Canções da Alma – 88ª Mensagem

Oração
“Deus Eterno, santo, justo e glorioso. Estamos diante de uma porção da Tua Palavra que nos traz verdades eternas sobre a Tua Igreja e a forma como o SENHOR a sustenta em todos os tempos. Dá que nosso coração fique cheio de alegria e gratidão a Ti por ter-nos escolhido para ser Teu povo. Faze-nos vislumbrar a Glória Eterna para que as tristezas dessa vida não nos desviem da Tua presença. Assim oramos, em nome de Jesus, amém!”.

A Gloriosa Igreja de Deus

Sl 87
Introdução e Contextualização

Um equívoco cometido por muitos é pensar que a Igreja nasce somente no Novo Testamento com a palavras de Cristo a Pedro: “Também eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18), as quais se concretizam em At 2.1-13. De fato, é naquela ocasião em que a vemos saindo dos limites do povo judeu e indo em direção aos gentios. Contudo, a Igreja de Deus surgiu já nos dias do Antigo Testamento, quando Deus, desde os primórdios, separou para Si um povo que descendia de Abraão. O fato Dele ter tratado exclusivamente com Israel (e excepcionalmente com alguns de outros povos) nos dias do Antigo Testamento, não quer dizer que Sua Igreja não existia então. Basta vermos como Israel era tratado por Deus no Antigo Testamento, a saber, com termos que são empregados para tratar com a Igreja no Novo Testamento. Os termos “assembleia” (Êx 12.16; Dt23.1-3,8; Jz 21.5,8), “ajuntamento solene” (Is 1.13), e especialmente, “congregação” (Êx 12.3,6,19,47; 16.1,2,9,10,22; 17.1; 27.21; 28.43; 29.3 e pelo menos mais 300 referências bíblicas).

Neste “Salmo dos filhos de Corá” o qual é um “Cântico” que deveria ser entoado no culto congregacional, vemos claramente que Deus sempre tratou Seu povo Israel como Sua Igreja. Nele vemos Deus falando sobre os gentios que haveriam de ser trazidos (e alguns já tinham sido trazidos) para o meio de Seu povo. Interpretando este Salmo, alguns expositores bíblicos tais como, João Calvino, Allan Harman e Matthew Henry, veem aqui a Igreja de Cristo, pois, assim como Deus usou Sião (que aqui aponta para Jerusalém) para reunir o Seu povo a fim de que este aprendesse a adorá-Lo tal como Ele requeria, da mesma forma, hoje Ele reúne Seus eleitos na Igreja, pois, chegará o dia em que todos eles estarão reunidos na Jerusalém Celestial, a “nossa pátria” (Fp 3.20) e a “nossa mãe” (Gl 4.26), quando também serão chamados de Igreja Triunfante.

Diante de tudo isso, então, proponho-lhes o seguinte tema: A Gloriosa Igreja de Deus. Sintetizamos este Salmo em três verdades sobre a Igreja de Deus:

Ela foi fundada por Deus, v.1-3

1 Fundada por ele sobre os montes santos, 

2 o SENHOR ama as portas de Sião mais do que as habitações todas de Jacó. 

3 Gloriosas coisas se têm dito de ti, ó cidade de Deus! 

No v.1 nos deparamos com a afirmação de que foi o próprio Deus quem fundou Sião (i.e., Jerusalém), ou seja, foi Ele quem determinou que ali fosse o centro onde Seu culto aconteceria e dali seria propagado às nações (cf. Sl 132.13; Is 14.32), construindo dali de Jerusalém a Sua grande obra redentora[1]. Por esse motivo ela é chamada de “cidade do SENHOR dos Exércitos” (Sl 48.8). É fato que nenhuma cidade em qualquer civilização tenha sido fundada sem a regência de Deus por meio dos governos civis; porém, Jerusalém, embora já existisse antes como Salém (Gn 14.18), posteriormente como Jebus (cf. Js 18.28; Jz 19.10), e nos dias de Davi passou a ser Jerusalém (cf. 1Cr 11.4,5), devemos entender que foi Deus quem a fundou como “cidade de Deus”, e lugar onde Seu trono seria estabelecido, isto é, o Seu culto e adoração seriam realizados. “Entre os montes santos”, isto é, entre os montes Sião e Moriá os quais são, na verdade, dois cumes de uma montanha fendida em duas.

