Cristo é Suficiente – Parte IV – Uma Exposição da Carta aos Gálatas

Leia Gl 2.11-21

Uma das verdades do Evangelho de Cristo que tem sido deturpada por muitos em nossos dias diz respeito à nova vida que Cristo nos dá. Há quem diga que a obra de Cristo foi só substitutiva, ou seja, Ele morreu em nosso lugar, mas, não existe nenhuma transformação no caráter da pessoa, e nem mesmo tal transformação é necessária. Isso não é o Evangelho de Cristo.

A nova vida implica em poder e capacidade completa de mortificar o nosso eu na cruz de Cristo. Nas palavras do próprio Senhor Jesus: “Se, alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue dia a dia, tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23).

O chamado de Cristo para você e para mim é para encravarmos e mortificarmos na cruz dia a dia a nossa vontade para que somente façamos a vontade de Deus. E Paulo compreendeu muito bem isso, e por isso mesmo disse: “Estou crucificado com Cristo” (v.19 – Gl 2.11-21). E é justamente sobre isso que quero meditar com você nesta ocasião.

Neste trecho da carta aos Gálatas, Paulo relata uma situação difícil entre ele e o apóstolo Pedro. Em algum momento Pedro foi visitar os irmãos da Igreja de Antioquia da Síria. Esta Igreja como já vimos era composta de crentes gentios (não judeus) os quais não guardavam os costumes do Judaísmo. Estando entre eles Pedro comia de suas comidas oferecidas nas festas de comunhão conhecidas como “festas do amor” (agape) e no final dessas celebrava-se a Ceia do Senhor. Pedro participava dessas refeições sem qualquer impedimento. Porém, quando vieram alguns elementos da Igreja de Jerusalém, causaram tumulto entre os crentes da Igreja de Antioquia, pois, se a questão da circuncisão e dos costumes do Judaísmo foi resolvida no Concílio de Jerusalém, agora eles o seguinte problema: como crentes judeus poderiam ter comunhão com crentes gentios se seus costumes alimentares eram diferentes?

Com a chagada desse grupo, Pedro afastou-se dos crentes gentios temendo que aqueles judeus levassem um relatório nada favorável a seu respeito para os outros apóstolos. Paulo chamou isso de “dissimulação” (hipocrisia). E até mesmo Barnabé se deixou influenciar pela hipocrisia de Pedro e dos outros judeus.

Ao ver que ele “não procedia corretamente segundo a verdade do evangelho”, Paulo disse a Pedro o seguinte: “se, sendo tu judeu, vives como gentio e não como judeu, por que obrigas os gentios a viverem como judeus?” (v.14).

Mas, não se tratava só de uma indecisão ou até mesmo de um ato hipócrita. Tratava-se de negar a Fé em Cristo e em Sua obra, para voltar a confiar em obras feitas pelas próprias mãos. É por isso que estar crucificado com Cristo implica em minha constante mortificação do velho homem que insiste em se levantar com força. Confiar nas próprias obras é uma evidência forte de que o velho homem se levantou.

Em minha constante mortificação do velho homem:

1)      Confronto a dissimulação dos legalistas, v.11-14

O legalismo é a atitude de quem se agarra à lei não para fazer o que é certo, mas, para se exibir diante dos outros como alguém santo, perfeito e zeloso. O legalismo é perigoso porque ele esconde o que há de mais podre dentro de nós dos olhos das pessoas e sai à caça da podridão evidente dos outros.

O legalismo nos faz confiar em nós ao passo que a Bíblia diz “maldito o homem que confia no homem” (Jr 17.5).

É por isso que Paulo repreendeu Pedro, por que tal dissimilação merece repreensão (v.11,12). Pedro ao comer com os gentios queria conquistar o favor destes. Ao virem os judaizantes quis conquistar o favor destes também. Uma pessoa que vive tentando agradar a todo mundo na verdade está buscando agradar-se a si mesma, porque pensa que se todos se agradarem dela, ela será feliz. Uma pessoa dissimulada não merece a confiança de ninguém. E era confiança que Pedro queria de todos.

Tal dissimulação só traz confusão (v.13,14). Pedro junto aos gentios se comportava como um gentio; estando na presença dos judeus que recriminavam os gentios comportava-se como eles. Ao verem Pedro agindo dessa forma, Barnabé e outros crentes judeus se deixaram levar e acabaram por cometer o mesmo erro. Cada um é responsável por suas escolhas, mas, sem dúvida alguma pesa sobre o líder uma atitude honesta e de uma palavra só. Se um líder não agir assim trará confusão às pessoas.

Em minha constante mortificação do velho homem

2) Sou justificado somente pela fé em Cristo, v.15,16

O que Paulo está dizendo nestes versos é que os judeus crentes que praticam a Lei sabem que pela Lei ninguém é justificado, mas, somente pela fé no sacrifício de Cristo é que podem ser justificados, então que sentido faz impor aos não gentios o cumprimento da Lei?

