Cristo é Suficiente – Parte XI

 Gl 5.13-26

 

audio

Desde o cap.4.21 o apóstolo Paulo vem tratando sobre a nossa liberdade em Cristo. Hoje veremos sobre Os limites da nossa liberdade.

E a exortação que a Palavra de Deus nos faz aqui é: “…não useis da liberdade para dar ocasião à carne” (5.13).

Não podemos nunca nos esquecer de que fomos chamados para sermos livres em e para Cristo. Mas, essa liberdade tem limites os quais devemos respeitar até mesmo porque esses limites nos proporcionam não só um viver feliz, mas, também e permanência nessa liberdade.

Conta-se uma “historinha” que uma locomotiva cortava as montanhas e vales puxando vários vagões. Certo dia essa locomotiva olhava os animais soltos pelas montanhas e vales e suspirou “Ah! Como eu gostaria de ficar livre desses trilhos”. Até que um dia ela decidiu sair dos trilhos para ser livre como aqueles animais eram. Mas, mal saiu dos trilhos e ela descarrilou provocando um terrível acidente.

Essa historinha serve para nos mostrar os limites que Deus coloca em nossa vida são sem dúvida alguma a maneira que Ele nos mantém libertos de tudo aquilo que possa nos atrapalhar de termos uma vida plena em Cristo.

Neste texto destacamos três limites para a nossa liberdade sem os quais nossa vida cairia numa libertinagem terrível.

O primeiro limite é:

1)      O serviço mútuo em amor, v.13-15

Nascemos para ser servos. O crente que não se coloca à disposição de Deus para servi-Lo através da vida de outras pessoas, rapidamente se tornará escravo de si mesmo e de seus desejos.

É por isso que as Escrituras nos ordenam a servir “uns aos outros”, e esse serviço tendo como princípio o amor ao próximo.

Isso porque o amor é o resumo da Lei (v.14). O apóstolo Paulo aqui tinha em mente o que se chama de “segunda tábua da Lei”. Os quatro primeiros mandamentos dizem respeito ao relacionamento do homem com Deus, e estes são “a primeira tábua da Lei”. Os seis últimos dizem respeito ao homem e seu semelhante, e são chamados de “segunda tábua da Lei”. E o resumo da “segunda tábua” é: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. É muito comum ouvirmos as pessoas dizerem (e não poucos crentes também) que é necessário você se amar primeiro para depois conseguir amar às pessoas como Deus ordena. Esse é um grave erro porque a Bíblia parte do fato de que já nos amamos demais, e por isso mesmo ela não nos ordena a nos amar primeiro. Aliás, o que ela nos manda é “…negue-se a sim mesmo, dia a dia tome a sua cruz…” (Lc 9.23). Todos os problemas em nossos relacionamentos têm como origem o fato de nos amarmos demais. Amamos demais a nós mesmos e por isso quando alguém não está disposto a fazer o que queremos surgem as contendas. E para não nos escravizarmos em nossos próprios desejos, a Bíblia diz: Sirva ao seu irmão. Se você quer ser livre, seja um servo. É uma lógica ilógica para o mundo. Mas, essa é a vontade de Deus.

Além disso, o amor é a nossa proteção (v.15). Conforme tudo o que vimos na carta até aqui, somos levados a crer que havia dois grupos na igreja da Galácia. Um grupo incitado pelos judaizantes a cumprir meticulosamente os rigores da Lei juntamente com a Fé em Cristo para serem salvos (e assim eles anulavam a cruz de Cristo), e outro grupo que estava dando vazão à carne usando como pretexto a liberdade em Cristo (nos versículos seguintes Paulo abordará as obras da carne). Ao que tudo indica esses dois grupos disputavam entre si o status de “quem é que está agradando a Deus de verdade”. Daí a exortação de Paulo: “Parem de se morder e de se devorar porque assim vocês se destruirão mutuamente!”.

Novamente vemos que o grande causador de problemas em nossos relacionamentos é o amor próprio. Quem tem amor próprio, tem o pior senhor que alguém pode ter: o próprio eu.

O segundo limite para a nossa liberdade é

2) A submissão ao Espírito Santo, v.16-26

Para não sucumbirmos ante a escravidão do pecado novamente, precisamos andar no Espírito. A ordem aqui é: “…andai no Espírito…” e o resultado disso será que “jamais satisfareis à concupiscência da carne” (v.16). Observe que a Bíblia coloca como o oposto e rival do Espírito Santo aqui a nossa concupiscência (v.17), ou seja, o nosso desejo de satisfazer o pecado em nosso coração.

