Como Deus Vivifica os Corações

Leia Ezequiel 37.1-12

De todas as perdas que você pode vir a ter em sua vida, com certeza uma das piores é a perda da esperança. Quando você perde a esperança de vencer uma enfermidade você desiste do tratamento e até da própria vida; se você perde a esperança com seu filho rebelde você desiste dele e o perde de vez para o mundo; ao perder a esperança com seu casamento, você só espera o divórcio; quando perdemos a esperança na ação e intervenção de Deus em nossa vida, desistimos da fé.

Esta visão que Deus deu a Ezequiel de um vale repleto de ossos humanos secos vem nos falar justamente sobre: Como Deus vivifica os corações.

Ezequiel atuou entre os anos de 593 a 571 a.C. no tempo quando aconteceu a primeira e a segunda invasão da Babilônia na região de Judá, mais especificamente na cidade de Jerusalém. Ele presenciou toda a destruição e deportação do povo judeu para as terras babilônicas. Um salmo que retrata muito bem esse período é o Sl 137onde vemos o povo sofrendo debaixo da opressão babilônica, e totalmente abatido, triste e sem esperança. No v.11 vemos a que ponto chegou a tristeza do povo judeu nessa ocasião: “Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; estamos de todo exterminados”.

Você já se sentiu assim alguma vez na vida? A esperança se foi e você se sentiu seco por dentro, sem vida, sem ânimo, sem qualquer perspectiva de melhora? Pois, bem, veja comigo como é que Deus vivifica corações que estão assim.

No texto encontramos três elementos usados por Deus no processo de vivificação.

1)      A Sua vontade, v.1-3

Deus quando levou Ezequiel naquela visão, ao mostrar-lhe o vale repleto de ossos secos lhe fez andar ao redor deles, fazendo com que ele visse a dimensão daquele horror. Então Deus lhe perguntou: “Filho do homem, acaso, poderão reviver estes ossos?” e Ezequiel lhe respondeu: “SENHOR Deus, tu o sabes” (v.3). O que Ezequiel quis dizer foi: “Eterno e Todo-Poderoso Deus, se o Senhor quiser isso pode acontecer”.

Dependia só da vontade de Deus; não dependia da vontade de Ezequiel, e muito menos daqueles esqueletos, pelo óbvio: eles estavam mortos, e Ezequiel era apenas um homem.

Em Rm 9.16 lemos: “assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia”. A salvação (que é acima de tudo um ato de vivificação de corações mortos espiritualmente) só acontece porque Deus quis salvar tais pecadores.

Ezequiel era o “pregador” àqueles ossos. Ainda que ele cresse, ainda que ele desejasse com todo o seu ser que aqueles ossos fossem vivificados, tal não aconteceria se Deus não quisesse.

Aqueles ossos para voltarem à vida, nada puderam fazer, pelo simples fato de que eram a morte ali personificada. Só voltaram a viver por que Deus quis.

Como pregadores do Evangelho nunca podemos esquecer que é pela vontade de Deus e nunca pela nossa vontade que corações são vivificados.

Deus não age porque nós queremos; Ele age por que Ele quer.

Outro elemento que usa para vivificar os corações é

2) A Sua Palavra, v.4-8

“Suas palavras têm poder” dizem a psicologia, a neurolinguística, a psicoterapia e outras teorias humanísticas. Até mesmo podemos ouvir tamanha asneira na boca de muitos pastores. Mas isso é verdade? Será que as nossas palavras têm poder mesmo? Experimente pegar qualquer objeto e ordená-lo a se mover e veja se isso acontecerá.

Talvez neste momento tenha vindo à sua mente o texto de Tg 3.1-12 onde vemos a Bíblia falando sobre os pecados da língua. Nos v.9 e 10 lemos: “Com ela, bendizemos ao Senhor e Pai, também, com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma só boca procede bênção e maldição”. Mas este texto não está falando que as nossas palavras têm poder, mas, sim efeitos. Se usadas de forma correta produzirão efeitos benéficos; se de forma errada, efeitos destruidores. Mas, nossas palavras jamais terão poder de gerar vida – esse poder somente a Palavra de Deus tem!

