Canções da Alma – 83ª Mensagem

“Eterno Deus, diante de Tua santa presença reconhecemos a nossa pequenez e pecaminosidade. Não somos dignos por nós mesmos de estar em Tua presença, ler e meditar em Teu santo livro, mas, pelos méritos de Cristo, Teu santo Filho, o qual nos revestiu com Sua justiça, aproximamo-nos de Ti e clamamos por Tua bondade e misericórdia, sem a qual nada somos. Fala ao nosso coração, assim suplicamos encarecidamente em nome de Jesus, amém!”

Salmo 82

O Juiz, os Juízes e o Julgamento

Introdução e Contextualização

                   Das coisas que nos trazem grande satisfação, certamente, a execução da justiça é uma das principais. Em contrapartida, um julgamento eivado de fraudes que resulta em impunidade, ou em uma sentença injusta, mexe com os nossos brios.

                   Este Salmo de Asafe volta a este assunto que é recorrente no Saltério (Sl 58, 75, 94, 98). A ocasião em que ele foi escrito não nos é informada. Alguns veem o “pano de fundo” para este Salmo em 2Cr 19.5-7, ocasião em que o rei Josafá instituiu juízes sobre a terra de Judá[1].

                   Antes de avançarmos, faz-se necessária uma explicação sobre o termo “deuses” (v.1 e 6). O substantivo hebraico ~yhil{a/ significa “senhores”. Quando Deus é assim chamado (p.ex. Gn 1.1) a ideia é destacar a completude do Seu ser, e não que apresentá-Lo como vários seres divinos.  Logo, “deuses” aqui não é no sentido dos ídolos dos pagãos, mas, sim, os juízes, senhores do povo. Allan Harman afirma: “É um termo hebraico aplicado a líderes humanos”[2], referindo-se aos juízes do povo[3], o que concorda com o “pano de fundo” supracitado. O Senhor Jesus ao usar esse significado referindo-Se aos líderes do povo em Jo 10.34-36, endossa essa interpretação também. Certamente, o propósito desse Salmo é apresentar Deus como o Supremo Juiz que julga sobre todos os demais juízes, mostrando-lhes que a autoridade que eles receberam para julgar as causas do povo, deve ser empregada a favor da Justiça para glória de Deus.

                   Warren Wiersbe apresenta as divisões desse Salmo de forma muito clara e objetiva, e por isso mesmo utilizarei como tema e divisões desse sermão[4]: O Juiz, os juízes e o Julgamento.          

O Supremo Juiz, v.1

1 Deus assiste na congregação divina; no meio dos deuses, estabelece o seu julgamento.

                   O cenário ao qual nos remete este versículo é o de um ajuntamento de juízes que foram convocados pelo Supremo Juiz a se fazerem presentes ali. Então, Asafe, portando-se como um arauto entrando no recinto onde o Supremo Juiz preside para julgar àqueles juízes, declara que Deus está presente dizendo: “Deus assiste na congregação divina”, e “no meio dos deuses”, isto é, na presença dos juízes humanos que foram por Ele mesmo instituídos como autoridades sobre o povo (cf. Rm 13.1), Ele vem e “estabelece o seu julgamento”, ou seja, “…embora os homens ocupem tronos e tribunais, Deus, não obstante, continua a manter o ofício de Governante Supremo”[5], a quem todos, dos pequenos aos maiores deverão prestar contas.

                   Este versículo é não só a proclamação de que Deus está presente presidindo o Tribunal Celeste, como também é uma lembrança aos homens que foram imbuídos de autoridade para executarem a justiça a favor da paz, a que nunca se esqueçam do seu dever diante do povo e acima de tudo, diante de Deus, pois, a Ele, todos teremos que prestar contas, quer sejam aqueles que estão imbuídos de autoridade, ou quer sejam aqueles que estão sujeitos à autoridade de outrem. Ele veio proferir as Suas sentenças na presença desses juízes, contra eles por não terem executado a justiça tal como Ele assim determinou, e por terem se ensoberbecido com o poder de seus ofícios.  

Aplicação v.1

Nenhuma autoridade neste mundo existe à parte de Deus. Ele é quem institui as autoridades para o bem-estar das pessoas e manutenção da ordem e justiça (cf. Rm 13.1-7). A Ele, todas as autoridades se curvarão e Lhe prestarão contas, por mais que tenham vivido neste mundo sem se importar com Deus, banindo-O de suas vidas e ofícios.

Deus está assentado no Seu Tribunal Supremo, e ao mesmo tempo que é Juiz, é também, o júri, pois, não precisa que ninguém Lhe dê informações sobre o processo, e muito menos necessita de sabedoria para dar a sentença.  Não há defesa e nem recurso em Suas sentenças.

