Cristo e a Sua Gloriosa Igreja – 18ª Mensagem

Ef 5.15-21

Os Relacionamentos Fraternais

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Temos afirmado em nossas mensagens na Carta aos Efésios que doutrina não é coisa teórica apenas, mas, também, algo totalmente prático, aliás, só é “Evangelho” porque é algo prático.

Na mente do apóstolo Paulo (orientada pelo Espírito Santo, é claro!) doutrina evangélica é algo extremamente prático, aliás, só é doutrina evangélica porque pode e deve ser aplicada na vida de forma prática.

Prosseguindo em seu assunto sobre o despir-se da velha natureza pecaminosa e o vestir-se da nova natureza criada em Cristo Jesus, o apóstolo passa a mostrar no que implica ser uma nova criatura em todas as áreas da vida. Ser uma nova criatura em Cristo significa estar sob o controle do Espírito Santo o tempo todo. E a primeira área que Paulo aborda aqui é a dos relacionamentos entre os irmãos na fé. Meditemos então sobre Os relacionamentos fraternais.

“… entre vós…”, “… uns aos outros…” são palavras que apontam para a mutualidade nos relacionamentos fraternais, ou seja, a comunhão entre os irmãos na Igreja Gloriosa de Cristo.

Nos relacionamentos fraternais (entre os irmãos na fé) precisamos:

1)      Cuidar do nosso bom testemunho, v.15

A prudência no comportamento revelará o nosso compromisso com Jesus e a transformação que Ele operou em nossa vida. Uma ação fala mais do que um sermão.

A exortação “Portanto, vede prudentemente como andais” traz a ideia de “vede cuidadosamente como vos comportais”. Assim, aponta para um andar prudente, cauteloso e acurado; medindo os passos, “um pé após o outro”. Somente por meio de um comportamento cuidadoso é que uma pessoa pode tornar visível o que é invisível, ou seja, a renovação do coração por meio da graça de Cristo. Tal comportamento contrasta-se com um viver insensato. Daí a exortação prossegue: “… não como néscios, e, sim,  como sábios” (veja, Ef 1.8,17; Cl 1.9,28; 3.16; 4.5). Os néscios (a;sofoi)  são os que “não possuindo percepção das coisas que pertencem a Deus e à salvação, não almejam alcançar um alvo mais elevado, e portanto não, sabem, nem mesmo cuidam de saber, quais são os melhores meios para alcançá-lo. Consideram de muita importância o que é de pouco valor ou mesmo pode vir a ser prejudicial, e não apreciam o que é imprescindível” (William Hendriksen). E como se comportam os sábios (sofoi,)? Esse é outro cuidado que devemos ter com relação aos nossos relacionamentos fraternais:

 

2) Cuidar do nosso tempo, v.16

O ócio não somente faz o crente perder grandes oportunidades de glorificar a Deus em sua vida, como também permite que muita podridão ocupe o seu coração e tempo. O crente sábio é aquele que emprega todo o seu tempo em alguma coisa que seja para o louvor e glória do Senhor Jesus.

O verbo remir vem do grego evxagorazo,menoi que aqui está no particípio presente médio. Literalmente, significa “comprando no mercado”, ou com o sentido de “aproveitar as oportunidades”, com o significado de “comprar de volta (às expensas de vigilância e autonegação pessoal) o tempo presente, que está sendo usado agora para propósitos maus e perversos” (Rieneker e Rogers).

O sábio (o que teme a Deus) deve resgatar o seu tempo, ou seja, não deve perder tempo com coisas de pouco valor como fazem os néscios. Esta vida é preciosa para ser desperdiçada com coisas sem valor. Quando Paulo fala que “os dias são maus” com certeza tinha em mente a depravação de sua época como fica claro no contexto anterior quando Paulo ataca veementemente a imoralidade. O crente não pode perder a oportunidade de fazer boas obras com as quais glorificará a Deus, fortalecerá a sua fé no Salvador e ganhará os incrédulos para Cristo  vendo-os serem transformados em servos de Deus. Uma oportunidade perdida jamais volta. Por isso, toda atenção é necessária se o crente quer em tudo fazer a vontade de Deus como fica claro no próximo verso.