O verbo “andar” (peripate,w) literalmente significa “andar em redor” e conota comportamento. Observe novamente que para você ter um comportamento que agrada a Deus você precisa subjulgar suas vontades e desejos ao Espírito Santo: “andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne”. Logo, todas as vezes que pecamos: (1) não estamos obedecendo ao Espírito Santo; (2) estamos fazendo o que a nossa carne quer. Por isso mesmo não se muda um comportamento em definitivo se não houver mudança no coração, nas vontades. E tal mudança só pode ser feita através do Espírito Santo.

O Espírito Santo mantém-nos livres de nós mesmos (v.16,17). Como pudemos ver, a nossa vontade pecaminosa é oposta ao Espírito Santo, e estando submissos a Ele estaremos livres de fazer a nossa vontade pecaminosa e escravizadora.

O Espírito Santo mantém-nos livres da Lei (v.18). Como nos lembra William Hendriksen: “Viver debaixo da lei significa derrota, escravidão, maldição e impotência espiritual, porque a lei não pode salvar (Gl3.11-13,21-23, 25; 4.3, 24, 25;5.1), O Espírito é quem nos liberta (4.29; 5.1; 2Co 3.17)”.

O Espírito Santo mantém-nos livres da insatisfação (v.19.21). Estes versos descrevem as obras da carne, ou seja, as obras daqueles que vivem para satisfazer as vontades de seus corações. Um coração no qual o Espírito Santo não habita só produz:

Prostituição (pornei,a): atividade sexual ilícita;

Impureza (avkaqarsi,a): imundícia, impureza;

Lascívia (avse,lgeia): atos indecentes que chocam as pessoas;

Idolatria (eivdwlolatri,a): adoração a ídolos;

Feitiçarias (farmakei,a): uso de remédios ou drogas para propósitos mágicos, alucinógenos;

Inimizades (e;cqra): hostilidade, agressividade;

Porfias (e;rij): contenda, desavenças;

Ciúmes (zh/loj): inveja;

Iras (qumo,j): tremenda explosão do temperamento;

Discórdias (evriqei,a): egoísmo, ambição egoísta;

Dissensões (dicostasi,a): divergência de opiniões e de interesses;

Facções (ai[resij): é o resultado das dissensões.

Invejas (fqo,noj): desejo de apropriar-se do que outras pessoas possuem. A diferença de ciúmes (zh/loj no v.20 para invejas (fqo,noj) aqui no v.21 é que a primeira diz respeito a querer estar tão bem quanto a outra pessoa, e a segunda, diz respeito ao desejo de privar o outro do que ele tem.

Bebedices (me,qh): entregar-se à bebedeira;

Glutonarias (kw/moj): orgia. Geralmente os banquetes terminavam em orgias.

Essa lista não é exaustiva, mas, descritiva, pois, descreve o que é que um coração que confia em si mesmo consegue produzir. Por trás de todos esses pecados (e “de coisas semelhantes a essas”) está a mesma raiz: a insatisfação. Foi a insatisfação que Satanás usou para levar Adão e Eva a pecarem.

O Espírito Santo mantém em nós o Seu fruto (v.22,23). É impossível termos em nós o fruto do Espírito Santo se Ele não habitar em nosso coração. Ele é a fonte desse fruto.

As características desse fruto são:

Amor (avga,ph): amor sacrificial, que se doa pelo bem do outro; é tanto o amor a Deus como ao próximo;

Alegria (cara,): resultado de um relacionamento consistente com Deus;

Paz (eivrh,nh): serenidade do coração que foi justificado por Deus (Rm 5.1).

Longanimidade (makroqumi,a): paciência para suportar injúrias de outras pessoas. É a recusa de entregar-se a explosões de ira (a raiz da palavra grega para “ira” – qumo,j  – está na palavra “longanimidade”).

Benignidade (crhsto,thj): disposição bondosa e gentil para com os outros.

Bondade (avgaqwsu,nh): bondade ativa como um princípio energizante, ou seja, é a excelência moral e espiritual, resultado da presença do Espírito Santo no coração da pessoa.

Fidelidade (pi,stij): geralmente traduzida por “fé”. Porém, aqui, tem o sentido de lealdade tanto a Deus quanto às pessoas com as quais assumimos compromissos.

