Canções da Alma – 87ª Mensagem

Salmo 86

Estímulos Para Transpor as Adversidades

Introdução e Contextualização

                   Sempre que somos acometidos por uma adversidade, somos desafiados a não cairmos no desânimo e nem entrarmos em desespero. Mas, convenhamos, como isso é difícil! As tempestades da vida assolam nossa alma; nossas forças se esvaem sem que cheguemos ao fim da luta. Nesses momentos precisamos ser estimulados a transpor a adversidade, e nenhum estímulo é eficaz a não ser aqueles que encontramos em Deus. Por isso para nossa meditação o tema: Estímulos para transpor as adversidades.

                   Este Salmo é uma Oração de Davi”. É o único Salmo do Livro III do Saltério que é atribuído a Davi. Nada sabemos especificamente sobre a ocasião em que Davi compusera este Salmo, exceto que foi em situação adversa como nos dá a entender o seu conteúdo.

                   Vejamos aqui três estímulos para transpormos as adversidades, e todos eles relacionados ao caráter de Deus. Cada adversidade nos leva a conhecer ainda mais a Deus. Três versículos deste Salmo são a base para cada um desses três estímulos, a saber, os v.5,10 e 15. Neles, Davi nos mostra o caráter de Deus.

             Nos v.1-7, tendo como ponto principal o v.5 vemos que

Sua Aliança é inabalável, v.1-7

1 Inclina, SENHOR, os ouvidos e responde-me, pois estou aflito e necessitado. 

2 Preserva a minha alma, pois eu sou piedoso; tu, ó Deus meu, salva o teu servo que em ti confia. 

3 Compadece-te de mim, ó Senhor, pois a ti clamo de contínuo. 

4 Alegra a alma do teu servo, porque a ti, Senhor, elevo a minha alma. 

5 Pois tu, Senhor, és bom e compassivo; abundante em benignidade para com todos os que te invocam.

6 Escuta, SENHOR, a minha oração e atende à voz das minhas súplicas. 

7 No dia da minha angústia, clamo a ti, porque me respondes.

                   Davi declarou no v.5 que Deus é “bom e compassivo; abundante em benignidade”. A palavra “benignidade” aqui é misericórdia, graça, e está relacionada à Aliança que Ele estabelecera com Seu povo, e mais especificamente aqui, à Aliança que Ele fizera com Davi. Na Aliança que Deus fizera com Davi (2Sm 7), Ele lhe prometera livrá-lo das mãos de seus inimigos (2Sm 7.11) e estabelecer seu trono através de seu descendente (2Sm 7.12-14), por meio de Sua misericórdia que seria presente com sua descendência (2Sm 7.15-16). É com base nessa Aliança que devemos agora entender o que Davi disse nesses versículos.

                   Com base na fidelidade de Deus em manter Sua Aliança, Davi faz cinco pedidos a Deus:

Primeiro pedido:Inclinar os ouvidos e responder-lhe 

No v.1 Davi clamou a Deus por socorro chamando-O pelo Seu nome pactual “SENHOR” , indicando assim que sua confiança em Deus se baseava no próprio Deus. Davi suplicou-Lhe que Se inclinasse para ouvi-lo e responder-lhe à oração, pois, estava “aflito e necessitado”.

Aplicação v.1    

Nenhuma oração e nenhum clamor são verdadeiros se não expressarem plena confiança na fidelidade de Deus em preservar Sua Aliança com Seu povo, e também em reconhecerem a própria  miserabilidade que o torna tão necessitado da Graça de Deus.

Segundo pedido:Preservar-lhe a vida

No v.2 ele clamou a Deus “Preserva a minha alma”, ou seja, a própria vida, seu ser (alma, vida, ser vivo). Ao acrescentar, “pois eu sou piedoso”, não devemos entender que ele estivesse sendo arrogante e presunçoso, pelo contrário, o adjetivo “piedoso” quer dizer “praticante da misericórdia”, o que o identificava com Deus que é misericordioso. O que ele estava dizendo aqui é que ele tratava os outros com misericórdia, tal como se espera de alguém que faz parte da Aliança de Deus e por Ele foi agraciado com a misericórdia. Sua confiança estava em Deus como ele afirmou “tu, ó Deus meu, salva o teu servo que em ti confia”.

Aplicação v.2

Os filhos de Deus têm que imitá-Lo; têm que ter um caráter tal como o Dele (cf. Ef 5.1).

Terceiro pedido: Compadecer-Se dele

No v.3 Davi reafirmou sua confiança em Deus ao clamar “de contínuo” por Sua compaixão. O verbo “Compadece-te” quer dizer favorecer, mostrar favor. O que põe por terra qualquer ideia de que Davi estivesse sendo arrogante e presunçoso diante de Deus. Ele sabia que a compaixão de Deus não lhe era merecida, mas, concedida graciosamente por Deus.

Aplicação v.3

Os que clamam pela compaixão de Deus devem também demonstrar perseverança em oração, pois, clamar pela misericórdia de Deus implica em uma atitude de constante quebrantamento em Sua presença.

