Cristo e a Sua Gloriosa Igreja – 21ª Mensagem

Ef 6.5-9

O relacionamento entre servos e senhores

[audio:http://ubuntuone.com/3J7KoQ567TJpTLIOolMpZD]

Antes de passarmos ao comentário de cada verso desta seção é importante entendermos a questão da escravatura nos tempos do Novo Testamento. O substantivo dou/loi é melhor traduzido por escravos do que por servos. Quando pensamos em escravatura, escravos, etc., logo nos vem à mente o conceito que temos segundo a História do Brasil Colônia, na qual os escravos não passavam de mercadoria. Não tinham qualquer direito, submetidos a trabalho forçado e mui penoso, com alimentação e acomodações tão precárias que poucos aguentavam uma vida tão cheia de maus tratos. Não era assim nos tempos bíblicos. Os escravos nos tempos bíblicos também eram comprados, mas, tinham um tempo limitado para servirem como escravos. Durante o tempo de servidão recebiam salário, eram tratados com dignidade e distinção (enquanto estivessem agradando aos seus senhores), e quando seu tempo de servidão terminava, poderiam decidir continuar trabalhando para o seu senhor ou irem embora, recebendo um valor pelo tempo de serviço prestado. Tenhamos essas considerações em mente na medida em que estudarmos esses versos.

Em nossos dias o correlato de servos é empregados, e de senhor, é patrão. Então o que este texto nos ensina e ordena deve ser amplamente aplicado em nosso dia a dia. Ele fala sobre O relacionamento entre servos e senhores.

O v.5 diz: Quanto a vós outros, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo”. A nova vida em Cristo e controlada pelo Espírito Santo, também afeta a estrutura social de um povo. No Antigo Testamento havia normas para a escravidão (Lv 25.39-55) de forma que a mesma era permitida por Deus. Contudo, os abusos jamais foram por Ele aprovados. Observando o contexto de sua época e a estrutura social, Paulo não propõe uma revolução agitadora, mas, pacifista; não uma mudança imposta e forçada de fora para dentro das pessoas, mas, de dentro para fora.

Começando pelos escravos ele diz: obedecei a vosso senhor segundo a carne, estava lembrando-lhes que eles tinham um Senhor acima de tudo e de todos que zelava por eles. Aqui temos claramente a afirmação de que na Igreja Primitiva havia escravos convertidos a Cristo, como é o caso de Onésimo na carta de Paulo a Filemom.

Paulo continua mostrando a forma dessa servidão: “…com temor e tremor …”. Paulo não está ordenando aos escravos que aprovem os métodos tirânicos e cruéis de seus senhores no relacionamento com eles, aliás, nem mesmo Paulo aprovava tal coisa.

O que ele está dizendo aos escravos com “temor e tremor” é que mesmo que algum senhor fosse bruto e cruel, os escravos deveriam mostrar-lhes que como crentes eles acatariam a autoridade de seus senhores, tratando-os com respeito, não por merecimento dos senhores, mas, por causa do compromisso que eles, os escravos, tinham com Cristo, o Supremo Senhor. Agindo “…na sinceridade do vosso coração…”, eles reforçariam ainda mais o testemunho de vida, levando assim seus senhores a observarem o que o Evangelho promove nos corações.

Ao dizer “…como a Cristo”, Paulo aponta para o propósito de se suportar tais coisas. É a Cristo que eles (os escravos) estavam servindo de fato. Não que seus senhores perversos representassem a Cristo, mas, sim, o serviço prestado a estes, de forma respeitosa e humilde, mostrava a todos que os escravos crentes tinham um objetivo muito mais sublime, a saber, honrar o nome de Cristo.

Como um assunto importante em todo este trecho é a obediência em vários setores da vida, somos levados a compreender que a obediência é a melhor maneira de honrar a Cristo acima de tudo. Sendo assim, um filho obediente aos pais, uma esposa submissa ao marido, um marido que ama a esposa e obedece a Palavra, um servo que obedece ao seu senhor, e um senhor que obedece a Palavra em tratar com humanidade aos seus escravos, estão todos honrando a Cristo acima de tudo.

O v.6: “não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus”, ou seja, não deveriam se mostrar conforme as prescrições do v.5, apenas na frente de seus senhores. Antes, deveriam agir assim também especialmente quando eles não estivessem por perto para verem como os escravos estavam trabalhando. Em outras palavras, não deveriam ser “duas caras”, falsos, ou bajuladores (avnqrwpa,reskoi“agradar a homens”)  que são aqueles que procuram todas as formas de agradar às pessoas na presença delas, mas, uma vez, que elas não estejam por perto, os tais bajuladores chegam até mesmo a serem caluniadores das mesmas pessoas a quem tentavam agradar. Se os bajuladores agem com falsidade, como servos do diabo, os sinceros são aqueles que vivem “…fazendo de coração, a vontade de Deus”, ou seja, aplicam toda a força de seus corações e fazer a vontade de Deus. Temos aqui mais um preceito importante para a obediência. A verdadeira obediência não é aquela que apenas executa bem “exteriormente” o que lhe é ordenado, mas, além disso, é aquela que executa bem “interiormente” uma ordem, ou seja, tem prazer em obedecer e fazer bem feito porque está fazendo algo para Deus. Agindo assim serão identificados “…como servos de Cristo…”.