Aqueles que foram por Deus imbuídos de autoridade, quer sejam magistrados, oficiais da Igreja, pais, professores, etc., devem entender que têm imensa responsabilidade de representar Deus diante dos homens; falhar nessa incumbência trará desonra ao Nome de Deus, e Ele virá ajustar contas.

Os juízes perversos, v.2-5

2 Até quando julgareis injustamente e tomareis partido pela causa dos ímpios? 

3 Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado. 

4 Socorrei o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios. 

5 Eles nada sabem, nem entendem; vagueiam em trevas; vacilam todos os fundamentos da terra. 

                   O Supremo Juiz passa agora a sentenciar os juízes por Ele instituídos. A estes Ele imbuiu de autoridade para que promovessem a justiça e o bem das pessoas tal como Ele próprio declarara por boca do profeta: “Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus” (Mq 6.8). Mas, esses juízes não praticaram a justiça (v.2), e por isso Deus ergue a Sua potente voz e diz: “Até quando julgareis injustamente…?”. Geralmente, era da boca dos salmistas que ouvíamos um “até quando”. Mas, agora, ouvimos da boca de Deus que encontrava-Se assaz irado com esses juízes inescrupulosos e que aceitavam suborno, pois, tomavam “partido pela causa dos ímpios”.

                   Eles deixaram de cuidar daqueles a quem Deus ordenou que tivessem um cuidado e olhar especial: “o fraco e ao órfão (…) o aflito e o desamparado” (v.3) e o “fraco e necessitado” (v.4). Deus sempre olhou para estes (cf. Êx 22.21-24; Dt 10.17-18; Is 1.17; 10.1-2; Jr 5.28; 22.3,16). Estes juízes tinham que fazer justiça ao fraco e ao órfão, e dar ao aflito e ao desemparado um julgamento justo, pois, só assim, eles socorreriam tais pessoas “das mãos dos ímpios” que as espoliavam ainda mais. Em vez disso, venderam-se a estes ímpios. Aceitaram suborno contra aqueles a quem deveriam defender.

                   “Eles nada sabem, nem entendem; vagueiam em trevas” (v.5). A quem se referem essas palavras? Aos juízes perversos ou aos que necessitavam de justiça, descritos nos v.3-4? Se a referência aqui for aos juízes, que terrível acusação lhes estava sendo feita, pois, em vez de eles serem exímios conhecedores da Lei para guiarem o povo na luz (cf. Is 8.20; 59.1-15; Rm 1.21-22), viviam sem entendimento e na escuridão de sua ignorância, arrastando consigo o povo que dependia deles. Se a referência for ao povo que clamava por justiça, tais palavras revelam a displicência e desmazelo dos sacerdotes e levitas em ensinar-lhes a Lei o suficiente para se defenderem. Assim, as palavras do profeta Oséias retratam vividamente essa situação: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento (Os 4.6).  Quer tenham sido os juízes ou o povo, toda a nação estava envolta em trevas, não sabia qual direção deveria tomar, e por isso mesmo “todos os fundamentos da terra” estavam vacilando, ou seja, os alicerces e princípios da sociedade estavam sendo abalados, enfraquecidos e destruídos.

Aplicação v.2-5

Não somente conhecer a Lei o suficiente para julgar as causas de quem quer que seja de forma justa, mas, também, conhece-la o suficiente para ensinar aos que estão sob nossa responsabilidade a fim de que também apliquem a Lei no seu dia a dia. Era isso que Deus requeria daqueles juízes; é isso que Ele também requer de nós. Enquanto aplicamos o conhecimento que temos da Lei, devemos ensiná-los a outros que não os conhecem ainda.

Aqueles que estão imbuídos de autoridade devem tomar todo o cuidado para não serem trevas enquanto deveriam ser luz. Quando tal calamidade acontece, a sociedade como um todo sofre as terríveis consequências; valores que a sustentaram por muito tempo, transformam-se em pó.

Todo juízo e justiça praticados devem refletir a Justiça Divina. Logo, quando alguém posto em um cargo de autoridade, não age tendo isso em vista, fatalmente trará o juízo de Deus sobre si, como veremos a seguir.

O Grande Julgamento, v.6-8

6 Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.

7 Todavia, como homens, morrereis e, como qualquer dos príncipes, haveis de sucumbir.

8 Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois a ti compete a herança de todas as nações.

                   Toda autoridade é constituída por Deus para serviço. Porém, corações corruptos e corrompidos não levam isso em consideração. Antes, se ensoberbecem, inflam em sua arrogância e se veem como melhores que aqueles a quem deveriam servir. E não só isso, eles também se veem acima da Lei, como “supremos”, imunes aos rigores da Lei. A estes tais Deus, Aquele que é o único Supremo Juiz diz: “sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo” (v.6). O que Deus está dizendo aqui é que eles foram postos em uma posição acima dos demais do povo para zelarem pela justiça. Além disso toda a autoridade que eles têm é derivada da autoridade de Deus a quem haverão de prestar contas, pois, foram incumbidos por Ele de representa-Lo diante das pessoas administrando Suas leis de forma justa.

