Cristo e a Sua Gloriosa Igreja – 16ª Mensagem

Ef 4.25 – 5.2

O cultivo dos frutos da nova natureza

Na última mensagem vimos que Deus requer de nós que nos despojemos dos hábitos pecaminosos, renovemos a nossa mentalidade à luz da Palavra de Deus, e que, nos revistamos de hábitos santos que glorificam a Ele.

A obra de Cristo lá na Cruz purifica o pecador. Uma vez que este recebeu a libertação da culpa e a purificação de seus pecados, deve procurar revestir-se com a nova natureza que Cristo lhe conferiu. Essa nova natureza vem adornada com virtudes que devem ser cultivadas sob o poder e orientação do Espírito Santo a fim de que o crente possa vencer na luta contra a carne. O segredo está no cultivo dos frutos da nova natureza.

Para a nossa meditação proponho o seguinte tema: O cultivo dos frutos da nova natureza.

No cultivo dos frutos da nova natureza devemos tomar alguns cuidados:

 

1)      Abominarmos o pecado em qualquer forma que ele aparecer (v.25-32)

Há uma ideia muito perniciosa que permeia muitas igrejas e a mente de muitos crentes: fazer uma classificação dos pecados no sentido de que há pecados mais graves que outros. É bem provável que essa ideia venha do Catolicismo com os seus “sete pecados capitais”. Não há qualquer classificação de “valores” entre os pecados. Pecado é pecado apareça na instância que aparecer. Seja por pensamento, palavras, ações, e até mesmo por omissão, o pecado sempre traz a condenação e a reprovação de Deus. Concordamos que haja sim diferença nas consequências, como por exemplo, um pecado de pensamento impuro nem se compara com o resultado de um adultério concretizado. Contudo, não podemos esquecer que além de ambos serem pecados diante de Deus, qualquer pessoa que tenha caído em adultério, não o fez sem antes ter abrigado em seu coração grande quantidade de pensamento impuro.

Como se dá o processo de despojamento e revestimento na vida do crente? Primeiramente, é preciso detectar quais são os hábitos pecaminosos característicos da velha natureza da qual resta resquícios dela em nós, mas, não somos mais velhas criaturas e sim, novas criaturas em Cristo (cf. 2Co 5.17). Em segundo lugar vem a nova mentalidade que Cristo gerou em nós que nos faz ver o pecado como pecado e algo que desagrada e desonra a Deus. E em terceiro lugar, então vem o revestimento de hábitos santos, ou seja, a prática da justiça segundo a Palavra de Deus.

Nos v.25-32, Paulo mostra uma série de ações que se contrastam:

No v.25: verdade em vez da mentira: a mentira é característica do comportamento daqueles que não têm Cristo em seus corações. Logo, alguém que se diz crente em Cristo e vive na prática da mentira (ou da falsidade) está contrariando a vontade de Deus e colocando em descrédito a sua fé. A melhor maneira de se combater a mentira é falando a verdade. A prática da verdade (falada e vivida) adorna o testemunho do crente e dá credibilidade ao que ele diz com respeito a Cristo. Além disso, devemos falar a verdade “cada um (…) com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros”. O contexto aqui é o da Igreja, da Família de Deus da qual, agora, judeus e gentios são membros.

No v.26,27: justiça de Deus em vez da justiça própria: citando o Sl 4.4, Paulo nos mostra que é não somente possível como também nosso dever nos irarmos contra o pecado, especialmente em nós. A ira quando é expressão do nosso zelo pela honra e glória de Deus e cuidado para com o nosso próximo é nosso dever como cristãos. Mas, quando a nossa ira é expressão da nossa raiva ou ressentimento porque não fomos honrados como queríamos ou não recebemos o que julgávamos merecer, então é pecado, porque ela toma o direito de Deus em retribuir com justiça. Tal ira deve estar longe do nosso coração, v.31.

Quando agimos com essa ira resultante do nosso desejo de autojustiça, fatalmente estamos dando “lugar ao diabo”. Quantos problemas trazemos para nós mesmos quando nos deixamos levar pela nossa ira irracional! Certamente, o diabo não desperdiçará uma oportunidade dessas para trazer dores e tristezas para nós e para aqueles que estão ao nosso redor.

No v.28: honestidade em vez da desonestidade: “Aquele que furtava, não furte mais; antes, trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com que acudir ao necessitado”. Embutida na virtude da honestidade está a frugalidade. Não somente devo abandonar a desonestidade (toda forma de desonestidade é uma forma de furto e roubo), como também trabalhar não somente para não ser pesado para ninguém como ainda ter com que acudir a quem de minha ajuda precisar.

No v.29,30: palavras úteis em vez de palavras inúteis. O adjetivo “torpes” (sapro,j) e quer dizer “podre, em decomposição”. Não só a mentira é um problema. Palavras que não são próprias a “edificação, conforme a necessidade” e que, além disso, transmitam não “graça aos que ouvem” devem ser retiradas do nosso vocabulário. Não é só não dizer palavras estragadas, podres e inúteis. Muito mais que isso, devemos falar somente o que vai edificar e ainda de acordo com a necessidade de quem ouve. Podemos pecar até mesmo dizendo o que é certo, quando o que é certo é dito em momento errado.

Agora, observe que o ato de entristecer o Espírito de Deus está relacionado a pecados da língua. Entristecemos o Espírito Santo quando nossas palavras machucam, difamam e magoam as pessoas; entristecemos o Espírito Santo quando deixamos de falar a verdade, ou a falamos sem amor. Entristecemos o Espírito Santo quando deixamos de pregar o Evangelho a uma pessoa que Ele colocou em nosso caminho. Que se dirá das palavras carregadas de malícia, chulas e de baixo calão, mentirosas e enganadoras!