O v.7 diz servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homens”, “Em espírito, as pessoas realmente cessam de ser escravas logo que começam a trabalhar para o Senhor, e já não trabalham primeiramente para os homens” (William Hendriksen). Este verso praticamente é uma repetição resumida do que Paulo falou nos v.5 e 6.

O substantivo euvnoi,a (boa-vontade) sugere prontidão do espírito, a pessoa que não precisa ser forçada a trabalhar. O fato de fazer “…como ao Senhor e não como a homens” dá à pessoa a força para cumprir a sua tarefa. Fazer para o Senhor traz a certeza de recompensa:

O v.8: “certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre”.

Deus é imparcial (Lv 19.15; Ml 2.9; At 10.4; Cl 3.25; Tg 2.1); ele não usa “dois pesos e duas medidas”. Como diz aquele jargão popular: “o mesmo sol que amolece a cera, endurece o barro”. Da mesma forma, Deus é amor, mas, também é justiça. É importante ressaltar: (1) o princípio da responsabilidade pessoal “cada um”: diante de Deus cada um é responsável pelos seus feitos; (2) o princípio da justa retribuição “…se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor…”: esta é a “lei da semeadura”, o que se planta colhe. É a natureza da obra que determina a natureza da recompensa.

Não há aqui nenhum ensinamento sobre salvação pelas boas obras, mesmo porque o texto aqui não está falando de salvação e sim de conduta. A retribuição do Senhor pode vir a qualquer momento em nossa vida. É claro que a maior das recompensas, a glória eterna, virá somente no futuro quando formos chamados à presença de Deus. Contudo, ainda nesta vida já começamos a colher o que plantamos.

Voltando-se agora, para o outro “lado” da questão, Paulo fala aos senhores. O v.9 diz: E vós, senhores, de igual modo procedei para com eles, deixando as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus e que para com ele não há acepção de pessoas”.

Pode alguém questionar porque Paulo usa quatro versos para falar aos escravos como deveriam se comportar, e apenas um verso para os senhores. Isto, não soa como parcialidade? Com certeza, não!

Aos dizer: “…de igual modo procedei para com eles…”, Paulo está dizendo que os senhores deveriam tratar seus escravos com os mesmos princípios: (1) com dignidade e respeito (“temor e tremor”), (2) não sendo falsos e hipócritas (bajuladores), (3) com liberalidade e desprendimento (“boa-vontade”), (4) focando sempre na glória de Deus (sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso). Foram justamente essas recomendações que Paulo passou aos escravos e agora repete-as aos senhores e acrescenta: “…deixando as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus e que para com ele não há acepção de pessoas”.

Primeiro Paulo fala das ameaças que os senhores geralmente fazem aos seus escravos (no nosso caso, empregados). A ordem é: deixem as ameaças. Ninguém consegue desempenhar bem seu dever estando sob constante ameaça. Elas faziam com que os escravos continuassem desamparados.

Em segundo lugar, Paulo lembra aos senhores de uma verdade que sempre deveria estar diante de seus olhos no tratamento dos escravos: eles (os escravos) tinham o mesmo Senhor que eles (os senhores). O mesmo Senhor que zelava pelos senhores, também zelava pelos escravos, e em julgar as questões entre senhores e escravos, no Senhor Jesus “…não há acepção de pessoas.

Com base nessas verdades podemos afirmar que no relacionamento entre empregados e patrões (servos e senhores), ambos devem ter seus olhos voltados para Cristo para:

1)      Evitarem um procedimento próprio dos ímpios,

Tanto o empregado crente quanto o patrão crente precisam imitar a Cristo em todos os aspectos, para que coisas tais como: injustiça, parcialidade, preguiça, falsidade, mediocridade, falta de zelo, roubo, exploração, etc., não venham a ser praticadas, pois, desta forma estariam desonrando o nome de Cristo.

Quantos empregados crentes que se comportam como ímpios sendo preguiçosos longe dos olhares de seus patrões, mas, estando perto, se comportam diferente. Quantos patrões crentes que sonegam os direitos de seus empregados, exploram-lhes de várias formas. Tal comportamento é próprio de quem é ímpio.

Patrões e empregados crentes devem ter seus olhos fixos em Cristo para

2) Fazerem de suas obras meios de honrar a Cristo

Pela obediência sincera vinda do coração, a pessoa honra acima de tudo a Cristo. Em seus afazeres e responsabilidades devem em tudo honrar ao Senhor. Ele jamais deixará de retribuir a cada um segundo as suas obras. Obras que honram a Cristo trazem honra da parte Dele aos Seus servos; obras que desonram a Cristo trazem Seu juízo sobre aqueles que assim agiram. A lei da semeadura é certa e não falha.

O que Deus quer que você faça?

Seja você um empregado ou um patrão crente, lembre-se desses princípios:

1)      A glória de Cristo é o alvo.

2)      A verdadeira obediência é a interna.

3)      Em Cristo temos a força para fazer o que é certo.

4)      A lei da semeadura não falha.

5)      Aos olhos de Deus um não é maior que o outro.

 

Conclusão

Mantenha seus olhos em Cristo, só assim você um bom empregado ou um bom patrão.

Rev. Olivar Alves Pereira

São José dos Campos, 03/03/2013

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
This entry was posted in Mensagens expositivas em Efésios. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.