                   Porém, não fizeram assim, e por isso, Deus, no v.7, Deus desferiu mais um golpe no orgulho desses homens, mostrando-lhes que ao contrário (“Todavia”) do que presumiam ser, não passavam de meros mortais e, por isso lhes disse: “como homens, morrereis e, como qualquer dos príncipes, haveis de sucumbir”. O pecado ilude o homem; faz com que ele pense que ninguém o derrubará de sua alta posição, e que é inatingível. Mas, basta o tempo, ou uma enfermidade, ou um acidente para que a morte bata à sua porta e o sucumba e ponha fim a toda sua arrogância.   

                   Como foi apontado no início desse sermão, o v.7 foi citado pelo Senhor Jesus em Jo 10.34-36 quando Ele repreendeu os fariseus que O caluniavam. Os fariseus questionaram Jesus e O acusaram de blasfêmia quando Ele disse que era o Filho de Deus. Então Ele respondeu-lhes com este versículo para mostrar aos fariseus que, se Deus chamou de “deuses” (senhores) juízes humanos imperfeitos escolhidos por outros homens, Ele era mais do que digno do que qualquer outro de ser chamado de “Filho de Deus”[6] e de “Senhor”. Se a autoridade de Deus foi aplicada aos Seus oficiais os quais são meros mortais, logo, com muito mais propriedade o Unigênito de Deus, Àquele que é a imagem do Pai, em quem o resplendor da glória de Deus está e em quem habita a plenitude da Deidade[7] (cf. Cl 1.19; 2.9) deve ser chamado de “Senhor”.

                   O v.8 é uma oração, um pedido que Asafe faz a Deus quando Este encerrou Seu discurso contra os juízes perversos. O Salmo encerra apontando para o fato de queDeus é o Juiz Supremo que Se levanta para julgar “a terra”, ou seja, a todos, quer sejam autoridades ou não. “Há um reconhecimento de que Deus é o supremo magistrado, e quando os magistrados humanos falham, a oração é que Deus libere depressa sua justiça a todos”[8]. Ainda que em nossos dias vejamos magistrados corruptos transtornando a Justiça e favorecendo os ímpios, haverá um dia, o Dia do Senhor, quando Ele virá e julgará a cada um e retribuirá a todos conforme as obras de cada um (At 17.31; 2Co 5.10).

Aplicação v.6-8

“O privilégio traz consigo a responsabilidade e a responsabilidade implica em prestação de contas”[9]. Não importa que nível de autoridade uma pessoa tenha, ela deve sempre lembrar-se que a autoridade que lhe foi conferida foi para que representasse a Deus diante dos homens e para honrá-Lo também promovendo o bem que lhe compete fazer.

A oração de Asafe no final deste Salmo nos lembra a oração que devemos fazer como Igreja de Cristo: “Venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6.10), pois, aqueles que têm fome e sede de justiça “serão fartos” (Mt 5.6).

Conclusão

                   Matthew Henry diz: Existem duas palavras com as quais podemos nos consolar a nós mesmos, e uns aos outros, a respeito do mau uso do poder entre os homens: uma é Apocalipse 19.6: “Aleluia! Pois já o Senhor, Deus Todo- poderoso, reina; a outra é Apocalipse 22.20: Certamente, cedo venho. Amém!”[10]. Que as injustiças deste mundo não ofusquem os brilho da Glória Eterna na qual a justiça pelos filhos de Deus será executada por Ele próprio. Que nada além da justiça de Deus seja o alimento da nossa paciência diante da maldade daqueles que deveriam executar a justiça, mas, são iníquos. Que nunca tomemos para nós o direito de vingança que somente a Deus pertence (cf. Rm 12.19), mas, vivamos confiantes na justiça Dele, aguardando o Seu agir. Amém!     


[1] CALVINO, 1999, vol.3, p.294, nota 1.

[2] HARMAN, 2011, p.303.

[3] Concordam com essa interpretação, CALVINO, 1999, vol.3, p.295; WIERSBE, 2010, vo.5, p.228; HENRY, 2010, vol.3, p.503.

[4] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.228.

[5] CALVINO, 1999, vol.3, p.295.

[6] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.229.

[7] Cf. CALVINO, 1999, vol.3, p.302.

[8] HARMAN, 2011, p.305.

[9] WIERSBE, 2010, vol.3, p229.

[10] HENRY, 2010, vol.3, p.505.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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