COMO UMA IGREJA DEVE ESCOLHER SEU PASTOR

Rev. Olivar Alves Pereira

Talvez sua denominação tenha um método diferente da minha (que é Presbiteriana) para escolher um pastor para cuidar de sua igreja. Talvez, sua denominação nem mesmo tenha essa prática de eleger um pastor, pois, lá esse ofício é “vitalício”, ou uma autoridade superior (como um bispo) é quem determina quem será o pastor desta ou daquela igreja. O que eu vou dizer aqui tem a ver com o sistema presbiteriano, o qual é representativo, e por ser assim, a igreja reunida em assembleia (somente os membros daquela igreja local) escolhem em votação aquele que será o seu pastor por um espaço de tempo. Pensando neste assunto senti-me impelido e escrever sobre o mesmo, e aqui deixo o que penso ser os princípios bíblicos para tal escolha.

Consideremos os seguintes pontos: vida cristã, vida familiar e vida eclesiástica.

 

1- O pastor e a sua vida cristã

Neste ponto considero os seguintes elementos: conversão, vida devocional (estudo da Palavra e oração) e relacionamento com os de fora da igreja.

É inadmissível que um pastor não demonstre ser uma pessoa realmente convertida a Cristo. A base para tudo na vida cristã é a conversão a Cristo. Um coração não convertido a Cristo não se preocupará em ver outros corações serem convertidos a Cristo. Alguém que não preze pela santidade pessoal, não prezará pela santidade da igreja que pastoreia (1Tm 4.16).

Quanto à vida devocional (embora ninguém esteja por perto para conferir, exceto a família do pastor), é vital que o pastor tenho tempo estudando a Bíblia para a sua “dispensa pessoal” e seja um homem de oração. Pastores que não dedicam tempo estudando a Bíblia, não terão nada além de palha seca para oferecer às suas ovelhas (eis a razão porque muitos púlpitos estão se transformando em picadeiros, palcos para shows, etc.); pastores que não têm vida de oração demonstram o quão incrédulos eles são – quem crê em Deus de verdade faz uso constante da oração! (1Tm 4.7).

No que diz respeito ao seu relacionamento com os de fora, o pastor deve gozar de boa reputação para com “os de fora” (1Tm 3.7). É salutar que a vida dele seja um livro aberto. É lamentável saber de pastores que são grosseiros com os porteiros de seus condomínios, ou que foram estúpidos com os garçons num restaurante, ou que usam mal as redes sociais, ou são velhacos e devedores gananciosos que compram o que não precisam, com o dinheiro que não têm ostentando uma vida fora da sua realidade financeira.

Ao escolher um pastor, a igreja deve investigar esses pontos de sua vida cristã, e se ele se mostrar irrepreensível nessas áreas, então a igreja deve avançar para investigar a próxima área da vida desse pastor: sua família.

 

2- O pastor e a sua vida familiar

A Palavra de Deus é enfática: “e que governe bem a própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito 5 (pois, se alguém não sabe governar a própria casa, como cuidará da igreja de Deus?)” (1Tm 3.4-5). Certa vez, um pastor que estava sendo avaliado por uma igreja para pastoreá-a, ao visitar aquela igreja com sua esposa e filha, tiveram um contratempo: sua esposa precisou ser levada às pressas para o hospital e se submeter à uma cirurgia de emergência. Enquanto o pastor teve de ficar no hospital acompanhando a esposa, a filha deles (de 11 anos) ficou sob os cuidados de uma família da igreja. Ao se despedir do pastor, o casal que cuidou de sua filha lhe disse: “Ficamos impressionados com sua filha. Que menina educada, comportada e obediente. Ela é crente de verdade. Não pudemos conhecer o senhor e sua esposa, mas, pelo testemunho de sua filha tivemos uma boa noção de como vocês são”. A filha daquele pastor foi o seu “cartão de apresentação” para aqueles que não puderam conhecê-lo pessoalmente. Uma igreja deve levar em muita consideração a estrutura familiar de um pastor. Aqui ainda cabe ressaltar que pastores divorciados e recasados não devem mais ocupar o cargo (1Tm 3.2), pois, ainda que sejam a “parte ofendida” do casamento anterior, eles perderam a condição para tal.

Voltando à questão dos filhos, pastores cujos filhos são rebeldes, indisciplinados e irreverentes, que desprezam o Dia do Senhor suando-o com lazer, além de disciplinarem seus filhos, deveriam também afastarem-se do pastorado até que seus filhos voltem à sensatez. Com que moral um pastor poderá repreender um membro faltoso se nem mesmo aos seus ele repreende?

Por fim,

 

3- O pastor e a vida eclesiástica

Neste ponto considero a forma como esse pastor age dentro de sua denominação. No caso da Igreja Presbiteriana do Brasil, o pastor sabe que deve estar submisso à Palavra de Deus (a IPB é uma Igreja bíblica, e a autoridade das Escrituras está acima de tudo), aos concílios (a IPB é uma igreja conciliar, ou seja, todas as questões são resolvidas e decididas num concílio de pastores e presbíteros regidos por uma Constituição própria que regulamenta todas as ações dos seus membros), e aos Símbolos de Fé: Confissão de Fé e Catecismos Breve e Maior (a IPB é uma igreja confessional; nenhum de seus membros está livre para crer e pregar o que bem entende, e caso não concorde com alguma doutrina, que seja coerente e saia!).

