Empecilhos à Adoração Bíblica

 

Adoração é o assunto mais importante da nossa vida como Igreja. É por causa da adoração a Deus que fomos por Ele salvos. O Breve Catacismo, um dos símbolos de fé das Igrejas Reformadas, diz em sua primeira pergunta:Qual o fim principal do homem? E a resposta é: O fim principal do homem é glorificar a Deus a gozá-Lo para sempre. Isto é adoração.

É por causa da adoração que nos reunimos como Igreja; é por causa da adoração que enviamos missionários aos mais distantes rincões do planeta a fim de levarem à adoração a Deus aqueles que ainda não O conhecem e por isso não O adoram.

Adorar a Deus é uma bênção que só os salvos por Cristo têm, pelo menos na forma de uma rendição voluntária e amorosa. Os ímpios não têm esse privilégio, e, no dia do Juízo Final adorarão a Deus, mas, não como uma rendição amorosa, mas, sim, uma rendição cheia de medo e pavor; mas, será tarde demais.

A adoração a Deus é a causa da fúria de Satanás contra a Igreja, porque ele quer para si essa adoração que a Deus é rendida. E se ele puder atrapalhar-nos em nossa adoração a Deus, com certeza ele fará. Se lhe dermos oportunidade para ele interferir em nossa prática de culto e adoração a Deus, ele o fará, pois, tem ódio infernal dentro de si ao ver-nos aos pés de Jesus adorando-O. Por isso mesmo precisamos ficar atentos aos empecilhos à adoração a Deus.E é justamente sobre isso que quero meditar com os irmãos nessa ocasião.

Olhando para esse texto encontramos que um dos primeiros cultos a Deus realizados na história da humanidade terminou em tragédia. Aquele que deveria ser o cenário de uma festa santa tornou-se o palco do primeiro homicídio.

Mas, observemos aqui no texto alguns empecilhos à adoração bíblica, os quais estão presentes desde a antiguidade na trajetória do povo de Deus.

O primeiro empecilho é:

1) Trocar a vontade de Deus pela nossa vontade, v.2-4a

Com certeza você já ouviu pastores, pregadores, dirigentes de louvor dizerem abertamente que devemos dar no nosso melhor para Deus. E esse “nosso melhor” é erroneamente entendido como “a melhor maneira que eu consigo fazer algo para Deus”. Dessa forma, o pregador que assim pensa, crê que o “melhor dele” é um sermão tão bem preparado e pregado que dezenas, centenas de pessoas são convertidas. O dirigente de louvor entende que o “seu melhor” para Deus é quando ele consegue arrancar lágrimas e arrepios das pessoas que ele dirigiu durante o louvor.

Onde está o erro disso? No fato de que deixamos de ver que é a vontade de Deus que importa para que o culto seja por Ele aceito e não o que achamos que deve ser feito.

Observe Abel e Caim. A Bíblia diz que Abel tornou-se pastor de ovelhas, enquanto que Caim, lavrador. Num determinado dia, ambos foram compelidos a adorarem a Deus trazendo-Lhe ofertas. Abel tomou “das primícias do seu rebanho e da gordura deste”, ou seja, um cordeiro belo, sadio e perfeito. Ao passo que Caim trouxe “do fruto da terra uma oferta ao SENHOR”, ou seja, uma salada de frutas, verduras e legumes a Deus. Deus aceitou a oferta de Abel, mas, recusou a de Caim. Por quê?

Por dois motivos: (1) Caim trouxe ofertas que Deus não pediu; (2) e por isso seu procedimento desagradou a Deus, porque longe de ser uma adoração, foi uma afronta.

O culto a Deus que Ele estipulou no Antigo Testamento desde os dias de Adão envolvia derramamento de sangue inocente no lugar do pecador para cobrir a vergonha do pecado deste.