Deus ordenou Ezequiel profetizar (pregar, esse é o sentido de “profetizar” na Escritura Sagrada – os profetas são pregadores da Palavra de Deus e não adivinhadores) àqueles ossos. E o que Ezequiel deveria profetizar-lhes? A Palavra de Deus: “Ossos secos, ouvi a palavra do SENHOR” (v.4). Ossos ouvindo. Isso é totalmente absurdo. Mas, o que é um milagre senão um santo absurdo aos nossos olhos?

E conforme Deus prometera que faria fez. Ele prometeu que aqueles ossos receberiam tendões, carne e espírito, e dessa forma seriam vivificados.

Ezequiel obedeceu a Deus. Pregou exatamente o que Deus havia lhe ordenado, e tal qual Deus falara aconteceu.

Na pregação do Evangelho, para que Deus seja glorificado como Aquele que vivifica corações, é necessário que a Palavra de Deus seja anunciada de forma fiel. Não há conversão e vivificação espiritual de verdade se a Palavra de Deus não for anunciada com fidelidade.

A única palavra que tem o poder de gerar vida é a Palavra de Deus. Em Jo 1.1 lemos que Jesus Cristo é o Verbo Divino, ou seja, é a Palavra de Deus em ação, é a Palavra de Deus encarnada. Obviamente que João não está afirmando que Jesus Cristo era um som vocalizado de Deus e que um dia esse som vocalizado tomou forma de gente. O que João está dizendo é que Jesus procede de Deus, porque Ele é a segunda pessoa da Trindade, e é Deus também. Em Cl 1.16 vemos a atuação de Cristo na Criação do universo: pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele”.

Voltando para a visão que Ezequiel teve, no v.7, outra característica da Palavra de Deus nos chama a atenção: é seu poder organizador. Ao dar a ordem àqueles ossos, Ezequiel os viu se organizando “cada osso ao seu osso”. Um fêmur de um esqueleto não se juntou por engano ao quadril de outro esqueleto, nem tampouco uma tíbia se juntou à costela de seu próprio esqueleto.

A Palavra de Deus organiza tudo, por Deus é Deus de ordem e não de bagunça.

Mas no v.8 vemos que algo ainda faltava para ser feito para que a vivificação daqueles corpos mortos (cf. v.9) acontecesse. Faltava o terceiro elemento:

 3) O Seu Espírito, v.9-14

Tendões e carnes sobre os ossos não são o suficiente. Se o processo tivesse parado neste ponto, aqueles corpos não seriam nada mais do que corpos mortos (v.9) que imediatamente iniciariam o processo de decomposição. Por isso Deus ordenou a Ezequiel que profetizasse sobre aqueles corpos o seguinte: “Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos para que vivam”.

Quando Ezequiel profetizou a vinda do espírito àqueles corpos mortos, eles então passaram a viver plenamente.

Quando a Palavra de Deus é proclamada, ela cumprirá o que é da vontade Dele, tanto salvar como condenar. Mas, somente quando o Espírito Santo entra no coração da pessoa é que ela é vivificada. Eis a razão porque qualquer pessoa pode entender o que a Bíblia diz com um pouco de esforço próprio, mas, crer no que a Bíblia diz somente é possível pela atuação do Espírito Santo.

A Confissão de Fé de Westminster diz no Cap. I, § V:

“Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto e reverente apreço da Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, e eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que faz do único meio de salvar-se o homem, as suas muitas outras excelências incomparáveis e completa perfeição, são argumentos pelos quais abundantemente se evidencia ser ela a Palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza da sua infalível verdade e divina autoridade provém da operação interna do Espírito Santo, que pela Palavra e com a Palavra testifica em nossos corações (1Co 2.1012; Jo 16.13,14; 1Co 2.6-9)”.

