Carros de boi

Eu sou “da roça”. Minha infância foi das melhores que um menino pode ter. Hoje, como pastor, percebo que as analogias da Igreja com a vida no campo são muitas. Uma que eu quero destacar aqui é a do carro de boi.

Esse veículo de tração animal muito utilizado lá no interior para transportar cargas tem algumas características análogas à vida de muitos crentes. Eis algumas:

1ª característica: só anda se for puxado. O carro de boi, como já disse, é de tração animal. Portanto, se não houver nenhuma força puxando-o ele não se move. Assim acontece com muitos crentes. Só vão se forem literalmente puxados. Necessitam de que alguém sempre esteja adulando, incentivando destacando suas qualidades, e, mesmo assim, não se esforçam para andar com as próprias pernas. É fato que vez ou outra todos nós necessitaremos de que alguém nos ajude a carregar nosso fardo. Contudo, quando mesmo depois de termos recebido toda a ajuda de que necessitamos ainda continuamos em nossa autocomiseração, algo muito errado está acontecendo. Todo crente precisa de ajuda, mas, deve estar sempre pronto a ajudar quem precisa também.

2ª característica: murmuração. Quem já viu um carro de boi sabe que quando ele está vazio não faz barulho algum. Porém, quando está cheio e pesado a fricção do mancal com o eixo por serem ambos de madeira faz o carro “cantar” (um ruído constante que mais parece um gemido). Os boiadeiros chegam a colocar algum óleo para aumentar ainda mais o som ou fazer com que ele fique diferente. Os bois fazem toda força, mas, quem faz o barulho e chama atenção para si é o carro. Assim como o carro de boi, existem muitos crentes que mesmo sendo “puxados” por alguém o tempo todo, vivem reclamando da igreja, das circunstâncias, e até das bênçãos de Deus (é claro que não percebem que estão sendo abençoados por Deus!). Tais como carros de boi esses crentes  chamam a atenção para si de tanto murmurarem.

Em Gálatas 6.1-5 lemos: “Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado.  Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo. Porque, se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana. Mas prove cada um o seu labor e, então, terá motivo de gloriar-se unicamente em si e não em outro. Porque cada um levará o seu próprio fardo”.

No v.2, Paulo nos diz que devemos levar as cargas uns dos outros, e no v.5, que cada um deve levar o seu próprio fardo. Estaria ele se contradizendo? Obviamente, não. No v.2 o substantivo grego é “barós” e no v.5 o substantivo grego é “fortíon”. O primeiro diz respeito às lutas que passamos nas quais precisamos da ajuda de outras pessoas. Por exemplo: um luto onde ombros amigos e irmãos são nos oferecidos para chorar é um “barós” que nos é pesado e precisamos de ajuda. Enquanto que o segundo (“fortíon”) se refere à responsabilidade pessoal que é intransferível.

Quando empurramos para os outros as nossas responsabilidades estamos pecando por negligência (em relação a Deus) e por sermos tropeço e peso desnecessário na vida de outros. O que é muito diferente de sermos humildes para pedirmos ajuda quando estivermos passando por lutas.

Quando somos humildes e reconhecemos que precisamos de ajuda, tanto nós como aqueles que nos ajudam experimentamos crescimento espiritual e em amor. Quando agimos irresponsavelmente, empurrando para os outros nossos deveres, não só deixamos de crescer na fé como ainda atrapalhamos os outros de crescerem também.

Voltando à analogia com o carro de boi lhe pergunto: você é carro ou você é boi?

Rev.Olivar Alves Pereira

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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