Por isso devemos

 

3) Cuidar em executar a vontade de Deus, v.17

Uma das características principais do crente é que ele vive para fazer a vontade de Deus, e em fazê-la está o segredo da sua felicidade.

Por que nós devemos andar com cuidado, nos comportarmos com sabedoria perante os ímpios, aproveitando ao máximo cada oportunidade visto que vivemos dias maus, a Palavra de Deus nos diz: “não vos torneis insensatos” (a;fronej). Este adjetivo sugere tanto uma ausência de inteligência enquanto que  a;sofoi no v.15 indica a falta de sabedoria. Os crentes são exortados a usar o raciocínio. Crer é pensar!

Novamente é empregado o verbo tornar dando a entender que corremos o risco de sairmos do estado de integridade e bom senso com que começamos a agir. Por isso mesmo, devemos agir com sabedoria para que venhamos a compreender “…qual é a vontade do Senhor”. No v.10 ela já falou sobre experimentar o que é agradável ao Senhor. A vontade do Senhor é o que dá a verdadeira felicidade para o homem. Não deve ser o conselho de outras pessoas considerado como base para uma vida feliz, mas, sim, unicamente a vontade do Senhor Jesus Cristo como está revelada em Sua Palavra, a diretriz para o crente.

Uma das maiores demonstrações de “falta de senso” e inteligência é a embriaguez, daí então Paulo diz devemos

4) Cuidar em buscar a verdadeira alegria, v.18

É a pessoa do Espírito Santo e não o vinho (ou qualquer outra coisa) que nos dá a verdadeira alegria. É numa vida totalmente sujeita ao Espírito Santo que o crente é abençoado e abençoa outras vidas.

Desde a antiguidade, os homens tentam escapar de suas aflições buscando o torpor das bebidas alcoólicas. Nem mesmo os grandes servos de Deus como Noé, escaparam dessa ilusão (Gn 9.20,21) e de suas drásticas consequências.

As Escrituras são taxativamente contra a embriaguez classificando-a como pecado e a origem de outros males (Pv. 23.29-35). Por isso mesmo, nos tempos do Novo Testamento, aqueles que fossem indicados para assumirem cargos na liderança da Igreja deveriam ser cautelosos quanto ao uso do vinho (1Tm 3.3,8 e Tt 1.7 e 2.3).

No presente texto, Paulo está continuando o que já vem mostrando desde o v.15: a diferença entre o néscio e o sábio. O vinho produz uma alegria passageira e falsa; o Espírito Santo produz no coração do crente a eterna e verdadeira alegria. Por isso, quem se embriaga com o vinho, como faziam os adoradores de Baco (Dionísio) viviam em dissolução, libertinagem (avswti,a). Este substantivo “dissolução” que aqui indica “libertinagem”, alguém que não consegue se poupar, alguém que desperdiça extravagantemente suas posses e, então, denota principalmente uma pessoa dissoluta, com uma maneira de viver debochada, desregrada e licenciosa.

Os adoradores de Baco (Dionísio), o deus do vinho, comportavam-se assim. Logo, se os crentes fossem vistos bêbados estariam dando um péssimo testemunho porque ficar bêbado era coisa para adorador de Baco. Como então podia um crente em Cristo ser identificado como adorador de Baco? Impossível a um crente de verdade.

Porém, em sua didática, Paulo em vez de enfatizar o que é negativo, ele enfatiza mais o que é positivo “mas enchei-vos do Espírito”. Muitas traduções trazem o verbo encher no imperativo  ativo ou médio “enchei-vos…”; mas, aqui o verbo está no imperativo passivo daí a melhor tradução é “sede enchidos com o Espírito” ou “deixai-vos encher pelo Espírito…”. Preferimos “sede enchidos com o Espírito”, pois, traz a ideia de “controle”. O Espírito de Deus que habita o cristão é Aquele que, continuamente, deve controlar e dominar a vida do crente. Isto está em um contraste deliberado e marcante com o culto a Dionísio.

