Canções da Alma – 86ª Mensagem

“Ó, Pai que estás nos céus, cujo nome deve ser reverenciado e temido. A Ti elevo minha voz em oração e clamo, pelos méritos de Jesus, que o Senhor nos dê a porção da Tua Palavra que precisamos receber agora e também compartilha-la com outros. Vem falar ao nosso coração. Só Tu podes aplicar essas preciosas verdades em nós. Assim oramos em nome de Jesus Cristo, amém!”.

Começar de Novo

Introdução e Contextualização

                   O pregador escocês, George H. Morrison afirmou:“A vida cristã vitoriosa é uma série de recomeços”[1], com o que concordo porque é justamente isso que nos diz o Senhor Jesus em Ap 2.5: “Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras…”. Tão logo detectarmos o pecado em nosso coração devemos recorrer ao perdão de Deus, e, assim, voltarmos às obras que fazíamos quando estávamos em comunhão do Deus antes de termos cometido determinado pecado. O recomeço faz parte da caminhada cristã. Este Salmo fala sobre Começar de Novo

                   O contexto deste Salmo não é claro. A única informação clara que temos é sobre sua autoria: “Ao mestre de canto. Salmo dos filhos de Corá”, portanto, era um Salmo para ser entoado no culto público. Contudo, temos uma indicação do seu contexto na repetição de ideias-chave que falam de restauração por meio da misericórdia de Deus, apontando assim para um período posterior ao cativeiro babilônico, quando os judeus regressaram para Jerusalém, pois, a expressão “restauraste a prosperidade de Jacó” pode ser traduzida por “fizeste regressar os cativos de Jacó”[2]. Era o momento de recomeçar não só a reconstrução de Jerusalém, mas, também a comunhão com Deus.

                   Talvez você esteja num momento de sua vida no qual você precise recomeçar em sua caminhada com Deus, e para começar de novo você precisa:

Reconhecer a misericórdia de Deus em sua vida, v.1-3

1 Favoreceste, SENHOR, a tua terra; restauraste a prosperidade de Jacó. 

2 Perdoaste a iniquidade de teu povo, encobriste os seus pecados todos. 

3 A tua indignação, reprimiste-a toda, do furor da tua ira te desviaste. 

                   Nestes três primeiros versículos, o salmista não está tendo um ataque de saudosismo e lamentando que no passado sua vida foi melhor. Não! Pelo contrário, ele tem aqui uma atitude de reconhecimento do caráter misericordioso de Deus. Não havia em Israel nenhum merecimento para ser socorrido e restaurado por Deus. Ao dizer “Favoreceste”[3] no v.1, o salmista aponta para o fato de que Deus agraciou, mostrou Seu imenso amor por aqueles que não mereciam outra coisa senão serem banidos de Sua santa presença.           

                   No v.2, o salmista mostra como foi que Deus tornou Israel aceitável à Sua presença: “Perdoaste a iniquidade de teu povo”. O verbo “perdoaste” neste versículo, no hebraico é literalmente é “levantar”, ou seja, Deus levantou, removeu de sobre o Seu povo a “iniquidade”, a culpa que pesava sobre o mesmo. Ao dizer “encobriste os seus pecados todos”, o verbo “encobriste” não significa que Deus fez vistas grossas, mas, sim, que sepultou os pecados do Seu povo[4].

                   O v.3 aponta para a gravidade do pecado: o furor da ira de Deus. Ele tinha todos os motivos para fulminar o povo, mas, a Sua fidelidade à Sua Aliança feita com Jacó, O fez reprimir Sua ira mesmo estando indignado com Seu povo que quebrara Sua Aliança. O verbo “reprimiste” quer dizer “reunir”, e assim, em vez de dar vazão à Sua ira carregada de justiça, Deus segurou o Seu furor, porque se assim não fizesse, Seu povo teria sido fulminado por Sua ira.

Aplicação v.1-3

Quando você começar de novo após uma queda tenha em mente que Deus teve e tem misericórdia de você, porque Ele é misericordioso e não porque há algum merecimento em você. Se lhe parece desesperador você não ter nenhum merecimento para que Deus o perdoe, pior desespero terá aquele que depois de esgotar todas as suas forças tentando merecer a misericórdia de Deus descobrir que a única coisa que ele realmente merece é a condenação, e é isso que ele receberá.