Quarto pedido: Alegrar-lhe a alma

No v.4 Davi suplicou a Deus (ou como ele disse “elevo a minha alma”) que alegrasse a alma, ou seja, a sua vida.

Aplicação v.4

O coração que experimenta a alegria oriunda de Deus, não encontrará satisfação e alegria em nada e em ninguém mais além do próprio Deus. Os filhos de Deus não podem jamais trocar o manancial da vida pelas cisternas rotas por eles cavadas (cf. Jr 2.13). Só Deus pode alegrar de fato nossa vida.

Quinto pedido: Escutar-lhe a oração

Nos v.6-7 Davi reitera tudo quanto dissera nos versículos anteriores. Ao clamar a Deus por socorro (v.6), ele o fazia porque conhecia a Deus desde outras ocasiões em que clamara por Sua ajuda e Ele o atendera, tal como fica claro quando disse “porque me respondes” (v.7).

Aplicação v.6-7

Em cada adversidade e angústia que passarmos, se nos dedicarmos em oração a Deus clamando por Seu socorro, teremos a oportunidade de crescermos espiritualmente, o que quer dizer que aprenderemos a confiar cada vez mais em Deus, e O conheceremos cada vez mais.

                   Nos v.8-13 tendo como ponto principal o v.10 vemos que

Sua Glória é incomparável, v.8-13

8 Não há entre os deuses semelhante a ti, Senhor; e nada existe que se compare às tuas obras. 

9 Todas as nações que fizeste virão, prostrar-se-ão diante de ti, Senhor, e glorificarão o teu nome. 

10 Pois tu és grande e operas maravilhas; só tu és Deus! 

11 Ensina-me, SENHOR, o teu caminho, e andarei na tua verdade; dispõe-me o coração para só temer o teu nome. 

12 Dar-te-ei graças, Senhor, Deus meu, de todo o coração, e glorificarei para sempre o teu nome. 

13 Pois grande é a tua misericórdia para comigo, e me livraste a alma do mais profundo poder da morte.

                   No v.10 temos o ponto central deste trecho do Salmo. Davi declarou: “Pois tu és grande e operas maravilhas; só tu és Deus!”. A grandeza de Deus está naquilo que Ele é e é visto naquilo que Ele faz. Vemos claramente essas duas verdades nestes versículos.

                   No v.8 vemos que Deus é incomparável: “Não há entre os deuses semelhante a ti, Senhor”. Davi falava da perspectiva de um hebreu, membro da Aliança de Deus que ao olhar para as nações via a multidão de deuses por elas fabricados, e nenhum daqueles deuses podia ser comparado com Deus, começando pelo simples fato de que Ele é o Deus Vivo, e aqueles deuses não passavam de obras das mãos humanas. E assim como Ele é incomparável, também é tudo o que Ele faz, pois, “nada existe que se compare às tuas obras”.

                   No v.9 Davi declarou o que Deus fez, a saber “Todas as nações que fizeste”; elas são obras das mãos de Deus; enquanto elas criam seus muitos deuses falsos, elas são obra do Verdadeiro Deus, perante quem todas elas “virão, prostrar-se-ão (…) e glorificarão o teu nome”. Diferentemente dos reis das nações que guerreavam para expandirem seus domínios, Davi sendo o rei de Israel, reconhecia que havia um Rei Soberano acima dele, diante do qual ele e todos os mortais haverão de prostrar e glorificar o Nome.

                   No v.11 ele pediu a Deus que fizesse uma obra em sua vida: “Ensina-me, SENHOR, o teu caminho, e andarei na tua verdade; dispõe-me o coração para só temer o teu nome”. Ele reconheceu a necessidade de ser instruído por Deus na direção (caminho, direção, decisão) que deveria andar, para que assim, ele não se desviasse da verdade de Deus. Ele queria ter seu coração unido[1] ao temor de Deus, isto é, não queria ver seu coração divido entre o temor a Deus e o temor aos homens ou qualquer outra coisa parecida; ele queria manter-se íntegro na presença de Deus, tal como observou Calvino: “o coração do homem está cheio de tumulto, arrebatado e, por assim dizer, disperso em mil fragmentos, até que Deus o ajunte para si e o mantenha unido num estado de firmeza e obediência perseverante”[2].

                   Com seu coração íntegro (ajuntado) e focado no temor de Deus ele não poderia ter outra atitude além de render a Deus todo o louvor, tal como disse no v.12 “Dar-te-ei graças, Senhor, Deus meu, de todo o coração, e glorificarei para sempre o teu nome”. A expressão “de todo o coração” é a mesma do versículo anterior “dispõe-me o coração”, apontando assim para a integridade do adorador.

                   No v.13 Davi volta a mostrar o que Deus é e o que Ele faz. Ele é misericordioso “Pois grande é a tua misericórdia para comigo”. E o que Deus fez foi livrar-lhe a “alma do mais profundo poder da morte”, ou seja, quando ele se viu cercado de ameaças mortais, de todas elas Deus o livrara.

