Canções da Alma – 8ª Mensagem

Uma Exposição do Livro dos Salmos

Salmo 9

Os Resultados da Revelação Divina

Contextualização

              Os Sl 9 e 10 formam uma só peça. Coisa muito rara de acontecer é um salmo sem título, como podemos ver no Sl 10[1]. Além disso, os dois são um acróstico, sendo que o Sl 9 com as onze primeiras letras do alfabeto hebraico e, o Sl 10, começa com a 12ª letra e termina com as quatro últimas. Contudo, pela limitação do nosso tempo, meditaremos os dois salmos separadamente. Nas bíblicas da igreja romana, esses dois salmos aparecem juntos, e, por essa razão a numeração não confere com as das versões utilizadas pelas igrejas protestantes.

              A ocasião em que este salmo foi escrito não é um ponto de concordância entre os expositores da Bíblia. Por causa da designação no título “A morte para o filho” (`almût laBBën) uns creem tratar-se de um dos principais capitães dos exércitos inimigos de Davi; outros, creem que se trata de um nome fictício para Golias, e, ainda outros (Calvino, p.ex.) creem que se trata do início de um cântico bem conhecido, a cuja melodia o salmo foi composto[2]. Particularmente, creio que essa última esteja correta, pois, seria equivocado limitar a gratidão de Davi a Deus à uma só vitória ou ocasião de sua vida. O Salmo todo apresenta a gratidão do servo de Deus em relação a várias situações em que ele saiu vitorioso.

              Examinando mais acuradamente este salmo, vemos que ele se divide em duas grandes partes, do v.1-12 e do v.13-20. Na primeira metade ele exalta e louva a Deus por Seus poderosos feitos e por Sua Soberania; na segunda metade ele dirige uma oração a Deus clamando por Seu socorro e livramento. Na primeira parte ele descreve como Deus Se revela e Se relaciona com Seus filhos; na segunda, ele descreve como Deus Se revela e se relaciona com os ímpios. E em cada caso vemos Os Resultados da Revelação Divina. E este será o tema da mensagem nessa ocasião.

              O que resulta da forma como Deus Se revela aos Seus filhos e aos ímpios?

1) Os resultados da revelação de Deus aos Seus filhos, v.1-12

Exposição v.1-12: “Louvar-te-ei, SENHOR, de todo o meu coração; contarei todas as tuas maravilhas.  2 Alegrar-me-ei e exultarei em ti; ao teu nome, ó Altíssimo, eu cantarei louvores.  3 Pois, ao retrocederem os meus inimigos, tropeçam e somem-se da tua presença;  4 porque sustentas o meu direito e a minha causa; no trono te assentas e julgas retamente.  5 Repreendes as nações, destróis o ímpio e para todo o sempre lhes apagas o nome.  6 Quanto aos inimigos, estão consumados, suas ruínas são perpétuas, arrasaste as suas cidades; até a sua memória pereceu.  7 Mas o SENHOR permanece no seu trono eternamente, trono que erigiu para julgar.  8 Ele mesmo julga o mundo com justiça; administra os povos com retidão.  9 O SENHOR é também alto refúgio para o oprimido, refúgio nas horas de tribulação.  10 Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome, porque tu, SENHOR, não desamparas os que te buscam. 11 Cantai louvores ao SENHOR, que habita em Sião; proclamai entre os povos os seus feitos.  12 Pois aquele que requer o sangue lembra-se deles e não se esquece do clamor dos aflitos”.

              Vários resultados podem ser observados aqui na vida dos filhos de Deus, daqueles a quem Ele Se revelou cheio de Graça e Misericórdia.

Resultado 1: Louvor e Alegria (v.1-2)

               Davi se dirige a Deus chamando-o pelo Seu Nome pactual (hwhy – SENHOR), e O louva de todo o seu coração, ou seja, ele não rouba de Deus a glória pelas muitas “maravilhas” que o Senhor Deus fizera, pelo contrário, ele iria contar (´ásaPPürâ  anexar, associar, juntar[3]), ou seja, ele reuniria todas as maravilhas que Deus fez em sua vida demonstrando assim sua gratidão a Deus. Isso é louvor, ou seja, reconhecer os poderosos feitos de Deus e ser grato a Ele. Um coração que assim age, será plenificado pela mais profunda e real alegria. Por isso mesmo Davi declarou que se alegraria e exultaria em Deus, e no Nome de Deus (ao próprio Deus), a quem ele chama de “Altíssimo” (`elyôn).

