Compreendendo a extensão do pecado – Considerações bíblico-teológicas sobre o livre arbítrio

*** Fazendo justiça, com base no comentário do Pr. Georges Nogueira sobre os escritos de Jacó Armínio, quero aqui fazer uma correção. O paragrafo que está em azul foi o texto original que escrevi e resolvi mantê-lo até mesmo por uma questão de honestidade. Contudo, faço aqui uma alteração neste texto. É fato que o que muito se fala tanto sobre João Calvino quanto sobre Armínio é da lavra de terceiros. Eu particularmente não conheço nenhuma obra de Armínio (até mesmo porque curiosamente, sua teologia se espalhou em solo brasileiro sem nada ou quase nada do que ele escreveu ter sido traduzido para o nosso vernáculo). Portanto, o que eu conheço sobre o Arminianismo é da lavra de arminianos e não do próprio Armínio.  Contudo, deixo o espaço aberto aqui ao meu querido irmão Pr. Georges para publicar qualquer texto de Armínio especialmente os que falarem sobre o assunto desse post.

Um dos assuntos mais debatidos no meio teológico e nas igrejas é a questão do livre arbítrio. Os adeptos da linha teológica conhecida como Arminianismo em decorrência do seu principal proponente, Jacó Armínio, teólogo holandês da época da Reforma Protestante, cujos escritos e ensinamentos afirmavam que o ser humano mesmo após a Queda de Adão e Eva (e consequentemente, de toda a humanidade) ainda tem o livre arbítrio, e, por isto ele tem liberdade para fazer escolhas.

Do outro lado estão os teólogos da Reforma Protestante adeptos do Calvinismo, nome este dado em decorrência do grande teólogo reformado, o suíço João Calvino, cuja teologia é o alicerce de todos os ensinamentos da Reforma Protestante. Os calvinistas e todas as outras linhas reformadas afirmam que o livre arbítrio foi uma realidade somente para três pessoas: Adão, Eva e o Senhor Jesus Cristo. Os dois primeiros fizeram mau uso do seu livre arbítrio e condenaram consigo toda a humanidade; já o Senhor Jesus Cristo que é chamado de “o segundo Adão” (1Co 15.45) do qual o primeiro Adão era uma prefiguração (Rm 5.14), por meio de Sua vida, morte e ressurreição nos fez “nova criação” (2Co 5.17) concedendo-nos assim a vitória sobre o terrível senhor de nossas vidas, o pecado, do qual éramos escravos.

Os Reformadores sintetizaram bem a questão em quatro etapas.

 

1ª Etapa – Antes da Queda: “Eu posso pecar”.

Ressaltamos aqui que o pecado como uma possibilidade e não como uma permissão. Antes da Queda, o homem convivia com a possibilidade de peca, e tanto é que acabou pecando. Adão e Eva tinham o livre arbítrio, ou seja, eles tinham condições de escolher pecar ou não. Eles eram verdadeiramente livres, pois, nem o Bem e nem o Mal exerciam influência tal sobre eles a ponto de terem suas decisões afetadas. No momento em que Satanás lhes sugeriu o pecado, Adão e Eva tinham total condição de recusar. Porém, decidiram fazer a sua própria vontade em vez da vontade de Deus. E desde então, todos os seres humanos estão buscando realizar sua própria vontade, a qual, na verdade é escrava do diabo (Jo 8.44).

2ª Etapa – Pós Queda: “Eu não posso não pecar”.

Nessa etapa, o homem não tem qualquer condição de evitar o pecado. É a fase antes da conversão. É o resultado da Queda dos nossos pais Adão e Eva. Neste estado o homem é completamente escravo do pecado, do diabo e de si mesmo, pois, seu coração sequer percebe a sua pecaminosidade. Resistir à tentação lhe é impossível, porque esta é incomparavelmente mais forte que o homem. Aliás, ele nem pensa em resistir à tentação pelo simples fato de que ele não vê nada errado na tentação. Na linguagem de Ef 2.1, ele está morto espiritualmente em seus delitos e pecados, e como um defunto, só lhe resta apodrecer e feder.

3ª Etapa – Pós Cristo: “Eu posso não pecar”.

Nesta etapa de sua vida, o homem agora convertido a Cristo Jesus, não é mais escravo do pecado, mas, sim, escravo de Cristo. Seu Bendito Salvador tornou-Se agora o seu supremo Senhor, capacitando-o por meio do Seu Santo Espírito a vencer o pecado, a dizer “não” para o pecado, tornando possível ao convertido evitar o pecado. Mas, como isso é possível? Em Rm 8.13-17 lemos: 13 Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis. 14 Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.  15 Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes, outra vez, atemorizados, mas recebestes o espírito de adoção, baseados no qual clamamos: Aba, Pai.  16 O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.  17 Ora, se somos filhos, somos também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo; se com ele sofremos, também com ele seremos glorificados”. Somente uma vida submissa ao Espírito Santo nos dá as condições de vencermos o pecado, de dizermos-lhe “não”, pois, agora, o nosso senhor é outro, é o Senhor Jesus Cristo. É isso que a Bíblia chama de “Santificação”.

4ª Etapa – A Glória Eterna: “Não posso mais pecar”.

Como alguém disse: “O céu é onde somente os amigos estarão, e os inimigos ficarão de fora”. Lá o pecado não será mais uma realidade, mas, somente algo que um dia existiu em nossa vida. Lá não teremos mais nenhum pecado, e, jamais seremos tentados. A Bíblia chama este estado de “Glorificação”. Infelizmente, muitos crentes vivem cabisbaixos, esmorecidos e frustrados na sua luta contra o pecado porque na realidade estão tentando trazer para 3ª etapa de suas vidas, as realidades da 4ª etapa. Neste mundo, ainda que por meio de uma submissão total ao Espírito Santo possamos vencer o pecado, ele não deixa de ser uma realidade sempre presente em nós e nas outras pessoas; ora sofreremos com as consequências dos nossos pecados, ora com as dos pecados dos outros. Somente na Glória Eterna é que o pecado nunca mais nos atormentará!

Finalizando, ainda é preciso mencionarmos que: (1) o termo “livre arbítrio” não aparece sequer uma vez na Bíblia, (2) se eu tivesse mesmo o livre arbítrio como dizem os arminianos, a primeira escolha que eu faria era nunca mais pecar, pois, isso me evitaria muitos transtornos! O crente que alega ter livre arbítrio quando peca está simplesmente mostrando que pouco se importa com a vontade de Deus, pois, sequer lutou contra o pecado, antes, cedeu a ele.

Rev. Olivar Alves Pereira

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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