Veja bem, a Lei não é má. O problema com a Lei é que ela não pode justificar quem peca, mas, somente condenar. É aí que está o problema: quem não peca? A resposta bíblica é contundente e exata: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23).

É por isso que há somente um jeito de pecadores receberem a justiça de Deus em amor em vez de condenação: por meio do sacrifício de Jesus. E há somente um jeito de nos apropriarmos dos benefícios graciosos do sacrifício de Cristo: pela fé somente.

Que verdade libertadora e maravilhosa! Um presente tão caro e impagável por nós só pode ser alcançado por nós se nos vier de graça. E foi isso que Deus fez.

Logo, quando confiamos em nossas obras, não estamos somente recusando a oferta graciosa de Cristo, mas, também O insultando como nossa arrogância.

Em minha constante mortificação do velho homem:

3) Cumpro a Lei que me serve de conduta, mas, não como salvação, v.17-19

A Lei não justifica ao pecador; ela o condena quando ele peca. Somente Cristo pode imputar Sua justiça ao pecador e retirar-lhe a condenação por ter pecado.

Mas, uma vez que Cristo realiza tão maravilhosa obra no seu coração, Ele não diz que a Lei perdeu seu valor. Ele não diz isso porque Ele não é “ministro do pecado” (v.17).

Ele lhe ordena a cumprir os Seus mandamentos porque quem anda nos Seus mandamentos viverá. Como disse Lutero: “A Lei nos manda a Cristo para sermos salvos por Ele; e Cristo nos manda de volta a Lei para vivermos em santidade”.

No v.18 Paulo mais uma vez mostra por que Pedro se tornou repreensível. Falando retoricamente, Paulo mostra como Pedro estava edificando de novo o que havia destruído, ou seja, o que Pedro havia deixado de lado quando abraçou a Cristo, ele estava agarrando de novo. E ao fazer isso conscientemente, Pedro constituía-se um transgressor.

No v.19 Paulo diz que morrera para a Lei, ou seja, matou qualquer confiança que ele tinha em si mesmo quando tentava cumprir a Lei para ser salvo. Feito isto ele depositou em Cristo toda a sua confiança. E para você mortificar o velho homem que são os hábitos pecaminosos que você abriga em seu coração, você precisa pertencer a Cristo.

Em minha constante mortificação do velho homem

4) Sei que a minha vida pertence a Cristo, v.20,21

Fui crucificado com Cristo, em por isso mesmo:

Cristo vive em mim (v.20a). “…logo já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim…”. Que declaração estarrecedora! Ela impacta o meu coração. Já não são mais as minhas vontades que estão em voga, mas, sim, a vontade de Cristo. Não busco mais agradar todas as pessoas, e isso inclui a mim mesmo; mas, busco agradar somente a Cristo.

Fui crucificado com Cristo e por isso mesmo:

Vivo pela fé no Filho de Deus (v.20b). Fazer a vontade de Cristo em vez da minha exige abnegação. E porque devo amar abnegadamente a Cristo? Por que Ele “me amou e a si mesmo se entregou por mim”.  Ele não é só o meu exemplo, mas, principalmente, a fonte do amor e poder que me impulsiona e me capacita a amá-Lo e obedecê-Lo assim. Minha fé está Nele e não em mim mesmo. Confio completamente na obra que Cristo fez na cruz e desconfio completamente das obras que eu faço.

Fui crucificado com Cristo e por isso mesmo

Se confiar em minhas obras anulo a Graça de Cristo (v.21). Paulo depositava sua fé em Cristo somente por que compreendera que a sua salvação era resultado da Graça de Cristo. Qualquer sombra de confiança em suas próprias obras anularia a graça de Deus. Não que o homem seja capaz de destruir a graça de Deus. Não é isso que Paulo está dizendo aqui. Por “anular” ele quis dizer: “desprezar”. Quando alguém confia em si mesmo despreza a graça de Deus, por que está afirmando que Cristo morreu em vão, pois, se existe uma Lei que possa justificar o pecador, Cristo perdeu Seu tempo e morreu à toa. Você compreende que horrível absurdo é confiar em si mesmo?

Implicação e aplicação

Qual vontade tem prevalecido em seu coração? A sua ou a de Deus?  Esse é um bom indicador para saber se você está crucificado com Cristo de fato ou ainda está vivendo numa hipocrisia legalista buscando com suas forças aquilo que somente o Deus Todo-Poderoso pode lhe dar gratuitamente em Cristo.

 

Conclusão

Cristo é suficiente para você vencer os feitos do pecado em seu coração.

Mensagem proclamada na Igreja Presbiteriana no Jardim Sul em 24/06/2012

Rev.Olivar Alves

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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