Aplicação v.1

Ainda que aqui a referência seja à Jerusalém, capital da Judeia, devemos ver aqui a Igreja de Cristo, pois, como já afirmamos, Deus usou a Jerusalém terrena para dali difundir Seu culto às nações. Ali estava personificada a Igreja de Deus a qual é a Sua porta-voz neste mundo levando Sua Palavra à todas as nações a fim de que dentre todas as nações Seus eleitos sejam reunidos.

Ao olharmos para a Igreja de Deus aqui na terra devemos lembrar que ela foi fundada por Ele mesmo com o propósito de que ela leve o Evangelho e anuncie o Seu Reino neste mundo.    

No v.2 vemos a razão de Jerusalém ter sido escolhida por Deus: “o SENHOR ama as portas de Sião mais do que as habitações todas de Jacó”. Toda a excelência da cidade santa depende da soberana escolha de Deus e do Seu inefável amor por ela. No Sl 77.60,67, vimos que a cidade de Siló da tribo de Efraim (filho de José), a qual era o centro do culto a Deus antes dos dias de Jerusalém, fora rejeitada por Deus. E por que houve essa mudança? Não precisamos procurar a resposta fora deste versículo. A razão para Deus ter escolhido Jerusalém não estava nela, mas, Nele, a saber, no Seu amor.

Aplicação v.2

O que faz a Igreja de Deus ser o que é, é somente o amor de Deus. Ao vermos o amor de Deus em nos escolher para Si, nosso coração deve ser tomado do mais profundo senso de louvor e gratidão a Deus, pois, não havia nada em nós que nos fizesse merecedores do amor de Deus. Ele poderia ter escolhido quaisquer outros pecadores em nosso lugar.   

Estamos fundamentados no amor de Deus. Pode haver algo mais sólido, perene e poderoso do que esse amor (cf. Rm 5.8)?

No v.3 vemos o efeito desse amor maravilhoso de Deus por Sua Igreja: “Gloriosas coisas se têm dito de ti, ó cidade de Deus!”. Ainda que Jerusalém por vezes tenha caído nas mãos dos inimigos, de todos eles Deus a livrou e vingou-lhe a maldade que lhe fizeram; ela era uma cidade pequena, um populacho inexpressivo, e Deus a transformou em Sua cidade. Em Jerusalém estavam dois tronos: o de Deus (representado pelo Seu templo) e o de Davi de quem descenderia o Rei dos reis, o Senhor Jesus Cristo. Sem dúvida alguma, de todas as “Gloriosas coisas” que Deus fez por Jerusalém, o tê-la tomado como Sua cidade e dar-lhe o Seu santo nome sobre ela, foi a maior.

Aplicação v.3

A Igreja de Deus passa por revezes e perseguições, é atacada de diversas formas, sofre por amor a Cristo. Contudo, nunca deve perder de vista que lhe foi concedida não somente a graça de crer em Cristo, mas, de sofrer por Ele (cf. Fp 1.29), porque “…todos quantos querem viver piedosamente em Cristo serão perseguidos” (2Tm 3.12). Mas, e daí? “Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?”. Afinal “Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro” (Rm 8.35-36).

Gloriosas coisas podem ser ditas de nós, Igreja de Deus. Coisas gloriosas realizadas por Ele mesmo em nós. Deus fundou a Sua Igreja por meio do Seu amor.