Aplicação v.8-13

Só louvamos verdadeiramente a Deus quando O tememos de fato. Ele deve ser temido, pois, Ele é o único e verdadeiro Deus revelado especialmente em Seu Filho Jesus Cristo (cf. Jo 17.3), e em todas as obras de Suas mãos.

Devemos desejar ser ensinados e guiados por Deus em Sua verdade, para que tenhamos um coração íntegro na presença Dele que não fique divido entre agradá-Lo e a agradar a nós mesmos. A integridade é um dos elementos essenciais da adoração verdadeira.

O Deus que é único e exclusivo merece a adoração de um coração íntegro e sincero.

                   Por fim, nos v.14-17 vemos que o ponto central está no v.15 no qual vemos que

Seu cuidado é inefável, v.14-17

14 Ó Deus, os soberbos se têm levantado contra mim, e um bando de violentos atenta contra a minha vida; eles não te consideram. 

15 Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia e em verdade. 

16 Volta-te para mim e compadece-te de mim; concede a tua força ao teu servo e salva o filho da tua serva. 

17 Mostra-me um sinal do teu favor, para que o vejam e se envergonhem os que me aborrecem; pois tu, SENHOR, me ajudas e me consolas.

                   No v.15 Davi declarou “Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia e verdade”. Com base nesses atributos, Davi busca a justiça de Deus. Ele não buscou vingança, mas, a justiça de Deus em relação àqueles que se levantaram contra ele.

                   No v.14 ele descreve seus inimigos como “soberbos” (arrogantes, presunçosos), “violentos” (tiranos); mas, a característica mais nefasta destes tais era que eles não consideravam a Deus (não colocaram diante dos olhos), ou seja, não demonstravam temor algum diante Deus. O contraste destes tais com o servo de Deus é gritante; pois, enquanto o servo de Deus anseia por viver em integridade e temor diante de Deus (cf. v.11), os ímpios não se importam com isso.

                   Nos v.16-17 Davi encerra sua oração a Deus pedindo-Lhe:

  • Seu fortalecimento (v.16): “Volta-te para mim e compadece-te de mim”. Ele necessitava do socorro urgente de Deus. Mesmo sendo piedoso (v.2), mesmo desejando um viver íntegro e temente a Deus (v.11), ele sabia que se não Deus quisesse ter compaixão dele, ele jamais seria abençoado com a compaixão de Deus por não a merecer. Ele também disse “concede a tua força ao teu servo”. A tradução mais apurada seria “dá a tua fortaleza” o que conota a proteção que ele buscava em Deus. Ele sabia que de Deus viria a sua força. Aquele que é agraciado pela misericórdia e compaixão divinas, certamente é fortalecido e revigorado em sua alma. Ao dizer “e salva o filho da tua serva” vemos aqui não só a dedicação de Davi a Deus, como também o fato de que toda a instrução que ele recebera de seus pais quanto a fé em Deus, ele agora punha em prática em sua vida.
  • Seu livramento (v.17): “Mostra-me um sinal do teu favor”. No texto hebraico não aparece a palavra “favor”, mas a ideia está presente. Davi esperava o agir de Deus livrando-o do seus inimigos. Seu objetivo, longe de ser egoísta, estava focado na glória de Deus tal como ele mesmo disse “para que o vejam e se envergonhem os que me aborrecem, pois, tu, SENHOR, me ajudas e me consolas”. O que Davi queria era que Deus fosse glorificado em sua vida quando seus algozes que vinham em seu encalço se deparassem com a mão de Deus sobre Davi protegendo-o. Eles seriam envergonhados por tamanha derrota que haveriam de sofrer, e Deus seria visto como o Todo-Poderoso que sustenta e livra os Seus servos.      

Aplicação v.14-17

É no caráter santo de Deus que os Seus servos se refugiam. Eles desejam ver o agir de Deus livrando-os daqueles que lhes perseguem para que Deus seja glorificado em sua vida. O desejo do servo de Deus é testemunhar do amor e fidelidade de Deus em meio às adversidades; mais do que ser liberto das garras dos que lhes fazem mal, os servos de Deus querem ser vistos como aqueles que estão não mãos de Deus e recebem Dele o Seu cuidado inefável, que vai muito além do que podem exprimir.

Conclusão

                   A Aliança inabalável, a glória incomparável e o cuidado inefável de Deus são os estímulos que precisamos para quando as adversidades nos sobrevierem. Quando formos acometidos pelas adversidades, nosso objetivo deve estar além delas, a saber, o próprio Deus e termos mais comunhão com Ele. Que em meio às lutas de nossa vida, nenhum outro estímulo além daqueles que encontramos no próprio Deus nos sejam desejados e buscados por nós.


[1] O verbo no qal imperfeito quer dizer unido, juntando. 

[2] CALVINO, 1999, vol.3, p.355.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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2 Responses to Canções da Alma – 87ª Mensagem

  1. Francisco de Assis Medeiros says:

    Bom dia pastor Olivar. Louvado seja Deus por seu caráter Santo, pelo seu amor incondicional e cuidado que Ele tem conosco os seus filhos. Que te abençoe Pr. Oliver!!

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