Canções da Alma – 84ª Mensagem

“Grandioso, Santo e Justo Deus. Aproximamo-nos de Ti em oração por intermédio de Teu Santo Filho Jesus Cristo, o qual nos tornou aceitáveis a Ti. Tua Palavra será lida e exposta aos ouvidos da Tua Igreja, mas, somente o Teu Santo Espírito pode fazer com que a mesma encontre guarida nos corações, transformando-os de acordo com a Tua vontade. Por isso Te suplicamos que faça essa obra em todos nós aqui presente. Dá-me clareza, simplicidade, objetividade e profundidade na comunicação da mensagem, e aos meus irmãos a atenção, a fome e a sede pela Tua Palavra. Assim oramos, em nome de Jesus, amém!”.

Salmo 83

A Igreja Odiada Pelo Mundo e Amada Por Deus

Introdução e Contextualização

                   Um dos maiores perigos que rondam a Igreja de Cristo é os crentes se acomodarem e se sentirem confortáveis com este mundo. O Senhor Jesus disse: “Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro do que a vós outros, me odiou a mim” (Jo 15.18). A exortação de Tiago segue na mesma direção: “Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tg 4.4). Se a Igreja de Cristo estiver vivendo de acordo com a Palavra de Deus, certamente será odiada pela mundo, porque estará em contraste evidente com o mundo, revelando assim as mazelas do mesmo. O mundo não suporta ver o amor de Deus pela Igreja.

                   Este “Salmo de Asafe”, que é o último da autoria, é um “Cântico” que ele entoou a Deus em forma de uma oração na qual ele clamou pela Sua intervenção a favor do Seu povo. Asafe menciona dez nações que se levantaram contra Israel: Edom, os ismaelitas, Moabe, os hagarenos, Gebal, Amom, Amaleque, Filístia, Tiro e Assíria; algumas dessas nações eram parentes dos israelitas, tais como Edom e os ismaelitas que eram os descendentes de Ismael, irmão de Jacó (Israel) e filho de Abraão; Moabe e Amom que eram filhos de Ló, sobrinho de Abraão; resta saber se os hagarenos eram os descendentes de Agar, serva de Sara (o nome dela se escreve rg”h’, que transliterado seria Hagar).

                   Há alguma semelhança e proximidade deste Salmo com o ocorrido em 2Cr 20, que narra o ataque que Josafá, rei de Judá sofrera das mesmas nações listadas aqui por Asafe; este parece ter sido o contexto deste Salmo.

                   Assim como Israel que era a Igreja de Deus no Antigo Testamento foi perseguido pelos inimigos, da mesma forma, a Igreja que é o Israel de Deus hoje, também sofre severas perseguições. Por isso proponho para a exposição deste Salmo o seguinte tema: A Igreja odiada pelo mundo e amada por Deus.

                   Encontramos aqui duas ações que a Igreja de Cristo precisa adotar enquanto sofre com o ódio do mundo e desfruta do amor de Deus:

Ela precisa discernir os fatos, v.1-8

1 Ó Deus, não te cales; não te emudeças, nem fiques inativo, ó Deus! 

2 Os teus inimigos se alvoroçam, e os que te odeiam levantam a cabeça. 

3 Tramam astutamente contra o teu povo e conspiram contra os teus protegidos. 

4 Dizem: Vinde, risquemo-los de entre as nações; e não haja mais memória do nome de Israel. 

5 Pois tramam concordemente e firmam aliança contra ti 

6 as tendas de Edom e os ismaelitas, Moabe e os hagarenos, 

7 Gebal, Amom e Amaleque, a Filístia como os habitantes de Tiro; 

8 também a Assíria se alia com eles, e se constituem braço forte aos filhos de Ló. 

                   Asafe abre este Salmo clamando a Deus por socorro. É uma oração intensa na qual ele pede a Deus: “…não te cales; não te emudeças, nem fique inativo, ó Deus!” (v.1). A situação era urgente e por isso, Asafe estava aflito. Ele começa o Salmo invocando a Deus com dois de Seus Nomes: ~yhiîl{a/ (Senhor) lae( (Deus, Altíssimo). Haverá um socorro maior e mais poderoso para a Igreja de Cristo?

                   Os v.2-8 nos mostram uma verdade preciosa: aquela luta não era só do povo de Deus, mas, do próprio Deus, pois, o ódio que as nações tinham de Israel, era, antes de tudo um ódio contra Deus.

                   O v.2 diz: “Os teus inimigos se alvoroçam, e os que te odeiam levantam a cabeça”. Asafe entende que a ação dos inimigos antes de ser um ataque ao povo de Deus, era um ataque ao próprio Deus (“teus inimigos (…) te odeiam”). Esse ataque consistia em rebelião (“se alvoroçam”) e soberba (“levantam a cabeça”). O v.3 diz que esses inimigos “Tramam astutamente contra o teu povo e conspiram contra os teus protegidos”. Não obstante a maldade calculada, planejada e engendrada nos corações dos inimigos do povo Deus, Ele protege o Seu povo e jamais o abandona.

                   Os v.4-8 descrevem o plano e estratégia dos inimigos:

(1) O plano era destruir qualquer lembrança que houvesse do povo de Israel: “Vinde, risquemo-los (…) não haja mais memória do nome de Israel” (v.4); como se arranca uma planta do chão, eles queriam arrancar Israel da sua terra e devastar e não deixar qualquer lembrança e memória;

(2) A estratégia era estabelecerem alianças entre si contra Deus e o Seu povo: “tramam concordemente e firmam contra ti” (v.5); Seus corações eram malignos, e, juntos pensavam o mesmo mal a respeito do povo de Deus.  Amom e Moabe eram os que encabeçavam essas alianças contra Deus e contra Israel. A sua origem está registrada em Gn 19.30-38, fruto do incesto entre Ló e suas duas filhas, por isso Asafe os chama de “filhos de Ló” (v.8). Assim sendo, o pecado de Amom e Moabe era ainda mais grave pelo fato de perseguirem a seus próprios parentes. Essas nações cercaram a Israel por todos os lados: no Sul estavam os edomitas e os ismaelitas; no Leste os moabitas e amonitas; no Nordeste estavam os hagarenos; no Noroeste estava Gebal; no Oeste, Tiro (Fenícia) e Filístia; no Sudeste os amalequitas. Israel só tinha saída olhando para o alto, para Deus!

Aplicação v.1-8

Grande consolo e esperança para nós sabermos que aqueles que se levantam contra a Igreja de Cristo, se levantam contra o próprio Cristo (cf. At 9.5). Faz parte das promessas da Aliança de Deus conosco Ele ser inimigo dos nossos inimigos, tal como vemos em Êx 23.22: “Mas, se diligentemente lhe ouvires a voz e fizeres tudo o que eu disser, então, serei inimigo dos teus inimigos e adversário dos teus adversários”.

Tudo no plano físico e visível é reflexo do plano espiritual e invisível. A Igreja de Cristo precisa sempre se lembrar que “…a nossa luta não é contra o sangue e a carne, e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes” (Ef 6.12). Aqueles que se levantam contra a Igreja de Cristo não sabem a quem de fato estão afrontando. Porém, eles são astutos e sabem como tramar contra nós. Não podemos jamais perder de vista quem são de fato os nossos inimigos e contra quem estamos lutando.

Precisamos discernir os fatos. Precisamos entender os propósitos de Deus nas circunstâncias da nossa vida, especialmente quando essas circunstâncias forem de luta e ataques dos inimigos.

O inimigo pode nos cercar por todos os lados, mas, Deus estará sempre conosco, pois somos os Seus protegidos!

Não podemos perder de vista jamais o fato de que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8.28), e somente para o bem destes.