Os v.31 e 32 contrastam-se: O que deve estar perto em vez do que deve estar longe. O que deve estar longe do crente: “toda amargura, cólera, ira, gritaria, blasfêmias e toda malícia”. Observe qual a ordem que a Palavra de Deus nos dá: “Longe de vós”. A Psicologia juntamente com as filosofias orientais (zen budista, por exemplo) enfatizam que devemos nos controlar quando estivermos em situação que suscite esses sentimentos pecaminosos, que aliás, não são chamados de “pecaminosos” por essas filosofias e pela Psicologia. Que a Bíblia nos ensina sobre o controle dos nossos impulsos e sentimentos, isso é verdade (ela chama de domínio próprio que é fruto do Espírito Santo em nós e não resultado do nosso próprio esforço. Mas, a Bíblia não nos manda controlar nossa ira, raiva, amargura, gritaria, maledicência e malícia; antes ela nos manda ficar longe de tais pecados. Qualquer situação previsível na qual eu estarei sujeito a esses pecados eu devo ficar longe, me afastar o tanto quanto eu puder.    Alguém pode então perguntar: “Com as situações previsíveis é fácil; mas, e as situações imprevisíveis? Como vencer a ira que me veio de súbito?”. De fato, isso é muito difícil, mas, na medida em que nos adestramos com as situações previsíveis, as imprevisíveis se tornarão mais fáceis de ser controladas. Faça o teste!

Esses pecados devem estar longe de nós. Enquanto isso deve estar bem perto (dentro de nós) a benignidade, afetuosidade e o perdão “uns para com os outros”. Tudo isso tem de ser recíproco. Na medida em que eu quero uma Igreja mais acolhedora, que olhe para mim e seja amorosa comigo, eu devo ser tudo isso para com aqueles que estão próximos a mim. E tudo isso imitando o exemplo Divino.

Outro cuidado que devemos tomar no cultivo da nossa nova natureza é

 

2) Termos como “padrão” para o nosso comportamento o próprio Deus Triúno (4.32 – 5.2)

A palavra de ordem aqui é: “como Deus… Sede imitadores de Deus… como também Cristo…” (v.1,2).

Sabemos que jamais seremos iguais a Deus e nem é mesmo esta a intenção de Paulo com essas palavras. Antes, o que ele está afirmando é que uma vez que fomos feitos filhos de Deus (Jo 1.12), é nosso dever obedecer ao nosso Pai, imitá-Lo em nosso comportamento diário, agir como Ele.

Mas, como podemos nós, criaturas mortais e limitadas imitar o Deus que é tão sublime, majestoso e todo-poderoso? Não percamos de vista a estrutura do texto. Paulo está falando aqui de santidade e pureza de vida, o que nos identifica com o Deus que é santo e puro. Também está falando do perdão e do amor de Deus para conosco que nos perdoou especialmente quando não havia nada em nós que nos fizemos merecer tais bênçãos. O crente pode viver uma vida pura e santa, desde que constantemente dispa-se da velha natureza e invista todos os seus esforços a fim de fortalecer a nova natureza concedida por Deus. Uma vez que o crente estiver sob a direção de Deus será também capacitado a perdoar aqueles que lhe ofenderam, mesmo quando estes sequer lhe pediram perdão, pois, o que os faz agir assim é o amor de Deus que foi derramado em seus corações.

Deus não exige de nós aquilo que Ele não nos concedeu. Por isso mesmo, quando ele exige de nós que O imitemos, o faz dando-nos como base o exemplo de Cristo, pois assim “… como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, oferta e sacrifício a Deus em aroma suave” devemos nós viver imitando-O. Mas, não devemos pensar que por nós mesmos somos capazes de imitar a Cristo. Necessitamos completamente do poder Dele para tal. Além disso, a imitação de Cristo que Deus requer de nós é a que está em Fp 2.5-11, a saber, termos em nós o “mesmo sentimento que houve também em Cristo” que O fez vir ao mundo sujeitando-Se ao Pai.          

O amor de Cristo por nós, antes de tudo demonstrou ser amor por Deus. Um amor que O levou à completa obediência ao Pai, a ponto de entregar-se por nós numa cruz. Por isso, mesmo Seu sacrifício subiu até Deus como “aroma suave”. O amor de Cristo pelo Pai não foi expresso através de meras palavras, mas através da Sua obediência ao Pai. Seguindo o exemplo de Cristo na obediência ao Pai por amor, conseguiremos imitar o Pai na prática do perdão àqueles que nos ofenderam. Como filhos amados que somos devemos mostrar o amor de Deus às pessoas, e uma das maneiras mais eficazes de fazermos isso é através do perdão que devemos conceder às pessoas.

Amar, perdoar e suportar as pessoas são coisas difíceis para nós quando olhamos para nós mesmos e para nossas capacidades, para o nosso eu ferido e o nosso desejo de autogratificação. Contudo, se colocarmos como padrão em nossa vida o amor de Deus para conosco, a obediência de Cristo ao Pai levando-O a morrer numa cruz por nós, e a pureza do Espírito Santo, O qual habita em nós, com certeza, termos mais condições de amar e perdoar as pessoas, especialmente quando elas nem se dão conta de que precisam do nosso perdão.

O que Deus quer que você faça?

Tenha-O como o alvo de sua vida. Só assim você vencerá o pecado venha ele em pensamentos, palavras ou ações. Só assim, imita-Lo será não somente uma possibilidade como uma realidade em Sua vida. Expressamos o caráter de Deus neste mundo quando cultivamos a nova natureza que Ele nos Deus.

Conclusão

Tal Pai, tais filhos. Você se parece com o Pai Celeste?

Rev.Olivar Alves Pereira

São José dos Campos, 20 de janeiro de 2013

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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