7 usa o eufemismo “do recôndito do trovão”, isto é, das nuvens que trovejavam (a nuvem sempre é uma alusão à Glória de Deus) eles ouviram a Sua potente voz em resposta ao seu clamor cheio de angústia. As palavras “…e te experimentei junto às águas de Meribá”, reportam a Êx 17.1-7, onde os israelitas contenderam com Moisés porque tinham sede. Deus ordenou-o que ferisse a rocha e dela verteu água em abundância. Aquele lugar ficou conhecido como Massá e Meribá. Deus provou o caráter do povo e este revelou-se murmurador, e, mesmo assim, Deus continuou abençoando o povo.

                   No v.8 Deus chama a atenção do povo dizendo: “Ouve, povo meu, quero exortar-te. Ó Israel, se me escutasses!”. Ele ouvira o clamor do povo, mas, o povo tinha ouvidos moucos para a Sua voz. Deus tinha uma repreensão a fazer ao povo: “Não haja no meio de ti deus alheio, nem te prostres ante deus estranho”. Deus exigiu de Israel exclusividade em seu coração. Disse-lhe: “Eu sou o SENHOR, teu Deus, que te tirei da terra do Egito” (v.10), e por isso, não deveriam existir outros deuses em Israel.

                   Os v.11-12 nos revelam o que é o pecado da idolatria: os ídolos que povoam um coração, nada mais são do que a vontade desse coração teimoso se opondo à vontade de Deus. Observe o que Deus diz: “Mas o meu povo não me quis escutar a voz, e Israel não me atendeu. Assim, deixei-o andar na teimosia do seu coração; siga os seus próprios conselhos”. Apesar de tudo o que Deus fizera por Israel, este recusou-se a fazer a vontade de Deus, e seguiu a vontade de seu próprio coração. Como disse Allan Harman[1]: “Este é sempre o mais sério dos juízos divinos contra o seu povo”, pois, quando alguém é, por Deus, entregue a Satanás, há ainda esperança de restauração (cf. 1Tm 1.20) e salvação (cf. 1Co 5.5); mas, quando a pessoa é entregue à cobiça de seu próprio coração, quer dizer que ela está selada para a condenação. Em Rm 1.24,26 e 28 vemos exatamente a mesma sentença. Quando deixamos de ouvir (obedecer) a Deus, ouviremos (obedeceremos) o nosso coração teimoso o qual nos enganará com seus ídolos (Jr 17.9).

Aplicação v.5b-12

Somos “propriedade exclusiva de Deus” (Êx 19.5-6; 1Pe 2.9), e deveríamos levar isso tão a sério quanto Deus leva, pois, Ele revela o Seu amor e cuidado para conosco o tempo todo e, acima de tudo, nos dá a salvação eterna.

Ele também diz: “Eu sou o SENHOR, este é o meu nome; a minha glória, pois, não a darei a outrem, nem a minha honra, às imagens de escultura” (Is 42.8). Deus não reparte a Sua glória com ninguém. O nosso coração deve ser um altar exclusivo de Deus.

Devemos ter ouvidos atentos à Sua voz (Palavra) para cuidarmos de fazer tudo quanto estiver de acordo com a Sua santa vontade.

Nunca nos esqueçamos que os ídolos nada mais são que a materialização dos nossos desejos. Um ídolo não passa de uma invenção do nosso coração quando este se aparta de Deus.

Ainda é importante ressaltar que Deus não nos impedirá de fazer a nossa própria vontade; antes, Ele até mesmo nos entregará a nós mesmos para que soframos as consequências dos nossos pecados.

Não culpe a ninguém, e muito menos a Deus pelo sofrimento que você vier a passar como consequência de seu pecado.

Em vez de obedecer à voz do seu coração, obedeça a voz de Deus, dê ouvidos a Ele, pois, Ele quer abençoar você de forma tremenda.

                   A terceira verdade que destacamos sobre o culto divino é que

Ele é uma oportunidade para recomeçarmos, v.13-16

13 Ah! Se o meu povo me escutasse, se Israel andasse nos meus caminhos! 

14 Eu, de pronto, lhe abateria o inimigo e deitaria mão contra os seus adversários. 

15 Os que aborrecem ao SENHOR se lhe submeteriam, e isto duraria para sempre. 

16 Eu o sustentaria com o trigo mais fino e o saciaria com o mel que escorre da rocha.

                   Se os v.11-12 nos mostram a severidade de Deus diante da rebeldia e teimosia de um coração que quer fazer sua própria vontade em vez da Dele, aqui vemos a relutância de Deus em ter deixado o Seu povo ao “…andar a teimosia do seu coração” e seguir “os seus próprios conselhos”. Deus sabe detalhadamente que fim terão os caminhos dos homens. Alguns séculos depois de Asafe, o Senhor Jesus olhando para Jerusalém também lamentaria as escolhas egoístas e pecaminosas de seus habitantes que desprezaram o Seu amor (cf. Mt 23.37-39).

                   Deus derrama a Sua ira contra os pecadores (cf. Jo 3.36), contudo, Ele mesmo disse: “Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? – diz o SENHOR Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva?” (Ez 18.23). Ele sempre concede aos Seus filhos a oportunidade de recomeçarem e restabelecerem os vínculos da Sua Aliança.

                   “Ah! Se o meu povo me escutasse…” (v.13). Se Israel tivesse guardado a Aliança com Deus, certamente Deus cumpriria Suas promessas favoráveis a Israel. Mas, como Israel deixou os caminhos do SENHOR Deus e quebrou a Sua Aliança, Deus também foi fiel em dar-lhe o prometido caso quebrasse a Aliança. Na Aliança de Deus com o povo havia promessas favoráveis decorrentes da obediência e, ameaças severas no caso de desobediência. Ele estava cumprindo essas últimas.

                   Mas, quando desobedecemos a Deus, não apenas sentimos a dor de Sua disciplina, como também perdemos as bênçãos que Ele tanto deseja nos dar[2]. Ele “de pronto” (v.14) abateria os inimigos de Israel que tanto lhe causava dano, e os colocaria debaixo do seu jugo. Assim como Israel esteve debaixo do jugo do Egito, os seus inimigos estariam debaixo do seu jugo, “e isso duraria para sempre” (v.15).

                   O v.16 encerra o Salmo com uma nota pesada e esclarecedora: “Eu o sustentaria com o trigo mais fino e o saciaria com o mel que escorre da rocha”. O que Deus está dizendo aqui é que “a graça de Deus teria continuado a fluir num curso ininterrupto e uniforme, não tivesse sido interrompida pela perversidade e impiedade do povo”[3]. Não que o nosso pecado seja mais forte que a graça de Deus, mas, sim, que a graça de Deus não tem compromisso nenhum com o pecado. Se pecarmos, sofreremos as consequências, ainda que Deus em Sua graça nos perdoe os pecados.

Aplicação v.13-16

Deus fala conosco durante o culto. Ele nos fala através de Sua Palavra. Se obedecermos ao que Ele nos manda fazer, seremos abençoados. Em cada culto que celebramos a Deus, Ele nos dá a oportunidade de recomeçarmos onde falhamos e de restaurarmos o nosso compromisso com Ele.

Ah! Se ouvirmos o que Deus está nos dizendo agora, haveremos de ser tremendamente abençoados por Ele!

Conclusão

                   Deus Se revelou a nós. Mostrou-nos o quão grande Ele é e deu-nos o privilégio de adorá-Lo. O culto tem que ser do jeito que Ele nos prescreve em Sua Palavra, porque é para Ele. Contudo, Ele reserva-nos bênçãos imensuráveis quando consagramos inteiramente a Ele o nosso coração, e quando arrependidos buscamos o Seu perdão. Ouça e obedeça a Deus enquanto Ele lhe dá essa oportunidade.


[1] HARMAN, 2011, p.303.

[2] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.227

[3] CALVINO, 1999, vol.3, p.293.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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