Cristo e a Sua Gloriosa Igreja – 14ª Mensagem

Ef 4.7-16

Entendendo os dons concedidos à Igreja de Cristo

Cristo e a Sua Gloriosa Igreja – 14ª mensagem (Ef 4.7-16)

Na mensagem anterior vimos que o assunto central é a unidade da Igreja de Cristo. Neste presente parágrafo o tema principal é a diversidade, variedade e a unidade dos dons que Cristo concedeu à Sua Igreja. Na unidade da Igreja temos a diversidade como um dos elementos principais. A singularidade da Igreja de Cristo é sustentada pelo Seu poder que opera na diversidade dos dons que Ele concedeu à Sua Igreja.

Você sabe qual o dom que Cristo lhe deu quando Ele o salvou? Quando Ele converte um coração Ele também o capacita com dons, habilidades e talentos com um propósito específico: glorifica-Lo através do serviço na Igreja edificando outras vidas.

Por isso, meditaremos hoje sobre: Entendendo os dons concedidos à Igreja de Cristo. O que devemos saber sobre os dons para coloca-los em prática e assim honramos a Cristo?

1)      A variedade dos dons na Igreja de Cristo,

v.7-10

Algo muito importante que precisamos entender sobre os dons é que Cristo concedeu como dons aqueles que foram comprados por Seu sangue. Cada crente é um dom de Deus à Sua Igreja. Muito mais do que talentos que uma pessoa possa receber de Cristo, é a própria pessoa que é dada por Cristo à Sua Igreja, para que através da mesma (da Igreja) a pessoa venha servi-Lo. Na Igreja de Cristo há uma variedade tremenda de dons (pessoas!).

Não penso que isso seja um “antropocentrismo”, mas, sim, reconhecer o valor que cada crente tem aos olhos de Deus, especialmente depois que Cristo o salvou. Vejamos o que dizem esses versos.

No v.7 lemos: E a graça foi concedida a cada um de nós segundo a proporção do dom de Cristo”. Em outras palavras, Cristo distribuiu a Sua graça a cada membro de Sua Igreja dentro dos limites determinados por Ele mesmo. Como bem observa Francis Foulkes: “Deus não estabeleceu uniformidade, mas uma variedade infinda de dons para os membros do corpo, porque, em Sua sabedoria, quer que cada um dependa dos outros” (Comentário do NT 2005, p.95).

Paulo estava mostrando aos efésios que Deus não trabalha com uniformidade, mas com unidade; não edifica a Sua Igreja com o dom de um único membro, mas, com a diversidade de dons que concedeu a todos os membros, isto para que haja no coração de cada membro um forte sentimento de interdependência.

Willian Hendriksen ressalta que cada membro deve reconhecer que seu dom é uma dádiva de Deus e não resultado de seu próprio esforço; que é apenas um dom entre muitos, e que é limitado em seu alcance; e por fim, que deverá usá-lo não para sua autopromoção, mas, para a edificação da Igreja e para a glória de Deus (Comentário do NT, 2005, p.223).

Na mente de cada cristão, não importando a época em que este viva, deve ficar bem claro que os dons que cada um tem são dados por Cristo para unir a Igreja e não para exaltação deste ou daquele membro. Todos quantos se portaram com soberba em relação aos dons recebidos, foram derrubados por Deus; a História está cheia de exemplos!

Poderia alguém questionar: “Como pode aquele galileu, um simples carpinteiro, que morreu de forma tão humilhante, conceder dons tão maravilhosos às pessoas?”. E Paulo então, responde com os v.8-10. O que ele está dizendo aqui é que não resta dúvida alguma. Para que Cristo tivesse subido aos céus (referência clara à Sua ressurreição), Ele precisou antes, descer até à terra, Se submeter à forma de servo e ser obediente ao Pai até o fim, para que depois de Sua morte, fosse pelo Pai, ressuscitado dentre os mortos e recebesse o Nome mais sublime, mais poderoso e mais glorioso que existe, tendo assim todo o poder e condição de outorgar à Sua Igreja os dons de que ela necessita para seu crescimento e fortalecimento.

O v.8 é uma citação do Sl 68.18. Willian Hendriksen sintetiza muito bem o pensamento aqui. Ele lembra que na antiguidade, quando um rei saía para guerrear contra outro, o vencedor trazia os despojos, ou seja, os bens que adquirira com a vitória sobre o adversário. Em chegando ao seu reino, o rei vitorioso distribuía os despojos com o povo. Paulo então, orientado pelo Espírito Santo, toma o Sl.68.18 e faz uma aplicação muito prática: Cristo veio ao mundo venceu os nossos inimigos e tomou-nos para Si mesmo e em seguida deu a cada membro que foi comprado com Seu sangue, dons, e até mesmo deu cada membro como dom de Deus à Sua Igreja (Comentário do NT, 2005, p.226). Dessa forma, cada crente não somente tem um ou mais dons, como ele próprio é um dom de Cristo para Sua própria Igreja.

