Cristo e a Sua Gloriosa Igreja – 2ª mensagem

Efésios 1.3-6

 

O Louvor de um Redimido ao Seu Deus Supremo

Parte I

Ao Pai que Elegeu os Seus Filhos

Fomos criados para louvar a Deus, e a nossa alma só encontra verdadeira alegria quando se curva diante de Deus em adoração. O crente maduro tem o seu prazer somente em atos que louvam a Deus, quer sejam estes atos públicos como o culto congregacional, ou evangelismo, quer sejam atos privados como as músicas que ouve, tempo gasto em oração. E porque a adoração a Deus traz tanta alegria (e eu diria a “verdadeira alegria”) ao coração do crente? Porque adorar a Deus é a finalidade, a razão de ser e existir do ser humano.

No trecho de Ef 1.1-14 o assunto central aqui é o louvor de um redimido ao seu Deus Supremo. Nestes versos o apóstolo Paulo rende à Trindade Santa o seu louvor pela maravilhosa obra de salvação realizada em sua vida. Hoje nós veremos apenas os v.3-6 que apresentam o louvor de um redimido Ao Pai que elegeu os Seus filhos.

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo…” (v.3). euvloghto,j assim Paulo mostra que Deus é digno de ser bem falado, louvado, adorado. A intenção de Paulo aqui era incitar os efésios à mais profunda gratidão a Deus por tão  grandiosa e graciosa salvação.

Além disso, a gratidão deve ser pelo fato que Deus “nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo”. O que seria essa “toda sorte de bênção espiritual”? Os versos seguintes mostram que bênção é essa. Porém, devemos tomar muito cuidado ao fazer alguma distinção entre as bênçãos materiais e as bênçãos espirituais, pelo fato de que toda bênção é espiritual no sentido da origem, a saber, o próprio Deus como indicam as palavras “nas regiões celestiais em Cristo” (cf. Tg 1.16-18). O crente olha para os seus bens materiais e deles usufrui com sabedoria porque entende que esses bens materiais (que são bênçãos de Deus) são reflexos das bênçãos espirituais (bênçãos relativas à Graça de Deus e à salvação dos pecadores).

Os v.4,5 não devem ser separados, até mesmo porque o final do v.4 (“e em amor”) deve constar no v.5.

Estes versos tratam de um dos assuntos mais difíceis das Escrituras: a Eleição Divina de pecadores miseráveis. Existem assuntos nas Escrituras que simplesmente não são explicados, mas, apenas apresentados. É o caso da Eleição. Temos alguns aspectos da mesma que são apresentados e ensinados, e, até podemos ter algum conhecimento e entendimento do mesmo. Vejamos alguns:

O seu Autor: como já vimos no v.3, é o próprio Deus Pai o Autor da nossa Eleição. Não obstante a Trindade Santa é a única responsável pela nossa salvação, aqui Paulo, apresenta o Deus Pai como o que encabeçou este plano.

A sua natureza: Eleger significa tomar ou escolher algo de (para si mesmo). Então a natureza da nossa eleição é Divina. Fomos tomados dentre a grande massa pecadora (embora isto não esteja explícito no texto, contudo, as palavras “para sermos santos e irrepreensíveis”, deixam implícito que fomos escolhidos dentre os pecadores), por esta razão devemos adorar ao Senhor porque de fato Ele nos fez algo que jamais merecíamos.

O seu objetivo: salvar somente os eleitos. Não temos qualquer base bíblica para afirmar que todo ser humano será salvo como prega a heresia do universalismo. Cristo não veio para morrer no lugar do mundo inteiro. Se assim fosse, então como explicar o caso dos que estão no inferno? Seria o inferno, ou o pecado ou até mesmo a decisão do pecador mais forte que o sangue de Cristo e a vontade de Deus? Definitivamente, é inconcebível que alguém por quem Cristo tenha morrido, esse tal ir parar no inferno. Se assim fosse possível, a salvação de ninguém seria uma realidade.

O seu fundamento: o fundamento da Igreja de Cristo é Ele próprio. Deus, o Pai, nos escolheu Nele (em Jesus). A nossa Eleição é a bênção principal da qual decorre todas as outras bênçãos espirituais (v.3). Isto mostra que Cristo é o Fundamento Eterno de Sua Igreja, pois, toda a obra de salvação foi executada através Dele.

O seu tempo: “antes da fundação do mundo”, ou seja, desde os tempos eternos, quando nem mesmo o mundo ainda havia sido criado. A palavra “predestinou” (proori,saj) no v.5, literalmente significa: “tendo fixado limite de antemão”. Também significa “delimitar uma fronteira antes; preordenar”. O particípio é causal, dando a razão da eleição. Não foi Paulo que apresentou essa realidade; ele apenas transmitiu o que recebeu, pois, foi o próprio Senhor Jesus quem primeiro falou de nossa eleição “antes da fundação do mundo” (Jo. 6.39; 17.2, 9, 11, 24). Pedro também apresenta Cristo como aquele cujo “…precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula, conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo…” (1Pe. 1.19, 20).

O seu propósito: está claro no texto: “…para sermos santos e irrepreensíveis perante ele…”. A grande prova da eleição de uma pessoa (tanto para o crente como para aqueles que o veem) é o que diz este verso. Se alguém tem dúvida se é ou não um escolhido de Deus deve analisar a sua vida na perspectiva destas palavras. Se tal pessoa deseja ardentemente uma vida de santidade (ainda que muitas vezes não consiga viver assim), lutando contra o pecado dentro de seu coração, fazendo de tudo para agradar a Deus, com certeza essa pessoa é um servo de Deus e crente verdadeiro, portanto, salvo. Porém, se uma pessoa afirma ser eleita por Deus, mas, em seu coração não traz nenhuma dessas marcas, as palavras de Gl 6.3; 2Tm 3.13; Tg 2.22 e 26 lhe são um alerta. Deus nos salvou com um propósito bem definido: sermos como Seu Filho Jesus Cristo, Rm 8.29 e 30.

O v.5 traz uma descrição adicional: “nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito da sua vontade”. Um filho adotivo é transformado em filho não porque merece, mas, porque necessita. Deus através de Cristo, o Filho Unigênito, nos recebeu em Sua família como filhos e herdeiros (Rm 8.15; Gl 4.5). Essa analogia é muito especial. Quando um casal adota uma criança como filho, pode dar-lhe seu nome, seus bens, seu amor, etc., mas, não pode dar-lhe o seu espírito. Eles não têm controle sobre os fatores hereditários. Tal não acontece com Deus, pois, ao adotar-nos em Sua família Ele nos outorga o Seu Santo Espírito (Ef 1.13-14), e assim somos feitos filhos de Deus (cf. Jo 1.12). Fomos adotados por Deus, para Deus, em Cristo Jesus, e isto “segundo o beneplácito da vontade Dele”. A ARA traduz a palavra grega euvdoki,a por “beneplácito”, e aqui literalmente significa “bem pensar, vontade, bel prazer”. A eleição e predestinação de Deus são atos livres do Seu amor que é fundamentado totalmente no próprio Deus e não há nada fora dele que contribua com qualquer coisa (cf. Rienecker e Rogers p.386).

No v.6 lemos que foi “para o louvor da sua graça”, mais uma vez vemos o objetivo da nossa salvação: tudo é para a glória de Deus. É por isso que Ele deve ser louvado. Eis o motivo principal pelo qual Cristo veio ao mundo. É certo que Ele veio para salvar os pecadores, mas, este objetivo estava em segundo plano, pois, em primeiro lugar em Seu (de Cristo) coração estava em tudo glorificar ao Pai, conforme lemos em Jo 17.4.5. Ao passo que Jo 17.19-22 mostram o propósito secundário, a saber, a salvação dos “homens que me deste do mundo” (v.6).

A graça de Deus que Ele “nos concedeu gratuitamente no Amado”, isto é, Jesus é o Filho Amado de Deus como nos mostram os textos de Mt 3.17; 17.5; 2Pe 1.17,18. A obediência voluntária de Jesus ao Pai mostra o Seu amor pelo Pai e do Pai por Ele. A vontade de Deus era salvar os pecadores, e Cristo cumpriu voluntariamente esta vontade entregando a Sua vida espontaneamente (Jo 10.17,18; cf. Is 53.10).

Diante dessas preciosas verdades entendemos que Deus deve ser louvado por Sua excelsa Graça que foi revelada à Sua Igreja com a qual (Sua graça) Ele abençoou os Seus eleitos com toda bênção espiritual em Cristo:

 

1) Para torná-los santos e sem mancha em Sua presença (v.4)

Deus salvou-nos com o propósito de sermos “santos e irrepreensíveis perante Ele”. Ser “santo” significa ser “separado, consagrado, dedicado com exclusividade” no nosso caso, a Deus. E “irrepreensível” no grego é a;mwmoj um adjetivo acusativo masculino plural “sem mancha, imaculados”. Usado para indicar a ausência de defeitos nos animais destinados ao sacrifício a Deus (cf. Riencker e Rogers p.386).

É a Graça de Deus em Cristo que santifica e purifica o pecador. Ao serem santificados, os escolhidos deixaram de pertencer ao pecado para pertencerem ao Senhor Jesus. Uma vez separados do mundo, os escolhidos devem viver de forma irrepreensível (cf. ARA, ARC, e ACF), ou seja, que no comportamento deles (dos escolhidos) não seja encontrado nada do qual eles possam ser acusados e condenados. Não se trata de “não mais ter pecado”, mas, sim, “de estar livre de tudo quanto poderia ser usado para acusação e condenação”, o que aponta para a Obra de Cristo, pois, o crente enquanto estiver neste mundo estará sujeito a pecar, mas, jamais estará sujeito a ser condenado, justamente porque Deus o santificou, purificou e justificou.

Deus deve ser louvado por ter-nos abençoado com toda bênção espiritual em Cristo:

2) Para adotá-los em Sua Família de acordo com a Sua vontade (v.5)

Antes éramos inimigos declarados de Deus (Rm 5.1-11), mas, por um ato da Sua livre e soberana vontade, o Pai nos reconciliou Consigo mesmo por meio de Jesus, e também nos adotou em Sua família. A adoção era um costume dos romanos e não dos judeus. A adoção confere a quem foi adotado o status de herdeiro que tem o direito a tudo dentro da casa de seu pai. Ao sermos recebidos na Família Divina, Cristo deu-nos o poder de sermos feitos filhos de Deus (Jo 1.12). Dessa forma temos livre acesso à Presença de Deus, por meio de Jesus (Rm 5.2; Ef 2.18; 3.12).

Como filhos de Deus temos de expressar o caráter santo de Deus neste mundo.

Por fim, Deus deve ser louvado por ter-nos abençoado com toda bênção espiritual em Cristo:

 

3) Para o louvor da glória da Sua Graça (v.6)

Se Deus não tivesse escolhido e salvo nenhum pecador, se Ele não tivesse derramado nenhuma bênção sobre os eleitos, se Ele tivesse nos desprezado, ainda sim, Ele mereceria todo o louvor por ser o Deus Criador. Contudo, mesmo o homem tendo pecado contra o Senhor, desprezado a Sua Aliança no Éden, Deus se revela ao homem não semente como o Deus Criador, mas, também, como o Deus Salvador. Ele é digno de ser louvado por ser Criador (e só este motivo já seria suficiente), mas Ele também é digno de ser louvado por ser o nosso Salvador. Diante deste maravilhoso Deus Criador e Salvador, nosso coração só pode concordar absolutamente com o que diz o apóstolo: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo…” (v.3).

Implicações e Aplicações

Em sua vida como um redimido que louva ao Seu Resgatador demonstre:

1) Santidade e pureza no viver. Deus não nos predestinou somente para o nosso fim (o céu eterno), mas, também predestinou o nosso modo de viver. Para Deus os meios são tão importantes quanto os fins.

2) Filiação Divina. Fomos transformados e recebidos como filhos de Deus. Como tais nosso viver deve demonstrar o caráter de Deus.

3) Atitude de gratidão. Ao contrário do que muitos pensam gratidão não é um sentimento, mas, sim, uma atitude. Não devo ser grato quando sinto que devo agradecer. Simplesmente devo ser grato.

Conclusão

Deus deve ser louvado pela Gloriosa Igreja de Cristo por tão grande obra de salvação.

Rev.Olivar Alves Pereira

São José dos Campos, 23 de setembro de 2012

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana da Vila Pinheiro, Jacareí - SP, Bacharel em Teologia e Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor e membro do Conselho Acadêmico do Centro de Estudos Teológicos do Vale do Paraíba (CETEVAP), São José dos Campos -SP, onde iniciou em 2020 seu Mestrado em Aconselhamento Bíblico. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador. Casado com Janaina F. S. A. Pereira e pai de Ana Cristina S. Pereira.
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