Cristo e a Sua Gloriosa Igreja – 13ª Mensagem

Ef 4.1-6

O cuidado com a unidade da Igreja

Cristo e a Sua Gloriosa Igreja – 13ª mensagem (Ef 4.1-6)

Um conceito muito errado que se instalou na mente de muitos crentes é o de que doutrina bíblica nada tem de prático, ou seja, é só teoria, coisa que teólogo gosta de discutir, mas, que, no dia a dia nada tem a nos oferecer de prático. Essa concepção errônea é culpa tanto da liderança como dos membros da Igreja. A liderança por tratar de assuntos tão importantes, mas, de forma densa e até mesmo pedante, e os membros por não se esforçarem para conhecer mais e mais das verdades bíblicas que sustentam a nossa fé.

Porém, tal dicotomia nunca existiu nos escritos bíblicos. Exemplo disso é a carta aos Efésios onde vemos que do Cap.1 – 3 Paulo apresenta profundas doutrinas da Fé Cristã e, a partir do Cap.4 – 6 vemos como essas doutrinas são aplicadas ao nosso dia a dia. Na primeira metade ele falou sobre A Graça de Deus revelada em Cristo à Sua Igreja, e agora, na segunda metade ele fala sobre A Graça de Deus revelada em Cristo através da Sua Igreja.

Do Cap.4.1 – 6.9 Paulo trata do nosso Zelo pela nova condição de vida em Cristo, mostrando o quanto somos responsáveis por isso. Para a nossa meditação nessa ocasião veremos o Cap.4.1-6 cujo assunto é: O cuidado com a unidade da Igreja.

Até Ef 6.9, veremos a aplicabilidade dessas doutrinas às várias relações na vida do crente com as quais ele deve ser zeloso, pois, que em Cristo, ele recebeu uma nova condição de vida. Os efésios eram gentios, e como tais, estavam separados da família de Deus. Em Cristo, eles foram reunidos à família de Deus a qual era composta apenas pelos judeus. Agora, ambos são a Família de Deus; a única e una Família. Antes, estavam alienados e separados; agora estão unidos a Cristo.

A primeira área dos relacionamentos a serem aplicados os ensinamentos da seção anterior, diz respeito à vida na Igreja, à comunhão e união fraternal (Ef 4.1-16).

A unidade interna da Igreja é:

1)      Preservada pelo comportamento digno dos crentes, v.1-3

Em conexão com o que ele disse até aqui sobre a Graça de Deus que foi revelada em Cristo à Sua Igreja, Paulo então diz: “Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados” (v.1).

O verbo “rogar” (parakalw/) denota a vontade de Paulo que apela ao coração; ao mesmo tempo, é calorosa, pessoal e urgente. Era de suma importância que os efésios entendessem não só a necessidade, mas, também a urgência de um comportamento “digno” (avxi,wj) (trazendo a ideia de pratos que se equilibram numa balança). Andar com dignidade então quer dizer sempre conferir as coisas ao nosso redor com o que diz a Palavra de Deus.

É importante ressaltar a situação em que Paulo se encontrava enquanto exortava os efésios. Ele estava preso. Que dignidade pode um prisioneiro exigir de outras pessoas? A não ser que o motivo da sua prisão também seja algo honroso! Este era o caso de Paulo. Ele era prisioneiro “no Senhor”, ou seja, por causa do Senhor ele estava preso. Por ser fiel ao Senhor Jesus, Paulo se achava agora na prisão. Por esta razão tinha toda a autoridade para exortar os efésios e serem fiéis também ao Senhor Jesus. Comportar dignamente é o mesmo que viver fielmente a Cristo. Foram chamados para mostrarem sua fidelidade a Cristo, e, portanto, deveriam viver assim.

Eles haviam sido predestinados para serem adotados na Família de Deus (cf. 1.5), então, que se comportassem como filhos adotivos de Deus para a glória Dele.

Desta forma, temos aqui um princípio que norteará todas as outras recomendações que seguem até o final desta seção. Quem se comporta dignamente por causa da vocação a que foi chamado, glorificará o nome de Cristo em todas as relações interpessoais.

Os crentes foram chamados a se assentarem com Cristo nas regiões celestiais, por isso, enquanto neste mundo viverem devem refletir esta maravilhosa glória a que foram chamados.

Nos v.2,3 Paulo apresenta uma lista de virtudes que devem estar presentes em nossos relacionamentos como Igreja de Cristo.

Humildade (tapeinofrosu,nh): tendo sido alvos de uma graça tão maravilhosa, resta aos pecadores um viver humilde, pois, não há nada neles que os faça merecer a mesma. Observe a ênfase: “toda humildade”.

Mansidão (prau<thtoj): o indivíduo manso é lento para reivindicar seus direitos perante os homens, e perante Deus, jamais os reivindica, pois, sabe que sua salvação é obra da Livre Graça de Deus. Ele prefere sofrer o dano a causa-lo (1Co.6.7). A humildade gera mansidão e a mansidão gera:

Longanimidade (makroqumi,a): na igreja primitiva era necessário enfatizar esta virtude, quando então os crentes sofriam incompreensão, aspereza e crueldade por parte daqueles que não eram crentes. No caso de uma mulher crente casada com marido não crente que consentia em viver com ela, a mesma deveria ter muita longanimidade no trato com ele (1Co.7.13).

Tolerância: o particípio “suportando-vos” vem do grego avneco,menoi, a palavra indica ter paciência com alguém até que termine a provocação. Este ato de “suportar” deveria ser realizado “em amor”. Dessa forma eles deveriam ser clementes com as fraquezas uns dos outros. Algo que é muito importante na Igreja de Cristo é a clemência de uns para com os outros, o que não significa fazer vistas grossas ao pecado, mas auxiliar um ao outro a vencer suas fraquezas e pecados.

Esforço em manter a unidade: não um mero esforço, mas, sim um esforço completo, ao máximo, para que seja mantida a unidade interna da Igreja promovida pelo Espírito Santo através do “vínculo da paz”. Em Rm 12.18 lemos: “se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens”. Devendo haver este empenho no tocante a “todos os homens”, muito mais deve haver no tocante a todos os irmãos em Cristo, por que a união destes se dá pela ação do Espírito Santo que vincula e une todos por meio da paz. A unidade que foi conquistada através da obra de Cristo (Ele estabeleceu a paz entre nós e Deus, e entre judeus e gentios) deve ser mantida com todo o esforço. Infelizmente, muitos crentes parecem não se importar com essa verdade, e em vez de se empenharem para manter esta unidade, acabam por promover ainda mais divisão e facção dentro da Igreja de Cristo.

Quando os crentes se empenham com toda dedicação e esforço para manterem a unidade da Igreja de Cristo, comportar-se-ão com humildade, mansidão, longanimidade e tolerância para com aqueles que são mais fracos, visando o fortalecimento deles. Através de um modo digno de viver, o qual honra ao Senhor Jesus, a Igreja glorifica o Seu nome. O fato de Paulo ter rogado aos efésios, pedindo-lhes para que se esforçassem neste objetivo, demonstra que esta tarefa não somente é importante como também urgente na vida da Igreja. A melhor forma de trazermos as pessoas para Cristo, ainda continua sendo com a nossa vida que confirma as nossas palavras quando pregamos o Evangelho.

A unidade interna da Igreja é:

2) Gerada pela ação do Deus Triúno, v.4-6

Estes versos tocam num ponto que temos enfatizado desde o início de Efésios: é Deus que opera em nós tanto o querer quanto o realizar.

Obviamente, Paulo está se referindo aqui à Igreja de Cristo quando diz que “há somente um corpo”. Embora sejamos muitos, somos apenas um diante de Deus. E neste Corpo opera somente “um Espírito”, e este é o Espírito Santo de Deus.

A origem dessa Igreja não é humana, mas, sim divina. Foi a ação de Deus fazendo de todos um só corpo, colocando neste “corpo” o Seu único Espírito Santo. A seguir, Ele chamou externamente sua Igreja, e internamente esta vocação se processou, gerando nos seus corações a única esperança eterna.

Um tema frequente na carta aos Efésios é “em Cristo” ou “estar em Cristo”. Para isso se faz necessário estar na Sua Igreja, a qual é o Seu corpo. Não valorizar a Igreja de Cristo (não estamos nos referindo à denominação eclesiástica, mas sim, à Igreja Real) é o mesmo que não dar o devido valor a Cristo. Daí a realidade de que precisamos estar unidos uns aos outros e em Cristo. A verdadeira união é tanto com Deus quanto com nossos irmãos. A unidade da Igreja está também no fato de que o mesmo Espírito Santo habita o coração de todos os membros. Por isso, o resultado não pode ser outro senão, todos terem a mesma esperança. Por esta razão, todos quantos experimentam tal unidade na Igreja de Cristo, não consideram perda de tempo e desnecessário todo o esforço para manter esta comunhão por meio da unidade interna da Igreja.

“há um só Senhor” e Ele é Jesus Cristo. Ele é o dono, proprietário e soberano sobre tudo que há neste universo.

Há também “uma só fé” e esta refere-se à confiança nas promessas de Cristo, as quais formam o corpo doutrinário da Igreja, pois, esta prega as promessas de Cristo.

Quanto a “um só batismo”, Paulo não está falando aqui contra as formas aspersão, imersão e efusão, mas, sim, do significado do batismo: regeneração, nova vida em Cristo. Assim, tanto a cerimônia do batismo quanto o batismo no Espírito Santo que acontece no momento da conversão do pecador têm o mesmo significado: Nova Vida em Cristo, assunto central nesta segunda parte da carta.

Paulo já falou do Espírito Santo e do Senhor Jesus. Agora (v.6), completa seu argumento falando do Deus Pai.

O pensamento de Paulo é muito bem estruturado. A primeira seção de sua carta começa mostrando a ação da Trindade Santa na salvação dos pecadores. Na segunda seção começa falando da ação da Trindade Santa na unidade da Igreja de Cristo.

“Um só Deus e Pai de todos”. Logicamente, este texto não está pregando universalismo. O adjunto pronominal “todos” refere-se aos judeus e gentios, ou seja, todos os dois grupos, e não cada indivíduo na face da terra.

“o qual é sobre todos”. O mesmo Deus que habitou com os judeus no deserto é o mesmo que habita agora nos gentios (Ef 2.22).

“age por meio de todos”. Tanto os judeus como os gentios, todos são instrumentos nas mãos de Deus. Ele age por meio de todos eles, afinal, todos (judeus e gentios) são agora a Igreja Gloriosa do Senhor Jesus Cristo e é através da Sua Igreja que Deus expande Sua glória na terra.

“e está em todos”. Alguém já disse com muita propriedade que a obra que Deus tem para realizar em nós é muito maior do que aquele que Ele tem para realizar através de nós. Deus age tanto nos judeus como nos gentios, pois, ambos são um só corpo em Cristo.

O Deus Triúno age em Sua Igreja. Como corpo de Cristo temos por meio do Espírito Santo a esperança. Ele é o penhor da nossa salvação. Ele em nós fortalece a nossa esperança de que Cristo voltará para nos buscar. Por meio de Cristo temos a mesma fé e o mesmo batismo. E por meio de Deus temos a certeza de que Ele é nosso Pai, que Ele está sobre nós e age em e através de todos nós. Em outras palavras, a unidade da Igreja nada mais é do que um reflexo da unidade do Deus Triúno.

Implicações e Aplicações

O que Deus quer que você faça?

1)      Cuide de si mesmo. Seja maduro. Deus lhe deu todos os recursos para isso.

2)      Andando de modo digno. Você fará muito bem à Igreja de Cristo se mantendo fiel a Ele.

3)      Confiando somente em Deus. Você deve depender somente de Deus. É impossível honrá-Lo confiando em si mesmo.

Conclusão

A unidade da Igreja de Cristo é obra Dele; manter essa unidade é o nosso dever.

Rev.Olivar Alves Pereira

São José dos Campos, 23 de dezembro de 2012

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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