A expressão “…levou cativo o cativeiro…” é muito significativa. A palavra “cativeiro” (aivcmalwsi,a) é o mesmo que “aqueles que estavam cativos”. Ele os libertou e os levou cativos com Ele, como numa grande procissão, cada crente estando preso a Ele. Como pode ser visto em outras partes no Novo Testamento, Jesus nos libertou do império das trevas e nos comprou para Ele; não fomos libertos dos pecados para vivermos de qualquer maneira, mas, para servirmos a Cristo (Ap 1.5 e 6; Cl 1.13 e 14).

E assim, cada crente dotado com dons e talentos concedidos pelo Senhor Jesus coopera para através de Cristo atuar na Igreja “para encher todas as coisas”, ou seja, completar a Igreja de Cristo e aperfeiçoá-la, como veremos nos próximos versos.

Outra verdade sobre os dons é

2) A necessidade dos dons na Igreja de Cristo, v.11-14

No v.11 não temos uma classificação hierárquica, mas, sim, uma qualificação estrutural da liderança da Igreja. Os quatro ofícios aqui são: apóstolos, profetas, evangelistas e pastores/mestres. Cada um atuando numa área específica e contribuindo para o crescimento da Igreja. Nem todos esses ofícios continuaram, por exemplo, o de apóstolos. O que se tem hoje como “ofício apostólico” é uma exibição de vaidade e nada mais. Vejamos a descrição de cada dom alistado aqui.

“Apóstolos” do grego  (avposto,louj) que quer dizer “enviados, delegados”. Originalmente, este ofício diz respeito apenas àqueles que foram comissionados por Cristo pessoalmente. Contudo, temos alguns casos “extras”. Paulo foi chamado por Cristo algum tempo depois da Sua ascensão (At.9.1-9). Em At 14.14, Barnabé é chamado de “apóstolo”. Contudo, em nossos dias haja um frenesi por posições e status entre os homens, pois, muitos não contentando com o “título” de pastor, ou bispo (o mesmo que presbítero) têm se intitulado “apóstolos”, não no sentido de ser um missionário, um enviado de Cristo a falar àqueles que ainda nada sabem sobre Ele, mas, sim, como “superiores”, “administradores”, etc. Todos quantos são reconhecidamente apóstolos à luz das Escrituras, foram pessoas investidas de autoridade para trazerem a revelação da Doutrina do Evangelho aos homens. Intitular-se apóstolo é o mesmo que dizer que a Bíblia ainda não está completa e que mais revelações da parte de Deus estão acontecendo. Isso contraria a Bíblia explicitamente (Gl 1.8; Ap 22.18,19).

“Profetas” do grego (profh,taj). Novamente, aqui é no sentido restrito, são os órgãos ocasionais de inspiração, por exemplo, Ágabo (At 11.28; 21.10 e 11). Os profetas estão ligados aos apóstolos como sendo “o fundamento da Igreja” (veja o comentário de Ef 2.20 e 3.5). Eles podiam de vez em quando falar coisas referentes ao futuro desconhecido, mas, em geral, como os profetas do Antigo Testamento, se encarregavam de proclamar a Palavra de Deus e denunciar o pecado dos homens. Num sentido mais abrangente, todo crente é um profeta (pelo menos todo crente obediente a Deus que prega a Palavra!).

“Evangelistas” do grego (euvaggelisth,j). Estes eram uma espécie “missionários itinerantes”. Apenas dois homens em todo o Novo Testamento são descritos como evangelistas: Filipe (At 6.2) e Timóteo (1Tm 4.14) que fora exortado por Paulo para cumprir a obra de um evangelista. Francis Foulkes admite que os evangelistas são aqueles enviados a levarem os ensinamentos que receberam dos apóstolos, e não suas (dos evangelistas) próprias doutrinas. Um evangelista era a pessoa que pregava o Evangelho recebido dos apóstolos. Ele era, particularmente, um missionário que levava o evangelho a novas regiões.

“Pastores e Mestres” do grego (poime,naj kai. didaska,louj). Francis Foulkes admite que as palavras “pastores e mestres” descrevem os ministros da igreja local, enquanto que “apóstolos, profetas e evangelistas” descrevem a Igreja Universal. Todo pastor deve estar e ser apto a ensinar. O pastor cuida do rebanho protegendo-o dos inimigos; isto ele faz através da Palavra de Deus a qual ele deve ensinar (ofício do mestre) às ovelhas.

Todos esses dons (todos relativos à pregação da Palavra de Deus) foram dados “com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo” (v.12).

O aperfeiçoamento aqui traz a ideia de uma preparação adequada, ou seja, cada crente é colocado por Cristo numa posição estratégica dentro da Sua Igreja, para que este desempenhe um serviço visando a edificação de todo o Corpo.

Dessa forma precisamos uns dos outros para crescermos juntos e adequadamente em Cristo, “até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (v.13). Nosso alvo é Cristo. Nosso esforço deve ser para nos tornarmos cada vez mais parecidos com Cristo (Rm 8.28-30). Ele é a “perfeita varonilidade”, ou seja, o homem adulto e pleno que contrasta com os “meninos agitados” que somos, que se deixam levar por qualquer “vento de doutrina e artimanha dos homens, pela astúcia dos que induzem ao erro” (v.14). A Igreja atinge a unidade da fé e do pleno conhecimento de Cristo quando decide viver para a glória Dele somente, quando deixa as disputas infantis e caminha sob a autoridade da Palavra de Deus ministrada pelos ofícios alistados no v.11.