Isso quer dizer que somente pelo Espírito Santo atuando no coração do homem é que este pode crer na Palavra de Deus, e, portanto, vivificado.

Ezequiel presenciou naquela visão algo maravilhoso. Aqueles ossos secos se tornaram corpos mortos, que se tornaram pessoas vivas e dispostas como um exército para a batalha (v.10). A vivificação tem como propósito o serviço.

No seu livro “Penetrado pela Palavra”, John Piper tem um artigo muito profundo chamado “Penetrado pela Palavra de Deus” cuja mensagem baseada em Hb 4.12 aponta para o poder da Palavra de Deus de penetrar o mais profundo do nosso ser. Longe de travar um debate sobre dicotomia e tricotomia, ele apresenta a analogia entre “juntas e medulas” com “alma e espírito”. As juntas são a parte mais dura e externa de um osso, enquanto que as medulas são a parte mole e interna do osso. Existem espadas que chegam somente até as juntas, a parte externa, enquanto que outras espadas próprias e mais afiadas chegam até às medulas. Assim é a Palavra de Deus. Piper afirma:

Alma é aquela dimensão invisível da vida que somos por natureza. “Espírito” é aquilo que somos pelo novo nascimento sobrenatural. Jesus disse: “O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito” (Jo 3.6). Sem o poder vivificador, criador, regenerador do Espírito de Deus em nós, somos apenas um “homem natural”, e não um homem espiritual” (1Co 2.14-15). Por conseguinte, o “espírito” é aquela dimensão invisível de nossa vida que somos por meio da obra regeneradora do Espírito Santo (PIPER, 2011, p.20, Ed. Fiel).

Sem o Espírito Santo a Palavra de Deus não pode ser crida, e as pessoas não passariam de corpos vivos e mortos espiritualmente.

Ao pregarmos a Palavra de Deus devemos confiar somente no poder do Espírito Santo para convencer, converter e transformar corações.

Conclusão

Toda essa visão foi uma ilustração do que Deus faria para o Seu povo resgatando-o da Babilônia e o estabelecendo novamente em Israel (cf. v.12-14). Dessa forma Deus vivificaria os corações e assim eles teriam esperança.

Quero chamar sua atenção para o fato de que a Esperança para o crente é resultado da vida que Deus lhe deu por meio de Sua Vontade, Sua Palavra e Seu Espírito Santo. Não estou me referindo aqui a qualquer esperança. Refiro-me à Esperança da Vida Eterna. Se você não tem essa Esperança é porque ainda não foi vivificado pelo Espírito Santo e, portanto, não é salvo ainda.

Primeiramente acontece a vivificação por meio da vontade, Palavra e Espírito de Deus e o resultado disso é a Esperança da Vida Eterna.

Se tem lhe faltado esperanças em relação aos problemas dessa vida é porque você não tem a Esperança da vida Eterna, porque quem tem essa Esperança não sucumbe diante das lutas dessa vida. O apóstolo Paulo compreendeu bem isso quando disse: Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo” (2Co 4.8-10).

Não há motivo para o crente que foi vivificado pela vontade, Palavra e o Espírito Santo de Deus, se desesperar diante das lutas dessa vida. Sua Esperança é o próprio Senhor Jesus Cristo (1Tm 1.1).

Mensagem proclamada na IPBJardimSul em São José dos Campos, 05/02/2012

Rev.Olivar Alves Pereira

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
This entry was posted in Reflexão Bíblica. Bookmark the permalink.

6 Responses to Como Deus Vivifica os Corações

  1. marina says:

    Boa Noite!!
    Uma vez mais digo: texto edificante, a DEUS toda glória, e que ELE na sua infinita misericórdia continue abençoando-o neste ministério.
    Com abraço fraternal
    de: Marina e Marcos

  2. zelia barros says:

    obrigada…era a explicação que eu precisa.amém

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *