Cristo é Suficiente – Parte XIII

Gl 6.11-18

Cristo é Suficiente – Parte XIII

Chegamos ao fim da Carta aos Gálatas. Deus nos concedeu muitas bênçãos enquanto estudamos esta preciosa carta. Mas, há ainda uma preciosa parte desta carta para meditarmos, a saber, Gl 6.11-18 que trata de um assunto nada popular em nossos dias: A Cruz de Cristo.

          Muito do que se tem dito por aí em nome do Evangelho nada tem a ver com o verdadeiro Evangelho porque a cruz de Cristo não é o centro da mensagem que tem sido pregada por muitos.

          Não se iluda; não há Evangelho verdadeiro sem a cruz de Cristo; não há piedade verdadeira sem que o coração se ajoelhe diante da cruz de Cristo e reconheça o Seu amor. Cruz é instrumento de morte, e o que deve morrer constantemente nela é o nosso eu conforme a chamada de Jesus em Lc 9.23: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me”. Cruz lembra renúncia. Por isso mesmo esse assunto não é nem um pouco popular, especialmente numa época como a nossa onde o egoísmo é potencializado ao máximo.

          Mas o brado do apóstolo Paulo no v.14 vem nos lembrar que esta deve ser a nossa atitude também: “Mas longe esteja de mim o gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo”.

          Não se trata de uma atitude arrogante de alguém que se gloria num bem que possui como um menino que desdenha de outro porque tem nas mãos um brinquedo caro. Essa declaração do apóstolo Paulo soa como um paradoxo, pois, divide em dois grupos a raça humana: os carnais e os crentes.

          Vimos em Gl 6.1-10 que não existe o tal “crente carnal” como muitos afirmam por aí. Ser crente e ser carnal são coisas antagônicas, díspares.

          Mas, como os carnais e os crentes veem a cruz de Cristo?

1)      Ela é desprezada pelos carnais, v.12,13

          As razões pelas quais os carnais desprezam a cruz de Cristo vêm reafirmar o que temos dito sobre o fato de não existir o tal “crente carnal”.

          Veja porque os carnais desprezam a cruz de Cristo.

          Porque temem ser perseguidos por serem covardes, v.12. Paulo deixa bem claro quem são os judaizantes, aqueles que atormentavam os crentes gentios forçando-os a guardarem os rituais do Judaísmo: Eles são carnais, pois, “querem ostentar-se na carne…”, ou seja, depositam em si mesmos a confiança e a esperança de salvação. Tais pessoas creem em Cristo? Eles também são covardes, pois, fazem isso “somente para não serem perseguidos por causa da cruz de Cristo”, isto é, para não serem identificados com Cristo. Pergunto mais uma vez: esses tais são crentes em Cristo?

          Porque se iludem com sua religiosidade, v.13a. A declaração que Paulo faz no começo desse verso é muito importante: “Pois nem mesmo aqueles que se deixam circuncidar guardam a lei”. Aqui tanto se aplica aos gálatas (e outros gentios) que passaram a dar ouvidos aos judaizantes (ou a todos quantos pregam um evangelho que vai além do que o que Cristo deu aos apóstolos), quanto aos que se esforçavam para desviar os crentes do caminho da Verdade, no caso, os judaizantes. Quem age assim não está guardando a Lei de Deus, pois, a Lei como vimos no Cap.3 tem como função nos conduzir a Cristo. Logo se ao cumprir a Lei do meu jeito, em vez de ir para Cristo, sou levado para longe Dele, então o que estou vivendo é uma religiosidade morta, vazia e carnal que só me ilude. Mas porque essa religiosidade é tão atraente assim? A resposta é

          Porque buscam glória própria e não a de Deus, v.13b. O desejo dos judaizantes em ver os crentes gentios se circuncidarem era puramente carnal, ou seja, se gloriarem em terem vencido uma disputa. Para os judaizantes tudo não passava de uma mera disputa infantil e carnal do tipo “quem é que faz mais adeptos”.

          Por conta desse comportamento estes tais nunca foram de fato convertidos e crentes.

          Da mesma forma quem age assim revela-se um carnal. Para estes, a cruz é um escândalo (cf. 5.11), algo asqueroso, vergonhoso e inglório.

          Não se iluda: se você ainda está mais preocupado em receber a glória dos homens, em ser ovacionado por pecadores, está em busca de reconhecimento e para conseguir isso você está deixando de lado sua identidade em Cristo, você está se comportando como um carnal e por isso mesmo desonrando a Cristo. O crente verdadeiro quer honrar a Cristo a ninguém mais; se satisfaz somente com a glória de Cristo e nunca com a dos homens; não teme ser perseguido por aqueles que não creem em Cristo, não se ilude com uma religiosidade vazia.

          Mas se a cruz de Cristo é desprezada e odiada pelos carnais

2) Ela é amada pelos crentes, v.14-17

          Veja porque os crentes verdadeiros amam a cruz de Cristo, isto é, o próprio Cristo que Se sacrificou numa cruz:

          Porque através dela eles foram salvos, v.14a. Obviamente, quando falo de amar a cruz, não estou me referindo a um objeto, pois, isso seria idolatria. Refiro-me aqui ao que aconteceu naquela cruz, a saber, nela Cristo entregou Sua vida por mim. O crente ao olhar para a cruz tem sua alma inundada pela Graça de Deus, pois, sabe que aquela cruz lhe seria impossível de ser suportada, e por isso mesmo, o Deus encarnado, Jesus Cristo a tomou sobre Si. A cruz para o crente emotivo de glória, exultação e louvor. Sem ela sua vida seria só desespero e pavor da condenação; com ela, sua vida é direcionada para o Céu.

          Porque nela eles encravam o seu eu, v.14b. Como já dissemos no começo dessa mensagem, cruz é instrumento de morte. Nela o crente mortifica a cada dia o seu eu – o pior inimigo do crente. No que implica essa mortificação do eu? Paulo nos esclarece aqui: “pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo”. Por meio do sacrifício de Cristo o mundo está morto para o crente. Quais interesses um cadáver pode despertar em alguém? Um cadáver só fede, é desagradável. Mas, essa mortificação não se trata somente do crente perder o interesse pelo mundo. Trata-se também do crente não emprestar para o mundo o seu vigor, seus dons, sua força, amor e vida. É justamente disso que Paulo se refere em Rm 13.14: “mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências”. O crente não se coloca à disposição do pecado para satisfazer seus desejos, mas, sim, à disposição de Deus.

          Porque ela lhes mostra o que realmente importa, v.15. E nessa discussão de circuncisão ou não circuncisão o que realmente importa é “o ser nova criatura”. Foi justamente isso que o Senhor Jesus respondeu a Nicodemos quando este O procurou bajulando-O chamando de Mestre. O Senhor Jesus cortou a conversa e disse: “Importa-vos nascer de novo” (Jo 3.3-7). Para o crente o que realmente importa nesta vida, o que realmente conta como algo de valor inestimável e imensurável é a Graça de Deus que o fez nascer de novo, e isto só lhe foi possível porque Cristo morreu em seu lugar na cruz. Na morte de Cristo o crente tem a vida.

          Porque dela lhes provém a vida abundante, v.16. E em que consiste essa vida abundante? Na  “paz e misericórdia” advindas da cruz de Cristo. Na cruz Cristo estabeleceu a paz em Deus e nós (cf. Rm 5.1); na cruz vemos a mais plena e pura expressão da misericórdia, pois, nela Cristo levou sobre Si a nossa miséria; nela Ele sentiu o nosso inferno; nela fomos reconciliados com Deus. E todos quantos nasceram de novo, a paz e a misericórdia de Deus estarão sobre eles, pois, estes sim é que são “o Israel de Deus” e não aqueles que se gloriam de ter cortado um pedaço de pele do seu corpo, e até levaram muitos outros a fazerem o mesmo.

             Porque ela é a identidade dos crentes, v.17. Se os judaizantes se gabavam de terem a marca da circuncisão em seus corpos, Paulo declara: “De agora em diante, ninguém mais me perturbe e nem atrapalhe o meu trabalho, pois, eu trago em meu próprio corpo as marcas de Cristo” (tradução livre). Ele tinha muito o que fazer e não queria e nem podia perder mais tempo com deturpações como essas que os gálatas lhe traziam. Nos tempos antigos, os escravos eram marcados a ferro para mostrar quem eram os seus donos. Uma vez que Paulo se apresentava como “servo” de Cristo, termo este que sempre aparece como significando “escravo”, ele se sentia honrado em trazer no seu corpo as “marcas de Cristo”. Como nos lembra William Hendriksen, é evidente que aqui Paulo estava se referindo às cicatrizes que os açoites e outros sofrimentos pelos quais passara por ser um “escravo de Cristo”. O que ele estava dizendo aqui era: “Se vocês se gloriam em uma marca no seu prepúcio, marca que vocês mesmos fizeram como um gesto arrogante e carnal, quero lhes dizer que as marcas que trago em meu corpo foram feitas em mim pelos meus algozes dos quais eu não fugi por amor a Cristo. Não sou como vocês carnais que não estão dispostos a sofrer e a serem perseguidos por causa de Cristo”. Que testemunho vigoroso!

          Encerrando a carta, no v.18 Paulo diz: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, seja, irmãos, com o vosso espírito. Amém!”. Apesar de vê-los se enredando nas ideias carnais dos judaizantes, apesar de vê-los se desviando tão depressa do Evangelho que ele lhes anunciara, ele ainda diz que eles são seus irmãos e que Jesus Cristo era o Senhor deles e seu (“nosso Senhor…”). Aqui ele punha em prática o que ele lhes ordenara em 6.1: corrigir com espírito de brandura. Porém, o seu “Amém!” é enfático, é o “ponto final” nessa discussão toda; é um alerta para aqueles que vivem perdendo tempo com coisas fúteis e banais que nos desviam da Verdade.

Implicações a Aplicações

1)      No que você tem se gloriado? No que você tem posto a sua esperança, alegria e amor? A cruz de Cristo não deve ocupar somente o lugar central no seu coração, mas, sim, todo o seu coração.p

2)      As marcas de Cristo estão presentes em sua vida? A marca de Cristo no seu coração consiste no Fruto do Espírito. Se a cruz não ocupar todo o seu coração, o que frutificará em você será a sua carne.

Conclusão

          Para quem Cristo é suficiente, a cruz é motivo de glória!

Rev. Olivar Alves Pereira

São José dos Campos, 09/09/2012

 


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About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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2 Responses to Cristo é Suficiente – Parte XIII

    • Olivar Alves Pereira says:

      Olá Pra. Márcia
      Obrigado por sua participação aqui. Fique à vontade para utilizar esse material e divulgá-lo, pois, fazendo isso, a senhora me ajudará a pregar o Evangelho de Cristo, o único que tem de ser visto em tudo isso aqui.
      Deus abençoe sua vida.

      Rev. Olivar

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