Na IPB não há espaço para um presidencialismo (ainda que o pastor seja o presidente do Conselho, ele não decide nada sozinho; ele é apenas um “moderador”); nem para o episcopalismo (não temos uma hierarquia na qual um pastor é o “chefe” e manda em outros pastores; somos conciliares e decidimos tudo sob o prisma da igualdade dos conciliares). Aqueles pastores que decidem tudo sozinhos, que manipulam os Conselhos das igrejas, que agem com sórdida politicagem, devem buscar o arrependimento diante de Deus, pois, isso está longe de ser um comportamento bíblico.

Um pastor deve sempre entender que ele é:

Transitório: ainda que fique por muitos anos numa mesma igreja, chegará o dia em que seu tempo ali acabará. Ele não deve portar-se como dono da igreja (até mesmo porque não foi ele quem morreu na cruz por ela), mas, como servo de Cristo, e como tal, é Deus quem determina o tempo que ele ficará ali. Um pastor que fala o que a igreja quer ouvir (e não fala o que ela não quer ouvir) está mostrando quem é o seu deus: ele próprio. Está pensando no seu “emprego”, no seu salário e estabilidade. Um pastor assim é uma desgraça por onde passa. Os pastores devem sempre se lembrar que seu compromisso é com Cristo e com a Sua Palavra. Não devem temer ser substituídos, pois, isso mais cedo ou mais tarde acontecerá; quem der que seja porque ele foi firme e fiel à Palavra e a Igreja não o suportou, e por isso quis outro pastor mais “suave”, mais “social” (se isso acontecer, tal igreja será severamente disciplinada por Deus, pois, uma forma que Deus tem para disciplinar uma igreja infiel é lhe dando pastores infiéis e ruins). Se um pastor for substituído porque foi fiel, ainda que isso lhe doa muito, não deve deixar se abater, pois isso aconteceu com os grandes profetas e pastores, e especialmente com o nosso Senhor Jesus Cristo.

Modelo: é lamentável ver muitos pastores se justificando dizendo: “Sou um pecador, sou fraco, e por isso mesmo cometo sempre esse pecado”. O que parece ser um traço de piedade, muitas vezes esconde uma impiedade terrível. O pastor tem que ser modelo para o rebanho; tem que admitir que é pecador sim, mas, justamente por isso, empenha-se em viver na dependência de Deus e de Sua Palavra para evitar o pecado. Chego a pensar que a razão de vermos tanta carnalidade, tanta impiedade e sujeira na vida dos crentes de nossas igrejas, muito se deve ao péssimo exemplo dos pastores. Que a santidade seja o maior desejo de nossos corações!

Instrumento: e nada mais. É lamentável ver que muitos pastores geram uma dependência dos membros em relação à sua pessoa quando deveriam gerar nos membros uma dependência exclusiva em relação à pessoa de Deus. Há muitos casos de igrejas que fecham suas portas quando o seu pastor vai embora. Há também o caso de pastores que não podem tirar férias porque ninguém na igreja tem condições de assumir os trabalhos nos dias em que ele estiver fora. Tais pastores são escravos de seus corações que querem ser  aplaudidos, amados e bajulados pelos membros, e por isso mesmo fazem tudo sozinhos, não delegam serviço, não discipulam e nem preparam outros porque não querem dividir a glória. A igreja não deve depender do pastor, mas, da Palavra de Deus. Certa vez ouvi alguém dizer que o seu pastor era fraco de púlpito e que seus sermões eram repetitivos e rasos. Eu então lhe perguntei porque estavam com ele a tantos anos. A resposta dele foi: “O tal pastor visita muito as ovelhas”. Vejam bem, não sou contra fazer visitas para as ovelhas, aliás, julgo isso de extrema importância e necessidade. Porém, quando um pastor ensina a igreja a depender mais dele do que da Palavra (e um pastor que faz muitas visitas pouco tempo terá para se preparar para o ensino e pregação), está cometendo um grave erro que trará sérias consequências para a igreja (Jr 17.5-6)

 

Conclusão

Se a sua igreja estiver no processo de eleição pastoral, medite com seus irmãos sobre tudo o que foi dito aqui. Não procurem por “pastores legais”; procure por pastores bíblicos, que sejam servos de Deus, pois só assim estarão dispostos a servir a Igreja de fato.

Se a sua igreja tem um pastor que atende a todos esses requisitos, louve a Deus, apoie seu pastor e encoraje-o a continuar assim. A igreja que tem um pastor assim pode se considerar muito abençoada por Deus.

 

 

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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2 Responses to COMO UMA IGREJA DEVE ESCOLHER SEU PASTOR

  1. Roberto says:

    Ótimo artigo! E um ótimo tema! Bem legal essa abordagem de como a igreja deve escolher o pastor.

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