Ao recomeçar, focalize o caráter misericordioso e gracioso de Deus. Ele não só removeu a sua culpa como também sepultou todos os seus pecados. A cena aqui é muito forte. Pense num cadáver sepultado lá no cemitério. Assim são os seus pecados diante de Deus; eles estão sepultados, e Deus não os desenterrará para exumá-los, e muito menos os trará de volta para com eles acusar você. Uma vez perdoado por Deus, seus pecados são para sempre sepultados. Deveríamos nós fazer exatamente o mesmo quando alguém pecar contra nós.

Lembre-se: Deus tem todo o direito de explodir em ira contra você, mas, em vez disso ele reprime Sua ira não dando a você o castigo que realmente lhe é merecido. Essa ideia de Deus irado conosco e reprimindo Sua ira deveria imprimir em nosso coração profundo temor e ao mesmo tempo, profunda gratidão por termos recebido misericórdia em vez de condenação.

                   Começando de novo você também precisa:

Clamar por renovação espiritual, v.4-7

4 Restabelece-nos, ó Deus da nossa salvação, e retira de sobre nós a tua ira. 

5 Estarás para sempre irado contra nós? Prolongarás a tua ira por todas as gerações?

6 Porventura, não tornarás a vivificar-nos, para que em ti se regozije o teu povo? 

7 Mostra-nos, SENHOR, a tua misericórdia e concede-nos a tua salvação.  

                   A oração que encontramos nestes versículos é feita não por um indivíduo tal como a que encontramos nos v.1-3, mas, pela congregação (observe como os verbos são conjugados na primeira pessoa do plural e o uso de “nós” e “nos”) ali reunida para louvar ao Deus misericordioso que derramou Sua graça, retirou a culpa e sepultou os pecados do povo. Nos primeiros versículos, o pano de fundo era o passado; agora, nos v.4-7, é o presente. Os judeus estavam sendo reconduzidos à sua terra. Deus usara até mesmo Ciro, o ímpio rei da Pérsia para efetuar o repatriamento dos judeus (cf. Ed 1.1). Eles necessitavam de forças vindas de Deus para não somente reconstruírem Jerusalém e o templo do SENHOR; eles necessitavam ser renovados em seus corações. Não se tratava de fazerem coisas para Deus, mas, de serem em seus corações verdadeiros “canteiros de obra” nas mãos de Deus.

                   No v.4, o pedido “Restabelece-nos…” dirigido a Deus, é o mesmo verbo “restaurar” no v.1. A restauração que Deus promoveria naqueles corações iniciaria quando Ele retirasse de sobre eles a ira. Este versículo também mostra a nossa fragilidade e fraqueza como observou Calvino, “pois tão frágeis e desvanecidos somos em suportar a adversidade, que tão logo Deus começa a golpear-nos com seu dedo mínimo, já lhe rogamos, com gemidos e gritos de lamentos, que nos poupe”[5].

                   Os v.5-6 são encontrados em outros Salmos (79.5; 80.4 e 89.46). Eles ecoam o Sl 30.5 no qual vemos que por mais que sejamos afligidos pela ira de Deus por causa dos nossos pecados contra Ele, a Sua ira contra nós é momentânea se comparada à Sua graça que dura por toda a vida e vai por toda a eternidade. Por isso mesmo, não devemos entender as palavras destes dois versículos como um questionamento de um coração revoltado, mas, sim, de um coração que anseia pela misericórdia vivificante de Deus mais do que qualquer outro bem nesta vida. As palavras finais deste Salmo apontam para essa mesma direção.

                   A salvação pedida no v.7, não é a libertação do cativeiro, pois, deste eles já se encontravam livres. O que eles estão pedindo a Deus aqui é uma nova manifestação do Seu amor pactual. No v.4 apelaram ao seu Salvador; aqui no v.7 buscam a salvação, isto é o livramento que só Deus pode dar da angústia causada pela Sua ira que havia sido derramada sobre eles.

Aplicação v.4-7

Nós não podemos suportar o peso da ira de Deus, por isso mesmo, Cristo a suportou por nós. Ele retirou de sobre nós o peso da ira de Deus e a tomou sobre Si (Is 53.4-5).

A restauração e renovação que o homem precisa, é, na verdade vivificação. Ela não é conseguida com mudanças exteriores como vemos com frequência as pessoas fazendo quando fogem de seus problemas em vez de enfrentá-los. A vivificação é obra do Espírito Santo no coração da pessoa. Precisamos entender que Deus nos restaura no lugar onde fracassamos. Israel fracassou ali na sua terra, e ali mesmo ele foi restaurado por Deus. Por isso as Escrituras nos dizem: “Lembre-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras” (Ap 2.5). A vivificação que Deus promove no coração da pessoa, leva-a primeiramente, a uma mudança e transformação no coração, ao que as Escrituras chamam de “arrependimento”.

Ao tratar o nosso coração pecaminoso, Deus faz uma ferida que só Ele pode curar, tal como disse Elifaz a Jó: Porque ele faz a ferida e ele mesmo a ata; ele fere, e as suas mãos curam” (Jó 5.18). Com Sua ira Deus nos fere por causa do nosso pecado; em Sua graça e misericórdia Ele nos restaura por amor de Sua glória.

                    Começando de novo em sua caminhada com Deus, você ainda precisa

Caminhar na presença de Deus, v.8-13

8 Escutarei o que Deus, o SENHOR, disser, pois falará de paz ao seu povo e aos seus santos; e que jamais caiam em insensatez. 

9 Próxima está a sua salvação dos que o temem, para que a glória assista em nossa terra. 

10 Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram. 

11 Da terra brota a verdade, dos céus a justiça baixa o seu olhar.  12 Também o SENHOR dará o que é bom, e a nossa terra produzirá o seu fruto. 

13 A justiça irá adiante dele, cujas pegadas ela transforma em caminhos.

                   Depois de uma declaração de fé coletiva e congregacional, agora, o que se vê é a confissão individual. O v.8 abre com uma declaração de fé humilde da parte do salmista. Ele diz: “Escutarei o que Deus, o SENHOR, disser”. Essa é a atitude de um coração que foi favorecido pelo amor de Deus, que viu sua culpa ser removida e o seu pecado sepultado  por Deus. Tal coração não somente reconhece que dependente totalmente da instrução de Deus para seguir em frente, como também aquieta-se diante de Deus, pois, sabe que uma vez que Deus reconciliou-Se com Ele por meio de Jesus Cristo, agora está em paz com Deus (cf. Rm 5.1,10), e, que Deus “falará de paz ao seu povo e aos seus santos”. Essa aquietação diante de Deus gera segurança e tranquilidade ao pecador que foi perdoado. Porém, aqueles que foram perdoados e vivificados por Deus devem atentar não somente para a instrução que Ele lhes dá, mas, também à advertência no final deste versículo: “e que jamais caiam em insensatez”. Essas palavras são de difícil tradução. Tal como está aqui soa como uma advertência aos santos de Deus para que não se descuidem em escutar e obedecer a Deus. Outras traduções (como a ACF e Calvino) trazem essas palavras como resultado do cuidado de Deus ao instruir Seus santos “para que não voltem à loucura” da desobediência. Seja qual for a interpretação aqui, a lição é a mesma: somente escutando, isto é, atentando e obedecendo ao que Deus diz em Sua Palavra é que os Seus santos que por Ele foram vivificados jamais caíram na insensatez de afastar-se Dele.

                   O v.9 repete de outra forma o que foi dito nos v.4,7. Aqueles que temem a Deus, isto é, O honram reverente e amorosamente sempre serão socorridos por Ele. A parte final deste versículo mostra o resultado da salvação que Deus promove: a permanência da Sua glória no meio do Seu povo. Nos dias de Moisés, a Glória de Deus estava sobre o tabernáculo (Êx 40.34-38); nos dias de Salomão, ela encheu o templo do SENHOR Deus quando a Arca da Aliança foi trazida para lá (1Rs 8.11); nos dias do profeta Ageu Deus prometera encher o templo com a Sua Glória (Ag 2.7); mas, foi em Jesus Cristo que “o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14).