A segunda verdade sobre a Igreja de Deus é que:

Ela foi estabelecida por Deus, v.4-6

4 Dentre os que me conhecem, farei menção de Raabe e da Babilônia; eis aí Filístia e Tiro com Etiópia; lá, nasceram. 

5 E com respeito a Sião se dirá: Este e aquele nasceram nela; e o próprio Altíssimo a estabelecerá. 

6 O SENHOR, ao registrar os povos, dirá: Este nasceu lá.

Estes versículos tratam especificamente dos habitantes de Jerusalém, apontando para os membros da Igreja de Deus.

Primeiramente, Deus declara: “Dentre os que me conhecem, farei menção de Raabe e da Babilônia; eis aí Filístia e Tiro com Etiópia; lá, nasceram” (v.4), o que em outras palavras seria: “Incluirei o Egito e a Babilônia na lista das nações que me obedecem; contarei entre os habitantes de Jerusalém o povo da Filístia, de Tiro e Etiópia”. Nas Escrituras, o Egito é por vezes chamado de “Raabe” (cf. Sl 89.10). Todas essas nações mencionadas aqui trouxeram sofrimento ao povo de Deus em uma ou outra época. Nações que antes foram inimigas do povo de Deus, haveriam de ser incluídas na Sua Família. O mesmo amor que Deus derramara sobre Israel e Jerusalém também seria derramado sobre aquelas nações. É assim que devemos entender as palavras “lá, nasceram”.

Aplicação v.4

Assim é a Graça de Deus. A Sua justiça sobre os pecadores tanto pode ser revelada em forma de juízo condenatório, como também em forma de Graça Salvadora. Ele pode transformar inimigos em irmãos na fé. De uma forma ou de outra, os inimigos do povo de Deus serão destruídos, deixarão de existir.

O povo de Deus é formado pelo Seu coração, ou seja, “os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.13).

No v.5 complementa o que foi dito no v.4: “E com respeito a Sião se dirá: Este e aquele nasceram nela; e o próprio Altíssimo a estabelecerá” .  É assegurado que novos cidadãos serão congregados na Igreja de Deus de diferentes partes do mundo; e aqui se desenvolve o mesmo tema do v.4[2]. Essa promessa descreve estrangeiros de nascença haverão de ser contados como parte do povo de Deus como se tivessem nascido em Sião. Como já afirmamos, uma pessoa não se torna filho de Deus senão por meio da Graça de Deus, a qual não reconhece limites geográficos ou étnicos. Jerusalém havia sido devastada pelas hordas de Nabucodonosor da Babilônia. Durante setenta anos ela ficou em ruínas, mas, Deus a reergueu pelas mãos de homens como Neemias, Esdras, Zorobabel, entre outros. Mas foi “o próprio Altíssimo”  que haveria de estabelecê-la, como de fato o fez.

Aplicação v.5

O mesmo pode ser visto na Igreja. Ela é constituída por pessoas “de toda tribo, língua, povo e nação” (Ap 5.9; 13.7; 14.6). O Evangelho do Reino está sendo anunciado nos quatro cantos da Terra; os eleitos de Deus estão sendo reunidos até que o último seja alcançado. Quando isso acontecer, Cristo voltará e nos reunirá eternamente em Sua presença na Jerusalém Celestial. E como podemos ter certeza disso? Porque “o próprio Altíssimo a estabelecerá”, tal como prometeu.

Aquele que fundou a Igreja, a estabelecerá em todas as eras e por todo o sempre; não deixará Sua obra inacabada (cf. Fp 1.6).

Justamente pelo fato de ter sido Ele próprio quem estabeleceu Sua Igreja, Ele sabe exatamente os que Lhe pertencem: “O SENHOR, ao registrar os povos, dirá: Este nasceu lá” (v.6), tal como nos lembra o apóstolo Paulo em 2Tm 2.19: “Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo: O Senhor conhece os que lhe pertencem. E mais: Aparte-se da injustiça todo aquele que professa o nome do Senhor”. O que o v.6 está dizendo é que ao adotar os gentios em Sua Família, Deus não os considera como estrangeiros convertidos, mas, como filhos de fato, pois, a adoção divina dá aos estrangeiros o status de “herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8.17).

