Cristo é Suficiente – Parte XII

Gl 6.1-10

Cristo é Suficiente – Parte XII

Uma classificação que tem sido feita nos últimos duzentos anos é a de que existe o “crente carnal”. Segundo essa classificação esse tal “crente carnal” é um crente de “segunda categoria” que ainda não amadureceu na fé guardando resquícios de carnalidade. Esse tal “crente carnal” diferentemente do “crente espiritual” ainda confia em si mesmo além de confiar em Cristo. Sua fé ainda não está exclusivamente em Cristo.

          Conforme vimos até aqui na carta aos Gálatas (isso para não falarmos do restante das Escrituras), tal crente, o carnal, não existe. Ou você é crente em Cristo Jesus e Nele confia exclusivamente, ou você ainda confia em você. Não há como coadunar a fé em Cristo com autoconfiança. Ou Cristo é suficiente para você, ou você continuará sendo um carnal, mas, nunca, nunca um crente verdadeiro.

          Neste último capítulo da carta, Paulo trata de um assunto que está inteiramente ligado ao assunto da liberdade que o crente tem em Cristo. Ele trata do único tipo de crente que existe; ele fala sobre: Os Espirituais.

          Ser crente é ser espiritual, e ser espiritual significa confiar somente em Cristo, portanto, um crente. Por isso mesmo ele vai dizer no v.3: “Porque, se alguém julga ser alguma coisa, não sendo nada, a si mesmo se engana”. E esse alerta deve estar diante de nossos olhos e coração o tempo todo.

          E se você é de fato um crente, um espiritual é importante você saber como vivem os espirituais.

1)      Zelam pela Igreja de Cristo, v.1-5

          A Igreja de Cristo é o que há de mais precioso na terra. Ela foi comprada com o sangue de Cristo, logo, todo o cuidado com ela é necessário. E demonstramos esse cuidado observando os seguintes pontos:

          Cuidando da disciplina de todos (v.1). Um irmão que for surpreendido em algum pecado, ou seja, que não se apercebeu de que estava incorrendo num pecado, mas, veio a cair num, deve receber por parte daqueles que estão mais familiarizados com a voz do Espírito Santo, os “espirituais” (pneumatikoi.) o quê? A correção. De que forma? Com espírito de brandura, mansidão. E enquanto isso, devem se cuidar para não cair em tentação também. A disciplina tanto é coletiva quanto individual; tanto é mútua como pessoal.

          Sendo solidários (v.2). A vida cristã é para ser vivida em comunidade. A ordem: “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de

Cristo” vem nos mostrar que a vida cristã é “ombro a ombro”. Muitas vezes as “cargas” ficam pesadas. Essas cargas podem ser de diversas formas. Talvez um problema de saúde, um conflito familiar, um pecado escravizador, etc. Seja como for, se faz muito oportuno quando um irmão coloca o ombro debaixo dessa carga e nos ajuda a levá-la.

          Sendo humildes (v.3). A humildade é o constante aviso da realidade alertando-nos para não cairmos na ilusão do nosso coração. Isso quer dizer que se somos humildes de verdade sempre saberemos o que somos. “O que nos faz ternos e generosos, mansos e humildes, compreensivos e serviçais para com os outros é a consciência de nossa própria pequenez” (William Hendriksen). O humilde de verdade diz: “Tudo posso naquele que me fortalece” (Fp 4.13), concorda com Jesus que disse: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). O humilde sabe que recebeu qualificações de Deus e por isso mesmo as coloca ao serviço Dele na vida daqueles a quem Deus lhe confiou. Na Igreja de Cristo deve haver pessoas qualificadas para executarem a obra do Senhor, e a principal qualificação é a humildade.  

          Sendo responsáveis (v.4,5). A todos os crentes Deus concedeu dons. Ninguém deve se ver como um desfavorecido que nada recebeu de Deus. Por isso mesmo as Escrituras nos ordenam a cada um de nós provar o seu próprio trabalho. Não é justo e nem agradável a Deus que alguns de Seus filhos se comportem como parasitas, se gloriando no labor dos outros. Paulo mostrava-se bem consciente disso quando disse: Eu plantei, Apolo regou; mas o crescimento veio de Deus” (1Co 3.6). Mas, esse “gloriar-se unicamente em si” não quer dizer uma atitude arrogante, autoconfiante e que rouba para si a glória que é de Cristo. Com certeza não! O que Paulo está dizendo aqui é que cada um deve ser responsável com aquilo que Deus lhe conferiu. É disso que trata o v.5.

          Não há contradição entre o v.2 e o v.5. No v.2 a palavra “cargas” no grego é ba,roj   e quer dizer algo pesado que precisa de mais de uma pessoa para carregar. Já no v.5 a palavra “peso” no grego é forti,on e quer dizer uma bolsa, um embornal, conotando assim a responsabilidade individual. Não podemos nos descuidar daquilo que é nossa exclusiva responsabilidade. Deixá-la para outro fazer é negligência!

