Considerações sobre a razão e a emoção no exercício da Fé

Avaliando o cenário evangélico brasileiro, tanto os movimentos chamados de “carismáticos” nos quais as experiências são marcadas por forte emocionalismo, e na mesma proporção são irracionais, quanto os movimentos tidos como “ortodoxos” nos quais um racionalismo carnal e muitas vezes arrogante chega ao desplante de querer explicar Deus com suas fórmulas teológicas tão áridas quanto um deserto, não posso deixar de pensar no que consiste o chamado de Cristo para o Seu povo.

Cristo os chamou para sermos simples, mas não simplórios.

Cristo nos chamou para sermos modestos, mas não ridículos.

Cristo nos chamou para sermos humildes, mas não complexados.

Cristo nos chamou para sermos diferentes, mas não esquisitos.

Cristo nos chamou para sermos cidadãos dos céus, mas não extraterrestres.

Cristo nos chamou para sermos sábios, mas nunca aos nossos próprios olhos.

Cristo nos chamou para sermos mansos de espírito, mas não covardes.

Cristo nos chamou para sermos frugais, mas não pródigos.

Cristo nos chamou para a santidade, e nunca para o isolamento.

Cristo nos chamou para a sinceridade, mas não sem o amor.

Cristo nos chamou para o amor, mas não sem a firmeza.

Cristo nos chamou para usarmos a razão, mas não sem a emoção.

Cristo nos chamou para emoções extraordinárias, mas não sem entendimento.

Cristo nos chamou para refletirmos Sua luz, mas nunca a nossa (até mesmo porque sem a luz de Cristo somos trevas).

Cristo nos chamou para a Sua Glória, mas nunca para a roubarmos Dele.

Cristo nos chamou para a Sua grandiosidade, mas para nunca nos esquecermos quão pequeninos somos.

Cristo nos chamou para o discernimento, mas não com arrogância.

Cristo nos chamou para a mortificação do nosso eu, antes de ajudarmos o nosso irmão a mortificar sua carne.

Essas considerações apontam para o perigo de um coração fervoroso em suas emoções, mas, praticamente desprovido de entendimento bíblico, e por isso mesmo é raso. como alguém disse: “A teologia brasileira é quilométrica em sua extensão, mas, a sua profundidade é de alguns milímetros”. São comportamentos que nem de longe lembram o Verdadeiro Evangelho. Urros, gemidos, grunhidos, unções de tudo o que é jeito, e tudo, tudo desprovido de base bíblica. A Bíblia que é a única regra de fé é prática para os “protestantes” (como eram chamados os “crentes” antigamente) já não é mais tão importante assim, pois, o que conta mesmo é se a pessoa está “sentido” algo diferente. Logo, tudo o que aponta para o exercício da razão é totalmente descartado pelos carismáticos. “Se é gostoso, então vamos praticar”, dizem.

No outro extremo está a mente que se entrega ao estudo teológico, que tem um forte apelo racional e é capaz de elaborar fórmulas que satisfazem aqueles que têm o desejo de conhecimento porque como alguém disse: “Conhecer é dominar”. Neste extremo, o pecado está em fazer de Deus um mero objeto de estudo e se esquecer que Ele vai muito além, infinitamente além do que nossa pobre mente pequena, limitada pelo tempo e espaço pode compreender. Se é inteligível é crível. Neste grupo, as emoções encontram pouco ou nenhum espaço. O medo de perder o controle da situação muitas vezes está camuflado numa atitude ortodoxa. Não há espaço para as emoções, apesar da Bíblia nunca as condenar.

É certo que não devemos incitar as emoções no culto a Deus, mas, é igualmente perigoso sufocá-las. Afinal somos seres dotados com razão e emoção. Creio que o motivo pelo qual o meio carismático agrega mais pessoas do que o ortodoxo está justamente nessa questão: a emoção têm mais poder de nos atrair do que a razão. Seja o choro ou a alegria eles são muito mais chamativos do que a razão, porque esta exige exercício, e em tempos como os nossos nos quais pôr a mente para funcionar é uma atividade nada chamativa e por isso mesmo foi substituída pelo relativismo que é preguiçoso e por isso mesmo em vez de investigar onde está a verdade prefere dizer que ela está nas mãos de todos (assim encerra-se qualquer discussão).

Na História sempre vemos um ciclo: um período de obscurantismo onde reina a superstição e o medo em relação aqueles que são vistos como os representantes de Deus, como aconteceu na Idade Média, seguido por um movimento reformista que ousa questionar tais superstições chamando as pessoas para o exercício da Fé na Palavra de Deus, mas de uma Fé provida de entendimento e exercício da razão dentro do que nos é possível compreender acerca da Revelação Divina, como foi o caso da Reforma Protestante do Século XVI, que por fim é seguido por um movimento no qual há um apelo aos sentimentos, pois, no período reformista houve forte ênfase à razão, e assim, a fé ficou “mecânica” demais fazendo-se necessária a emoção para dar mais “sabor” à fé, exemplo disso foi o movimento Pietista (1650 – 1800).

Diante de tudo isso eu tenho o seguinte posicionamento: exercito a minha razão sem deixar de contemplar a Grandiosidade de Deus diante do qual minhas emoções afloram, mas não permito se descontrolarem, porque uma das características do Fruto do Espírito é o domínio próprio e Ele mesmo diz: “Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas” (1Coríntios 14.32). Também não sufoco minhas emoções. como não me emocionar quando falo do sacrifício de Cristo? Como permanecer gelado diante da narrativa do amor de Deus por mim? Contudo, quando me faltam as palavras não fico emitindo grunhidos e urros como um doido qualquer.

Que a razão seja exercitada no estudo da Palavra de Deus para que as verdadeiras emoções que glorificam a Deus de verdade aflorem para a glória Dele e não para ridicularizá-Lo diante de pecadores miseráveis.

Rev. Olivar Alves Pereira

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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