Aplicação v.6

Cristo adquiriu e concedeu a nós o direito de sermos filhos de Deus (cf. Jo 1.12); é pelos méritos Dele.

Comentando este versículo, Calvino afirma que ele deve ser entendido como uma referência à vocação eficaz. É fato que Deus escreveu os nomes de Seus filhos no Livro da Vida antes da fundação do mundo, porém, só os considerou arrolados no catálogo dos Seus santos ao serem ele regenerados pelo Espírito Santo de adoção e ao imprimir-lhes Seu próprio selo[3].

Deus estabeleceu a Sua Igreja por meio do Seu amor.

A terceira verdade sobre a Igreja é que:

A sua alegria é o próprio Deus, v.7

7 Todos os cantores, saltando de júbilo, entoarão: Todas as minhas fontes são em ti.

Este versículo tem uma expressão de difícil tradução: “Todas as minhas fontes estão em ti”, a qual, segundo alguns, deve ser entendida metaforicamente, e assim, harmonizando com a primeira parte do versículo, esta expressão seria traduzida por “melodias” ou “cânticos”. Porém, Calvino, embora concorde que esta expressão deva ser entendida metaforicamente, lembra que o substantivo tem a mesma raiz de “um olho”, “observando”, e assim ele propõe uma tradução como que o salmista estando a dizer para Deus: “estarei sempre ansiosamente e fixamente olhando para ti”[1]. A primeira parte do versículo nos mostra que a presença de Deus com o Seu povo promove intensa alegria. A expressão hebraica, que por alguns é traduzida como tocadores de instrumentos ou os que dançam ao som de instrumentos, é de pouca importância aqui, pois, o objetivo do salmista é nos mostrar que a Igreja de Deus, quer reunida neste mundo, quer reunida na glória, tem em Deus tudo o que precisa para ser verdadeiramente alegre, jubilosa e cheia de louvor.   

Há um aspecto muito interessante ainda sobre este versículo. A cidade de Jerusalém, diferentemente da maioria das cidades, foi construída longe de rios, o que sempre lhe trouxe problemas com o abastecimento, especialmente em ocasiões de guerra. Por isso, nos dias do rei Ezequias, ele construiu um aqueduto que trazia água para dentro da cidade de Jerusalém vinda de um açude que fizera no manancial superior de Giom (2Rs 20.20; 2Cr 32.30). Mas, a sede espiritual só pode ser suprida pelas “fontes de alegria e vida” que emanam de Deus a nós.

Aplicação v.7

À beira de um poço, debaixo de um sol escaldante, o Senhor Jesus disse à mulher samaritana: aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna” (Jo 4.14). E, posteriormente, na Festa dos Tabernáculos, Ele disse:Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva” (Jo 7.37-38). Aqueles cuja felicidade nesta vida está na pessoa de Jesus, devem abrigar em seus corações a mais firme esperança de que um dia estarão com Ele na glória eterna, louvando-O eternamente e desfrutando a alegria plena e eterna.

Ponha seus olhos em Cristo; mire-O e não permita que nada neste mundo desvie seu olhar da pessoa bendita de Jesus. Aqueles cujos olhos estão fixos em Cristo, nunca serão abatidos por mais duro que seja o golpe sofrido.

Deus alegra a Sua igreja por amor.

Conclusão

Por amor, Deus fundou, estabeleceu e alegra a Sua Igreja. Não importa o revés e a luta que a Igreja venha a enfrentar nesta vida, ela sabe que Deus começou nela boa obra e haverá de completar até à volta de Cristo que reunirá todos os eleitos de Deus e nos levará para presença de Deus eternamente.     


[1] Ibid, p.370.



[1] Cf. WIERSBE, 2010, vol.3, p.235.

[2] Cf. CALVINO, 1999, vol.3, p.367.

[3] Cf. CALVINO, 1999, vol.3, p.369.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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