                   O v.10, por meio de uma linda poesia reforça ainda mais o que foi dito no v.9. É na pessoa de Cristo que “Encontraram-se a graça e a verdade, a justiça e a paz se beijaram”. Ninguém mais, além de Cristo, tem o poder de fazer com que a graça (misericórdia), e a verdade (firmeza), a justiça ( retidão) e a paz (completude, solidez, bem-estar) atuem em perfeita harmonia. “Essas quatro bênçãos são aspectos essenciais do reino de Deus”[6]. No mesmo sentido segue o v.11. Os céus e a terra se encontram, ou seja, Deus (na pessoa de Cristo) que habita os céus, veio até nós, os que habitamos na terra. Deus transforma as pessoas, e, por isso mesmo o salmista afirma que “Da terra brota a verdade” (v.11), e isto porque “dos céus a justiça baixa o seu olhar”. A justiça de Cristo transforma o pecador num justo, um mentiroso num homem que fala somente a verdade.

                   O v.12 descreve os resultados da bênção de Deus sobre o Seu povo; é Dele que vem todas as bênçãos e dádivas de que necessitam para viver. Mas, de todas as bênçãos que o Seu povo pode receber de Deus, sem dúvida alguma, a principal é a Sua presença fazendo com que a justiça preceda os Seus filhos em sua caminhada de fé. Geralmente pensamos na justiça como algo a posteriori; mas, aqui, as Escrituras nos mostram que a justiça de Deus é algo a priori, ou seja, ela não é uma reação somente, mas uma ação, pois, ela “irá adiante dele, cujas pegadas ela transforma em caminhos” (v.13). O salmista personifica a justiça e a coloca andando à frente de Deus, e por onde Ele passa, a justiça transforma as Suas pegadas em caminhos seguros para os Seus filhos andarem. Ao mesmo tempo que a justiça está à frente de Deus, ela vem depois Dele. É claro que isso se trata de uma linguagem poética. O que o salmista que dizer aqui é que todas as decisões e ações de Deus são plenamente justas (feitas em justiça). Por isso, aquele que escuta o que Deus tem a dizer e vive nas normas da justiça de Deus, e andará na presença de Deus com o objetivo de ser regido e direcionado por Ele em todas as suas escolhas e decisões (“caminhos” %r,D,) para fazer aquilo que Lhe for agradável.

Aplicação v.8-13

Um coração que se aquieta diante da Palavra de Deus desfruta da paz que que só Deus pode dar. Aquietar-se diante da Palavra de Deus é reconhecer que não há sabedoria neste mundo que se equipare à sabedoria de Deus; ou como nas palavras do apóstolo Pedro a Jesus “Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna” (Jo 6.68).

Deus não atende a oração daqueles que não O obedecem. Mas, aqueles que andam com temor em Sua presença, nunca lhes faltará o Seu socorro e a Sua assistência cheia de sua glória.

Para nós impossível equilibrarmos a graça com a verdade – ou somos frouxos e permissivos em nosso conceito sobre a graça, ou rígidos e intransigentes em relação à verdade; ou somos moralistas ou vingativos em relação à justiça, ou omissos e calados diante do erro para não perdermos a paz. Cristo, não! Nele tudo se relaciona em perfeita harmonia. Nele a graça e a verdade não se obliteram e nem se anulam; Nele a justiça não é sacrificada em nome da paz, nem a paz é destruída quando a justiça é aplicada. Por isso mesmo devemos segui-Lo, pois, Ele sabe como apascentar nosso coração.

Quando Deus encontra o pecador e o transforma num justo, e o faz andar no caminho da justiça seguindo os Seus passos.

Conclusão

                   Recomeçar é difícil, porém, é crucial para o crente. Tal como disse o escritor sagrado: Nós, porém, não somos dos que retrocedem para a perdição; somos, entretanto, da fé, para a conservação da alma (Hb 10.39)”. Começar de novo não é retroceder, mas, sim retomar de onde paramos em nossa caminhada com Deus, isto é, quando caímos no pecado (cf. Ap 2.5). O crente é reconhecido por sua perseverança não somente quando não cai no pecado, mas, em retornar para os caminhos de Deus e persistir na caminhada quando eventualmente cai num pecado.


[1] In WIERSBE, 2010, vol.3, p.232.

[2] Versão Almeida Revista e Corrigida.

[3] Qal Perfeito da 2ª Pessoa do Singular favorecer, agraciar.

[4] Cf. CLAVINO, 1999, vol.3, p.335.

[5] CALVINO, 1999, vol.3, p.336.

[6] HARMAN, 2011, p.312.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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