Resultado 2: Certeza de justiça (v.3-4)

               Ao ver os seus inimigos retrocedendo diante de seus olhos, Davi não se vangloria como um ímpio, em vez disso, ele reconhece a presença de Deus que executa a justiça a seu favor. Conforme Deus age, os inimigos recuam assustados “tropeçam e somem-se” da presença de Deus, e não da presença de Davi – como pensam os arrogantes a respeito de suas vitórias. Mas, a presença de Deus na vida de Seu servo também “sustenta” o seu direito, pois, como Rei Justo que é Deus em Seu trono julga a causa dos Seus filhos.

Resultado 3: Certeza do juízo (v.5-6)

               Deus age com justiça, e, assim, aplica o Seu juízo. Ele repreende as nações como fez com o Egito e a Babilônia; arrasa as suas cidades como fez com Sodoma e Gomorra; Ele destrói o ímpio como fez com Faraó, Golias e Acabe, e, apaga o nome deles da memória das pessoas, e se por ventura forem lembrados será para que a vergonhosa derrota que sofreram seja contada como testemunho da Sua justiça e juízo.

Resultado 4: Plena confiança em Deus (v.7-10)

               O único Rei Eterno, cujo trono é eterno, cujo reinado não tem fim, é Deus. Enquanto os seus inimigos são desbaratados, Deus permanece soberano sobre tudo e todos. Mas, Sua soberania não diz respeito somente à Sua posição intocável e inabalável sobre a Criação. Ela diz respeito também à forma como “Ele mesmo julga o mundo com justiça; administra os povos com retidão” (v.8). Deus está ativamente presente na vida deste mundo. Ele administra, cuida de tudo, e tudo o que faz é com justiça e retidão. Por isso mesmo, aquele que se encontra oprimido tem em Deus o “alto refúgio (…) refúgio nas horas de tribulação”; Ele é uma torre a qual os inimigos não conseguem atingir porque está acima de tudo. No v.10 temos o ensinamento central deste Salmo: o conhecimento do caráter de Deus (Seu Nome) é a base da nossa confiança Nele. Só pudemos conhecê-Lo porque Ele se revelou a nós com sua Graça e Misericórdia. Deus jamais desampara aqueles que O buscam com sinceridade e humildade.

Resultado 5: Testemunho da sua misericórdia (v.11-12)

               Conclamando o povo da Aliança ao louvor a Deus, Davi mostra a razão disso: “proclamai entre os povos o seus feitos”. Isto é testemunhar, é contar ao mundo o que Deus fez e faz por aqueles que O amam, com os quais Ele estabeleceu Sua Aliança. No v.12 Davi lembra que Deus é “aquele que requer o sangue”, isto é, Ele julga os crimes e pecados, sentencia aqueles que oprimem os pobres, fracos e desamparados pela injustiça humana, mas de forma alguma serão desamparados pela justiça divina porque Ele “não se esquece do clamor dos aflitos”.

Aplicação v.1-12: Você confia em Deus? Sua confiança em Deus tem demonstrado profunda alegria e constante louvor, pela justiça e pelo juízo Dele sobre este mundo? Ou você tem procurado se defender em vez de confiar no agir de Deus? Você tem demonstrado confiança na Justiça de Deus ou por vezes tem se desanimado julgando que Deus não está executando Sua justiça? Lembre-se que o conhecimento que você tem do caráter de Deus fortalecerá a sua confiança Nele, e quanto mais você confiar em Deus tanto mais você O glorificará diante do mundo.

2) Os resultados da revelação de Deus aos ímpios, v.11-20

Exposição v.11-20:13 Compadece-te de mim, SENHOR; vê a que sofrimentos me reduziram os que me odeiam, tu que me levantas das portas da morte;  14 para que, às portas da filha de Sião, eu proclame todos os teus louvores e me regozije da tua salvação.  15 Afundam-se as nações na cova que fizeram, no laço que esconderam, prendeu-se-lhes o pé.  16 Faz-se conhecido o SENHOR, pelo juízo que executa; enlaçado está o ímpio nas obras de suas próprias mãos.  17 Os perversos serão lançados no inferno, e todas as nações que se esquecem de Deus.  18 Pois o necessitado não será para sempre esquecido, e a esperança dos aflitos não se há de frustrar perpetuamente.  19 Levanta-te, SENHOR; não prevaleça o mortal. Sejam as nações julgadas na tua presença.  20 Infunde-lhes, SENHOR, o medo; saibam as nações que não passam de mortais”.