                   Outra verdade sobre a Igreja odiada pela mundo e amada por Deus é que

Ela precisa lutar com as armas de Deus, v.9-18

 9 Faze-lhes como fizeste a Midiã, como a Sísera, como a Jabim na ribeira de Quisom; 

10 os quais pereceram em En-Dor; tornaram-se adubo para a terra. 

11 Sejam os seus nobres como Orebe e como Zeebe, e os seus príncipes, como Zeba e como Zalmuna, 

12 que disseram: Apoderemo-nos das habitações de Deus. 

13 Deus meu, faze-os como folhas impelidas por um remoinho, como a palha ao léu do vento. 

14 Como o fogo devora um bosque e a chama abrasa os montes, 

15 assim, persegue-os com a tua tempestade e amedronta-os com o teu vendaval. 

16 Enche-lhes o rosto de ignomínia, para que busquem o teu nome, SENHOR. 

17 Sejam envergonhados e confundidos perpetuamente; perturbem-se e pereçam. 

18 E reconhecerão que só tu, cujo nome é SENHOR, és o Altíssimo sobre toda a terra. 

                   Sendo os nossos inimigos espirituais, nossas armas para enfrenta-los têm que ser espirituais também. Em 1Co 10.3-6 lemos: “Porque, embora andando na carne, não militamos segundo a carne. Porque as armas da nossa milícia não são carnais, e sim poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo, e estando prontos para punir toda desobediência, uma vez completa a vossa submissão”. O apóstolo Paulo enfrentava oposição daqueles que queriam desacreditá-lo como apóstolo. E mesmo sabendo que enfrentava oposição vinda de pessoas, não perdia de vista o plano espiritual. Ele sabia que por trás daqueles corações malignos estava Satanás tentando derrubá-lo. Porém, mesmo sabendo que travava uma luta contra Satanás, Paulo não perdia de vista duas verdades:

(1) Satanás usava os próprios desejos carnais das pessoas que queriam desacreditar Paulo;

(2) e era o pecado daquelas pessoas que tinha de ser combatido. Mais à frente em 2Co 12.1-10, Paulo fala que Deus usava a Satanás para humilhá-lo não permitindo que ele se ensoberbecesse, pois, ao defender-se diante de seus opositores, Paulo tinha a seu favor muitas revelações que Cristo lhe dera e que, se ele não tomasse cuidado, o seu coração usaria soberbamente para sobrepor-se aos seus opositores. Tudo isso era uma intensa guerra espiritual que só poderia ser vencida com as armas espirituais que Deus lhe dera e que só funcionariam se fossem usadas com um coração submisso a Deus.

                   Nos v.9-18 Asafe lança mão de uma arma espiritual muito poderosa em Deus: a oração. Em sua oração ele:

(1) Recordou os poderosos feitos de Deus (v.9-12): os fatos aqui recordados por Asafe estão no livro dos Juízes. “Faze-lhes como fizeste a Midiã” refere-se à vitória de Gideão com seus trezentos soldados contra o povo de Midiã (Jz 7.1-23); “…como a Sísera, como Jabim na ribeira de Quisom”, refere-se à vitória que Deus deu aos israelitas através de Jael, mulher de Héber, o queneu, a qual astuciosamente matou Sísera quando este repousava na tenda de seu marido (Jz 4.17-24); Jabim que era aliado de Sísera começou a sofrer sucessivas derrotas, “Deus, naquele dia, humilhou a Jabim, rei de Canaã diante dos filhos de Israel. E cada vez mais a mão dos filhos de Israel prevalecia contra Jabim, rei de Canaã, até que o exterminaram” (v.23-24); Asafe diz que eles  “tornaram-se adubo para a terra” (v.10). O ocorrido com os comandantes midianitas “Orebe e Zeebe” e com os seus reis “Zeba e Zalmuna” é a mesma vitória de Gideão sobre Midiã (Jz 7.24-25; 8.12). Mais do que relembrar vitórias memoráveis sobre os inimigos, o que Asafe está aqui trazendo ao seu coração a certeza de que Deus não os deixaria nas mãos dos inimigos, assim como não deixara no passado. Recordar os poderosos feitos de Deus é um alimento para a nossa fé e confiança em Deus, pois, recordamos a Sua fidelidade em cuidar de nós.   

(2) Pediu a Deus por livramento das mãos dos inimigos (v.13-15): assim como Deus fizera pelas mãos de Jael e Gideão (pelas mãos de uma mulher Sísera foi morto; por pavor ao ouvirem o som das buzinas israelitas, os midianitas fugiram), Asafe pediu a Deus que novamente espalhasse os inimigos “como folhas impelidas por um remoinho, como palha ao léu do vento” (v.13), que Ele os perseguisse “Como o fogo devora um bosque e a chama abrasa os montes” (v.14), e assim infligisse tanto medo e pavor ao coração desses inimigos a ponto de fugirem. Asafe não queria vingança, mas, sim, livramento por meio do poder de Deus.

(3) Desejou que Deus fosse glorificado diante dos inimigos (v.16-18): naqueles tempos, as guerras eram vistas como “teogonias”, ou seja, uma luta entre os deuses. Dez nações com seus deuses atacavam a Israel e seu Deus. O que Asafe estava pedindo a Deus aqui era que Ele Se revelasse tão poderosa e gloriosamente sobre os inimigos, a ponto de eles ficarem cheios de “ignomínia (…) confundidos” para que “perturbem-se e pereçam”. O reconhecimento de que só Deus é o “Altíssimo sobre toda a terra” porque o nome Dele é “SENHOR” (hwhy), “não é o conhecimento de Deus, mas aquele reconhecimento Dele que seu irresistível poder arranca dos ímpios”[1].Aqueles que antes desprezavam a Deus e desdenhavam de Seu poder, reconheceriam, então, quem Ele é de fato. O que estes versículos finais nos mostram é que Deus será reconhecido como tal por todos, quer de bom grado ou forçadamente. Aqueles que de bom grado e humildes reconhecerem a grandeza de Deus nesta vida, certamente serão favorecidos com Sua graça e amor; aqueles que passarem suas vidas ignorando a Deus, no Dia do Juízo Final  O reconhecerem forçadamente por meio do Seu poder contra eles; estes haverão de sofrer indescritível vergonha. Em ambos os casos, Deus será glorificado.

Aplicação v.9-18

A vida com Cristo é uma vida de lutas. A Igreja sempre enfrentará forças espirituais do mal nas esfera espiritual e invisível que refletirá na esfera física e visível. Não podemos perder de vista:

(1) que para vencermos essa guerra precisamos usar as armas que Deus nos concede, as quais são espirituais, e também “poderosas em Deus”, isto é, elas só “funcionarão” se estivermos andando na presença de Deus, submissos a Ele em tudo;

(2) também precisamos ter sempre em vista a glória de Deus. Tudo é para a glória Dele. Glorificamos a Deus (a) quando nos concentramos em fazer a Sua vontade, (b) quando confiamos e buscamos Nele o socorro, (c) quando usamos as armas espirituais que Ele nos oferece (Ef 6.12-20).

Conclusão

                   Não devemos esperar aplausos, admiração e respeito do mundo. Ele sempre odiou o povo de Deus, e será assim até o fim. O Senhor Jesus mesmo nos disse que um dos sinais do fim dos tempos é o ódio nutrido contra a Igreja (cf. Mt 24.9).

                   Por mais que soframos neste mundo devemos sempre nos lembrar do que nos diz Ap 19.1-2:“Depois destas coisas, ouvi no céu uma como grande voz de numerosa multidão, dizendo: Aleluia! A salvação, e a glória, e o poder são do nosso Deus, porquanto verdadeiros e justos são os seus juízos, pois julgou a grande meretriz que corrompia a terra com a sua prostituição e das mãos dela vingou o sangue dos seus servos”. Amém!


[1] CALVINO, 1999, vol.3, p.315.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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