Nada e ninguém além do Espírito de Deus deve ocupar o coração de crente. Nos tempos antigos, as bebidas alcoólicas eram usadas para entre outras coisas, proporcionar comunhão com os deuses, segundo muitas crenças pagãs. Por isso mesmo Paulo deixa claro que quem confessasse ser um crente, mas, vivesse valorizando coisas banais como o vinho, e, portanto, dominado por ele, haveria de confundir as pessoas, justamente por estarem vivendo como os ímpios néscios. A maior prova da sabedoria deles, entretanto, não estava apenas em não se embriagar com o vinho, mas, sim, na total submissão ao Espírito de Deus.

Paulo estava falando de algo que ele sabia muito bem e experimentava constantemente em sua vida, a saber, a alegria do Espírito Santo, a qual o capacitava à uma vida tão tranquila e segura apesar das circunstâncias. Vale lembrar que a ocasião em que ele escreveu essas palavras foi de dentro de uma prisão.

Quem vive controlado pelo Espírito Santo traz as seguintes marcas alistadas nos v.19-21 e também procura:

5) Cuidar da nossa comunhão com os irmãos, v.19-21

Numa atmosfera de louvor e gratidão constantes especialmente num ato litúrgico no culto comunitário é que os crentes se veem fortalecidos numa intensa comunhão que é resultado da comunhão com o Senhor Jesus Cristo.

A plenitude (“enchei-vos”) do Espírito Santo se manifesta na comunhão entre os irmãos começando pelo que se fala (“falando entre vós”). Se alguém quer realmente experimentar uma vida plena no Espírito Santo que não despreze a comunhão com os irmãos.

Os três particípios deste verso “falando, entoando e louvando” apontam para o resultado do enchimento do Espírito no coração do crente. Deve-se destacar que aqui Paulo faz referência a dois modos de se entoar louvores a Deus: uma audível “falando” e a outra na quietude do coração “entoando e louvando de coração”.

As festas pagãs regadas ao vinho produziam a libertinagem e a depravação; enquanto uma vida controlada pelo Espírito Santo promove o fortalecimento e a edificação de cada um por meio da comunhão com os irmãos.

A adoração não se limita apenas à área musical, seja ela cantada, falada ou tocada. Paulo continua mostrando que como pessoas controladas pelo Espírito Santo eles deveriam sempre estar “dando graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo”. Essa ação de graças deve ser:

  • Constante: “dando sempre”;
  • Intensa: a ideia aqui é sermos sempre “bem agradecidos”;
  • Completa: “por tudo”;
  • Teocêntrica: “a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo”.

Encerrando este parágrafo, Paulo fala sobre a sujeição mútua. Paulo já falara sobre o assunto nesta carta em 4.2,3. É importante destacarmos que tal preceito encontra-se primeiramente nos ensinamentos de Cristo (Mt 18.1-4; 20.28; Jo 13.1-17). Nos ensinos de Paulo sobre a sujeição, submissão, etc, ele tem por base o preceito da igualdade entre as partes, deixando claro que temos de agir assim, imitando o exemplo do Senhor Jesus Cristo que sendo igual ao Pai, submeteu-Se a Ele com amor (veja Fp 2.5-11). Da mesma forma, sujeitarmo-nos uns aos outros implica em sendo nós iguais (uns aos outros) e estando na mesma posição e condição diante de Deus, devemos preferir uns aos outros em honra, abrindo mão da nossa vez para cedê-la ao nosso irmão. É isto que Paulo quer dizer com “no temor de Cristo”. Esta é a uma grande prova de amor e com certeza fortalecerá a unidade da Gloriosa Igreja do Senhor Jesus Cristo.

O que Deus quer que eu faça?

          Nos relacionamentos fraternais

1)      Ande com sabedoria. Busque a glória de Deus em tudo;

2)      Não desperdice seu tempo. Oportunidades perdidas não voltam mais;

3)      Busque em tudo a vontade de Deus. Exercite sua mente, pense biblicamente.

4)      Submeta-se ao Espírito. Ele é quem deve controlar sua vida.

5)      Preserve a comunhão. Ela é fruto da cruz de Cristo, mas, é nossa responsabilidade.

 

Conclusão

Nos relacionamentos fraternais faça a sua parte e ajude os outros a fazerem a deles.

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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