               As obras de Deus O revelam neste mundo. Até os ímpios sabem da existência de Deus, contudo, desprezam-na.  E por desprezarem a Deus, os seguintes resultados são vistos na vida deles:

Resultado 1: Perversidade (v.13-14)

               Davi dirige seu clamor a Deus. Suplica-Lhe que venha em seu socorro, pois os inimigos lhe infligiram muitos sofrimentos. E por que fizeram isso com o servo de Deus? Porque assim como o conhecimento do caráter de Deus leva os filhos Dele a confiarem em Sua Graça e Misericórdia, da mesma forma, a falta desse conhecimento leva as pessoas a ignorarem a vontade de Deus. Assim, os inimigos de Davi causaram tanto sofrimento a ele que ele se sentia às “portas da morte” (v.13). Mas, o servo de Deus, mesmo estando às portas da morte vislumbra “as portas da filha de Sião” (v.14), isto é, Jerusalém. Era ali o centro do culto a Deus; era em Jerusalém que estava o Templo, a Casa de Deus. Era às portas da cidade que os negócios eram ratificados, os acordos confirmados, e as notícias eram dadas. Enquanto os inimigos lhe faziam grande mal, Davi alimentava em seu coração a certeza de que Deus viria em seu socorro, e, ele, depois disso ele proclamaria os louvores de Deus e se regozijaria na salvação que Deus haveria realizar a seu favor. Diante da perversidade dos homens temos de ficar firmes na bondade de Deus e contemplarmos a Jerusalém Celeste.

Resultado 2: Danos temporais (v.15-16)

               Vivemos num mundo cheio de maldades. Estamos cercados por iníquos perversos, e, às vezes, chegamos ao ponto de pensar que eles escaparão ilesos e ninguém os deterá. Em nossa nação a certeza da impunidade permeia todos os escalões da sociedade. Contudo, a Palavra de Deus nos mostra que já nesta vida, os ímpios padecem as consequências e os danos de suas ações malignas. Nestes versículos Davi diz que os ímpios caem nas covas que eles abriram para outros (o mal que é feito sempre volta com juros sobre quem o pratica). Seus pés se prendem no laço que esconderam para pegar os outros; suas mãos são presas e atadas pela própria iniquidade deles. Essa figura de linguagem dos pés presos e das mãos atadas indica os danos que eles já começam a sofrer nessa vida. Mas, no sofrimento deles não para aqui.

Resultado 3: Danos eternos (v.17-18)

               A palavra “inferno” aqui é (Sheol) geralmente traduzida como “sepultura”. Porém, como bem observa Calvino, aqui a referência é a algo mais que a sepultura ou os estado de estar numa cova, é uma referência ao sofrimento, degradação e dano eternos após a morte. Observe o contraste com o “necessitado” no v.18, do qual se diz que “não será para sempre esquecido”, ao passo que o ímpio, para sempre estará em tormentos. Para aqueles que “se esquecem de Deus”, os mesmos serão esquecidos dos homens, mas, eternamente lembrados por Deus para sofrerem a Sua justiça eterna.

4º Resultado: Terrível medo (v.19-20)

               Quando Deus fala, o mundo cala; quando Deus Se levanta, o mundo se recolhe à sua pequenez e insignificância. Poderosos que arrogantemente se sobrepunham aos demais serão julgados na presença do Grande Rei dos reis. Quando Ele fizer ouvir a Sua potente voz, um medo avassalador tomará conta dos ímpios, pois, ali, todos os ímpios se darão conta de que “não passam de mortais”. Hoje, eles erguem sua voz contra Deus e zombam. No dia do Juízo Final quando todos comparecerão perante Deus, haverão de ser tomados por terrível medo. O v.20 contrasta-se com o v.10. Enquanto o filho de Deus que conhece o caráter santo de Deus cresce na confiança Nele, o ímpio que se recusou a conhecer a Deus a vida toda vivendo confiante em si mesmo, no final se deparará com terrível medo e pavor.

Aplicação v.13-20: Quando você pensa no Dia do Juízo Final o que vem ao seu coração? Confiança na Graça e Misericórdia de Deus, ou um medo estarrecedor? A confiança na Graça e Misericórdia de Deus é para os filhos de Deus; o medo e pavor são para os ímpios condenados. Há ainda chance para você experimentar da Graça e Misericórdia de Deus e viver confiante Nele. Aproveite-a hoje!

Conclusão

         Deus Se revelou ao mundo. A Criação é um testemunho maravilhoso da existência Dele. Ele Se revelou plenamente em Jesus Cristo, e deixou-nos a Sua Palavra que é o manual onde podemos aprofundar no conhecimento do caráter Deus e da Sua vontade para nós. Cada um é responsável e tem decisão sobre a revelação recebida. Mas, quanto aos resultados ninguém poderá interferir e muda-los. Cada um colherá o que plantou. Filhos de Deus colhem confiança e segurança; ímpios colhem medo e danação temporal.

[1] O título que aparece em negrito na ARA, por exemplo, é dado pelos editores e não se encontra nos manuscritos.

[2] Cf. CALVINO, 1999, vol.1, p.175.

[3] VANGEMEREN, 2011, vol.3, p.281.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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