Em Gn 3.21 lemos: “Fez o SENHOR vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu”. Embora essas palavras não estejam prescrevendo os elementos de um culto a Deus, estão apontando para um elemento fundamental na adoração bíblica, a saber: o substituto do pecador. Ao pecarem, Adão e Eva foram tomados de vergonha e se cobriram com folhas de figueira que eles costuraram. Todos os recursos do homem para cobrir sua vergonha são paliativos e nada eficazes. Somente o recurso de Deus é eficaz. E foi por isso que Ele fez vestimentas de peles de animais.

Agora veja bem. Se um animal deu a sua pele para que as vestimentas fossem feitas, esse animal morreu. Assim, um inocente morreu pelos pecadores.

Foi por esse motivo que a oferta de Abel foi aceita e a de Caim não. Nada tinha a ver com a profissão deles. Tinha a ver com o tipo da oferta. Frutas não têm sangue. Animais, sim. Deus havia determinado que sangue inocente deveria ser derramado no lugar de um pecador(Hb 9.22). Como Deus nunca aceitou sacrifício humano, somente o sangue de animais poderia ser derramado em favor dos homens pecadores.

Foi dessa forma que Caim fez a sua vontade e não a vontade de Deus. Ele agiu pensando que era o fruto de seu trabalho a oferta que Deus queria dele, ao passo que a oferta que Deus exigira foi animal. O ato de Caim foi um ato de rebeldia do tipo que pensa: “Eu quero dar algo para Deus, algo que eu fiz e produzi”.

Onde está o pecado nisso? O de dizer para Deus que a vontade Dele pouco nos importa, pois, uma vez que nos esforçamos, nos empenhamos e nos dedicamos, nada mais justo que Ele aceite. Assim, descaradamente trocamos o Substituto que Deus preparou para assumir o nosso lugar (Jesus Cristo) e dizemos para Ele que estamos seguros em nós mesmos em oferecer-Lhe o que produzimos.

Deus tinha um propósito em ver cordeiros substituindo os pecadores, pois, tais cordeiros apontavam para o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29).

A vontade de Deus para nós no que tange à adoração é que confiemos somente em Jesus Cristo e em Seu sacrifício para sermos aceitos por Deus, e nunca em nossos recursos técnicos e tecnológicos, habilidades, capacidade e talentos. Tudo isso deve ser dedicado a Deus, mas, não como meio que nos garante diante Dele, mas sim, como recursos didáticos e nada mais.

Esse é um terrível empecilho à adoração bíblica que agrada a Deus, e por ser um erro tão sutil tem adoecido a Igreja de Cristo fazendo dos nossos cultos ou meras aglomerações embaladas por músicas e pregações que mais se parecem com discursos de autoajuda, ou ritualismos sem vida e frios, mas que de culto vivificante, restaurador e comprometido com a glória de Deus nada tem.

Ou acabamos com essa confiança em nós mesmos e em nossos recursos para confiarmos somente em Cristo, ou jamais saberemos o que é adoração bíblica que agrada a Deus.

O segundo empecilho é:

2) Descuidarmos de nós mesmos enquanto cuidamos da adoração,

v.4b-7

“Agradou-se o SENHOR de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou” (v.4b,5a).

Quando cultuamos a Deus confiados em nós mesmos caímos no pecado de cuidarmos bem da oferta que entregaremos a Deus e descuidarmos totalmente de nós mesmos.

Ao exigir que um cordeiro substituísse o pecador, Deus não estava querendo o sangue dos animais, mas, sim, não estava querendo ver o sangue dos pecadores ser derramado.

Deus não era sanguinário! Aliás, ao exigir o sangue de cordeiros o que Ele queria era evitar que o sangue dos pecadores fosse derramado porque “a alma que pecar essa morrerá” (cf. Gn 2.17 e Ex 18.20).

Ao trazer frutas para Deus Caim não somente estava desobedecendo a Deus trazendo o que Ele não pediu como colocando sua vida em risco.

Semelhante a Caim, muitos dos que se aproximam do Senhor Deus com suas ofertas a serem a Ele consagradas, estão com suas vidas tortas, atolados em pecados. Ofertam a Deus da mesma forma que os pagãos ofertavam aos seus deuses, ou seja, com o intuito de aplacar-Lhe a fúria. Assim como os pagãos tentavam aplacar a fúria de seus deuses (que não passavam de invenção deles mesmos) oferecendo coisas, e algumas vezes até vidas humanas na tentativa de aplacara a ira desses deuses, não é raro encontrarmos crentes que são dizimistas rigorosos e muitas vezes entregam grandes somas em dinheiro (infelizmente, o termo “oferta” ficou reduzido apenas a uma “contribuição financeira”) na tentativa de que Deus não lhes puna ou lhes repreenda pelos pecados cometidos, abrigados e acariciados em seus corações.

Dessa forma eles cuidam da oferta e não deixam de entregá-la, mas, não demonstram a mesma responsabilidade e zelo por seus corações. O resultado disso não pode ser outro senão serem rejeitados por Deus à semelhança de Caim.

Caim procedeu mal, trazendo algo que Deus não pediu e que era impróprio para a adoração a Deus. Ao ser rejeitado por Deus e ver seu irmão sendo aceito, seu coração encheu-se de ira, e, uma vez irado, seu semblante o denunciava.

À semelhança de Caim quantos crentes estão irados em seus corações porque a despeito de sua religiosidade não veem a bênção de Deus sobre eles, o que acaba dando espaço para outros pecados como a inveja (não é raro encontramos crentes que estão inconformados ao verem que outros têm muito mais que eles), murmuração (quantos crentes conhecemos que vivem murmurando, reclamando de suas vidas porque são tão miseráveis em seu espírito que são incapazes de verem a bênção de Deus em suas vidas ainda que esta viesse com luzes de neon, raio laser e um show pirotécnico). Tais pessoas se tornam amarguradas. Foi justamente isso que aconteceu com Caim.

Ao confrontá-lo o SENHOR Deus tocou no ponto certo: “Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.

A Bíblia Portuguesa na Linguagem Moderna traduz esse verso assim:“Se te comportares bem, podes andar de cabeça erguida, mas se te comportares mal, tens o pecado a espreitar à porta, procurando vencer-te. E contudo tu podes dominá-lo”.

Numa pergunta retórica Deus mostra para Caim que proceder bem é obedecê-Lo como Ele prescreve em Sua Palavra.

O pecado é como um animal bravio que está à porta da nossa casa esperando que saiamos. Ao sairmos ele avançará sobre nós e tentará nos subjugar, mas, nós devemos lutar contra ele e dominá-lo.

Devemos dominar o pecado do nosso egoísmo que nos faz querer que a nossa vontade seja feita em vez da de Deus. Devemos dominar o pecado darebeldia contra Deus e em vez de resistirmos à Sua vontade, nos submetamos a Ele humildemente. É submetendo-nos à poderosa mão de Deus que obteremos vitória sobre o pecado.

Devemos dominar o pecado da autoconfiança e da prepotência que nos faz orgulhosos e arrogantes levando-nos a pensar que nossas habilidades e o que produzimos é que agradará a Deus e não nossa confiança total no Cordeiro Dele que nos foi entregue em nosso lugar, Jesus Cristo.

Conclusão

Desses dois empecilhos aqui alistados decorrem todos os outros empecilhos à adoração bíblica que agrada a Deus. Se cuidarmos de aparar essas raízes pútridas e pecaminosas conseguiremos evitar tantos outros pecados que decorrem destes.

Que o Senhor Jesus nos ajude! Amém!

About Olivar Alves Pereira

Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil, Teólogo, Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Ética e História Bíblica, História e Teologia da Igreja, Educação Cristã e Teologia Sistemática, Sociologia e Ensino Religioso em seminários e escolas na região do Vale do Paraíba, também escreveu lições para a revista de EBD para os adultos da Editora Cristã Evangélica. É associado à Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos - ABCB. Na Política sou de Direita Conservadora.
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