Mansidão (prau<thj):submissão dócil, gentileza no trato com as pessoas.

Domínio próprio (evgkra,teia): autocontrole, domínio dos próprios desejos e apetites.

Essas características não são vários frutos como se pensa, mas, sim, um único fruto com todas essas características.

Aquele para quem Cristo é suficiente, esse fruto está presente em sua vida.

O Espírito Santo mantém-nos em santidade de vida (v.24). A santidade aqui é descrita como um ato de morte para o pecado. O pecado não tem como “se alimentar” de um coração morto. Ele é um parasita que enquanto encontra um coração vivo para ele, ele permanecerá dominando esse coração. Mas, no momento em que a pessoa morre para o pecado porque passou a viver para Cristo, tendo o Espírito Santo em seu coração, essa pessoa vence o pecado. Isso é viver em santidade diante de Deus.

Por fim, o terceiro limite para nossa liberdade é

3) O Novo Nascimento, v.25,26

Como acabamos de ver, a vida com Cristo é descrita como um ato de morte para o pecado e de vida para Cristo. Outro nome para isso é Novo Nascimento.

Eis uma verdade que precisa ser ensinada com mais ênfase nas igrejas. As pessoas precisam saber que o que elas mais necessitam nesta vida é de novo nascimento. Sem ele não podemos ver o reino de Deus (Jo 3.3).

Porém, se você já passou por essa maravilhosa experiência é importante lembrar-se de que:

Fomos vivificados em Cristo, então, nos comportemos assim (v.25). Este verso se traduzido respeitando a estrutura como ele aparece no original fica assim: “Se vivemos pelo Espírito, pelo Espírito também andemos”. Observe que “pelo Espírito” é o centro não só da frase, mas, da ideia de Paulo aqui. O que ele está comunicando é que só podemos viver de verdade se for por meio do Espírito Santo e por meio Dele é que devemos nos comportar. O verbo “andar” aqui no grego é stoice,w e embora tenha também o mesmo sentido do v.16, aqui acrescenta-se a ideia de “andar em linha reta, comportar-se adequadamente”. A palavra era usada para o movimento numa linha definida, como uma formação militar. Aqui significa caminhar, conduzir-se corretamente. Por estar no tempo presente indica uma ação habitual.

Vivificados em Cristo glorificam-No em seu comportamento (v.26). Aqueles que passaram pela experiência bendita do Novo Nascimento entendem que toda a glória deve ser dada a Cristo. Aqueles que buscam a glória para si ou que aceitam para si a glória que devem render somente a Cristo, provam com tal comportamento que ainda não nasceram de novo.

Pessoas que nasceram de novo em Cristo, não provocam uns aos outros com atitudes infantis e pecaminosas despertando ou sentindo inveja em seus corações. O que é a inveja senão o nosso coração insatisfeito com o que Deus está fazendo em nós e na vida dos outros?

Um nascido de novo em Cristo não se vangloria de seus feitos, antes, reconhece o que Cristo fez e está fazendo em sua vida e por isso o glorifica.

Quando nascemos de novo, experimentamos a verdadeira liberdade a qual só tem sentido de ser em Cristo, pois, fora Dele, só existe escravidão.

Implicações e Aplicações

Se você quer ser livre seja servo. Quem tem amor próprio, tem o pior senhor que alguém pode ter: o próprio eu.

Se você quer continuar livre, mantenha-se submisso ao Espírito Santo. Não permita que sua vontade prevaleça sobre a vontade de Deus. A vontade Dele sempre é “boa, agradável e perfeita” (Rm 12.2).

Se você já nasceu de novo, não perca sua liberdade escravizando-se na sua vontade. Cristo o fez nascer de novo para viver para Ele.

Conclusão

Cristo é suficiente para libertar-nos e os limites que Ele impõe à nossa liberdade é a vida abundante que Ele veio nos dar.

Rev.Olivar Alves Pereira

São José dos Campos, 19/08/2012

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
This entry was posted in Mensagens Expositivas na Carta aos Gálatas - Cristo é Suficiente. Bookmark the permalink.

2 Responses to Cristo é Suficiente – Parte XI

  1. Janaina says:

    Seus estudos tem sido muito edificantes para minha vida. Obrigada por compartilhar este comigo.
    Bjus Janaina

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *