Cristo é Melhor – Parte VIII – Uma Exposição da Carta aos Hebreus

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Neste último capítulo da carta, o Espírito Santo por meio do autor da carta nos leva a refletir sobre: A vida de um sacerdote de Cristo.

Cristo constitui-nos para Si uma nação de sacerdotes. Embora essa declaração apareça em 1Pe 2.9 e em Ap 1.5, este conceito está presente em toda a carta aos Hebreus na qual vimos que Cristo é o nosso Sumo Sacerdote divinamente instituído por Deus.

Sendo Cristo o nosso Sumo Sacerdote, somos uma nação de sacerdotes. Assim sendo, como deve ser o nosso modo de viver?

Em nosso viver como sacerdotes de Cristo devemos demonstrar

1)      O cuidado com os necessitados, v.1-3

v.1 parece deslocado em relação ao assunto “cuidado com os necessitados”, mas, a bem da verdade, ele é a “locomotiva” que puxa todos os “vagões” dos deveres que aqui são alistados para os sacerdotes de Cristo. O amor fraternal (de irmãos e irmãs) deve ser constante, ou seja, ininterrupto. Devemos cuidar primeiramente dos nossos irmãos e então depois estendermos esse amor também aos demais.

No v.2 encontramos uma prática muito importante na cultura do Oriente Médio: a hospitalidade. Esta deveria ser praticada não só com os de casa, parentes e amigos chegados, mas, com qualquer pessoa. O judeu que não fosse hospitaleiro não era um “bom judeu”. Essa prática foi trazida para a Igreja Cristã especialmente para os judeus convertidos. Muitos que foram zelosos com essa prática tiveram o privilégio de acolherem anjos sem saberem. Obviamente aqui, o autor da carta estava incentivando a hospitalidade porque havia apóstolos e evangelistas que sempre necessitavam do apoio dos irmãos.

O v.3 toca num assunto polêmico: o cuidado com os encarcerados. Primeiramente, é importante entendermos que os encarcerados aqui eram os apóstolos e evangelistas que eram presos e detidos por pregarem o Evangelho. A Igreja não deveria se descuidar deles. Porém, o princípio aqui se aplica também àqueles que estão encarcerados por terem cometido crimes. Não necessitariam estes de receber também o cuidado e especialmente o Evangelho? Se crermos que o Evangelho é o poder de Deus para a salvação daqueles que creem (cf. Rm 1.16) porque não pregarmos o Evangelho a estes?

O nosso problema é que colocamos o Evangelho numa questão de “merecimento” e aí saímos escolhendo para quem pregar.

Os encarcerados por terem cometido crimes precisam ouvir o Evangelho para que sejam transformados em filhos de Deus e se tornem bons cidadãos. Que Deus levante mais pessoas preparadas e comprometidas com esse tipo de mistério.

Nós, os sacerdotes de Cristo devemos também demonstrar

2)      O cuidado com o nosso casamento, v.4

Numa época como a nossa em que o casamento tem sido banalizado este verso para muitos não têm importância e para outros é um entrave, mas, para os filhos de Deus é uma bênção.

Este verso nos diz: Que o estado de casados seja respeitado por todos, assim como a fidelidade entre marido e mulher. Quanto aos que praticam a imoralidade e o adultério, Deus os julgará” (Sociedade Bíblica Portuguesa).

Quando o Senhor Jesus falou que “Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem” (Mt 19.6), Ele se referia à instituição do casamento que é indissolúvel exceto em caso de morte de um dos cônjuges. É por isso que aqui as virtudes do respeito e da fidelidade são ordenadas, e os pecados de imoralidade (pornéia) e de adultério (moichális) são condenados por Deus e Ele próprio é o juiz destes que praticam tais pecados.

O profeta Malaquias denunciou o adultério do povo e deixou bem claro o quanto Deus reprova tal comportamento: E dizeis: Por quê? Porque o SENHOR foi testemunha entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal, sendo ela a tua companheira e a mulher do teu concerto (…) Portanto, cuidai de vós mesmos, e ninguém seja infiel para com a mulher da sua mocidade” (Ml 2.14,15).

O fato de Deus levar tão a sério o casamento é motivo suficiente para fazermos o mesmo. Devemos lembrar que é com a família que Deus sempre tratou e estabeleceu Seu Pacto. Em toda a Bíblia destaca-se esse fato de que Deus sempre tratou com a família.

Também devemos demonstrar

3) O cuidado com o nosso coração, 13.5,6

Estes versos vêm nos mostrar o cuidado que devemos ter com o nosso coração para que ele não se deixe levar pela ganância, descontentamento e insatisfação com relação aos bens materiais, pois, como disse Jesus: Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui” (Lc 12.15).