Porém, quando a Igreja não caminha coesa com sua liderança, e a liderança não se submete totalmente à Palavra de Deus o resultado será a imaturidade e a inconstância na fé. Tal grupo não poderá se manter em pé e nem mesmo se identificar como “a Gloriosa Igreja de Cristo”.

Cada crente quando executa o seu papel na Igreja contribui para o crescimento completo da mesma. Dessa forma, na sua individualidade, cada crente contribui para a coletividade da Igreja. Que cada crente antes de se achar “dispensável” e sem importância, avalie com sinceridade e honestidade as palavras destes versos. Cristo colocou cada um de nós na Sua Igreja a fim de que não somente crescêssemos, mas, que, também, ajudássemos uns aos outros a crescerem conforme o nosso padrão celeste: Jesus Cristo.

Por fim, outra verdade sobre os dons é

3) A unidade dos dons na Igreja de Cristo, v.15,16

Novamente Paulo retoma o assunto da unidade da Igreja. Enquanto os ímpios se valem da mentira (engano) os membros do Corpo de Cristo devem se valer tão somente da verdade e isto “em amor”. A verdade tem de ser dita com amor. Quando dizemos (e vivemos) a verdade, podemos ser duros e até machucarmos as pessoas mesmo que não haja essa intenção em nosso coração. Mas, quando o amor entra em cena, ele não somente torna a nossa repreensão mais aceitável, como também nos faz ser mais afetuosos e caridosos em corrigir e admoestar os outros.

Nosso crescimento como Igreja de Cristo deve estar totalmente relacionado com Ele que é a Cabeça desse Corpo. Devemos crescer “em tudo” e isso nos lembra novamente a plenitude de Cristo de que tanto Paulo fala nesta carta.

Ele é a “parte” em destaque. É ele quem promove todas essas bênçãos à sua Igreja, por isso mesmo Paulo continua mostrando que em Cristo: “todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (v.16).

Primeiramente, todo o corpo precisa estar articulado e vinculado por meio de toda junta, ou seja, todos os membros deste Corpo são importantes. Que isso seja levado em conta não para a vaidade pessoal e vanglória, mas, para se compreender a responsabilidade de cada membro – só haverá o crescimento desejado pelo Senhor Jesus, quando todos os membros estiverem devidamente unidos e vinculados.

Em segundo lugar, quando ocorre esta união perfeita dos membros entre si e de todos com a Cabeça, cada membro recebe o suprimento de que necessita na sua individualidade, através do qual toda a Igreja aumentará e crescerá na sua coletividade. Dessa forma, Cristo como a cabeça, não somente rege este Corpo como também o supre poderosamente com a energia (poder) de que necessita.

Como vimos, os “dons” neste texto são as pessoas que foram salvas por Cristo Jesus e colocadas estrategicamente em Sua Igreja para que cada um coopere para o crescimento de todos.

A unidade dos dons (pessoas) não diz respeito à uma uniformidade na aparência, mas, sim, de propósito. Não existe um ser humano igual ao outro. Dentro da Igreja de Cristo não há uma pessoa igual à outra. Contudo, apesar das nossas diferenças todos nós temos um só propósito: crescermos em tudo em Cristo que é a Cabeça desse Corpo.

Fomos unidos por Cristo lá na cruz (Ef 2.16) e é nosso dever manter essa unidade (Ef 4.3). E ela será mantida quando cada um de nós olhar não para suas habilidades, mas, sim para Cristo que nos redimiu e nos fez verdadeiros dons para Si mesmo. Assim, não perderemos de vista o propósito Dele para nós: glorifica-Lo acima de tudo.

Implicações e Aplicações

O que Deus quer que você faça com relação aos seus dons?

1) Entenda que você é um dom de Cristo para Igreja. As habilidades e talentos não têm qualquer valor se não existirem pessoas para exercitá-los para a glória de Deus. Mais importante do que o que você faz é você mesmo. E mais importante do que você é Deus que fez tudo isso por nós através de Cristo. Por isso mesmo

 

2) Coopere com o crescimento da Igreja. Cristo prometeu fazer Sua Igreja triunfar, mas, não sem a participação daqueles a quem Ele salvou. É claro que é Ele quem efetua em nós tanto o querer como o realizar, mas, em Sua infinita bondade quis que participássemos dessa alegria. É um privilégio de todas as formas para você servir a Cristo na Igreja. É uma ordem que Ele lhe dá servi-Lo através da Sua Gloriosa Igreja.

 

Conclusão

Só encontramos sentido para a nossa existência quando nos entregamos ao serviço de Cristo. Para isso Ele nos capacitou plenamente.

Rev.Olivar Alves Pereira

São José dos Campos, 30/12/2012

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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