 

2) Partilham seus bens, v.6

          O princípio que as Escrituras nos ensinam aqui é o do compartilhar dos nossos bens materiais com aqueles que compartilham conosco dos bens espirituais. O cuidado da Igreja com seus pastores.

          Temos aqui (e em outras referências bíblicas) a base bíblica para o sustento daqueles que se dedicam ao ministério da Palavra serem amparados materialmente por aqueles que recebem ensinamentos da Palavra por parte desses que se dedicam a isso.

          Mostramos que somos espirituais sendo generosos. Os espirituais entendem que os bens materiais que estão em suas mãos são de Deus e que eles são Seus mordomos. A generosidade, o respeito, e a gratidão também devem estar no coração daqueles que compartilham seus bens materiais.

          Mostramos que somos espirituais sendo agradecidos. O mesmo acontece com os que recebem essa ajuda – devem olhar para o sustento recebido com alegria e dedicarem-se ao ensino da Palavra não porque estão sendo pagos para isso, mas, sim, confiarem no cuidado de Deus que não lhes deixará faltar o necessário. A modéstia, a gratidão e a alegria devem estar presentes no coração destes que recebem ajuda material por parte da Igreja de Cristo.

          Os espirituais também

3) Semeiam a “boa semente”, v.7,8

          Estes versos devem ser entendidos como o sumário de tudo o que Paulo ensinou nesta carta.

          Quem semeia fé exclusiva em Cristo colherá da Sua suficiência todas as bênçãos de que necessitar.

          Essa lei é válida não só para os crentes, mas para todos os seres humanos. Deus não permite que Seu nome e sua honra sejam ridicularizados pelo comportamento ímpio e pecaminoso dos que duvidam Dele.

          Os espirituais colhem o fruto do Espírito (v.8). Vimos no cap.6.22,23 o fruto do Espírito que é o efeito da presença de Deus no coração do crente. O resultado da presença do Espírito Santo no coração da pessoa é a “vida eterna”. Semear para a carne significa deixar a natureza pecaminosa seguir o seu curso que desembocará na corrupção eterna, ao passo que semear para o Espírito Santo significa submeter-se ao governo Dele, ser guiado por Ele e receber a vida eterna.

          Por fim, os espirituais são aqueles que

4) Praticam o bem, v.9,10

          Por fim, os espirituais, aqueles que são guiados pelo Espírito Santo porque depositaram sua fé exclusivamente em Cristo e para eles Ele é suficiente, vivem na prática do bem.

          E assim, eles vivem na esperança da recompensa (v.9). Não há nada de errado ou antibíblico fazermos as coisas esperando ser recompensados. Deus estabeleceu a “lei da semeadura e a da ceifa”. O agricultor que planta espera que sua lavoura produza para o seu sustento e de sua família. De igual forma o servo de Deus deve obedecer a Palavra de Deus com o objetivo de glorificar a Deus. E aqueles que almejam com todo o seu coração glorificarem a Deus em tudo colherão os frutos disso; aqueles que depositam sua fé exclusivamente em Cristo colherão para a vida eterna.

          Aqui neste verso Paulo está também olhando para as coisas dessa vida e nos exorta à persistência, pois, “a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos”. Não há formatura quando se desiste do curso em qualquer tempo; não há colheita quando não houve semeadura; não há um casamento feliz quando em algum tempo os investimentos no mesmo deixaram de existir; não existem filhos disciplinados e cheios do temor de Deus quando os pais desanimam e desistem de discipliná-los na Palavra.

          Os espirituais também estão preocupados com os irmãos necessitados (v.10). Por “necessitados” devemos ver muito mais do que as questões materiais. As necessidades materiais são apenas um mero detalhe. Há irmãos que precisam de consolo, de encorajamento, de aconselhamento, de um ombro para dividir suas cargas pesadas; às vezes eles precisam de repreensão, serem disciplinados. Tudo isso é o bem que devemos fazer a todos, especialmente aos nossos irmãos.

          Outro aspecto ainda que deve ser observado é que devemos atentar para as oportunidades. Elas nos são dadas por Deus o tempo todo e por isso  devemos ficar atentos para não deixarmos nenhuma delas passar, pois, haveremos de prestar contas diante de Deus pelo bem que deixamos de fazer.

Implicações e aplicações

1)      A disciplina tanto é coletiva quanto individual; tanto é mútua como pessoal. Os espirituais devem zelar pela disciplina na Igreja de Cristo começando por si mesmos.

2)      Fuja do autoengano, do parasitismo espiritual, da vanglória e da irresponsabilidade (v.3-5). Tudo o que você realizar como um espiritual, você só pode por meio da Graça de Cristo.

3)      A lei da semeadura não falha. Plante a semente da fé exclusiva em Cristo e você colherá para a vida eterna. Seja persistente em glorificar a Deus.

 

Conclusão

          O crente verdadeiro é espiritual porque entende que Cristo lhe é suficiente para as questões dessa vida e da eternidade. O espiritual anda no Espírito Santo.

São José dos Campos, 26/08/2012

Rev.Olivar Alves Pereira

 

 

 

 

 

 

 

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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