O homem sempre teve a tendência de querer medir seu sucesso, buscar segurança medindo suas conquistas materiais. Mas, os bens materiais não somente são ilusórios porque são instáveis (em um momento os temos, e em outro os perdemos) como também desviam o nosso coração de confiar somente em Deus.

Todos os que querem se enriquecer o fazem porque almejam segurança, pois, tolamente pensam que o seu dinheiro os garantirá. Poderiam os nossos recursos nos darem essa garantia: “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei”? Um ladrão, uma enfermidade, uma crise financeira, um negócio mal feito são suficientes para deixar-nos falidos.

Cuidemos do nosso coração para que: “Assim, afirmemos confiadamente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem?” (v.6).

Também em nosso viver devemos demonstrar

4) O cuidado com a nossa Igreja, 13.7

Este verso é uma exortação que nos lembremos, recordemos daqueles que nos guiam especialmente aqueles que combateram o bom combate e ficaram firmes até o fim de suas vidas. Novamente, o autor da carta toca no assunto recorrente da firmeza e perseverança em Cristo. Estes guias a quem ele se referiu eram bons exemplos a serem seguidos por causa do fim que eles tiveram. A palavra que aqui foi traduzida por “fim” referindo-se ao fim da vida deles, no grego é ekbásis e quer dizer: “o resultado efetivo de uma vida”, ou seja, os frutos que a pessoa colheu em sua vida.

Devemos imitar essas pessoas. Não há problema algum em imitar alguém. O problema está em se aqueles a quem estamos imitando são mesmo bons exemplos para serem imitados. Não precisamos, e quase sempre não conseguimos, esperar o fim da vida de uma pessoa para saber se tal pessoa é digna de ser imitada. Porém, podemos ver os frutos que essas pessoas têm colhido em sua vida e avaliarmos se são dignas de serem imitadas por nós.

Neste verso também temos o princípio de que a liderança deve ser modelo para o rebanho. Líder que não estiver disposto a dizer: “Sede meus imitadores como eu sou de Cristo” (1co 11.1) não deve querer ocupar cargo de liderança, da mesma forma que aqueles estão na liderança e não estão sendo modelo para os demais.

Como sacerdotes de Cristo devemos demonstrar

5) O cuidado com a Verdade: Cristo Jesus, 13.8-17

Para o cristão a verdade não é uma filosofia, uma ideia, um pressuposto; ela é uma pessoa: Jesus Cristo. Neste sentido, o crente não tem a Verdade, mas, sim, é a Verdade que o tem.

E viver demonstrando cuidado com a Verdade significa que:

É necessário apegarmos à Verdade para não cairmos nas mentiras (v.8,9). Cristo é imutável. Isso para uma geração como a nossa em que a constante mudança significa evolução, crescimento e conquista é um tanto quanto absurdo. Mas, o que é curioso é que ser humano busca tanto a segurança para o seu coração justamente naquilo que é volátil e mutável. Isso é tão contraditório quanto como tentar matar a nossa sede pondo uma colher de sal em nossa boca. Só aumentará a nossa sede ainda mais.

Quem tem Cristo como a âncora da sua alma não se deixa levar por “doutrinas várias e estranhas porque o que vale é estar o coração confirmado com a graça”.

É lamentável saber que ainda existem muitos crentes que mesmo ouvindo o Evangelho verdadeiro se deixam confundir e enredar por ensinamentos estranhos de igrejas que pregam dietas alimentícias, exigem a guarda de determinados dias para mostrar uma religiosidade farisaica e carnal.

E por que não devemos nos deixar enredar com tais heresias e mentiras, mas sim apegarmos à Verdade que é Cristo? É porque Somos peregrinos neste mundo – nossa pátria está nos céus (v.10-14). Comecemos com o v.14 para entendermos esse trecho: Na verdade, não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a que há de vir”. Novamente, fazendo uma comparação entre o sistema sacerdotal do Antigo Testamento e o Sumo Sacerdócio de Cristo, o autor mostra que temos:

um altar superior – a cruz

uma oferta superior – o sangue de Cristo

um objetivo de vida superior – sofrer com Cristo

E tudo isso para que um dia desfrutemos do céu de glória, a nossa cidade celeste a qual buscamos. A ideia aqui é a de peregrinação.

Estamos peregrinando neste mundo e daqui nada levaremos a não ser o resultado da nossa fé, como levaram nossos guias que permaneceram firmes, que não sucumbiram ante a tentação da ganância e avareza, mas, colocaram em Deus a plena satisfação de sua alma.

Por fim, como sacerdotes de Cristo devemos demonstrar

6) O cuidado com a verdadeira religião, v.15-17

E a verdadeira religião é a que se expressa por meio da adoração (v.15). O tempo todo em sua carta, o autor mostra que somente um sacrifício pode nos salvar diante de Deus: o sacrifício de Cristo. Aqui, porém, ele não está se contradizendo quando nos ordena a que: “Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome”. Não se trata de um “reforço” ao sacrifício de Cristo, mas, sim de um dos resultados do sacrifício de Cristo em nós. Isto quer dizer que devemos oferecer nosso louvor a Deus confessando a nossa fé em Cristo. Eis uma verdade consternadora: o nosso louvor não é o resultado que fazemos para Deus, mas, sim, o resultado do que Cristo faz em nós.

Essa verdadeira religião é a que se expressa por meio da abnegação (v.16). O que é que traz prazer ao coração de Deus? Quando Ele vê Seus filhos vivendo como família onde um cuida do outro. Quando há em seu coração generosidade em repartir o que você tem com o irmão que não tem, Deus se compraz disso. Quando para você parecer ser um sacrifício abrir mão de algo para repartir com algum irmão, lembre-se: “com tais sacrifícios Deus se agrada”, pois, tais sacrifícios são reflexos do sacrifício supremo, o sacrifício de Cristo por nós O qual morreu a nossa morte e deu-nos da Sua vida conforme nos diz Rm 5.10.

Por fim a verdadeira religião é a que se expressa por meio da submissão (v.17). Dizem que vivemos dias em que há uma terrível crise de autoridade. Concordo em partes. Concordo que nossas crianças estão cada vez mais entregues a si mesmas, que nossos adolescentes estão mais petulantes e atrevidos e que os jovens estão se tornando cada vez mais arrogantes. Mas, seria isso um mal somente da nossa era? Meus irmãos, rebelião contra a autoridade instituída é coisa que acontece desde o Éden, justamente porque rebelião contra qualquer forma de autoridade instituída é antes de tudo rebelião contra o próprio Deus!

Quando leio esse verso fico mais confortado em saber que não sou só eu que enfrento gente insubmissa. Como é difícil para nós pastores guiarmos ovelhas teimosas, indolentes, arrogantes e desrespeitosas! Porém, a nossa maior tristeza não é porque estão nos desobedecendo, mas, sim, porque estão desobedecendo a Palavra de Deus, e tal comportamento não somente tornará o nosso trabalho pastoral mais difícil, como também a vida dessas ovelhas mais infeliz e, principalmente, desonrará a Deus.

Ah, como eu desejo ver uma igreja mais obediente à Palavra! Como eu desejo e oro para que corações que aqui estão se apeguem à Palavra de Deus e se comprometam com ela somente!

Implicações e Aplicações

Tiramos três implicações práticas para a nossa vida nesse texto.Vejamos quais.

Primeira

Como está o seu coração? Você anda apegado às coisas desse mundo? Anda preso num egoísmo destruidor? Seu coração está ancorado na Verdade que é Jesus, ou você ainda confia mais em você do que em Cristo? Você está disposto a lutar pela Verdade, ou prefere ficar no seu canto sem incomodar ninguém para não ser incomodado?

Deus tem de ser o centro de sua vida. Em torno Dele tudo deve girar para que você não se torne escravo de si mesmo, e glorifique a Deus somente.

Segunda

Como está o seu casamento? A pureza é uma marca do seu casamento? Seus olhos são somente para o seu cônjuge ou você tem emprestado eles para o pecado? Na sua cama (intimidade) há respeito e honra? Adultérios e prostituições tem dividido o espaço com você e seu cônjuge? A pureza sexual deve ser marca não só dos solteiros cristãos, mas, também dos casais crentes.

Terceira

Como está a sua Igreja? Talvez você ache mais fácil seu pastor responder a essa pergunta. Mas, veja bem, você faz parte dessa Igreja. Você tem estado a par das lutas, necessidades e desafios que seus irmãos têm passado, ou você se dá por satisfeito somente cumprimentá-lo à porta e vê-lo somente uma vez por semana? As dores de seu irmão doem em você também? Você é daqueles mesmo sabendo que a Igreja está cheia de gente pecadora não desiste da Igreja porque se vê como um pecador que é entende que é na Igreja o seu lugar?

Irmãos, somos peregrinos neste mundo. Estamos numa marcha para os céus, para a pátria celestial na qual só importa duas coisas: Deus ser glorificado em cada passo que dermos, e cuidarmos uns dos outros para que todos cheguemos juntos lá.

Conclusão

 A vida de um sacerdote de Cristo diz tudo sobre o seu relacionamento com Cristo. O que a sua vida está dizendo?

São José dos Campos, 13/05/2012

Rev.Olivar Alves Pereira

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou Conservador.
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